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Marta, 35 anos: Como a melhor do mundo mudou o jogo dentro e fora de campo

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19/02/2021 04h00

(Foto: Lucas Figueiredo/CBF)

Desde 1986 o dia 19 de fevereiro nunca mais foi o mesmo. De Dois Riachos, Alagoas, para o mundo, Marta Vieira da Silva Veiga completa nesta sexta-feira (19) 35 anos de idade sendo absoluta dentro de campo e traçando um belo e exemplar caminho fora dele.

Eleita seis vezes a melhor jogadora do mundo, a atleta do Orlando Pride voltou os holofotes para si no Mundial da França, em 2019, de uma forma diferente. Dessa vez, Marta usou sua voz – e melhor ainda, seus gestos – para lutar por algo que lhe fez sair do "anonimato" quando o assunto é posicionamento: a igualdade de gênero.

Não estávamos acostumados a ver Marta levantando bandeiras e/ou indo aos microfones para chamar a atenção para algo que não fosse de dentro das quatro linhas. Conhecíamos a líder nata do campo, mas passamos a conhecer também a ativista que aflorou com a maturidade.

Embaixadora global da Boa Vontade pela ONU Mulheres desde 2018, quando assumiu o posto, a camisa 10 da seleção brasileira trabalha para incentivar mulheres e meninas a quebrarem a barreira do preconceito. Duas vezes prata em Olimpíadas (2004 e 2008) com o Brasil, além de um vice Mundial (2007), a aniversariante do dia tem muito mais a dizer hoje do que quando estreou em uma Copa do Mundo, há 18 anos.

(Foto: Reprodução Instagram)

Na França, recordes, cobranças e lutas

A derrota para a Austrália por 3 a 2 na segunda rodada da fase de grupos da Copa do Mundo da França ganhou outro tipo de destaque. Após marcar o primeiro gol do Brasil – e do jogo – de pênalti, Marta apontou para a sua chuteira preta, lisa, sem patrocínio e exibiu o símbolo da campanha "Go Equal", em referência a equidade de gênero.

Com apenas um gesto, a camisa 10 da seleção trouxe à tona uma importante questão na luta pela igualdade entre homens e mulheres. Considerada por muitos a melhor jogadora do mundo, Marta segue, por opção, sem qualquer patrocinadora de material esportivo desde 2018. A atleta entende que essa é uma forma de buscar valorização e tenta passar isso para as suas colegas de profissão.

(Foto: @GoEqual__)

"Ela tem direito a patrocínio e não aceita qualquer coisa igual a gente aceita. Ela fala que a gente tem que se valorizar, que o futebol feminino está assim por falta de valorização. Oferecem para dar uma chuteira e a gente vai lá e aceita, e ela diz que não, que não é para aceitar, que temos a condição de ir lá e comprar. Quando ela entra na causa é por isso, não é qualquer migalha que temos que receber, não é só uma chuteira, uma roupa. Lógico que a gente precisa, é um gasto a menos e a gente acaba se contentando com pouco", explicou Fabi Simões, jogadora do Internacional e amiga de Marta, com quem atuou junto no Tyresö, da Suécia, em 2014.

Para Camilinha, atleta do Palmeiras, a camisa 10 da seleção entende o momento de se posicionar. "Para ela (Marta) acontece tudo natural. Ela fala quando acha que tem que falar, ela pensa muito antes. Como se fosse um roteiro, ela diz: 'Se eu chegar e falar isso agora, no meio disso tudo, minha palavra talvez não valha tanto, eu preciso falar disso no momento certo onde todo mundo vai poder me ouvir, vai poder me escutar'. Como foi a questão da igualdade na Copa do Mundo. Ela não precisou falar, ela simplesmente colocou na chuteira dela e viralizou. Ela é calculista para falar no momento que ela acha que tem que falar", disse a ex-jogadora do Orlando Pride, clube que Marta atua desde 2017.

