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1ª jogadora trans no futebol argentino: "Hoje posso ser quem realmente sou"

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01/03/2021 10h06

Mara, a segunda de azul, em sua estreia em campo (Foto: Juan Abromata/AFP)

Mara Estefania Gomez fez história aos 23 anos ao estrear no futebol profissional argentino como a primeira jogadora trans do país. "Nunca achei que poderia ser uma jogadora profissional e hoje estou na primeira divisão", conta a atacante pelo Club Villa San Carlos.

Em dezembro de 2020, a argentina entrou em campo pela primeira vez e escreveu seu nome tanto na história do futebol feminino quanto no das conquistas da comunidade LGBTQIA+. Criada em uma casa de quatro mulheres, todas amantes do esporte inglês, a atleta só começou a jogar bola na adolescência, como um meio de se distrair das questões que a rodeavam naquele momento. Mara conta que já se sentia diferente desde os 11 anos de idade, mas foi com 15 que aceitou o convite de sua vizinha para jogar uma partida em seu bairro.

(Foto: Juan Abromata/AFP)

Aqui no Brasil, a discussão sobre atletas trans surgiu pela primeira vez com força em 2018, quando a jogadora de vôlei Tiffany Abreu recebeu autorização para disputar a Superliga pelo Vôlei Bauru. A medida recebe opiniões controversas principalmente por haver a ideia de que mulheres trans possuem vantagem física em relação a mulheres cis.

O Comitê Olímpico Internacional, COI, determinou em 2016 que as atletas trans podem participar, desde que mantenham seu nível de testosterona abaixo de 10 nanomols por litro de sangue. Para Mara, a medida é injusta: "Você obriga um atleta a passar por um processo invasivo para o corpo, que altera as funções fisiológicas, nossas características primárias e secundárias e ainda tem influência sobre a parte muscular, podendo até causar uma atrofia", afirma Mara.

Formada em enfermagem, ela também adverte que o tratamento pode causar complicações cardiorrespiratórias ou outras patologias. Para os órgãos esportivos, a quantidade de testosterona seria o que determinaria uma vantagem para as mulheres trans e, por isso, a necessidade do controle nesses casos.

Pessoas trans na sociedade

Segundo dados da Associação Nacional de Transexuais e Travestis (Antra), a expectativa de vida da população trans e travesti é de 35 anos, metade da média nacional. A dificuldade em encontrar espaço no mercado de trabalho também leva a 90% da comunidade a encontrar sustento por meio da prostituição. Embora em 2019 o Supremo Tribunal Federal tenha determinado que a discriminação pela orientação sexual ou identidade de gênero seja crime equiparável ao de racismo, a situação no país ainda é preocupante. Levantamentos do Grupo Gay da Bahia do mesmo ano apontam que uma pessoa da comunidade LGBQTIA+ é assassinada a cada 23 horas no país, a maioria mulheres trans ou travestis.

(Foto: Juan Abromata/AFP)

Na Argentina, a realidade é diferente: desde 2012, a legislação prevê que os cidadãos têm "direito ao reconhecimento de sua identidade de gênero, ao livre desenvolvimento de sua pessoa, a ser tratada de acordo com sua identidade de gênero e a ser identificada desse modo nos instrumentos que credenciam sua identidade".

Para Gomez, o país é um modelo a ser seguido na conquista por direitos dessa agenda: "Aqui, temos um privilégio que é uma lei que fala sobre corpos trans e é possível dar mais visibilidade à comunidade LGBQTIA+. Hoje, somos um exemplo para outros países adotarem as mesmas políticas de inclusão e aos poucos vamos acabando com os paradigmas das relações patriarcais que regiam as nossas vidas", afirma.

O início da sua participação no esporte não foi muito diferente do enredo de diversas jogadoras: não havia muitas competições de futebol feminino enquanto a atleta ia começando a desenvolver suas habilidades. Pouco a pouco, as ligas locais começaram a surgir e Mara encontrou nelas a possibilidade de realizar o sonho de viver como esportista.

(Foto: Juan Abromata/AFP)

Em fevereiro do ano passado, ela foi contratada para um time da primeira divisão: o Club Villa San Carlos. Com a paralisação do torneio por conta da pandemia do coronavírus, sua estreia nos gramados já teria que ser adiada, mas um novo obstáculo entrou em questão. Sua participação no campeonato dependia do aval da AFA, a Associação de Futebol da Argentina, que precisava incluir mulheres trans no regulamento.

"Tivemos reuniões para fazer acordos com a AFA, inclusive com o presidente, Chiqui Tapia, para poder fazer esse acordo para que eu pudesse jogar e que o futebol feminino na Argentina pudesse ser mais inclusivo", conta Mara. Segundo ela, o órgão a tratou com o devido respeito durante as reuniões. "Eu fui capaz de me impor ali com meu corpo e com a minha voz, mas também com respeito e com amor para que pudessem me escutar. Expliquei que para mim era uma necessidade continuar jogando futebol. No final, conseguimos nos escutar e o resultado foi positivo", complementa.

Em dezembro, Mara estreou em uma partida contra o Lanús que já começou com uma boa dose de emoção. Antes de entrar em campo, o adversário a presenteou com um unforme com seu nome, um gesto simbólico que logo viralizou na internet.

(Reprodução Instagram)

Em um post nas redes sociais, a atacante postou uma foto da emoção ao receber a camisa e afirmou: "Não foi mágica, não foi sorte e nem um presente. Foi uma vida de luta, sofrimento e tristeza. Tive uma vida que passou perto da morte e o coração partido. (…) Hoje minha alma voltou para o meu corpo". Ela conta mais sobre a conquista: "Pessoalmente, é sobre poder ser quem eu sou. Hoje eu sinto que esse é um estilo de vida que eu posso seguir, e isso me mostra que tenho oportunidades. E no nível coletivo, é o resultado de anos de lutas das gerações passadas que buscaram ser reconhecidas na sociedade. Fico muito feliz de saber que hoje eu sou uma referência através desse passo enorme para a inclusão que demos dentro do esporte e espero que isso também abra oportunidades para a geração que ainda está por vir", afirma Mara.

(Reprodução Instagram)

Olhando agora para o futuro, a atleta se diz otimista em relação às expectativas para o crescimento do futebol feminino e as conquistas dos direitos da população LGBQTIA+. "Acredito que um dia teremos igualdade e equidade dentro do esporte. Espero que as mulheres possam receber [salários] como os homens e que possam viver suas vidas como os jogadores vivem. E, principalmente, espero que as jogadoras possam viver fazendo aquilo que amam".

Mara finaliza com um recado que também traduz um desejo pessoal: "Gostaria que todas as pessoas, independente do gênero, pudessem jogar futebol profissionalmente e acredito que não vá demorar muito para que isso aconteça."

Reportagem de Laís Malek

Sobre as autoras

Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Renata Mendonça é apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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