Dibradoras http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. Thu, 02 Jul 2020 14:42:27 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 CBF poderia ‘se redimir’ no futebol feminino com a mulher certa no comando http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/07/02/cbf-poderia-se-redimir-no-futebol-feminino-com-a-mulher-certa-no-comando/ http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/07/02/cbf-poderia-se-redimir-no-futebol-feminino-com-a-mulher-certa-no-comando/#respond Thu, 02 Jul 2020 07:00:59 +0000 http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/?p=10374

Foto: FPF

Com a saída de Marco Aurélio Cunha há exatamente um mês, a CBF ainda não tem um substituto para “comandar” o futebol feminino na entidade. O cargo de coordenador de seleções femininas ficou vago em 2 de junho, e a confederação deixou claro seu interesse em trazer uma mulher pela primeira vez para ocupá-lo. Nesse ponto, o nome escolhido não poderia ser mais óbvio: Aline Pellegrino, atual diretora de futebol feminino na Federação Paulista de Futebol.

Trabalhando na FPF desde 2016, ela reúne a experiência como ex-jogadora de futebol (foi capitã da seleção brasileira na campanha do vice-campeonato Mundial em 2007) com uma bagagem de quatro anos atuando como dirigente. Além disso, Pellegrino é Consultora do Departamento de Desenvolvimento de futebol feminino da Conmebol, representante do Fifa Legends, e foi a representante sul-americana do Women in Football Leadership Program, da FIFA, UEFA e IMD Business School.

Se o discurso da CBF, muitas vezes repetido por Marco Aurélio Cunha, sempre foi o de que “era preciso ter mulheres capacitadas” para ocuparem algum cargo na entidade, Aline Pellegrino tem um currículo melhor do que muitos homens que têm postos de comando por lá – inclusive do que todos os que já passaram pela função de “coordenador de seleções”. Experiência no campo e fora dele, cursos de gestão (inclusive o da própria CBF), pós-graduação em Gestão do Esporte, trabalhos na Fifa e na Conmebol (sempre relacionados ao futebol feminino), além do amadurecimento lidando com a “política” esportiva dentro da federação.

Mesmo antes de Marco Aurélio ter deixado o cargo, já se falava no nome dela como o mais cotado (e mais bem preparado) para trabalhar com o futebol feminino na CBF. Mas quando era questionada sobre isso, ela dizia que tinha ainda muita coisa a ser feita dentro da FPF para pensar em sair. “Sou muito de projeto a longo prazo, não gosto de deixar as coisas pela metade. Acho que ainda tenho muito tempo na FPF”, afirmou em entrevista às dibradoras em abril.

Aline Pellegrino foi coordenadora do Corinthians-Audax antes de assumir o cargo na FPF em 2016 (Foto: FPF)

Assim que houve o anúncio da saída dele, de novo Pellegrino foi apontada como sucessora natural. E em entrevista ao podcast Donas do Campinho nesta semana, ela negou que tenha recebido o convite, mas deixou no ar a possibilidade de aceitar.

“Não teve esse convite. Fico feliz quando as pessoas citam meu nome. Eu me sinto lisonjeada porque mostra que o trabalho vem sendo bem feito. A Pelle ta pronta? Não, eu to aprendendo ainda muito aqui na Federação. Tem muita coisa que eu acredito na mudança de percepção do brasileiro sobre o que é o futebol feminino, da gente viver uma Copa do Mundo com todo mundo parando pra ver, torcendo, curtindo. Eu tenho muitos sonhos com a modalidade, isso por si só já é muito bom. A gente não sabe o que vem pela frente, mas quero continuar ligada ao futebol feminino. Ainda me sinto com muita vontade de fazer mais coisas pela modalidade”, disse.

O blog apurou que o nome de Aline Pellegrino é bem visto na CBF, mas ainda não há definição de quem viria para o cargo.

Mas para conseguir trazer a Pelle, como é conhecida, o convite feito a ela não deveria ser apenas para coordenar as seleções femininas. Até para acertar uma dívida dos anos de atraso e de oportunidades perdidas da CBF com a modalidade, seria preciso aproveitar o momento para ter uma estrutura mais sólida para desenvolvimento do futebol feminino na entidade – e isso incluiria a criação de um departamento exclusivo para ele. E para chefiá-lo, não existe ninguém mais capacitado do que Aline Pellegrino.

Aline Pellegrino faz parte do time de Fifa Legends no futebol (Foto: Reprodução / Facebook)

Avanços

Em quatro anos na FPF, Pelle conseguiu um salto impressionante no desenvolvimento do futebol feminino em São Paulo. O Campeonato Paulista ganhou transmissões de jogos pela internet (e das fases finais pela TV), bateu recorde de audiência (em 2019, as finais superaram até audiência de jogos da Premier League e Bundesliga) e também recorde de público. Em uma iniciativa inédita comandada pela diretora da federação, Corinthians e São Paulo levaram as finais femininas para seus estádios principais (Morumbi e Arena Corinthians) e, em Itaquera, foi registrado o maior público de uma partida de clubes femininos (quase 29 mil pessoas).

A ex-atleta também teve uma iniciativa interessante na criação do prêmio das melhores jogadoras do Campeonato Paulista. Antes, somente os homens tinham eleição de melhores para cada posição e seleção do campeonato e recebiam os troféus por isso. Desde 2017, porém, isso acontece também com as jogadoras – a festa costuma acontecer no Museu do Futebol. Uma valorização que a modalidade precisava há tempos.

Na base, Pellegrino criou a primeira competição estadual sub-17 há três anos, também organizou os festivais sub-14 e, em 2019, fez sair do papel uma ideia “revolucionária” de uma peneira de jogadoras sub-17 reunindo 336 atletas de todos os lugares do país para serem selecionadas pelos 20 clubes paulistas. Tudo isso fazia parte dos planos dela quando assumiu o cargo ainda em 2016. Seu objetivo principal era fazer com que o futebol se tornasse um sonho possível também para meninas – hoje, após os avanços que conseguiu tanto nas categorias de base como na principal, Pelle já pode dizer que tem parte do dever cumprido (ao menos no estado de São Paulo).

Aline Pellegrino participou do programa de lideranças femininas no futebol da Fifa e Uefa e trouxe um modelo semelhante aplicado na FPF neste ano (Foto: Divulgação)

A evolução também se deu pelo “produto principal” entregue pela FPF no futebol feminino. O Campeonato Paulista agora tem a participação dos quatro clubes de camisa do estado, tem jogos de alto nível e algumas das principais jogadoras do Brasil – a maior artilheira dos Jogos Olímpicos, Cristiane, joga no Santos; a meio-campista da seleção, Andressinha, joga no Corinthians; a medalhista olímpica em 2004 e 2008, Rosana, joga no Palmeiras; tudo isso contribui para engrandecer o “produto” do futebol feminino paulista, e Pellegrino tem tido boas estratégias para vendê-lo no mercado – tanto conseguindo mais patrocínio, quanto atraindo mais visibilidade da mídia.

“Às vezes, quando a gente vai para o mercado, a gente vai tentar vender o modelo de negócio do masculino. A gente precisa entender esse modelo de negócio próprio do feminino pra poder levar pras marcas a nossa verdade. Não é pra vender a mesma coisa que o masculino vende. A gente se acostumou com o modelo do futebol masculino e parece que é só isso que vale”, pontuou Pellegrino em entrevista ao podcast Passion Cast.

Foto: Dibradoras

“O que a gente tem de melhor? Por exemplo, a nossa verdade é ter a Cristiane, jogadora reconhecida no mundo inteiro, vestindo a camisa do São Paulo, jogando a final contra o maior rival, e sendo abraçada pela torcida corintiana, sendo idolatrada por crianças que torcem para o time rival. Isso é uma verdade que o futebol feminino tem, e o masculino não tem. Uma final na Arena Corinthians que tinham torcedores de outros times, não só do Corinthians. O São Paulo subindo pra receber a medalha de vice sendo aplaudido pela torcida adversária. Isso não tem no masculino. Que marca pode se interessar por isso?”

Por essa visão e pela vontade de fazer acontecer (além, é claro, da capacitação que já mencionamos aqui), não há pessoa mais adequada para comandar o futebol feminino na CBF do que Aline Pellegrino. Se a confederação quer mesmo se redimir dos erros do passado na modalidade – como começou a fazer ao contratar a bicampeã olímpica Pia Sundhage para a seleção feminina e mais mulheres para atuar nas comissões técnicas -, a melhor maneira para isso é trazer quem mais entende para criar o tão necessário departamento de futebol feminino na entidade.

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A violência contra a mulher precisa entrar na pauta do futebol http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/06/29/a-violencia-contra-a-mulher-precisa-entrar-na-pauta-do-futebol/ http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/06/29/a-violencia-contra-a-mulher-precisa-entrar-na-pauta-do-futebol/#respond Mon, 29 Jun 2020 20:19:59 +0000 http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/?p=10364

Foto: Agência Palmeiras

Na última semana, o atacante do Palmeiras, Dudu, foi acusado pela esposa de violência doméstica. Ele nega o crime e já prestou depoimento na delegacia após o registro do BO. Ainda nessa semana, veio à tona uma entrevista surreal do técnico René Simões pedindo a volta do futebol porque as pessoas “estão enlouquecendo”. “Tenho amigos que já bateram na mulher”, disse. Na mídia esportiva, noticiaram que o treinador “criou polêmica” com tal afirmação.

Nos programas esportivos, vimos pouco debate sobre esses dois acontecimentos. E, vejam, debater não quer dizer julgar. Não é papel da imprensa decidir se Dudu é culpado ou inocente, mas em meio a casos recorrentes de violência contra a mulher envolvendo jogadores, não seria a hora de fazer esse tema virar pauta nas discussões sobre futebol?

