Dibradoras http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. Sat, 20 Jul 2019 21:22:30 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 São Paulo vence Taubaté e se garante na 1ª divisão do Brasileiro feminino http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2019/07/20/sao-paulo-vence-taubate-e-se-garante-na-1a-divisao-do-brasileiro-feminino/ http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2019/07/20/sao-paulo-vence-taubate-e-se-garante-na-1a-divisao-do-brasileiro-feminino/#respond Sat, 20 Jul 2019 21:18:14 +0000 http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/?p=7078

Foto: Rubens Chiri / SPFC

O São Paulo entrou em campo neste sábado com a desvantagem de ter perdido por 1 a 0 o jogo de ida das quartas de final da Série A2 do Brasileiro feminino. Mas com gols de Bruna, Ary e Valeria, a equipe tricolor garantiu a vitória por 3 a 0 na partida de volta no Pacaembu e assegurou a vaga na primeira divisão nacional para o próximo ano.

Esse era o grande objetivo do time que foi formado no início deste ano em cumprimento à obrigatoriedade da Conmebol e teve uma contratação de peso para o projeto: a artilheira da seleção brasileira, Cristiane. Só que a atacante acabou se machucando na Copa do Mundo e não pode estar em campo neste sábado. Ainda assim, esteve no Pacaembu e comemorou muito com as atletas o acesso – foi também muito tietada pelos torcedores ao final da partida.

O jogo começou truncado, mas aos poucos o São Paulo foi encaixando seu jogo e chegando mais à área adversária. O gol viria aos 19 minutos em cobrança de pênalti de Bruna.

À frente no placar, o São Paulo se sentiu mais à vontade no jogo e seguiu atacando. As principais jogadas ofensivas da equipe passavam pelos pés da camisa 10 Ary. E foi justamente dela o segundo gol no Pacaembu, ainda no primeiro tempo. Ela aproveitou o cruzamento de Valeria e empurrou para as redes.

Com esse resultado, o São Paulo já garantia a vaga na série A1, mas ainda teve tempo para mais na segunda etapa. O time comandado por Lucas Piccinato foi pra cima e não saiu do campo de ataque. Teve chance em cobrança de falta de Natane, no travessão, e depois na jogada de Jaqueline pelo lado direito. O gol sairia dos pés de Valeria, numa jogada linda em velocidade. A atacante recebeu já partindo em direção ao gol, tirou da goleira e chutou para o fundo das redes.

O jogo terminou com 3 a 0 para o São Paulo e muita comemoração da torcida presente no Pacaembu. O público apoiou demais as jogadoras e gritou com elas: “Uh! É série A1” ao final.

Agora, garantido nas semifinais do torneio, o São Paulo espera o vencedor de Palmeiras e Chapecoense neste domingo para saber qual será seu adversário na próxima fase – as palmeirenses venceram o jogo de ida por 2 a 0.

Foto: Rubens Chiri / SPFC

Objetivo alcançado

O técnico Lucas Piccinato reforçou ao final do jogo que esse era o grande objetivo do time para esta temporada e parabenizou as atletas pela conquista.

“O foco era esse, nós estamos bem no Paulista também, mas nosso objetivo era colocar o São Paulo na primeira divisão. Esse grupo é maravilhoso e conseguiu colocar em prática tudo o que a gente trabalhou. Agora é buscar o título. Jogar aqui min Pacaembu é legal demais porque chama mais gente, as famílias, é muito importante o que o torcedor são-paulino fez hoje aqui, de participar do jogo e a gente espera na próxima fase contar de novo com esse estádio e com o apoio do torcedor”, afirmou o técnico às dibradoras.

Capitã do time, Ary também elogiou o desempenho do time e prevê mais um grande desafio na semifinal.

“A gente não tinha outro pensamento que não vir aqui na nossa casa e conseguir o acesso. Esse grupo merece demais, agora independentemente de quem vier na semi, vai ser um grande jogo e vamos com tudo em busca do caneco”, disse.

Foto: Rubens Chiri / SPFC

Luta pelo futebol feminino

Nesta semana, muitas atletas se manifestaram pedindo respeito pelo futebol feminino diante de diversos problemas de organização do Campeonato Brasileiro e também da pouca estrutura oferecida por alguns clubes às mulheres. Ari fortaleceu esse discurso e disse que é o momento de “quem ama o futebol feminino assumirem o comando dele”.

“Acho que está na hora de as pessoas que trabalham com o futebol feminino serem pessoas que realmente amam o esporte. Está na hora dessas pessoas tomarem conta do futebol feminino. Está maravilhoso o tanto de atletas que têm se posicionado e acho que é isso, dar a cara a tapa, mostrar que a gente quer mais. Falo porque sou da nova geração, uma geração que quer ser campeã do mundo e quer revolucionar o futebol feminino. Se não for pra nós, que seja para as que vierem depois”, falou Ary.

O técnico tricolor também reforçou a importância da união das atletas nesse momento.

“Acho muito importante as atletas se posicionarem, acho que o futebol feminino vai realmente mudar quando todas se unirem, quando a modalidade como um todo se unir e buscar melhorias. Acho muito importante essa cobrança para que haja respeito com o futebol feminino, porque boas jogadoras a gente tem”.

