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Confusão no Maracanã, clássico pobre em SP: a derrota do futebol brasileiro

Renata Mendonça

18/02/2019 07h12

Foto: ANDRÉ FABIANO/CÓDIGO19/ESTADÃO CONTEÚDO

Era para ser um final de semana de futebol com direito a final no Maracanã e clássico de tradição em São Paulo. Virou tudo, menos futebol. No Rio de Janeiro, sobressaiu o orgulho de dirigentes mimados e de uma Federação irresponsável – e sobraram tiros de borracha e gás lacrimogêneo. Na capital paulista, Corinthians e São Paulo fizeram um jogo tecnicamente sofrível, com a vitória da eficiência de quem joga clássicos como ninguém.

Antes de falar do que aconteceu fora de campo, dentro dele a bola rolou pouco nesses dois jogos com baixíssima produção ofensiva. No clássico carioca, o Fluminense mostrava mais qualidade buscando a troca de passes rápida para chegar ao gol, mas ainda assim produziu pouco efetivamente – foram duas chegadas mais agressivas com gols desperdiçados por Everaldo e Yoni González. O Vasco pouco teve a bola – e pouco soube o que fazer com ela. O gol veio da única maneira que poderia vir, com bola parada, e a vitória premiou a eficiência vascaína no jogo.

Em São Paulo, mais um jogo bem fraco tecnicamente. O primeiro tempo, não fosse o gol do Corinthians, teria sido nulo em produção ofensiva. Muitas faltas, bola presa no meio de campo sem nenhum dos dois times conseguir colocá-la no chão para sair jogando, e erros, muitos erros de passe para os dois lados. O gol saiu no fim de uma primeira etapa entediante, com Manoel de cabeça após cobrança de escanteio.

Foto: AGIF

O segundo tempo foi um pouco melhor, o São Paulo tentou partir para cima, mas de novo esbarrava em seus próprios erros de passe e posicionamento. Fez o gol com Pablo, de cabeça, também em bola parada. E aí o erro de Thiago Volpi definiu o jogo com Gustavo colocando de novo o time alvinegro na frente. Houve, sim, lances discutíveis da arbitragem, mas o que não é discutível é a eficiência do Corinthians para ganhar clássicos. Mesmo muito mal tecnicamente, o time de Carille já derrubou dois rivais, Palmeiras no Allianz, e São Paulo na Arena, mantendo o tabu tricolor nesse estádio.

Confusão e incompetência no Carioca

Agora vamos falar sobre a vergonha que aconteceu no futebol carioca. A começar por uma briga entre dirigentes que mais parecia uma discussão de alunos da quarta série. Um teima que seu lado do estádio é aquele, o outro vem e diz que tem contrato para ficar ali, os dois não conseguem diálogo, a Ferj também não faz nada para resolver a confusão e a decisão precisa sair da Justiça. Nada de torcida para os dois times. O perfeito cenário infantil: os irmãos brigam pelo doce em vez de dividi-lo, a mãe se irrita com a situação e diz: não vai ter doce para ninguém então.

Foto: DHAVID NORMANDO/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Já seria o cúmulo do absurdo jogar uma final de Taça Guanabara sem a alma do futebol, que é o torcedor. Mas os dirigentes envolvidos conseguem tornar tudo ainda pior. O Vasco avisou que iria pagar multa para poder liberar os portões do Maracanã; a torcida foi para lá; a recepção foi: bala de borracha e gás lacrimogêneo, coisa que o torcedor do futebol brasileiro, convenhamos, está até acostumado, tamanha a frequência com que acontece. Aliás, em menos de uma semana, dois jogos começaram ou terminaram com o uso desses "recursos".

Em São Paulo, a confusão foi no metrô após a partida entre São Paulo e Talleres pela Libertadores. Uma multidão tentava entrar na estação, quando ela fechou por conta do horário – em vez de estender o funcionamento, como acontece em jogos de outros times – e alguns torcedores tentavam forçar a entrada, quando veio a polícia e usou o gás para dispersá-los. O cheiro invadiu a estação e a multidão que ainda estava nela começou a passar mal por estar num lugar fechado respirando aquilo.

 

No Rio, a confusão foi instaurada quando o Jecrim não permitiu que os portões do Maracanã fossem abertos, após o Vasco ter comunicado que se responsabilizaria pelo jogo e pagaria a multa para a liberação dos torcedores. Diante disso, alguns tentaram forçar a entrada no estádio, e a polícia usou o gás para conter a multidão. Resultado? 29 pessoas atendidas por terem passado mal ali, outras duas no hospital por questões mais graves (um teve o ombro deslocado, e o outro foi atingido por tiro de bala de borracha).

 

Já era bizarro – e simbólico – o suficiente a final acontecendo sem torcida no maior templo do futebol brasileiro. Até que mais tarde, veio a liberação dos torcedores, que entraram no estádio já na metade final do primeiro tempo. Uma zona completa que reflete a organização da Ferj no futebol carioca. Mais ridículo que isso, só o tuíte da federação ao final da partida falando em "futebol raiz" e campeonato "charmoso" em hashtags para exaltar o Campeonato Carioca que ela mesmo tem levado ao fiasco que se tornou, diante da incapacidade de organização.

 

É clichê, mas não dá para negar que é também a pura realidade: perdemos todos neste fim de semana. O 7 a 1 foi só um detalhe, vergonha mesmo é isso que acontece dia sim, dia não no futebol brasileiro.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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