Relembrando apenas os mais recentes: o goleiro Jean foi preso em flagrante após agredir a mulher nos EUA em janeiro; o atacante Robinho foi condenado na Itália por estupro em 2017; o goleiro Bruno foi condenado em 2013 como mandante do brutal assassinato da mãe de seu filho, Elisa Samudio. O atacante Dudu foi preso em flagrante por agressão à mulher e à sogra em 2013, pagou fiança e foi liberado.

Isso sem contar as denúncias de jogadores com menos holofotes. A violência doméstica é um problema grave da sociedade que, no futebol, muitas vezes é naturalizado. A ponto de um técnico dizer que tem “amigos que bateram na mulher” e ninguém questiona-lo se ele fez a denúncia do crime que acabou de relatar. A ponto de nenhum jornalista rebater essa afirmação absurda colocando a falta do futebol como “justificativa” para se cometer crimes tão graves como violência doméstica. A ponto de um dia um jogador (o goleiro Bruno, o mesmo condenado pelo assassinato da ex) ter dito “quem nunca brigou ou saiu na mão com a mulher?”, e isso não ter sido tratado com a devida gravidade.

Foto: Reprodução

Já passou da hora da imprensa esportiva debater a fundo essa questão urgente. Por que existem tantos casos de violência doméstica no futebol? Por que a maioria deles acaba abafado? Por que as vítimas que denunciam crimes contra a mulher são sempre “oportunistas mentirosas” e “estão querendo aparecer” – será que isso é mesmo “lucrativo” para elas? O que se vê é que nenhum dos jogadores presos em flagrante ou condenados por violência doméstica sai de cena por isso. Estão todos (os citados aqui) muito bem empregados, alguns até fazendo piada de mal gosto (como o goleiro Bruno visitando canil).

Foto: Reprodução

Nenhuma dessas discussões condena ou inocenta os acusados, mas ao menos levanta questões importantes sobre um problema real do futebol e da sociedade. O Jornalismo (esportivo ou não) também tem uma responsabilidade social e é papel dele conscientizar as pessoas sobre problemas urgentes. O futebol é uma excelente ferramenta pra isso, porque atinge muita gente e pode ajudar nas mudanças imprescindíveis que precisamos na sociedade – pode ajudar, inclusive, a mudar a realidade de tantas mulheres que vivem uma vida de violência sem saber como sair dela.

Há tanta coisa a ser contextualizada nisso tudo. Mais de 500 mulheres são agredidas por hora no Brasil; um feminicídio a cada sete horas é registrado no país (segundo os dados mais recentes do Fórum de Segurança Pública). Nada disso acontece por causa da falta do futebol ou por causa da presença dele. Não acontece porque os agressores são “monstros”. Acontece porque é reflexo do machismo, da desigualdade de gênero, da ideia enraizada de que homens são superiores, e mulheres devem ser submissas a eles. Essa cultura é tão forte que até mesmo denunciar um crime de violência doméstica é um desafio para as vítimas, porque, em muitos casos, o próprio delegado tenta dissuadi-las disso. “Você vai acabar com a vida dele”, é o que muitas delas já ouviram. Nunca vimos um debate na mídia esportiva mencionar nada disso.

É importante ressaltar que o papel de colocar a violência contra a mulher em pauta no futebol não é só dAS jornalistas e dAS comentaristas. Até porque, infelizmente, elas ainda são poucas na mídia esportiva. Todos deveriam estar preparados para abordar essas questões com responsabilidade. Como bem questionou a jornalista Marília Ruiz, a imprensa esportiva está pronta pra essa conversa?

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Uma mulher virou artilheira das Copas: não vi o 17º gol de Marta, eu vivi http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/06/18/uma-mulher-virou-artilheira-das-copas-nao-vi-o-17o-gol-de-marta-eu-vivi/ http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/06/18/uma-mulher-virou-artilheira-das-copas-nao-vi-o-17o-gol-de-marta-eu-vivi/#respond Thu, 18 Jun 2020 07:00:31 +0000 http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/?p=10341

(Foto: Dibradoras)

Era dia de jogo importante para a seleção brasileira feminina naquele 18 de junho de 2019. E viver esse momento, nem nos meus melhores sonhos, eu poderia imaginar ser possível. Cobrir in loco e pela primeira vez um Mundial como jornalista já era algo especial, ver uma mulher se tornar a maior artilheira das Copas do Mundo, era algo sublime, mas viver o que eu vivi… eu não sei até hoje classificar.

Foi na cidade de Valenciennes onde tudo aconteceu. Os dizeres “jogue como uma garota” estampavam a camiseta que azul que escolhi usar naquele dia. Sim, a frase que por muito tempo ganhou tom pejorativo, naquele 18 de junho nunca fez tanto sentido. Desde essa data, se alguém quiser alcançar o feito de marcar 17 gols em Copas do Mundo, vai ter que jogar como uma garota, sim. Caso contrário, não será imbatível. E não adianta contestar a matemática, tem é que fazer 17 gols e ponto final. Desejo boa sorte para quem puder tentar.

Terceiro jogo da fase de grupos, o Brasil precisava vencer a Itália – seleção que estava de volta a uma Copa após 20 anos – para se classificar para a fase eliminatória do Mundial. Moleza? Deveria ser, mas não foi isso que aconteceu.

Stade du Hainaut, em Valenciennes (Foto: Dibradoras)

Antes do jogo começar, recebemos um convite inusitado da Visa, um dos patrocinadores da competição: iríamos  entregar o prêmio Player Of The Match para a melhor jogadora daquele duelo. Aceitamos viver essa baita experiência, mas o nosso nervosismo diante daquele jogo era tão gigante que deixamos para pensar nisso depois.

A instrução dada foi a seguinte: uma de nós (entre mim e Renata) precisaria deixar a cabine de imprensa do Stade du Hainaut aos 15 minutos do 2º tempo e encontrar com uma pessoa da empresa em frente a entrada do estádio. Mas como assim, sair no meio do jogo? Valendo classificação? Sim, era isso mesmo.

Sabíamos que o confronto não seria fácil, mas foi mais duro do que o normal. Dois anos antes, havíamos goleado as italianas por 5 a 3 no Torneio de Manaus em que a equipe brasileira sequer contava com suas principais jogadoras (Marta e Cristiane, por exemplo, não jogaram essa partida). Pouco tempo depois, o time italiano evoluiu muito a ponto de fazer frente ao Brasil em uma partida bem equilibrada.

Eu e Renata, uma hora antes do jogo começar (Foto: Dibradoras)

Empate em 0x0 no primeiro tempo, intervalo e início do segundo tempo. Naquele momento, era preciso decidir quem deixaria o jogo pra trás para se encaminhar para entrega do prêmio da Visa. O que deveria ser um momento especial virou um tormento, afinal, não era fácil abrir mão de ver a partida e torcer pelo Brasil. E outra coisa: ninguém queria entregar o prêmio para uma italiana, já imaginou?

No par ou ímpar decidimos: eu deixaria o jogo e iria me preparar para entregar o prêmio para a melhor jogadora da partida. Aos 15 minutos do tempo final, desci escadas, passei por túneis e corredores do setor de imprensa ouvindo aqueles sons que nos enlouquecem – “uuuuuh”, “aaaaahhhh” – gritos, assovios, o apito da árbitra. Eu apenas ouvia tudo isso e imaginava: o que está acontecendo nesse jogo?

Lembro de ter entrado em um espaço VIP (pelo menos eu acho que era VIP) onde estava rolando um coquetel, muita comida por ali e nenhuma TV transmitindo o jogo que acontecia a poucos metros daquele espaço. Era enlouquecedor.

E foi aos 29 minutos de jogo que tudo aconteceu. Eu estava no local combinado, esperando pelo rapaz que iria me encontrar, quando Renata me manda uma mensagem pelo WhatsApp. Eram 17h29 (lá na França 21h29) e em caixa alta, minha parceira me escreveu: PÊNALTI PARA O BRASIL. MARTA NA BOLA. VOU NARRANDO PRA VOCÊ. GOL. 17º DELA.VOCÊ VAI ENTREGAR O TROFÉU PRA ELA, AMIGA.

Eu não vi o pênalti sofrido pela Debinha, eu não vi a cobrança de Marta. Eu apenas senti a atmosfera do estádio, tremi com as mensagens da Renata e seguia buscando encontrar o rapaz da Visa. “Será que vai ser pra ela que entregarei esse prêmio?”, pensei.

Minutos depois, encontrei o moço que me iria me conduzir até o espaço onde aconteceria a entrega do prêmio. Ficamos muito tempo aguardando uma aprovação para irmos até esse tal lugar, me pareceram horas. Eu buscava por uma televisão a todo momento, mas não encontrava. No caminho, eu e o moço íamos tentando nos comunicar em inglês, em espanhol e, ao mesmo tempo, ele ia me dando instruções do que iria acontecer ali.

Quando cheguei nessa área reservada, pude ver cerca de 5 minutos de jogo. Estava de frente para a saída principal do campo, por onde todas as jogadoras iriam passar. Os protocolos eram: a melhor jogadora sairá de campo, dará uma entrevista, depois disso, você se aproxima com o troféu, cumprimenta a jogadora, entrega o prêmio para ela, tira uma foto e libera a área para sessão de fotos da atleta e mais entrevistas.

Ok, coisa rápida mesmo. Tirei mochila das costas, arrumei o cabelo o máximo que pude (eram quase 22h, eu estava trabalhando desde antes do meio-dia), tirei meus óculos para esperá-la – afinal serei fotografada pela Getty Images, Deus que me livre sair com o óculos brilhando na foto mais pesada da minha vida. Até aquele momento, nome da jogadora que seria premiada não estava definido.

