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Não é só o hino: a representatividade de Megan Rapinoe vai além do campo

Renata Mendonça

17/06/2019 09h02

Foto: Getty

Megan Rapinoe é uma das principais atletas da seleção americana na atualidade. Aos 33 anos, ela já conquistou o ouro olímpico em 2012, o título mundial em 2015 e agora busca o bicampeonato (quarto título na história dos EUA) na Copa do Mundo da França.

Mas sua genialidade não se resume ao que ela pode fazer dentro do campo. Fora dele, Rapinoe tem ganhado cada vez mais os holofotes do mundo todo pelos seus posicionamentos políticos e a favor das mulheres e da causa LGBT.

A americana figurou nas manchetes do mundo todo nos últimos dias por sua postura de não cantar o hino americano nos jogos da Copa. Isso começou, na verdade, quando ela se posicionou a favor de Colin Kaepernick, jogador da NFL, que se ajoelhou durante o hino dos Estados Unidos em protesto contra o racismo. Rapinoe fez o mesmo em uma partida da seleção feminina do país e foi repreendida pela confederação. Nos EUA, onde há um patriotismo muito forte, não se levantar no momento do hino é uma atitude considerada bastante desrespeitosa.

A USSoccer, então, determinou que as jogadoras seriam punidas caso não estivessem de pé na hora do hino nacional. Rapinoe respeitou a regra, mas seguiu com seu protesto literalmente silencioso – ela passou a não cantá-lo mais.

 

"Como uma americana gay, eu sei o que significa olhar para essa bandeira e não tê-la como símbolo de proteção à sua liberdade. É algo pequeno que eu poderia fazer e planejo continuar fazendo para tentar espalhar uma discussão importante sobre isso", afirmou a jogadora.

"Acho que nunca mais vou colocar a mão no peito e cantar o hino nacional de novo".

Um posicionamento forte de alguém que escolheu suas lutas dentro e fora de campo. Ao lado das jogadoras da seleção, ela é uma das líderes do grupo que processou a Confederação pela falta de igualdade de condições com relação à seleção masculina. As atletas dos Estados Unidos brigam por direitos iguais, pagamentos iguais, e as mesmas regalias que a equipe masculina do país tem – mesmo sem que eles nunca tenham chegado perto de alcançar o mesmo sucesso que elas em campo.

Foto: Getty

"Viajar para outros países na classe econômica sabendo que os homens sempre fazem essas viagens longas na primeira classe, os hotéis diferentes e o fato de que a gente ainda joga em grama sintética em muitas vezes…já teve jogo que tivemos que cancelar pela falta de qualidade do gramado. É irritante", disse a jogadora.

"Se você gasta 10 vezes mais tempo promovendo os homens, você será 10 vezes mais bem-sucedido. Então se tudo for igual e aí eles forem 10 vezes mais bem-sucedidos do que nós, aí podemos conversar. Mas vejo que há um enorme potencial deixado de lado com esse time apenas porque nós não temos os mesmos recursos que eles", pontuou.

No caso das americanas, há ainda mais razões pra reclamar por condições iguais, porque elas já provaram seu potencial. O jogo de futebol mais visto na história do país é delas – a final da Copa de 2015 detém hoje o recorde de audiência desse esporte nos EUA, com mais de 25,4 milhões de pessoas assistindo. A seleção feminina a é tetracampeã olímpica e trimundial, enquanto os homens não chegam nem perto desse resultado. Os jogos delas em amistosos antes da Copa tiveram estádios lotados. Os lucros que elas geram também são maiores – apesar das premiações masculinas estarem acima do que elas recebem. E ainda assim, há essa desigualdade.

Rapinoe nunca ficou calada sobre isso. E fora do campo, ela também não deixa de se posicionar sobre as questões de gênero que ainda afetam as mulheres na sociedade. Ativista LGBT, ela é uma das jogadoras que mais fala abertamente sobre isso e levanta a bandeira do respeito a todos os tipos de amor.

"Nós vamos continuar falando sobre isso e continuar trazendo holofotes para essa questão. Não vamos deixar mais isso ficar em silêncio", afirmou.

E para além de tudo isso, Rapinoe ainda é uma jogadora que faz questão de garantir o espaço das mulheres em entrevistas que muitas vezes são dominadas por homens. Na zona mista do estádio Parc des Princes, após o jogo entre Estados Unidos e Chile, ela parou para falar com os repórteres e todos se juntaram ao seu redor. Eram pelo menos uns 10, apenas duas mulheres entre eles. Os homens emendavam uma pergunta em cima da outra, enquanto eu tentava fazer a minha. Um deles fez três perguntas consecutivas, sem deixar ninguém falar entre elas.

Em determinado momento, na quinta vez que eu tentava perguntar, Rapinoe parou de responder os homens que falavam em cima. Olhou fixamente para mim e fez um gesto positivo com a cabeça, pedindo para que eu falasse. O repórter do meu lado começou a perguntar em cima, e a americana o repreendeu com os olhos, voltou-se novamente para mim e pediu que eu perguntasse. Um gesto tão bonito e simbólico de uma atleta que sabe as dificuldades que nós, mulheres, temos para conseguir ocupar esses espaços ainda tão dominado pelos homens.

Foto: Darryl Dyck/The Canadian Press via AP

Não foi a primeira vez que Rapinoe fez isso. A repórter Caitlin Murray, do New York Times e Yahoo Sports, estava ao lado na hora e contou depois que aconteceu o mesmo com ela em abril deste ano. "Estava do seu lado na noite passada quando isso aconteceu. Ela fez isso comigo em Denver em abril. Um cara ficava me interrompendo e ela disse pra ele: deixe-a falar".

Uma jogadora e, acima de tudo, uma mulher para se admirar: Megan Rapinoe.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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