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Torcedora colorada de 4 anos viraliza na internet narrando gol de Cuesta

Roberta Nina

01/02/2021 13h15

Camila e Helena vendo o Inter jogar (Acervo pessoal)

"De novo Cuesta, Cuesta, a batida…. gooooooooooool, é do Internacional. Cuesta faz 4×1 para o jogo virar. Vai, Internacionaaaaaaaal!"

Essa poderia ser, facilmente, a narração feita por algum homem durante um jogo do Colorado no Campeonato Brasileiro. Mas quem criou essa jogada e deu voz a um gol marcado pelo zagueiro Victor Cuesta foi Helena, de 4 anos, direto da na sala de sua casa em Porto Alegre.

A mãe da garotinha, Camila Melo, fez o registro em vídeo de maneira sorrateira enquanto a menina brincava com bonequinhos dentro de um campinho de futebol. De vestidinho colorido e cabelo preso, Helena postava sua voz e simulava uma partida de futebol.

Camila fez o registro no último domingo (31/1), postou em sua conta pessoal do Instagram e a jornalista da Rádio Gaúcha, Kelly Matos, pediu a gravação para a amiga e fez o vídeo viralizar na internet. Muitas jornalistas da área esportiva compartilharam o conteúdo, reforçando a importância da representatividade.

Uma delas foi a narradora da TV Bandeirantes, Isabelly Morais. "Esse vídeo me derrubou. Olhem isso, que coisa mais linda. Meu coração tá quentinho! Vamos mostrar pras meninas que elas podem seguir o que quiserem, inclusive narrar um jogo de futebol. A base vem forte demaisssss!", postou a narradora em seu tuiter.

Foto: D.A. Press

Marcelo do Ó, locutor da BandNews FM também divulgou o vídeo de Helena e valorizou o trabalho das colegas narradoras. "Olha que lindo isso. Sonhem, meninas. Graças ao trabalho de Isabelly Morais, Natália Lara, Renata Silveira, Elaine Trevisan e Camilla Garcia e tantas outras esse sonho é possível."

Isabelly, de fato, nunca pensou em ser narradora de futebol. Jornalista, ela aproveitou uma oportunidade que apareceu há quase 4 anos, enquanto trabalhava na Rádio Inconfidência e, de lá pra cá, buscou se aperfeiçoar na profissão e seguir essa nova trajetória.

Os brinquedos de Helena: boneca e bolas andam juntas (Acervo pessoal)

"Quando eu comecei a narrar, eu não via um mercado de narração de futebol para mulheres. E me emociona muito quando recebo mensagens de meninas que têm vontade e sonham em narrar futebol. Saber que esses sonhos são palpáveis, nos dá uma luz muito grande. Cada vez mais eu vejo um horizonte mais claro para a narração de mulheres. Nós somos muitas, espalhadas pelo país. Essas mulheres que narram precisam de pessoas que acreditem nelas, como o Toscano (José Augusto Toscano, coordenador de esportes da rádio Inconfidência) acreditou em mim em 2017. E para que isso seja mais facilitado, é necessário que o mercado de trabalho entenda e acolha essas mulheres. A gente está vivendo um momento muito histórico."

+ Narradora: 'Entendi que deveria continuar quando só vi homens ao meu redor'

O vídeo de Helena deu um sentido imenso para aquilo que hoje Isabelly e tantas outras narradoras estão fazendo, que é desbravar caminhos que antes eram inacessíveis para outras meninas. "É um exemplo para que as Helenas do futuro sejam mais bem acolhidas no mercado. É por isso que a gente batalha tanto hoje e já encontramos o mercado mais aberto do que outras mulheres encontraram há algumas décadas", declarou a narradora ao blog.

Jogar, apitar e narrar

Camila tem 35 anos e é mãe dos gêmeos Helena e Vitor de 4 anos e seu amor pelo futebol vêm de criança. Mas durante a sua infância, não era tão aceitável ver meninas chutando uma bola. "Desde pequena sempre gostei de futebol. Minha família é toda colorada, tenho uma avó de 86 anos que não perde um jogo do Inter e é fanática", contou ao blog.

Helena e Vitor com o avô nas dependências do Internacional (Acervo pessoal)

"Quando pequena eu gostava de futebol, mas menina não podia jogar, tinha todo aquele preconceito e eu ficava muito chateada. Naquela época, tinha o zagueiro Gamarra jogando no Inter e me chamavam de Gamarra nas brincadeiras. Eu achava o máximo aquilo, mas não podia jogar e não encontrava meninas pra jogar também", disse a mãe de Helena que cresceu em meio à uma família que acompanha futebol de perto.