Enquanto esperava o jogo acabar e torcia para ninguém mais marcar um gol (seja do Brasil ou da Itália), apareceu o André, roupeiro da seleção. Me viu e perguntou o que eu estava fazendo ali. Respondi: “vou entregar o prêmio para a melhor jogadora da partida, você acredita? E adivinha quem vai ser?”. O André me respondeu de bate-pronto, sem pensar: “Ah, é? Vai entregar para a Debinha?”.

“A Marta, pô! Você tá doido?”, eu respondi. Naquela hora eu senti medo. Perdão Debinha, você é maravilhosa, mas aquele momento tinha que ser meu com a Marta. E eu estava ali, só esperando a confirmação de que a camisa 10 havia sido escolhida como a melhor em campo para que eu pudesse viver esse momento importante para mim, para ela, para modalidade, para as mulheres.

Eu e Marta durante o treino da seleção, em Lille (Foto: Dibradoras)

Dois dias antes desse jogo, acompanhei o último treino aberto da seleção. Nossa proximidade com as jogadoras existe, a gente se cumprimenta pelo nome, faz uma palhaçada com umas, conversa sério com outras, mas com a Marta, não. Ela é atenciosa com a imprensa, nos atende, nos deixa filmá-la tocando cavaco, mas é, de fato, uma jogadora mais reservada. E a sua presença mexe com a gente de um jeito diferente.

No final daquele coletivo, pedi e tirei minha primeira foto com Marta. Nós duas posamos fazendo o sinal de “igualdade” com os braços e eu já me dava por feliz e satisfeita. Mas o meu caminho cruzou com o dela novamente.

Fim de jogo, a Rainha se aproxima. Para em frente ao backdrop, dá uma entrevista, tira uma foto e eu, na lateral direita, aguardo o sinal da organização para fazer a entrega do prêmio. Caminho ao seu encontro quando ela me abre um sorriso enorme, cheio de batom. Ela olhou a minha camiseta e disse: “Jogue como uma garota!” Ela reverberou, em voz alta, o que ela havia feito dentro daquele gramado. Jogou como uma garota!

(Photo by Matthew Lewis – FIFA/FIFA via Getty Images)

Se passei um minuto completo ao lado dela, foi muito. Mas foi o tempo suficiente para eu me dar conta de onde estava e o que fazia: no dia em que uma mulher se tornou a maior artilheira de todas as Copas, fui eu quem entreguei o troféu de melhor em campo em suas mãos. Eu senti um negócio tão vibrante dentro de mim causado pela presença dela que pouco me lembro do que disse. Marta é uma entidade, é o maior nome do nosso futebol, como explicar o que eu estava vivendo naquele instante?

Só sei que quando ela viu o troféu, me disse: “Posso pegar?”. Eu respondi: “Claro, ele é seu.” A resposta final antes do abraço foi: “Ele é de todas nós.” Posamos para fotos, eu, ela e o recorde e saí daquele lugar de um jeito que nunca senti. Desnorteada, incrédula. 

Difícil foi dormir por conta da adrenalina do jogo, por conta do recorde, por conta do prêmio, por tudo. Passavam das 2h da manhã quando fechei os olhos não querendo fechar. Será que a jogadora Marta sonhava em alcançar esse feito? Só posso dizer que a jornalista Nina nunca imaginou viver algo parecido.

É surreal saber que, de alguma forma, meu caminho cruzou com o dela. A garotinha que saiu de Dois Riachos aos 14 anos em busca de um sonho. Sem nenhuma referência feminina para se espelhar, sem nunca ter pisado em outro lugar a não ser em Alagoas. Aquela que elevou o futebol das mulheres e levou o nome do Brasil por todos os cantos do planeta. Mulher, nordestina, seis vezes eleita como a melhor jogadora do mundo, brasileira.

Ela deve ser respeitada e idolatrada, pela sua trajetória e pelos feitos incontestáveis. Tentar diminuir as conquistas legítimas de uma mulher só demonstra fragilidade por parte de quem faz ressalvas. Se nem a proibição por quase quatro décadas foi capaz de frear o talento nato de uma mulher com a bola nos pés, não serão os oportunistas que o farão.

Eu não vi o 17º gol de Marta acontecer. Hoje sei que foi de pênalti, com a bola no canto direito e a goleira caindo pra esquerda. Eu não vi porque estava vivendo esse momento. De um jeito diferente, mas junto com ela. Que sortuda que eu sou. 

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Sem contrato, jogadoras do Vitória ficam à mercê do descaso de dirigentes http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/06/15/sem-contrato-jogadoras-do-vitoria-ficam-a-merce-do-descaso-de-dirigentes/ http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/06/15/sem-contrato-jogadoras-do-vitoria-ficam-a-merce-do-descaso-de-dirigentes/#respond Mon, 15 Jun 2020 22:13:21 +0000 http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/?p=10333

Foto: Divulgação / Maurícia da Matta

*Por Juliana Lisboa e Renata Mendonça

Não é de hoje que o Vitória demonstra seu descaso com o futebol feminino. Desde que Paulo Carneiro assumiu a presidência criticando abertamente o investimento feito na modalidade, o clube desmontou a equipe profissional que garantiu o acesso à primeira divisão do Brasileiro feminino e manteve um time amador apenas para cumprir a obrigatoriedade da Conmebol e CBF.

Mesmo sem ter um orçamento relevante destinado ao futebol feminino, o presidente segue “atacando” a equipe das mulheres como um “empecilho” na sua gestão em meio a tantos problemas acumulados, segundo ele, pelas administrações que o antecederam. E, nesta segunda-feira, em entrevista à Rádio Sociedade, Carneiro mais uma vez demonstrou seu desrespeito ao time feminino.

“O Vitória tem um problema muito mais grave do que esse, que é conseguir equacionar esse saco de problemas que nós herdamos e que ainda tenho que ouvir gente preocupada com o futebol feminino. Você vai dizer ‘Paulo, você não se preocupa com o futebol feminino?’. Sim, eu me preocupo com as prioridades do clube. O clube tem prioridades monstruosas, criminosas para absorver e as pessoas estão preocupadas com o que é que o Vitória fez com os R$ 120 mil do futebol feminino”, afirmou.

De acordo com o presidente, o dinheiro destinado pela CBF aos clubes da primeira e segunda divisão do futebol feminino para manter os salários das jogadoras durante a pandemia foi dado ao clube, e é o clube que vai determinar o que será feito com ele. “Eu quero dizer que os R$ 120 mil foram dados ao Vitória, sabe? O presidente do Vitória faz do dinheiro o que ele quiser e assume suas responsabilidades pelos seus atos perante o Conselho Fiscal, está aí o balanço publicado. Nós sabemos o que é melhor para o Vitória.”

Foto: Divulgação

O presidente do Vitória, infelizmente, não está totalmente “errado”. O dinheiro da CBF foi dado aos clubes sem exigência de nenhuma contrapartida e sem a especificação no recibo de que a verba teria que ser usada para o futebol feminino. Por não ter criado um mecanismo de fiscalização que garantisse que o dinheiro chegaria às atletas, a confederação não tem como penalizar as equipes por não fazerem isso. O que a CBF tem feito é denunciar os casos no comitê de ética – o que já foi feito após a declaração de Paulo Carneiro.

Oficialmente, o Vitória diz que irá repassar a verba às atletas, que estão sem receber desde abril. O motivo pelo qual isso ainda não foi feito, segundo o clube, é que o dinheiro ainda está bloqueado na Justiça por conta das dívidas acumuladas pelo time baiano.

“(A fala de Carneiro) É um desabafo, porque estão dando uma dimensão desproporcional a situação do futebol feminino, quando a própria sobrevivência do Vitória está em jogo, fruto das más gestões anteriores, enormes dividas de pagamento a curto prazo, Covid-19 e seus reflexos altamente negativos nas finanças do Clube”, afirmou o diretor jurídico do Vitória, Dilson Pereira.

“A prestação de contas mostra o delicadíssimo estado financeiro do Clube. Quanto à questão de resolver o pagamento do futebol feminino nada mudou. Todo o empenho do Clube para resolver a situação e na medida que o Clube tiver caixa ele fará o pagamento. Para se ter uma ideia, foi divulgada a obtenção de uma decisão judicial ao Clube, mas até hoje o dinheiro não entrou na conta devido a letargia da Justiça, embora diariamente façamos cobrança a respeito do assunto.”

Para complicar ainda mais a situação, as jogadoras do Vitória não têm qualquer contrato assinado com o clube. No fim do ano passado, a gestão de Paulo Carneiro decidiu dispensar as jogadoras que eram CLT e manter apenas um time amador, majoritariamente sub-17, para cumprir a obrigatoriedade de disputar as competições femininas. Elas não recebem nenhum salário, só uma ajuda com transporte e alimentação.

Segundo apurou a reportagem, houve um contato do clube com as jogadoras para pegar as informações de contas bancárias delas e fazer o pagamento da verba destinada pela CBF. No entanto, nenhum valor foi pago até agora.

Vitória é o único time nordestino na primeira divisão do Brasileiro feminino; clube entrará com equipe sub-17 para a disputa em 2020 (Foto: Divulgação)

Sem o contrato formal, fica mais difícil para elas reivindicar pagamentos do clube na Justiça. Quando o clube atrasa pagamentos a jogadores do time masculino, o atleta tem respaldo da legislação trabalhista para exigir seus direitos “rapidamente”. São dívidas como essa, inclusive, no futebol masculino que levaram o Vitória a essa situação lamentável (de penhora de bens e bloqueio de dinheiro na Justiça). Mas no caso do futebol feminino, o processo seria muito mais complexo, já que não há contrato assinado entre as partes (nem pela CLT, nem sem a CLT).