Ainda na França, Marta continuou fazendo história. Contra a Itália, marcou seu gol de número 17 em Copas do Mundo, ultrapassando o alemão Klose na contagem e se tornou artilheira absoluta em Mundiais (entre homens e mulheres, inclusive). Além disso, ousou nos batons e fez um desabafo em forma de cobrança após o Brasil ser eliminado pelas francesas nas oitavas de final, exigindo empenho da nova geração.

"Foi um desabafo normal de uma pessoa que é líder técnica de uma seleção há duas décadas e é cobrada por isso. É natural ter esse acúmulo, não de responsabilidade porque eu tenho certeza de que ela é a mesma, ela quer entrar e ganhar, mas o microfone vai para a boca dela. Quando ela fala que não vai ter mais a Marta, ela fala que não vai ter mais a Cristiane, a Formiga, ela amplia. Mas foi uma forma literalmente de dizer: 'Olha, vai ter uma hora que não vai mais ter eu aqui, nem essas referências'", apontou Aline Pellegrino, Coordenadora de Competições Femininas da CBF e ex-companheira de Marta na seleção.

"Com as meninas que estão chegando agora ela também conversa, incentiva, conta um pouquinho da história dela e faz elas entenderem que estar em um clube quanto na seleção é muito importante, que você tem que agarrar com todas as suas forças porque pode ser talvez a única chance", afirmou Camilinha.

O peso da idolatria

Quando Marta começou no futebol lá em 2004 atuando pelo Vasco, fazia apenas 25 anos que as mulheres tinham ganhando o direito de praticar a modalidade no Brasil – na mesma época a seleção brasileira masculina já era tricampeã Mundial. O atraso com a proibição reverbera até hoje no feminino, e a camisa 10 não escapou de duras cobranças.

(Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

"É difícil… se a gente pensar numa seleção masculina, pegar temporalmente de 2007 a 2021, a Marta segue sendo referência nesse período todo, isso não acontece no masculino. Imagina você, sem querer ser… ela não virou e falou: 'Gente, eu quero ser a líder técnica da seleção brasileira, quero ser a melhor do mundo seis vezes, vou assumir tudo isso aqui por duas décadas', e você ainda ter que ser essa líder fora do campo. Então ela vem carregando isso há todo esse tempo", declarou Aline Pellegrino.

"Teve um tempo em Orlando em que a gente estava numa fase muito difícil, perdendo muitos jogos e ela disse: 'Cara, isso aqui não é bom para mim, eu gosto de ganhar, gosto de jogar feliz, isso está me deixando doida, maluca' e ela chorava porque é muito importante isso para ela. A gente não estar ganhando para ela a culpa era dela. Então quando ela não sente que ela está valendo a pena, não está sendo suficiente, ela se sente mal", contou Camilinha.

"Ela sofreu a infância dela inteira, passou por dificuldades e sempre precisou ter a voz muito forte para poder lidar com as coisas, preconceito, saiu muito cedo de casa para dar uma vida melhor para a família dela, não desistiu disso", completou a jogadora do Palmeiras.

(Foto: Reprodução Instagram)

A responsabilidade de ser a 10

Seja na seleção ou em clubes, a 10 é da Marta. Além das medalhas de prata em Olimpíadas e Mundial, a alagoana tem com o Brasil os títulos Pan-Americanos de 2003 e 2007 e as Copas América de 2003, 2010 e 2018. Na Suécia, venceu Liga dos Campeões da UEFA, Campeonato Sueco, Copa da Suécia e Supercopa da Suécia.

Quando atuou pelo Santos, venceu em 2009 tanto a Libertadores como a Copa do Brasil. Nos Estados Unidos, já possuí duas vezes a Liga Americana (2010 e 2011). Como não criar expectativas quando se tem a craque no seu time?

"Nunca vi a Marta com esse peso de: 'Eu que tenho que ir ali e fazer acontecer'. É assim: 'Eu sei que eu tenho que dar o meu melhor e eu vou dar os meus 200 % porque se eu fizer isso o grupo todo cresce'", afirmou Aline Pellegrino. "Quando a gente chegou na China, sabe o que é o hotel inteiro querer tirar foto com você? De repente tem 200 funcionários para tirar foto com você. Ela tem que lidar com isso desde muito cedo, de ser a estrela, de ter que dar atenção para todo mundo", completou.

