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“Não tenha medo, termine a corrida”: as lições da 1ª maratonista de Boston

Renata Mendonça

17/08/2018 08h48

Kathrine Switzer esteve em São Paulo nesta semana (Foto: Divulgação AR Photos)

A maratona de Boston nunca foi proibida para mulheres. Ao menos não oficialmente. Não havia uma linha do regulamento que dissesse: "pessoas do sexo feminino não poderão disputar essa prova". Mas estava subentendido. Aquela corrida era longa demais, difícil demais, cansativa demais para o biotipo daquele que era conhecido como "sexo frágil".

Só que não havia uma proibição formal. Era mais ou menos como aquelas coisas que a gente aprende desde que se entende por gente e nunca ousa discordar. Boneca é brinquedo de menina, carrinho é brinquedo de menino é uma dessas "regras" subentendidas e incontestadas. Não há nada no "modo de usar" de qualquer um desses brinquedos que determine que eles são para um gênero ou outro, mas é assim que nos fizeram entender. Até que alguém ouse discordar.

Foi o que fez a americana Kathrine Switzer em 1967. Ela tinha apenas 20 anos, era estudante de Jornalismo na Universidade, mas ficou com vontade de correr a maratona de Boston inspirada pelas histórias que seu técnico Arnie Briggs sempre contou de lá. Era a única mulher que treinava com ele e disse um dia: "chega dessas histórias. Vamos logo correr a maratona de Boston". Só que não esperava o que o técnico diria a seguir.

"Nenhuma dama jamais correu a maratona de Boston. Uma mulher não seria capaz de correr essa distância".

As palavras soaram como um desafio para Kathrine, que estava decidida a provar que ele estava errado. Junto com o técnico, passou a treinar corridas de longa distância e, um dia, completou os 42,19 km enquanto o Briggs passou mal durante o percurso. Ali, ele não teve mais como dizer que ela não seria capaz de correr a maratona.

Kathrine se inscreveu na prova com suas iniciais, como costumava assinar seu nome: K.V. Switzer, e assim seu gênero passou despercebido pelos organizadores. Só que no dia da prova, não houve como disfarçar. Estava ali, no meio de todos os homens, uma mulher que ousava correr os 42 km da maratona. No terceiro quilômetro, ela acabou notada pelo diretor da prova, que correu em sua direção e tentou arrancar o número de sua blusa (o 261, que virou sua marca). "Saia daqui e me dê esse número. Nenhuma mulher pode correr essa prova", disse ele. A jovem conseguiu segurar o papel, e seu namorado, que também corria ao lado dela, empurrou o diretor e ajudou Kathrine a se livrar dele.

Aquela imagem do homem tentando impedir uma mulher de correr a maratona ficaria para sempre na história do esporte.

A corredora, antes concentrada, agora corria assustada e tentava recuperar o ritmo. "Logo depois do ataque, todos nós tivemos esse jato enorme de adrenalina, nós ficamos com medo e meio que fugimos e corremos muito rápido. Aí é como se você tivesse um acidente de carro ou sofresse uma mordida de cachorro, logo em seguida da adrenalina você entra em um estado de cansaço, de fadiga", explicou ela às dibradoras.

"Ficamos muito, muito cansados por cerca de 10 quilômetros, e foi aí que eu pensei: como vou sair disso? Será que eu vou conseguir terminar?"

Mas como a própria Kathrine descreve, não havia o que a fizesse parar naquele dia. Nem mesmo a discussão que o namorado insistiu em ter com ela no meio daquela mesma corrida. "Ele me disse: você é muito devagar mesmo, e disparou. Depois, eu o encontrei andando ainda na metade da prova e ele me pediu para andar um pouco com ele. Falei: me desculpe, mas eu não posso parar. E ele de novo brigou e me disse que 'nunca me deixaria andar sozinha'. Mas eu segui", conta ela.

(Foto: Divulgação AR Photos)

Uma maratona é longa e dá bastante tempo para a mente viajar. E durante aqueles 42 quilômetros, só o que Kathrine pensava era no significado que aquela prova teria para as mulheres. Terminar a maratona seria uma forma de provar para o mundo que sim, as mulheres conseguem correr. Elas são capazes. E foi isso que motivou a corredora a seguir em frente para cruzar a linha de chegada com 4h20 de prova.

"Mesmo na hora do ataque, quando eu não sabia como conseguiria continuar, eu pensei: não sei como vai ser isso, pode ser que eu acabe essa corrida me arrastando com as mãos e os joelhos no chão, mas eu vou terminar. Eu sempre tive isso em mente: vou terminar", relatou.

Ela terminou e, a partir daí, se transformou em uma ativista pelas mulheres no esporte. Passou a correr mais e mais maratonas, venceu a de Nova York, voltou a Boston e correu a mesma prova em 2h51, e liderou uma campanha para inserir a maratona feminina nos Jogos Olímpicos. Para isso, viajou para vários lugares do mundo realizando esse tipo de prova para mostrar ao Comitê Olímpico Internacional que haveria adesão de mulheres em todos os cantos do planeta. Quando chegou ao Brasil, em 1979, ouviu da Confederação de Atletismo: "Aqui, vocês não conseguirão fazer uma maratona para mulheres. As brasileiras são muito 'femininas', não vão correr essa distância".

Ledo engano. Até porque, a capacidade de correr não está ligada à masculinidade ou à feminilidade. E milhares de brasileiras se inscreveram para a prova. Então em 1984, o COI finalmente inseriu a maratona feminina nos Jogos.