Diante dessa situação, as jogadoras do Vitória ficam à mercê de dirigentes que fazem pouco caso da modalidade. O Vitória, que não valoriza o trabalho do futebol feminino no clube (que conquistou de maneira honrosa uma vaga na primeira divisão e se manteve lá ano passado), e a CBF que não fez o trabalho que deveria para assegurar juridicamente que o dinheiro doado para manter salários das atletas seria efetivamente aplicado nisso – o Vitória não foi o único clube que hesitou em repassar a verba ao futebol feminino.

Enquanto o imbróglio jurídico e financeiro não se resolve, a Frente Vitória Popular criou uma vaquinha online para arrecadar dinheiro para ajudar as atletas nesse momento difícil.

É triste ver o futebol feminino nas mãos de dirigentes tão preconceituosos e desrespeitosos como Paulo Carneiro. Por outro lado, a torcida rubro-negra abraçou de verdade as Leoas e tem cobrado o clube pelos direitos delas.

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Quase um ano depois, Fifa tem dificuldade de reconhecer recorde de Marta http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/06/11/quase-um-ano-depois-fifa-tem-dificuldade-de-reconhecer-recorde-de-marta/ http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/06/11/quase-um-ano-depois-fifa-tem-dificuldade-de-reconhecer-recorde-de-marta/#respond Thu, 11 Jun 2020 07:00:06 +0000 http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/?p=10318

Foto: Reuters

Já faz quase um ano que Marta fez seu décimo sétimo gol em Copas do Mundo e se tornou a maior artilheira da história do torneio entre homens e mulheres. Ela começou o Mundial da França (o quinto de sua carreira) com 15 gols somados, fez mais dois ao longo da competição e, com isso, ultrapassou os 16 do alemão Miroslav Klose, que até então detinha o recorde.

Na imprensa do mundo inteiro, a notícia repercutiu. “Marta quebra recorde de gols de torneio feminino e masculino”, afirmou a BBC. “Marta quebra o recorde de Klose em Copas do Mundo”, disse o The Guardian. “Marta supera Klose como maior artilheira de todos os tempos da Copa do Mundo”, noticiou o USA Today. A própria Fifa escreveu em seu website no dia 18 de junho de 2019 que “Marta fez um gol histórico, ultrapassando Miroslav Klose para se tornar a maior artilheira de Copas do Mundo – femininas e masculinas”.

No entanto, praticamente um ano depois, a própria entidade mostrou que ainda tem dificuldade de reconhecer o feito da brasileira. “Feliz Aniversário de 42 anos para o maior artilheiro de todos os tempos da Copa do Mundo, Miroslav Klose”, escreveu a entidade no twitter oficial da Copa do Mundo. Não foram poucos os perfis que questionaram a afirmação postando o nome ou a foto de Marta.

A matemática deveria ser lógica – e óbvia. Aliás, ela é, o que infelizmente ainda não tem lógica é o preconceito que insiste em diminuir o feito de uma mulher quando ela ultrapassa o de um homem. Marta tem 17 gols em Copas do Mundo. Klose tem 16 gols em Copas do Mundo. Quem tem mais ?

A Fifa se esquivou de responder quem seria o maior artilheiro da história das Copas, conforme nosso questionamento à entidade. Em nota enviada ao blog, ela afirma que “Miroslav Klose é o maior goleador de todos os tempos da Copa do Mundo da FIFA com 16 gols e Marta é a maior goleadora de todos os tempos da Copa do Mundo Feminina da FIFA com 17 gols”.

É interessante notar que, quando não era uma mulher que estava no topo desta lista, não havia distinção sobre os torneios femininos e masculinos. Dizia-se que Klose era o maior artilheiro da história das Copas com 16 gols, seguido por Ronaldo e Marta com 15. Bastou a brasileira ultrapassar os dois para esse ranking sempre tão comentado”perder a validade”. Muitos passaram a dizer que não fazia sentido colocar artilheiros da Copa masculina e artilheiras da Copa feminina na mesma lista.

Achar que essa contagem deve ser separada por gênero é um argumento. Klose é o maior artilheiro entre os homens. Marta é a maior artilheira entre as mulheres – mas é também a maior artilheira entre os homens, já que nenhum deles tem 17 gols ou mais.

O que se tenta fazer com esse debate, na maioria das vezes, não é garantir uma contagem separada do artilheiro das Copas masculinas e a artilheira das Copas femininas. Os argumentos costumam vir sempre no sentido de diminuir o feito dela “porque foi contra mulheres”. Como se isso automaticamente significasse que os gols foram “piores” ou “mais fáceis de marcar”.

Foto: CBF

Dizem que os adversários da Marta são incomparáveis aos de Klose. Engraçado que nunca ninguém ficou comparando os adversários contra quem ele marcou com os adversários contra os quais Ronaldo marcou para entender quem dos dois tinha mais mérito no feito. Afinal, a Copa do Mundo masculina também tem seleções fracas que viram saco de pancadas e algumas delas foram alvo do alemão, como Arábia Saudita, Irlanda, Camarões, Austrália, Gana…isso deveria servir para alguém “desmerecer” seu posto (sustentado por cinco anos) de maior artilheiro da história das Copas? Não.

Cada um dos 16 gols que Klose fez tem uma importância histórica, afinal quantos jogadores conseguem marcar um gol sequer em uma Copa do Mundo? Sendo assim, mesmo sem figurar na lista dos maiores jogadores da história do futebol mundial, Klose deixou seu nome marcado na artilharia do principal torneio de futebol do mundo.

Assim como os 17 gols que Marta fez nas cinco Copas que disputou deveriam ser valorizados como tal. Os 17 significam 16+1, ou seja, significam que ela lidera essa lista. E se os críticos ao menos se importassem em pesquisar contra quem e como foram marcados os gols da nossa camisa 10, provavelmente se impressionariam com a qualidade e habilidade da brasileira – esta, sim, considerada uma das maiores jogadoras da história do futebol mundial e, coincidentemente, também a maior artilheira do principal torneio de futebol do mundo.

Foto: Getty

“Futebol feminino”, muitos farão questão de “corrigir”. Por que, então, não falamos “futebol masculino” sempre que nos referimos a homens jogando? Mais do que isso, por que todos os recordes conquistados por mulheres sempre são estigmatizados como “femininos”, ainda que sejam maiores do que os conquistados por homens da mesma modalidade?

Quando falam em “maior tenista de todos os tempos”, normalmente citam os nomes de Roger Federer, mas não mencionam Serena Williams, apesar de ela ser a maior vencedora de Grand Slams (ela tem 23, ele tem 20). Ela seria “a maior vencedora do tênis feminino”, enquanto ele seria “o maior vencedor do tênis”. Quando a CBF fala em “maiores artilheiros da seleção brasileira de futebol”, ela não menciona que Marta lidera a lista, e só coloca homens no ranking. Mas a seleção brasileira de futebol, então, é apenas a seleção masculina? Quando ela fala em “atleta com mais jogos pela seleção brasileira de futebol”, ela fala em Cafu, e não menciona Formiga, que já superou o lateral nesse posto. Então jogos femininos teriam menos valor do que jogos masculinos na contagem? Gols marcados em competições femininas são menos importantes do que gols marcados em competições masculinas?

(Foto: CBF)

Essa ideia de que qualquer coisa feita por uma mulher vale menos é o que embasou a desigualdade de gênero imposta na sociedade desde que o mundo é mundo. É baseado nisso que mulheres ganham menos do que homens para desempenhar a mesma função no mercado de trabalho (segundo levantamento mais recente do IBGE, elas ganham 20,5% a menos do que eles no mesmo cargo). E é essa máxima que sempre marginalizou as mulheres no futebol e fez com que elas fossem até mesmo proibidas de praticar esse esporte por quatro décadas.

Dentro desse contexto, quando surge uma jogadora que vence por seis vezes o prêmio de melhor do mundo da Fifa, que assume a artilharia absoluta da história das Copas do Mundo e que soma mais de 100 gols com a camisa da seleção brasileira, ela deve ser exaltada, e não diminuída. É triste ver tantos homens no Brasil preferirem ressaltar o feito de um jogador alemão bom (longe de figurar na lista dos melhores do mundo) a reconhecerem o mérito de uma jogadora brasileira considerada por muitos a melhor de todos os tempos.

E, no caso da Fifa, que nos últimos tempos tem feito questão de mostrar seu engajamento no futebol feminino, seria no mínimo justo o reconhecimento de que, atualmente, quem tem mais gols marcados na história das Copas do Mundo é uma mulher que atende pelo nome de Marta Vieira da Silva.

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Há um ano, Copa do Mundo na França quebrava ‘mitos’ do futebol feminino http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/06/09/ha-um-ano-copa-do-mundo-na-franca-quebrava-mitos-do-futebol-feminino/ http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/06/09/ha-um-ano-copa-do-mundo-na-franca-quebrava-mitos-do-futebol-feminino/#respond Tue, 09 Jun 2020 07:00:13 +0000 http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/?p=10311

Foto: CBF

No dia 9 de junho de 2019, a seleção brasileira feminina estreava na Copa do Mundo da França para vencer a Jamaica por 3 a 0 em Grenoble, com um ‘hat trick’ inesquecível da atacante Cristiane. Aquele foi o começo “oficial” do Mundial no Brasil, porque foi o primeiro jogo que a TV Globo transmitiu em rede nacional. Dali em diante, as mulheres fariam história em um torneio que quebraria todos os “mitos” já inventados sobre o futebol feminino.