O pai de Camila é conselheiro e dirigente do Inter e seu marido, o advogado Luciano Iob, também é conselheiro do clube colorado. Seus filhos brincam juntos, seja de casinha ou de bola, e Helena sempre contou com o apoio dos pais para brincar daquilo que quisesse. E amor da garotinha pela bola não encontra barreiras.

"Ela gosta de narrar, de jogar e também de brincar de ser árbitra. No Natal ela pediu uma caneleira de presente e eu também dei à ela de presente uma Barbie que é juíza. Ela adora, chama o VAR, faz o quadradinho com a mão! E aí ela tem uma dúvida se quer ser árbitra, narradora ou jogadora", revelou a mãe ao risos.

Helena e o irmão Vitor, torcedores do Inter (Foto: Acervo pessoal)

Falando especificamente da narração, Camila conta que a filha imita os narradores do Pay-Per-View do SporTV. "Ela tem uma entonação boa, né? No vídeo eu não consegui filmar, mas em certo momento ela fala 'ao vivo no SporTV' e é muito engraçado!"

A mãe fez a filmagem escondida da filha para que a menina não ficasse envergonhada e foi assim que o registro rodou a internet na tarde de domingo. "Ela sabe o nome de todos os jogadores, mas ela gosta muito do Cuesta. Ela acaba imitando os narradores homens porque no SporTV não tem mulheres, mas no ano passado, eu a levei para assistir o futebol feminino, na final contra o Grêmio pra ela ver que tem meninas no futebol também. Ainda mais porque eu moro num condomínio e só tem meninos jogando bola, ela é a única que brinca com eles ali", contou.

Em breve, Helena terá uma mulher para se espelhar no canal. Renata Silveira foi contratada como a primeira narradora do Grupo Globo no final de 2020 e estreará em breve.

De certa forma, Camila faz questão de mostrar para Helena que ela pode ocupar qualquer espaço que desejar, especialmente no futebol, algo que foi muito diferente para ela quando criança. "Na minha época não tinha essa representatividade, né? Hoje a gente olha as mulheres narrando, as árbitras, as repórteres e na minha infância, o brinquedo era boneca. Não tinha a possibilidade de brincar com outra coisa. Hoje eu penso em propor aos dois que não existe brinquedo de menino e de menina. E como a gente tem um casal, os dois brincam com tudo."

Helena e seu amor pela bola (Acervo pessoal)

Depois que o vídeo viralizou, a mãe ficou impactada com o sucesso da filha. "Eu falei pra Helena ontem: 'tu sabia que está famosa agora?' e mostrei o vídeo pra ela ver. Ela ficou com vergonha e perguntou 'as pessoas viram?'. Eu disse que sim, que mais de 50 mil pessoas viram, entre elas, o Cuesta. Meu pai acabou mandando o vídeo pra ele e aí a Helena não quis mais saber de mais nada. Ficou feliz em saber que o Cuesta viu o vídeo", revelou a mãe.

O vídeo de Helena é o resultado de como ter inspirações podem abrir espaços para que crianças possam sonhar em se tornar aquilo que bem entenderem, sem amarras.

"É uma transformação dos sonhos que a gente não podia sonhar em outras épocas. Talvez a Isabelly com quatro anos não teve essa possibilidade de ver uma mulher narradora. Hoje em dia a gente consegue dar essa oportunidade para as crianças serem o que quiserem. A Helena não precisa se reduzir a uma caixinha em que meninas não podem fazer certas coisas, ela pode ser o que quiser, graças à mulheres como a Isabelly."

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Ver Helena em ação com apenas 4 anos de idade, deixou Isabelly muito feliz e a fez lembrar de como foi e ainda é árdua a luta das mulheres que ingressam na narração. "Quando eu narrei pela primeira vez em 2017 eu não pensava que narraria tão cedo numa TV aberta e tá acontecendo. Sempre digo que muitas mulheres batalharam para que eu tivesse a oportunidade hoje de narrar numa TV aberta. Então eu quero fazer da minha profissão uma oportunidade de batalhar todos os dias para que as Helenas do futuro encontrem cada vez mais espaços. Muitas lutaram por mim e eu preciso lutar pelas outras que virão depois de mim", declarou a narradora.

Sobre as autoras

Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Renata Mendonça é apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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