(Foto: Getty Images)

"Eu já vi várias pessoas falando que existia 'várias Martas'. É muito difícil criar uma Marta, de liderança, espírito, ela é diferente. Aquilo dela dentro de campo é natural, falar, não se expor, em tudo. No futebol é muito mais difícil para ter o talento dela. Tem coisas que ela faz que a gente fica de boca aberta", pontuou Fabi Simões.

"Ela já desabafou. Às vezes é muito… O nome dela é muito forte, as pessoas cobram para se pronunciar. Não que ela tenha ficado triste ou chateada, mas às vezes não está ao alcance dela e ela se sente mal por isso", disse Camilinha.

Transcendendo gerações

Marta foi indicada pela primeira vez ao The Best em 2003 quando tinha apenas 17 anos. Levou seu primeiro troféu de Melhor do Mundo três anos depois. Ininterruptamente, foi soberana de 2006 a 2010 e voltou a ganhar o prêmio em 2018.

Estamos falando do maior nome do futebol feminino mundial, que muito em breve deve pendurar as chuteiras. Se teremos Marta envolvida com o futebol feminino mesmo após a aposentadoria, ainda não sabemos, mas legado às novas gerações não há de faltar.

"A gente está ali lutando por algo que é para nós, para alguém, que alguém passou mais dificuldade ainda do que a gente teve. É uma coisa muito natural se a gente pensar nesses 40 anos do futebol feminino, quatro gerações de muita cumplicidade mesmo, com respeito enorme, carinho enorme, todo mundo torcendo, ficando feliz pela conquista uma da outra, coisas que estamos conquistando agora que lá atrás não teve. A gente tem uma geração do futebol feminino brasileiro muito forte, de cuidar umas das outras, é orgânico e estamos nesse momento positivo", disse Aline Pellegrino, ex-capitã da seleção brasileira por nove anos.

(Foto: Reprodução Instagram)

"Perseverança é a palavra-chave para ela. Ela não desiste enquanto ela não tem, ela é incansável. Enquanto ela puder estar jogando, em atividade, ela vai dar o melhor não só para ela, mas para quem está em volta. Ela se cobra muito e diz: 'Se eu não der o meu melhor, como vou ser o espelho de alguém?'", declarou Camilinha.

Feliz Aniversário, Vossa Majestade!

"Já na primeira vez que encontro a Marta (2004) enfrento como adversária num coletivo. Sobrou uma bola pelo lado direito, uma bola simples, de rotina. Eu estava anos luz dela, falei: 'Vou chegar ali, domino, se ela apertar muito eu ponho a bola para fora, não me complico, tranquilo'. Eu devia estar a três metros da bola e ela a sete… Estou até hoje esperando a bola que eu ia dominar. Ela passou numa velocidade, juro, eu não sei como ela chegou na minha frente, por onde ela passou, falei: 'Caraca, que que é isso?'"- Aline Pellegrino.

"Não consigo dizer tudo o que ela significa para mim. Ela esteve em momentos muito difíceis da minha vida, foi uma mãe para mim, foi minha conselheira, não me deixou cair. Com certeza vai ser lembrada por mim como a melhor pessoa do mundo. Ser a melhor do mundo é muito grande para ela, mas para o tanto que ela é, acho que é pouco" -Camilinha.

(Foto: Getty Images)

"É uma pessoa muito importante para mim, muito especial, que me ajuda muito tanto dentro quanto fora de campo. Falar da Marta é muito difícil porque eu tenho um carinho muito grande com ela, tenho ela como uma irmã, amo muito" – Fabi Simões

"Sem dúvida nenhuma vai ser uma das maiores figuras do esporte mundial daqui 10, 30, 50 anos. Vamos falar dela por muito tempo" – Aline Pellegrino.

Rainha, nosso coração é todo seu!

*Reportagem de Mariana Pereira

Sobre as autoras

Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Renata Mendonça é apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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