Aqui, uma retrospectiva deles:

– Futebol feminino não dá audiência

Essa máxima sempre foi muito repetida, não só pelos preconceituosos que não suportam a ideia de ver o futebol feminino em evidência, como também por muitos jornalistas esportivos, que tinham certeza de que ninguém ligaria a televisão ou clicaria em uma matéria para ver mulheres em campo. E acreditando piamente nisso, nenhuma TV ou jornal cobria a Copa do Mundo feminina da forma como faziam com a Copa masculina. Os jogos até eram transmitidos (às vezes em TV aberta, na Band, e em fechada no SporTV), mas pouco se falava deles ao longo da programação. Sem saber que havia um Mundial acontecendo, era impossível ter gente interessada em assistir às partidas.

Isso mudou em 2019. Com o anúncio da cobertura completa da Copa feminina na Globo pela primeira vez, o assunto povoou os principais programas da emissora nos meses que antecederam o torneio e, logo na estreia da seleção brasileira – com direito a narração de Galvão Bueno e comentários de Ana Thais Matos e Caio Ribeiro -, uma prova de que o futebol das mulheres tinha um enorme potencial com a audiência.

Foto: Reuters

Os dados oficiais da Fifa mostram que 19,7 milhões de brasileiros acompanharam Brasil x Jamaica no dia 9 de junho de 2019. Esse número já era a segunda maior audiência da história da Copa do Mundo feminina, mas só cresceria daí em diante. A partida contra Itália (terceira da fase de grupos) em plena terça-feira num horário útil para os brasileiros somou 22,6 milhões de espectadores na audiência. E para fechar, o Brasil finalmente emplacou um novo recorde para o Mundial das mulheres: 35 milhões assistiram ao jogo entre a seleção brasileira e a França nas oitavas de final, maior audiência da história do torneio em todo o planeta.

Sem falar que até mesmo a final entre Estados Unidos e Holanda (ou seja, sem Brasil em campo), registrou mais de 19 milhões de brasileiros assistindo, uma audiência maior do que a registrada nos dois países que disputavam o título. No mundo todo, mais de 1 bilhão de pessoas acompanharam o Mundial na França pela TV.

Com números tão expressivos como esses, já não dá mais para dizer que “futebol feminino não dá audiência”.

Foto: Reprodução TV Globo

– Ninguém liga para futebol feminino

Essa é outra frase clássica. Da mesma leva do pessoal que repetia que futebol feminino não dava audiência. Mas além dos números expressivos da TV, outros dados de redes sociais mostram o interesse elevado do público em saber mais sobre futebol feminino.

A começar pelas buscas do Google. Após a estreia do Brasil contra a Jamaica, a procura pelo nome de Cristiane no site aumentou 7.800%. As pessoas também buscaram informações sobre a seleção feminina e a história do futebol das mulheres, como “quantas Copas tem a Seleção feminina de futebol?” ou “quando começou o futebol feminino no Brasil?” e “quando surgiu o futebol feminino no Brasil?”.

Foto: CBF

Além disso, palavras relacionadas ao jogo do Brasil figuraram no trending topics ao longo do dia da estreia da seleção e o assunto teve um alcance superior a 92 milhões de pessoas na partida contra a Itália.

Como algo sobre o qual “ninguém liga” vai conseguir atingir tanta gente, reunir tantas pessoas em frente à TV e despertar tantas conversas nas redes sociais? Imagina se ligassem, né…

– Mulher não sabe jogar futebol

Esse é outro clássico que toda menina que já ousou jogar bola nessa vida já ouviu. A Copa do Mundo da França comprovou que craques entre as mulheres não faltam. Foram 30 dias vendo em ação algumas das melhores jogadoras do mundo. Teve golaço de falta (como o da Cris contra a Jamaica, ou da Megan Rapinoe contra a França), tabelas bonitas daquelas de levantar a arquibancada (como foi a jogada do segundo gol do Brasil contra a Austrália), “dibres” para ninguém botar defeito (vide as canetas que Tamires distribuiu principalmente contra as australianas).

E para fechar com chave de ouro, ainda teve uma mulher quebrando um recorde muito significativo. No jogo contra a Itália, Marta marcou o gol da vitória por 1 a 0, o seu 17º gol em Mundiais. Com isso, ela se tornou a maior artilheira da história das Copas do Mundo, ultrapassando o alemão Miroslav Klose, que tem 16.

Foto: Reuters

Na saída do campo, a camisa 10 fez questão de dividir essa conquista com todas as mulheres. “Esse recorde é nosso, é de todas as mulheres que estão lutando por melhorias em todos os setores. Divido com todas vocês que lutam, batalham e ainda têm que provar que são capazes de desempenhar qualquer tipo de atividade. É nosso esse recorde”, afirmou.

Tem muita gente que prefere diminuir o feito de uma brasileira, considerada por muitos a maior jogadora de futebol de todos os tempos, e defender um jogador alemão mediano afirmando que os gols que Marta fez teriam menos relevância ou qualidade que os de Klose por ela jogar com mulheres. Deixa que digam, que pensem, que falem, o fato continua sendo um só: Marta tem 17 gols em Copas, Klose tem 16, Ronaldo tem 15.

– Mulher não entende de futebol

Mais uma frase que toda mulher que gosta de futebol já ouviu. A essa altura da humanidade, essa máxima já deveria estar morta e enterrada, eventualmente ressuscitada em forma de piada nível “tio do pavê” para todo mundo rir da tolice que isso um dia representou. Infelizmente, ainda tem quem insista nessa ideia sem nexo.

 

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Nas coberturas esportivas, ainda é raro encontrar tantas mulheres. A gente costuma se sentir “estranhas no ninho” com as salas de imprensa lotadas de homens, as coletivas, as zonas mistas. Quantas de nós já não recebemos cantadas ou respostas grosseiras, tentativas de nos diminuir porque “somos mulheres, não jogamos bola, não entendemos de futebol”. Deixa que digam, que pensem, que falem. Nós seguiremos ~dibrando todos eles e ocupando nossos espaços. Aqui uma parte das mulheres desta cobertura de Copa do Mundo feminina. Podem ter certeza que nós, brasileiras, estamos bem representadas (faltaram nas fotos @anacarolina_etc , Tatiana Furtado, @elasnoataque.cb e @jogamiga ). Sem falar naquelas que estão dando show nos comentários (@nadjapm @anathaismatos @alline.calandrini , @milenedomingues ), nas narrações (@narradoraelaine @natalialaragc ) e nas reportagens lá do Brasil ( @juarreguy , @olgabagatini , @cintiabarlem , @jogadelas , @donasdoplacar , @mamilospod , @camila_carelli , @mayrasiqueira9 ) e tantas outras. Who run the World? #copadomundofeminina #futebol #futebolfeminino #mulheresnojornalismo #selecaofeminina #seleçãobrasileira #jornalistas #copadomundo #mulheresfortes #mulheresnopoder #girlpower #deixaelatrabalhar #visibilidadeparaofutebolfeminino #dibrasnacopa

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Então a Copa do Mundo da França respondeu com uma cobertura amplamente feminina da mídia brasileira. Se normalmente o ambiente de cobertura de um Mundial é majoritariamente dominado por homens, no ano passado, ao menos entre os veículos brasileiros, as mulheres eram absolutas. Globo, ESPN, Uol, Correio Brasiliense, jornal O Globo, todos eles tinham representantes femininas na cobertura. Em determinado momento, conseguimos juntar 10 mulheres da mídia brasileira na sala de imprensa do estádio, fora as que não estavam ali na hora. No Brasil, elas também tiveram protagonismo, com Ana Thais Matos e Nadja Mauad comandando os comentários dos principais jogos na Globo e SporTV, e Alline Calandrini fazendo o mesmo na Band.

Tudo isso não pra dizer que “mulheres devem cobrir futebol feminino e homens devem cobrir futebol masculino”. O futebol é o mesmo, e a qualidade da Copa do ano passado (em campo e nas transmissões) comprovou isso. Mas foi importante ver a representatividade feminina na cobertura do Mundial na França – apesar de que, no quesito representatividade negra, ainda precisamos avançar muito no Jornalismo Esportivo. Que essa voz feminina na cobertura do futebol chegue também à Copa do Catar em 2022, porque mulher competente não falta nas redações de esporte no Brasil.

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Elas lutam por espaço nas arquibancadas e foram às ruas pela democracia http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/06/05/elas-lutam-por-espaco-nas-arquibancadas-e-foram-as-ruas-pela-democracia/ http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/06/05/elas-lutam-por-espaco-nas-arquibancadas-e-foram-as-ruas-pela-democracia/#respond Fri, 05 Jun 2020 07:00:04 +0000 http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/?p=10284

Torcedoras do Corinthians em protesto na Avenida Paulista (Foto: Acervo pessoal/Dada Ganam)

Mulheres que amam futebol e frequentam espaços esportivos, são impedidas de opinar, de torcer, de jogar. Na sociedade, historicamente, elas também foram (e ainda são) impelidas de adquirir direitos fundamentais e ocupar espaços ainda restritos.

No último domingo (31/5), a capital paulista foi palco de uma grande onda de protestos em favor da democracia e contra o governo comandado pelo presidente Jair Bolsonaro. O ato foi organizado por torcidas de futebol – organizadas e antifascistas – e as mulheres que fazem parte desses movimentos também marcaram presença.

Movidas por um ideal, as mulheres que estiveram na maior avenida de São Paulo, pediram por democracia porque entendem que essa luta é importante na sociedade.

“Tinham mulheres de diversas torcidas (no protesto) e eu achei que essa nossa presença lá foi importante para também demarcar espaço do ponto de vista também da política, porque a gente faz toda uma luta política para estar dentro do estádio e da arquibancada. Só que não é só o futebol que é excludente para as mulheres, a política muitas vezes também é. E ter mulheres participando de manifestações de rua, já que historicamente as mulheres também foram muito importantes no combate ao fascismo, é uma forma da gente se ver representada lá”, contou a estudante Marina, de 24 anos, palmeirense e que esteve presente na manifestação.

