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Nos EUA, seleção feminina é mais vencedora e lucrativa, mas ganha menos

Renata Mendonça

06/07/2019 07h52

(Foto: Getty Images)

A seleção feminina dos Estados Unidos entrará em campo neste domingo em busca de seu quarto título mundial diante da Holanda. Mas, sem dúvida, a batalha mais difícil travada pelas jogadoras americanas não é essa dentro de campo. Fora dele, uma disputa com a US Soccer (confederação americana de futebol) carrega um cenário mais adverso para as atletas – a luta pelo direito de ganhar o mesmo que os homens exercendo a mesma atividade que eles.

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Não é novidade que as jogadoras de futebol ganhem bem menos do que os jogadores. Há toda uma lógica de mercado nisso, que se baseia na simples ideia de que, se os homens rendem mais lucros para seus clubes/empregadores, é natural que eles também recebam mais por isso. Nem vamos entrar no mérito de quanto foi investido antes no futebol deles para que o retorno pudesse chegar à casa dos bilhões como é hoje. A questão é que, mesmo quando se considera a regra mercadológica, no caso dos Estados Unidos a lógica do pagamento segue invertida. Isso porque lá a seleção feminina, além de ser infinitas vezes mais vencedora do que a masculina, também rende mais lucro à confederação – e, ainda assim, recebe menos por isso.

Assim comprovaram os números da auditoria financeira da US Soccer nos últimos anos: de 2016 a 2018, a seleção feminina gerou US$50,8 milhões à US Soccer somados os jogos que realizou neste período, enquanto a seleção masculina rendeu US$49,9 milhões em todas as partidas que fez nesses mesmos dois anos.

Seleção americana campeã do mundo em 1999 (Foto: AP)

Ainda assim, as mulheres ganharam menos do que os homens da seleção pelos jogos realizados. Segundo o acordo que a US Soccer tem com a equipe feminina e a masculina, ambas precisam realizar cerca de 20 jogos por ano. Supondo que a seleção dos homens vença todas essas partidas, os jogadores terão recebido US$ 263.320 (pouco mais de US$ 13 mil por vitória). Se a seleção feminina vencer todos os 20 jogos, o valor que as jogadoras receberão por isso não ultrapassará US$ 99 mil (US$ 4.950 por jogo). Isso tudo considerando que as partidas delas rendem mais dinheiro à confederação do que as deles – segundo dados da própria US Soccer.

Resumindo: a seleção feminina dos Estados Unidos já conquistou três Copas e quatro ouros olímpicos e recebe muito menos do que a seleção masculina, que nunca foi além das quartas-de-final de um Mundial e teve participação discreta nas Olimpíadas que disputou.

Diante desse cenário, as jogadoras americanas decidiram tomar atitudes e, em março deste ano, as 28 atletas da seleção entraram juntas em uma ação judicial contra a US Soccer alegando discriminação de gênero institucionalizada.

"Eu preciso ser muito melhor do que qualquer jogador, porque tenho que ser boa dentro de campo e fora dele para mostrar que isso deveria ser o bastante para recebermos pelo que fazemos. Os jogadores não precisam se preocupar com mais nada além de jogar futebol. Desde os 14 ou 15 anos, eles não têm qualquer preocupação além de ser bons jogadores. Esse é o único foco deles, e o mesmo não acontece para nós", afirmou Megan Rapinoe, uma das líderes da seleção americana no movimento por igualdade de pagamento e de condições de trabalho.

(Foto: US Soccer)

As jogadoras receberam até mesmo o apoio de seus companheiros de seleção, que divulgaram à época um comunicado endossando a luta delas por igualdade.

"A Associação de Jogadores da Seleção Nacional de Futebol dos Estados Unidos apóia plenamente os esforços das Jogadoras da Seleção Feminina dos EUA para conseguir salários iguais. Especificamente, estamos comprometidos com o conceito de um modelo de compartilhamento de receita para abordar as 'realidades de mercado' da Federação de Futebol dos EUA e encontrar um caminho para uma compensação justa", dizia a nota divulgada por eles.

Durante jogos dos Estados Unidos na Copa do Mundo da França, alguns torcedores levaram cartazes apoiando a seleção feminina em suas reivindicações por pagamentos iguais. Após a estreia da seleção americana com a goleada história por 13 a 0 sobre a Tailândia, o assunto também dominou as redes sociais, inclusive com duas senadoras pré-candidatas à Presidência se manifestando.

 

As jogadoras americanas costumam sempre falar em "deixar o futebol feminino em um lugar melhor para as próximas gerações", e o discurso delas é exatamente esse na luta por igualdade que agora elas travam na Justiça. Alex Morgan, um dos grandes destaques da seleção, acredita que isso é algo que elas podem deixar como legado para quem virá depois.

Foto: Dibradoras

"É maravilhoso ser uma jogadora profissional e se sentir realizada com isso, mas ao mesmo tempo, que tipo de legado você vai deixar? Eu sonhei ser uma jogadora de futebol e nunca imaginei que isso também incluía ser um exemplo, uma inspiração. Mas hoje eu não conheço um mundo onde eu sou apenas jogadora. Eu preciso lutar pelas coisas que acredito, como a igualdade de gênero. Isso vai passando de geração para geração", afirmou.

A veterana Carli Lloyd também pontuou que "o esforço das jogadoras e o sacrifício delas é o mesmo que o dos homens, então é justo que elas recebam o mesmo por isso".

Foto: Dibradoras

Mas um dos grandes feitos desse time fora de campo foi justamente conseguir unir todas as jogadoras nessa luta. As líderes Rapinoe, Morgan e Lloyd foram algumas das responsáveis por reunir o grupo e mostra a importância dessas reivindicações para que todas entendessem que, acima de tudo, era importante que elas estivessem juntas nessa. Um dos mais novos destaques do time, Lindsay Horan, disse que percebeu a relevância disso recentemente.

"Sempre pensei: eu amo futebol, amo estar aqui. Estou muito feliz de fazer parte desse time. Mas recentemente isso mudou. Acho que seria egoísta 'só jogar', porque nós temos uma voz, muita gente nos assiste, somos inspiração para muita gente, então quando nós falamos sobre igualdade, isso tem uma importância gigantesca", afirmou ao The New York Times.

Mesmo com o processo correndo na Justiça desde março, as americanas não deixaram isso afetar o foco do time em conquistar mais uma Copa do Mundo. Foi assim que elas chegaram incontestáveis a mais uma final e são favoritas na partida contra a Holanda, quando podem garantir o tetracampeonato. A batalha dentro de campo acaba domingo, mas fora dele a luta pela igualdade continua.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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