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Camisa 10 da Ferroviária estudou nos EUA e voltou pra ser craque no Brasil

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12/12/2020 10h16

Foto: Millena Cravo/Ferroviária SA

*Por Mariana Pereira

O campeonato estadual feminino mais longevo do Brasil chega na sua reta final. Corinthians e Ferroviária abrem a decisão do Paulistão Feminino 2020 já neste domingo (13) na Arena Barueri, em Barueri, às 11h. O jogo da volta acontece em Araraquara, no dia 20 de dezembro, também às 11h.

Após passarem por Palmeiras e Red Bull Bragantino, respectivamente, nas semifinais, os times reeditam a final do Campeonato Brasileiro Feminino de 2019 e também a da Libertadores da América do mesmo ano. Na conta? Um título para cada lado: o nacional para a Ferroviária e o internacional para o Corinthians.

Foto: Millena Cravo/Ferroviária SA

Não apenas o troféu estará em jogo nas duas partidas decisivas. Haverá também o confronto de camisas 10: de um lado Aline Milene, da Ferroviária, do outro, Gabi Zanotti, do Corinthians.

Juventude e experiência que garantiram às meio-campistas presença na Seleção do Brasileirão 2019. Na temporada 2020, o mesmo número de gols marcados: sete para cada uma. Neste especial, contaremos a história de cada uma delas.

Leia mais: Gabi Zanotti era craque na areia, migrou para o campo aos 21, e hoje é camisa 10 do Corinthians

Estudo ou futebol?

Cria da bola, aos sete anos a mineira de Belo Horizonte já dava seus primeiros dribles. Aos 10, entrou na escolinha de futebol para jogar ao lado de meninos, como de costume à época. "Nada foi fácil para mim. Hoje temos na Ferroviária, por exemplo, Sub-15, Sub-17 e isso é maravilhoso", diz a atleta.

Três anos depois, foi no Atlético Mineiro sua primeira oportunidade na carreira. No Galo, Aline Milene permaneceu até os 18 anos para depois rodar por times do Mato Grosso do Sul e do Paraná. E então, chega o maior desafio da sua vida.

"Meu pai sempre puxou a minha orelha que eu precisaria estudar e continuar jogando bola. No Brasil seria impossível fazer os dois com o mesmo patamar de dar o meu melhor, ia chegar o momento que eu teria que escolher um ou outro. Então, a Samhia Simão (atleta do Flamengo) me indicou para o treinador dela lá nos Estados Unidos", explica Aline. "Foi muito difícil os três primeiros meses. Um amigo de Moçambique me ajudou bastante, ele falava português e inglês. Mas, foi uma das melhores decisões que eu fiz em toda a minha vida, aconselho demais quem tiver a oportunidade de ir", completa.

 

Após concluir a universidade e ser campeã na terra do Tio Sam, a saudade da família já beirava o insuportável, e aí que entra a Ferroviária na vida da meio-campista. "Decidi voltar para ficar mais perto da família. Em Araraquara, sete horinhas no máximo estou em casa. Sete mil km não é tão fácil assim", brinca a jogadora.

"Em 2017 a (Ana) Lorena (Marche) entrou em contato comigo, queria me trazer para a Ferroviária e eu disse que gostaria muito, mas que precisava terminar minha faculdade (de administração) nos EUA. Em janeiro de 2019 quando eu voltei para o Brasil já recuperada da minha lesão no joelho, me ligaram novamente falando da oportunidade, aí eu pensei que não tinha nada a perder. Eu já queria antes, já conhecia o projeto que é sensacional e eu sempre coloquei que queria jogar um Brasileirão na minha carreira", completa.

Na equipe de Tatiele Silveira – a primeira mulher a ganhar o campeonato nacional como treinadora –, Aline Milene não só realizou o sonho de jogar o Brasileiro, como venceu a competição na primeira vez que disputou. "Conheci a história da Ferroviária por causa do feminino. Um clube grandioso, tem todos os títulos grandes da modalidade, fico feliz em fazer parte da história da Ferroviária", completa.

Foto: Tiago Pavini

Eleita a melhor meia do campeonato na temporada 2019, o desempenho da camisa 10 atraiu os olhares da técnica da Seleção Brasileira Feminina. "Esse trabalho da Pia (Sundhage) é muito importante, ela tem dado oportunidade para meninas que nunca foram convocadas, meninas novas, e eu cada dia mais continuo trabalhando firme para poder disputar uma vaga para as Olimpíadas", aponta a atleta.

Como já destacou, o início no futebol não foi fácil para Aline. Hoje com 26 anos, ela relembra a dificuldade em acessar jogos do feminino e se identificar. "Meu primeiro contato vendo jogos mesmo foi no Pan em 2007, quando a Seleção Brasileira foi campeã. Foi quando consegui ver Marta, Formiga e companhia. Eu não tive referência feminina, sempre tive masculina", aponta a jogadora.

"Hoje nós temos mulheres à frente de tudo. Hoje essas meninas de 13, 14, 15 anos podem ver mulheres jogando futebol e isso é muito importante, incluindo esse trabalho de base. No Atlético eu jogava com meninas de 18 anos, sendo que eu tinha 13", finaliza.

"Mulheres à frente de tudo" reflete muito bem o time que Aline Milene escolheu por jogar até 2021, quando se encerra o contrato da atleta com a Ferroviária. Por lá, oito cargos são ocupados pelo sexo feminino.

Foto: Lucas Figueiredo/CBF

"Nós temos uma comissão recheada de mulheres. É treinadora, assistente técnica, preparadora de goleiras, coordenadora, supervisora, psicóloga, supervisora da base, assessora de imprensa. A gente fica muito feliz com essas realizações de mulheres em cargos ocupados por homens. A gente vê hoje a Duda, a Pelle, a Lorena, é tudo o que a gente esperava porque as mulheres têm o potencial de entender mais ainda o futebol feminino, a luta diária, o que elas vão levar para os dirigentes terem o contato mais fiel com a modalidade", enfatiza Aline. "A gente não vem para tomar o lugar do masculino, queremos só a mesma dedicação, visibilidade, trabalho", completa.

As mulheres do departamento de futebol feminino da Ferroviária em 2019 (Foto: dibradoras)

Prestes a entrar em campo na sua terceira final com a Ferroviária, a camisa 10 aproveita o momento para fazer um balanço individual e coletivo na temporada 2020. "Um ano atípico para todos nós como seres humanos. Como se adaptar ao novo tudo? Rotina, cabeça, mentalmente é uma coisa muito difícil de lidar. Começamos bem o Brasileiro Feminino, tivemos altos e baixos e fomos derrotadas pelo Palmeiras (quartas de final), acontece, faz parte do futebol. Eu também tive altos e baixos nessa temporada, não fiz um papel gigantesco como fiz na temporada anterior e agora que estou voltando", pontua Aline.

"A gente fica com sentimento de gratidão de estar na final numa temporada onde a gente colocou objetivos e não conquistamos o primeiro, que era o Brasileiro. Agradeço a oportunidade de disputar um título. O Paulistão é uma competição muito forte, com grandes equipes. Saber que nosso trabalho está sendo coroado. Serão dois grandes jogos", conclui a camisa 10 das Guerreiras Grenás.

As finais do Paulista Feminino acontecem neste domingo (13 de dezembro) e no próximo (20 de dezembro) às 11h com transmissão do Facebook, da Cultura, SporTV e rádio CBN.

Sobre as autoras

Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Renata Mendonça é apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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