+ Para mulheres, jogar futebol já foi caso de polícia durante a ditadura

(Foto: Pam Santos)

O desfecho desse protesto não foi nada pacífico. Depois de caminharem pela principal avenida de São Paulo, os torcedores – em sua maioria – entraram em conflito com um pequeno grupo de apoiadores do presidente. A PM agiu entre os manifestantes usando bombas de efeito moral, balas de borracha e muita gente saiu ferida desse embate. 

A pauta do protesto organizado por torcedores dos quatro grandes clubes do estado (Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo) era muito clara: reforçar a importância dos direitos democráticos da população, sem levantar bandeira partidária. Até mesmo instruções sobre o vestuário os torcedores receberam.

Dadá Ganam, de 38 anos e torcedora de uma das torcidas organizadas do Corinthians, reforçou esse pedido. “A ideia éramos ir todos de preto, sem roupas de times e evitar qualquer tipo de confronto. Não haviam só torcedores de futebol ali, mas esse era um momento importante, inclusive de politizar a torcida.”

Resistência feminina

“Basta uma crise política, econômica e religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados”, disse Simone de Beauvoir, escritora, filósofa e ativista política francesa. E é em meio à pandemia – onde diariamente mais de mil pessoas morrem por conta do Coronavírus – que as mulheres também correm riscos onde deveriam estar seguras: dentro de casa.

Em abril, quando o isolamento social imposto pela pandemia já durava mais de um mês, a quantidade de denúncias de violência contra a mulher recebidas no canal 180 deu um salto: cresceu quase 40% em relação ao mesmo mês de 2019, segundo dados do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMDH).

(Foto: Rafael Vilela)

+ Violência contra a mulher aumenta em meio à pandemia; denúncias ao 180 sobem 40%

Marina, torcedora palmeirense, revelou que o que a motivou a ir ao protesto foi o sentimento angustiante de indignação política que vem sentindo durante a pandemia. Mas ela também entende que, como mulher, era importante marcar presença nesse ato. “Ainda mais com o discurso que o governo tem de ignorar os problemas da pandemia, a gente vê as mortes e as doenças, mas sabemos que quem mais sofre com isso é a galera que está na periferia. Mas, para além dessas questões de saúde, a gente tem visto o aumento da violência doméstica nesse período por conta da pandemia e por falta de políticas públicas por parte do estado”, declarou.

E é claro que o futebol reproduz diversos cerceamentos que a mulher já está acostumada a viver no dia-a-dia. Na arquibancada, as torcedoras sofrem violência, assédio, machismo, racismo e LGBTfobia. Dentro de torcidas organizadas, as mulheres assumem papéis restritos, não têm voz ativa e, muitas vezes, são proibidas de frequentar estádios em outros estados e participar de viagens e caravanas.

Dadá tem experiência em frequentar esse espaço, e por mais que ele seja excludente, ela segue resistente. E foi cobrando os líderes de sua torcida que ela garantiu sua presença no último ato. “Quis estar lá porque na primeira manifestação que aconteceu, poucas mulheres estavam presentes, a maioria era homens. Como eu sabia quem eram as pessoas que estavam à frente disso, falei com eles e cobrei sobre a falta da presença feminina na manifestação. Eles me falaram que o primeiro chamado aconteceu de última hora, que organizaram entre eles e que para o próximo, fariam uma reunião para convocar todo mundo”, detalhou.

Cordão formado por mulheres no protesto (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

No último domingo, a torcedora corinthiana fez parte – ao lado de cerca de 15 mulheres – de um cordão de isolamento onde elas deram os braços e assumiram a linha de frente do protesto. “Eu ouvi um cara falar assim atrás de mim: ‘quem são essas minas aí na frente? Não é perigoso, não?’ Eu já virei pra trás, na hora, e falei: ‘quer ficar do meu lado, irmão?’ E aí um outro homem precisou afirmar que iríamos ficar ali para que pudesse legitimar nossa presença na frente do coletivo”, contou. Esse cordão foi formado por mulheres, nem todas de organizadas e algumas de movimentos como o MTST e MST.

Dadá é mãe de um garotinho de 4 anos e mesmo sabendo do risco que corria, fez parte da manifestação. Marina não é mãe, mas valorizou as mulheres que enfrentam jornadas exaustivas de trabalho. “Não é fácil ser mulher no Brasil. Significa ter, muitas vezes, uma jornada dupla ou tripla de trabalho, significa ter uma responsabilidade com os filhos que muitos homens não tem. E mesmo assim a gente está na luta, a gente está no estádio por uma paixão que nos move. Seja por amor ao clube, ou pela indignação que eu senti por ter ido até a Paulista no domingo. Temos que ser valorizadas e lutar para conseguir nossos espaços. Acredito que isso faz parte tanto da política dos clubes como da torcida como um todo, de enxergar as mulheres no futebol, não só na torcida, mas também no futebol feminino que é algo urgente para se pensar.”

As duas estavam presentes no momento em que a Polícia Militar entrou em confronto contra os manifestantes e segundo elas, a repressão foi fora do comum. “Estávamos somente reivindicando nosso direito de democracia e teve aquela repressão desproporcional contra nós. Enquanto do outro lado, pessoas com arma branca, reivindicando ditadura, nazismo e fascismo, mas com proteção amigável. Isso mostra o papel autoritário e o braço armado do estado”, disse Marina.

Dadá e seu filho Sócrates (Foto: Acervo pessoal)

Dadá recorda que a confusão começou quando um pequeno grupo de apoiadores do presidente apareceram pelas paralelas do MASP, todos fardados com roupas militares, hasteando bandeiras e indo pra cima dos manifestantes.

“Eles (apoiadores do Bolsonaro) passaram entre nós e começaram zombar, provocar. Foi aí que aconteceu o estopim e a polícia já estava na nossa frente, nos batendo. Eu estava ali, não tinha jeito de atravessar por conta da polícia que já estava fazendo cordão na gente, com bomba e tiro. E aí eu pensei em revidar, em ir pra cima para sair dali porque não estava mais conseguindo respirar por conta de tanta bomba, tiro e gás de pimenta na nossa cara.”

Dadá chegou na Avenida Paulista às 11h e saiu de lá pouco depois das 17h. “Quando estava indo embora, sentido Consolação, várias bombas estavam sendo atacadas em nós, de muito longe. As bombas caiam na minha frente, eu estava andando mais rápido porque se eu corresse, eu ia morrer sufocada.”

Buscando espaço na arquibancada e na sociedade

Engana-se quem pensa que o lugar delas não é no estádio, que o futebol é apenas coisa de homem. Esse tipo de discurso não cabe mais nos dias atuais. E há números que comprovam a crescente presença feminina nos estádios, como por exemplo o levantamento feito pelo Esporte Clube Bahia em agosto de 2018. O estudo mostrou que 69% das torcedoras do clube têm vivência de estádio e ainda assim, 23% delas declararam ter sofrido algum tipo de discriminação nas arquibancadas pelo simples fato de serem mulheres.

Para Dadá, a presença das torcedoras na manifestação é mais uma maneira de demonstrar o quanto elas são importantes e necessárias, seja para lutar pela democracia nas ruas como para empunhar a bandeira de seus times do coração na arquibancada.

“O momento de combater alguma coisa dentro das arquibancadas, das torcidas, seja onde for, é em outro lugar, em outro momento. Agora, é importante a mulher estar atuando, a torcedora estar presente pelo momento de democracia e aí então, mostrando que estávamos presentes nessa hora de combate, na linha de frente, depois levaremos a pauta lá pra dentro.”

(Foto: Rafael Vilela)

“Foi um momento de extrema importância estar ali, estar naquele cordão. Foi forte para essa nossa luta também. Uma coisa acaba levando a outra. Espero que as outras minas que ali estavam, entendam que essa nossa presença pode ser usada em nosso favor dentro do estádio. Espero que elas tenham essa mesma visão”, completou a corinthiana.

Marina, que critica o alto preço do ingresso e o cerco imposto aos torcedores por parte da política do Palmeiras, reforça a importância da mulher em momentos de reivindicação. “Nos últimos anos, vem se fortalecendo a construção de coletivos feministas na sociedade, até mesmo na torcida do Palmeiras tem alguns grupos só de mulheres, tem iniciativa de mulheres, de denúncias de assédio, tem campanhas políticas do clube e das torcidas. Eu, como mulher em uma arquibancada, me coloco muito em uma posição de, sempre que possível, denunciar os casos de opressão, machismo, racismo. LGBTfobia, mas também tento fortalecer outras mulheres e de resistir, porque esse também é nosso espaço.”

Para a palmeirense, o ato não foi pequeno e foi fundamental para colocar em pauta o debate sobre democracia e as denúncias do governo. “Sinto que estamos em um momento aqui no Brasil como se um vulcão estivesse em erupção, prestes a explodir. E espero muito que esse último domingo tenha sido um passo para a nossa explosão.”

Um novo ato está marcado para o próximo domingo (07) em São Paulo. Marina e Dadá pretendem participar novamente.

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Por que saída de Marco Aurélio Cunha da CBF foi comemorada – e necessária http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/06/03/por-que-saida-de-marco-aurelio-cunha-da-cbf-foi-comemorada-e-necessaria/ http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/06/03/por-que-saida-de-marco-aurelio-cunha-da-cbf-foi-comemorada-e-necessaria/#respond Wed, 03 Jun 2020 07:00:04 +0000 http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/?p=10288

Mowa Press

A CBF anunciou na noite desta terça-feira a saída do coordenador de seleções femininas, Marco Aurélio Cunha, do cargo “em comum acordo”. Com intenção declarada de disputar a eleição para presidência do São Paulo, Mac, como é conhecido, se retirou da CBF já com foco na sua candidatura ao clube do coração. O dirigente, que havia assumido a função em 2015, sai após cinco anos de alguns acertos, algumas polêmicas e muitos questionamentos.