'Temine a corrida'

Todos esses feitos de Kathrine já viraram história, mas mesmo hoje, aos 71 anos de idade, ela não desiste de lutar pela maior participação das mulheres na corrida e nos esportes, em geral. A corredora segue ativa, completando maratona atrás de maratona – inclusive no ano passado, voltou a Boston para correr a mesma prova que colocou seu nome na história há 50 anos.

Kathrine não parece real. No encontro que tivemos com ela na sede da Adidas, sua patrocinadora, em São Paulo, achávamos que veríamos uma senhora septuagenária – mas, na verdade, quem estava ali era uma mulher revolucionária que exalava juventude. Conversar com ela é ter vontade de colocar o tênis e sair correndo agora nossa maratona pessoal, na rua mesmo, sem rumo, para onde for, até os pulmões pedirem para parar. É ter a certeza de que, mesmo na nossa insignificância, podemos fazer a diferença.

Kathrine fundou uma ONG chamada 261 Fearless de empoderamento de mulheres por meio do esporte (Foto: Divulgação AR Photos)

"Todos têm a chance de serem pioneiros. Todos podem incentivar meninas e meninos a correr, a praticar esporte. Assim você já estará fazendo uma mudança, estará sendo pioneiro. Eu não sei qual é o seu objetivo, qual é a diferença que você quer fazer. Mas eu posso dizer: não tenha medo, termine a sua corrida. Apenas termine a sua corrida", ela disse.

Hoje Kathrine reconhece que foi o esporte quem a transformou nessa mulher forte e confiante. "Acho que a corrida mudou completamente minha vida. Desde que comecei a correr, com 12 anos de idade, eu era insegura, não acreditava em mim, mas eu comecei a correr um quilômetro por dia para me preparar pro time de hockey do colégio e eu sentia como se todo dia eu tivesse uma vitória", relatou.

"A corrida me deu a capacidade de arriscar, de enfrentar desafios e isso foi a melhor coisa. Eu cresci de maneira muito empoderada. E quando as pessoas diziam: você não tem oportunidade aqui, eu dizia: eu vou criar a oportunidade. Se não havia um time, eu iria criar o time. Se não havia a maratona feminina nos Jogos Olímpicos, eu diria: vamos fazer da maratona feminina um esporte olímpico. E a gente conseguiu. Então tudo isso veio daquela corrida de um quilômetro por dia."

Foto: Divulgação

Por ter crescido praticando esportes a vida toda, eu sabia exatamente do que ela estava falando. E o trabalho das dibradoras hoje é levar essa experiência para todas as mulheres: a importância do esporte como meio de empoderamento. Só que os números não são nada empolgantes. 83% das mulheres acima de 15 anos não pratica qualquer esporte no Brasil, segundo dados do IBGE. 53% das meninas terá desistido do esporte até os 17 anos de idade, segundo um estudo de 2015. E só 3% da cobertura da mídia é voltada para esportes femininos. Perguntei para Kathrine como podemos mudar esse cenário, já que mesmo com toda a evolução que tivemos nos últimos 50 anos, a realidade ainda não é tão animadora.

Vou deixar a resposta toda dela aqui, porque foi um aprendizado. Kathrine Switzer é uma das mulheres mais inspiradoras que já tive a honra de conhecer – e o melhor de tudo foi ter tido essa experiência ao lado de outras mulheres igualmente guerreiras, que já seguem o conselho da maratonista e estão arregaçando as mangas para mudar a realidade do esporte feminino por aqui.

As mulheres que entrevistaram Kathrine junto com as que organizaram o evento (Foto: Divulgação AR Photos)

"Tem algumas coisas que precisamos entender: primeiro, os Jogos Olímpicos existem há milhares de anos e somente há cem anos as mulheres foram incluídas, isso é bastante tempo. Os Jogos Olímpicos sempre foram sobre velocidade e força, nunca foram sobre flexibilidade, equilíbrio, resistência. Nós, como mulheres, estamos começando isso. Vocês são as pioneiras e vão criar essa nova realidade. Pense nisso: eu lembro quando o triatlo não era nada e começou a se falar de torná-lo olímpico. Era uma piada no começo, mas hoje existe. Mulheres correndo era uma piada no início, as pessoas riam dessa possibilidade. Hoje, é algo muito sério. Vocês vão tornar tudo isso sério. Vocês vão criar as novas coisas.

A outra coisa é que, por meio do esporte, você pode abrir culturas diferentes. A maioria das mulheres do mundo ainda vive numa condição terrível. Seja no Afeganistão, na Arábia Saudita ou na porta do lado da sua casa. Nós precisamos pegar essas mulheres pelas mãos e mostrar para elas que elas podem colocar o tênis e correr.

A terceira coisa é que precisamos assumir as responsabilidades por nós mesmas. Quando eu estava tentando promover a corrida para mulheres, eu era jornalista esportiva nos Jogos de 1972, e eu notei ali que os principais personagens daquela Olimpíada não eram os atletas, eram as marcas patrocinadoras. Eu voltei e escrevi uma proposta para a Avon para patrocinar corridas de mulheres e eles me contrataram e nós criamos um programa mundial para as mulheres que levou a maratona feminina para os Jogos Olímpicos. Como jornalistas, vocês podem fazer isso, mostrar para as marcas como elas podem investir nos esportes femininos. Vocês não podem sentar de braços cruzados e esperar a mudança, têm que ir atrás dela."

Seguimos em frente, Kathrine. Em busca da mudança.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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