Relembramos aqui os pontos positivos e negativos da sua gestão e, principalmente, por que ele não era mais o nome certo para ocupar uma função tão importante para o desenvolvimento do futebol feminino no Brasil.

Faltou conhecimento de futebol feminino

Marco Aurélio Cunha foi convidado para o cargo de Coordenador de Seleções Femininas na CBF ainda pelo ex-presidente da entidade, Marco Polo Del Nero, em maio de 2015, às vésperas da Copa do Mundo do Canadá. Um nome forte da cartolagem, ele traria experiência de décadas de trabalho no futebol masculino, mas nenhum conhecimento específico sobre o feminino – que tem desafios distintos, principalmente no desenvolvimento da modalidade.

Até aí, isso não precisaria ser um problema. Cargos da CBF exigem uma “habilidade política” e a presença de um personagem conhecido e já experiente com isso poderia ser benéfico – desde que ele se cercasse de gente do futebol feminino e se propusesse a ouvir os questionamentos dessas pessoas para determinar a melhor estratégia para a modalidade.

Nas duas vezes em que se criaram comitês com ex-jogadoras, jornalistas e especialistas no futebol feminino para elaborar um plano de ação, nada de concreto foi colocado em prática. Isso aconteceu em março de 2016 e depois em outubro de 2017.

A visibilidade que Marco Aurélio trouxe para a modalidade apenas com o seu nome ali – que fez com que o futebol feminino muitas vezes virasse notícia na grande mídia – foi um ponto positivo no início, mas a falta de conhecimento dele sobre os desafios a serem enfrentados ficou marcada em algumas entrevistas ao longo do seu trabalho.

A começar pela mais polêmica (e machista) delas. Durante a Copa do Mundo do Canadá em 2015, Mac deu uma entrevista para o jornal canadense The Globe and Mail falando sobre como as jogadoras estavam ficando “mais bonitas e elegantes” – como se o objetivo de uma seleção brasileira de futebol fosse a beleza, e não os gols.

“Agora, as mulheres estão ficando mais bonitas, usando maquiagem. Elas vão a campo elegantes. O futebol feminino costumava copiar o masculino. Até mesmo o modelo das camisas eram mais masculinizados. Costumávamos vestir as mulheres como homens. Então, faltava ao time o espírito de elegância e feminilidade. Agora, os shorts são um pouco mais curtos, e o estilo dos cabelos mais cuidadosos. Não são mais mulheres vestidas como homens”.

Em outubro de 2017, em entrevista às dibradoras, Marco disse que “não existia mais preconceito” com o futebol feminino e comparou o machismo que já proibiu as mulheres por lei de jogarem futebol (e até hoje cria barreiras para elas nos gramados) a ofensas sobre sua altura.

“O preconceito está na cabeça de cada um. Quando alguém me chama de baixinho e fala isso de forma ofensiva, se eu achar que é ofensa, vou me sentir ofendido. A ofensa está em quem recebe a ofensa. O preconceito está em quem imagina-se preconceituado”, afirmou.

Foto: CBF

Decisões técnicas injustificáveis

Ao longo dos cinco anos em que Marco Aurélio Cunha esteve no cargo, a seleção feminina principal teve três técnicos (Vadão, Emily, Vadão novamente e Pia) e mudanças bastante questionadas. Após a queda nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2015 e eliminação na semifinal da Rio-2016 (com a perda do bronze para o Canadá), Vadão foi demitido, e a CBF anunciou a contratação da primeira mulher a comandar uma seleção brasileira de futebol, Emily Lima. Dez meses depois e, sem ter disputado nenhuma competição oficial, com 56% de aproveitamento, ela foi demitida. A opção foi pelo retorno de Vadão ao cargo.

Houve um movimento grande das jogadoras que pediram a permanência da treinadora, mas não foram ouvidas nem pelo coordenador, nem pelo presidente da CBF. O que realmente mais chocou da decisão foi a volta de um treinador que, há menos de um ano, havia sido demitido do mesmo cargo. O novo período de Vadão no cargo foi mais conturbado e os resultados não vieram – até abril de 2019, o técnico somou a dolorosa sequência de nove derrotas consecutivas. Ainda assim, ele foi mantido e se tornou o único treinador a comandar a seleção feminina em dois Mundiais – na França, a queda também aconteceu nas oitavas de final, depois da suada classificação em terceiro lugar na primeira fase.

(Foto: Laís Torres/CBF)

Após a Copa, a CBF passou a ser bastante pressionada pela demissão de Vadão e pela escolha de um nome mais forte para o comando da seleção feminina. Foi aí que Mac saiu um pouco de cena. No anúncio da bicampeã olímpica Pia Sundhage para o cargo, ele não apareceu no palco, e ficou de escanteio enquanto o presidente da CBF, Rogério Caboclo, dava as boas-vindas a ela.

Outra decisão técnica bastante questionada do coordenador foi a que ele não tomou. As seleções femininas sub-17 e sub-20 ficaram quase um ano sem técnico e sem nenhuma convocação (de outubro de 2018 a agosto de 2019). Seria responsabilidade dele formar as novas comissões – depois das demissões dos antigos treinadores – e zelar também pelas seleções de base que, por quase um ano, ficaram sem atividade.

Melhor estrutura, mas ainda pouco desenvolvimento

A seleção feminina não costumava ter acesso à melhor estrutura de treinamento da Granja Comary e nunca era “prioridade” no calendário do centro de treinamento – isso significa que, quando qualquer seleção masculina chegasse ao local (inclusive as de base), eram elas que tinham que sair ou usar os campos auxiliares. Agora, elas têm o mesmo acesso que a seleção principal dos homens no local. Além disso, o planejamento da CBF para as competições costumava ter viagens em cima da hora, sem qualquer aclimatação. Na Copa de 2015, o Brasil chegou ao Canadá quatro dias antes da estreia – na França, a seleção viajou quase 20 dias antes do primeiro jogo, passou dez dias de aclimatação em Portugal e teve uma preparação física mais intensa já no fuso-horário da competição.

Houve também a seleção permanente em 2016, que garantiu um condicionamento físico muito bom para as jogadoras (que eram “contratadas” da seleção e não atuavam em nenhum outro clube) e projetou as atletas para equipes do exterior. Mas esse é um projeto que não desenvolve a modalidade como um todo no país – se você mantém jogadoras contratadas pela CBF, como vai desenvolver o futebol feminino nos clubes e melhorar as competições nacionais?

Primeira convocação de Pia Sundhage pela seleção brasileira (Foto: dibradoras)

Ainda assim, apesar das melhorias da seleção principal, houve poucas ações para planejar o desenvolvimento efetivo da modalidade no país. Seria essencial, por exemplo, a criação de um departamento de futebol feminino que pudesse elaborar um plano estratégico em todas as frentes – competições, clubes, base e seleções – para garantir uma evolução contínua e alinhada. A presença de pessoas envolvidas com a modalidade há mais tempo era essencial para isso, mas até hoje a gestão do futebol feminino na CBF é feita majoritariamente por quem não tem experiência nele (exceção feita a Romeu Castro, coordenador de competições femininas).

Perspectivas pós-Mac

Essa não é a primeira vez que Marco Aurélio Cunha deixa seu cargo de coordenador das seleções femininas pelo São Paulo. Entre setembro de 2016 a janeiro de 2017, o dirigente tirou uma licença da CBF para ser diretor executivo no clube do Morumbi. A prioridade do cartola parece ser realmente voltar ao time do coração, onde até hoje é bastante adorado por muitos torcedores.

Ele deixa o cargo na entidade depois de atingido um objetivo do qual sempre falou desde que assumiu a função: recolocar o futebol feminino na TV. No ano passado, a Band fechou acordo com a CBF para transmitir o Brasileiro feminino todos os domingos.

Agora, o substituto de Marco Aurélio deverá ser mais uma mudança histórica na confederação, que está determinada a trazer uma mulher para a função. Será a primeira representante feminina a assumir o cargo. O nome mais forte é o de Aline Pellegrino, ex-capitã da seleção feminina e atual diretora de futebol feminino da FPF (onde trabalha na gestão da modalidade desde 2016).

 

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Inspirada na Leoa, estreante baiana quer estar entre as melhores no UFC http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/06/01/inspirada-na-leoa-estreante-baiana-quer-estar-entre-as-melhores-no-ufc/ http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/06/01/inspirada-na-leoa-estreante-baiana-quer-estar-entre-as-melhores-no-ufc/#respond Mon, 01 Jun 2020 07:00:29 +0000 http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/?p=10277

Foto: UFC

*Por Juliana Lisboa para a coluna ~dibres com dendê

O ano de 2020 prometia muito para Virna Jandiroba: a baiana de Serrinha tinha terminado 2019 em alta, conquistando sua primeira vitória no UFC em dezembro ao bater Mallory Martin por submissão.

Um resultado importante pra ela, que tinha perdido sua primeira luta enquanto atleta de MMA logo na sua estreia no maior evento da modalidade (ela foi superada por Carla Sparza por decisão dos árbitros). Até então, tinham sido 14 vitórias em 14 lutas.

Virna começou a lutar bem jovem: aos 12 anos treinou kung fu, e quando tinha 15 já migrou para o jiu-jítsu, onde formou-se profissional. Para poder reunir todas as habilidades adquiridas nessas modalidades e acrescentando outras, como o boxe, a ida para o MMA foi natural. Antes do UFC, Virna já tinha chegado ao auge quando venceu o Invicta FC em 2018, maior evento de MMA feminino do mundo. E dali chegou ao UFC.

Foto: Invicta FC

Com a chegada da Covid-19, a vontade de consolidar esse bom momento foi ficando mais distante da realidade. Mas mesmo com todas as dificuldades de treinar isolada em sua casa, em Feira de Santana, Virna se mostrou bastante positiva com um retorno em grande estilo.

“Eu tenho a sorte de morar com Laís Cerqueira, outra atleta de MMA, e sei que isso é um privilégio. A gente tem material, tatame… (O treino) Fica comprometido pela falta de colegas, de variedade. Fica mais ou menos em 60% ou 70% da intensidade do normal”.

O UFC voltou em 9 de maio, em Jacksonville, na Flórida (EUA) após 50 dias sem atividades. De diferente, a falta de público e a obrigatoriedade de testes em todos os atletas participantes. Foi o que deixou de fora do UFC 249 Ronaldo Jacaré, por exemplo, que testou positivo. A atleta baiana vê o retorno – ainda que com tantas limitações – de forma positiva.

“Eu acho importante que essa retomada seja feita de maneira cautelosa como eles têm feito. Os eventos estão sendo lá nos EUA, com atletas que já estão treinando lá… Como uma forma de não expor as pessoas. É dessa forma que tem que ser”, aponta.

O calendário de lutas continua em aberto.”Ainda não sei quando vão me chamar. Acho que o que vão fazer agora é dar prioridade às lutas que estavam atrasadas, nada mais justo. Eu continuo treinando por aqui, como a atleta de alto rendimento que sou, e, quando me chamarem… Estarei pronta, como sempre estive”, disse.

Outra baiana arretada

O objetivo profissional é simples: “Nunca escondi minha ambição de estar entre as melhores do UFC. Não esqueço e não escondo minha ambição de me tornar campeã da minha categoria (peso palha)”.

Foto: UFC

E, para chegar lá, ela se vale de exemplos bem próximos. A atleta não esconde a admiração por outra baiana no MMA, Amanda “Leoa” Nunes, que recentemente unificou os cinturões de duas categorias do UFC.

“Tenho uma admiração muito grande por Amanda, por todos os feitos dela, já lutamos no jiu-jítsu. Uma baiana, como eu, vinda do interior também. Na minha opinião é a maior de todos os tempos do MMA. Acho que se em alguma comparação é por essa história parecida. Mas cada um tem sua identidade e deve se expressar tal como é.”

Leoa e a namorada Nina (Foto: Reprodução Instagram)

E essa expressividade vem ganhando mais forma durante o isolamento: filha de pai professor e mãe comerciante, Virna é amante da literatura, do cinema e tem uma “quedinha” pela cultura nerd. Basta prestar um pouquinho de atenção nas legendas das fotos do Instagram ou das músicas que ela coloca nos treinos que compartilha com os seguidores para perceber que essa baiana tem mais camadas do que aparenta.

“É muito chato ser a mesma pessoa o tempo todo”, explica, bem-humorada. “Ser atleta é só uma das nossas identidades, né?”

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Clubes cortam salários, dispensam jogadoras e querem nova ajuda da CBF http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/05/21/clubes-cortam-salarios-dispensam-jogadoras-e-querem-nova-ajuda-da-cbf/ http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/05/21/clubes-cortam-salarios-dispensam-jogadoras-e-querem-nova-ajuda-da-cbf/#respond Thu, 21 May 2020 07:00:03 +0000 http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/?p=10267

Vitória é o único time nordestino na primeira divisão do Brasileiro feminino; clube entrará com equipe sub-17 para a disputa em 2020 (Foto: Divulgação)

*Colaborou Juliana Lisboa

Com o futebol paralisado desde março e ainda sem previsão de volta, os clubes vivem uma crise financeira acentuada, que já começa a respingar no futebol feminino em alguns casos. Se alguns times de camisa conseguiram negociar cortes apenas para jogadores do time principal masculino (que têm salários mais altos), outros já reduziram os ganhos das jogadoras e também dispensaram atletas para diminuir seus custos.

Nem mesmo a ajuda da CBF – que destinou R$120 mil para equipes da série A1 e R$50 mil para equipes da série A2 – tem sido suficiente para garantir os salários das jogadoras. Em alguns casos, porque a folha salarial do clube é maior do que o valor doado pela entidade, e em outros porque o próprio time não repassou a verba às atletas – conforme noticiamos há um mês.

Foram sete equipes entre as 52, segundo apurações do blog, que não destinaram o dinheiro do auxílio da CBF para as jogadoras e foram cobradas pela entidade por isso (apesar de não haver qualquer contrapartida exigida formalmente para garantir que o valor fosse usado para pagamento de salários do futebol feminino). Uma delas ainda não fez o pagamento – o Vitória, conforme noticiou o blog Dona do Campinho nesta segunda-feira.

Neste cenário de instabilidade, os clubes já sinalizam para a CBF que precisarão de uma nova ajuda para manter o futebol feminino. Há quem mencione até o cancelamento do Campeonato Brasileiro das mulheres como “solução” para o problema.

Jogadoras sem receber

Audax, Juventus, Autoesporte-PB, Santos Dumont-SE, Atlético-GO, Sport e Vitória demoraram para usar o dinheiro da CBF para pagar uma ajuda de custo às atletas (que, na maioria dos casos, equivaleria a R$500 ou R$1mil). Este último ainda não confirmou que efetuou o pagamento.

“O clube vai fazer o pagamento, se já não o fez. O clube recebeu um valor, esse valor é direcionado a uma obrigação, e o clube tem que fazer o pagamento. O clube está imbuído em fazer os pagamentos e liquidar as obrigações que tem. Se houve atraso no repasse das jogadoras, e pode ter acontecido, eu não sei qual foi o motivo, mas com certeza aconteceu com motivo de boa fé, motivo não intencional do clube”, afirmou às dibradoras o diretor jurídico do Vitória, Dilson Pereira.

Sobre a situação atual das jogadoras, que não têm contrato formal de trabalho e recebem apenas ajuda de custo, ele afirma que “o futebol feminino ainda é amador no Brasil” e que não deveria depender do “fomento dos clubes”.

(Foto: Maurícia da Matta / EC Vitória)

“Uma coisa que tem que ficar clara na mente das pessoas é que o futebol masculino é um tipo de negócio e o futebol feminino é outro tipo de negócio. O negócio futebol feminino na Europa está muito avançado, no Brasil está em fase amadora, com a CBF tentando resolver a situação incentivando os clubes a fazerem times femininos quando em verdade talvez a gente esteja um passo atrás e necessitaria de políticas públicas, da iniciativa do governo federal de fomentar o futebol feminino. Esse fomento está vindo pelos clubes”, afirmou ele. O tipo de negócio do futebol masculino no Vitória atualmente acumula uma dívida de R$4 milhões e algumas penhoras, conforme o próprio diretor do jurídico citou em seguida.

“O futebol feminino no Brasil não decolou. Eu tenho uma situação do negócio futebol masculino no clube que está em crise, não tenho receita no momento, perspectiva pouco animadoras no momento, então eu vou fazer o que? Vai ter calendário do futebol feminino? Se sim, ok, o time vai ser mantido. Se não, o time terá que cortar despesas.”

Cortes e dispensas

Dos 16 times da primeira divisão do Brasileiro feminino, pelo menos seis cortaram salários ou dispensaram jogadoras ou ainda estão em débito com elas. O Corinthians reduziu os ganhos de todos os funcionários (incluindo as jogadoras) em 25%, assim como o Internacional e o Grêmio. O Santos também cortou salários, mas apenas para jogadoras que ganhavam acima de R$6 mil (o clube não informou quantas seriam).

Time mais campeão e de melhor estrutura no futebol feminino, Corinthians também cortou salários das jogadoras (Foto: Bruno Teixeira)

O Iranduba, um dos times mais promissores do futebol feminino recentemente, também vive uma crise acentuada por conta de redução de pagamento de patrocinador. O clube diz que já usou toda a verba da CBF para pagamento de salários (que não foi suficiente para quitar dois meses de folha das atletas) e que já tem alguns débitos acumulados por conta da situação.

Esses se somam ao Vitória, que ainda não acertou a ajuda de custo das jogadoras.

Internacional também cortou salários das jogadoras em 25% (Foto: Divulgação/Internacional)

Na série A2, o Atlético-MG já dispensou cinco jogadoras e reduziu salários da comissão técnica do time feminino para cortar gastos. O clube alega que a ajuda da CBF (R$50 mil) não supre dois meses da folha salarial do feminino e diz que todas as categorias sofreram cortes e dispensas por causa da crise.

O Atlético-GO, que inicialmente não havia repassado valores da CBF às atletas, explica que repassou o dinheiro como ajuda de custo “cada uma de acordo com a sua necessidade” e dispensou quatro atletas por “motivos de política interna do clube”. A equipe mantém contratos de vínculo não profissional, sem salário e sem ajuda de custo.

Grêmio também reduziu salário de atletas em 25% (Foto: Morgana Schuh / Grêmio FBPA)

Novo pedido à CBF

Os times feminino já entraram em contato com a CBF para pedir uma nova ajuda, já que o futebol ainda não tem data para voltar. Os times alegam que não terão como manter os salários das atletas sem saber quando elas voltarão a atuar.

O Audax, time que inicialmente não havia repassado o dinheiro doado pela entidade para as atletas, diz que é preciso, inclusive, considerar o cancelamento do Brasileiro feminino – uma hipótese extrema que seria extremamente prejudicial para o desenvolvimento da modalidade.

“Para mim, a melhor decisão que a CBF poderia tomar seria a de cancelar o campeonato feminino desse ano. Os recursos que nós temos são suficientes até agosto. Se até lá o campeonato não terminar, o que iremos fazer?”, disse o filho do dono do clube, Gustavo Teixeira.

A reportagem apurou que a CBF ouviu o apelo dos times femininos e ainda avalia quais serão os passos a serem tomados no futebol como um todo, não só no feminino.

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