A definição do adversário do São Paulo nas semifinais será neste domingo. Palmeiras e Chape se enfrentam em Vinhedo às 14h com transmissão da TV Palmeiras.

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Essa foto é de um treino de time profissional de futebol. Dá pra acreditar? http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2019/07/19/essa-foto-e-de-um-treino-de-time-profissional-de-futebol-da-pra-acreditar/ http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2019/07/19/essa-foto-e-de-um-treino-de-time-profissional-de-futebol-da-pra-acreditar/#respond Fri, 19 Jul 2019 19:02:56 +0000 http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/?p=7068

Foto: Leo Caldas / Folhapress

*Por Renata Mendonça e Roberta Nina

Essa foto de um treinamento do time feminino do Sport viralizou nos últimos dias. Ela mostra a bola escondida no gramado alto de um campo que sequer tem demarcação de linhas, anexo à Ilha do Retiro em Recife. São essas as condições que as atletas do clube treinam duas ou três vezes por semana no máximo para disputar o Brasileiro feminino.

A foto choca porque escancara a situação a que um clube profissional de futebol expõe suas atletas – mulheres. O Sport enfrenta inúmeras dificuldades financeiras, é verdade, está afundado em dívidas, mas alguém consegue imaginar qualquer categoria de uma equipe masculina do time pernambucano treinando nessas condições? Impossível. Só que é o time feminino, então tudo bem, acontece.

Ouvindo jogadoras que já atuaram no Sport nesses três anos em que o clube retomou o futebol feminino, soubemos que a situação do campo de treino delas sempre foi caótica por lá. Antes, havia menos grama, e muitos buracos de terra naquele espaço. O cenário era tão prejudicial para a prática do futebol, que pelo menos duas jogadoras romperam o ligamento do joelho em treinos naquele campo (e as condições do gramado contribuem para lesões). Além disso, a final do Pernambucano feminino de 2018 (que terminou com o Sport campeão) não pode ser disputada na Ilha do Retiro porque o time masculino faria um jogo lá cinco dias depois. A desculpa foi que as mulheres “estragariam o gramado”.

Gostaríamos de dizer que a realidade mostrada nessa foto é uma exceção. Mas infelizmente ela é só mais um caso do que por muito tempo foi aceito como “normal” no futebol feminino. Só nesta semana, tivemos diversos exemplos do descaso com o qual a modalidade é tratada por aqui: jogadoras do Santos tendo que dormir na recepção de um hotel porque a empresa de logística contratada pela CBF para o campeonato não havia reservado os quartos para a data certa; equipes viajando dias inteiros para o local de jogo sem intervalos para as refeições; jogos do Brasileiro sub-18 adiados por falta de luz no estádio; jogadoras cheias de câimbra durante as partidas do torneio da base porque estão sendo obrigadas a jogar dia sim, dia não, sem o intervalo recomendado de descanso e em gramados que não são da melhor qualidade.

Tudo isso fez com que dezenas de jogadoras começassem a se manifestar pedindo respeito. Pedindo para serem tratadas como profissionais. Alguém já viu um time profissional de futebol treinar em um campo sem marcação? Ou em um gramado onde a bola se perde tamanha é a altura da grama? Alguém já viu o time que é líder da Série A do Brasileiro ter de dormir na recepção de um hotel porque houve erro de logística da organizadora do campeonato? Então por que essas coisas acontecem no futebol feminino? E acontecem até mesmo na elite, na primeira divisão, com times que lideram o torneio, como foi com o Santos.

Migalhas

Os problemas em torno da modalidade são antigos e só mudam de clube. Eles sempre voltam à tona, seja em campeonatos nacionais, regionais ou sul-americanos.

É, infelizmente, até comum ver acontecer coisas como: falta de ambulância ou de policiamento em jogos, ausência de vestiário adequado para as mulheres, desmaios acontecendo numa partida às três da tarde por causa de calor excessivo em jogos do feminino ao redor do Brasil. Algumas vezes essas situações ganham os holofotes da mídia, mas na maioria elas passam batido.

Elencamos aqui alguns episódios marcantes dos últimos anos:

Organizado pela Conmebol, a competição feminina acontece desde 2010 com duração de menos de um mês e o tempo de descanso entre um jogo e o outro é muito curto, prejudicando o desempenho das atletas.

Em 2015, o São José passou por dificuldades na Colômbia e sofreu com a falta de estrutura e de logística da competição. Além disso, a alimentação também era limitada, e as jogadoras tinham direito de comer apenas 300 gramas de comida por refeição. Sem falar na iluminação do campo nas partidas, que era muito precária. 

Campo esburacado e sem iluminação na Colômbia (Foto: Tião Martins/ PMSJC)

Em 2017, a Conmebol precisou suspender o campeonato por 72 horas por conta de uma intoxicação alimentar que atingiu dezenas de jogadoras das delegações participantes.

E em 2018, com o torneio realizado em Manaus, aconteceu atraso na emissão das passagens aéreas para as equipes. Faltando somente dois dias para o sorteio acontecer, o Governo do Amazonas, através da Secretaria de Estado de Esporte, Juventude e Lazer (Sejel), garantiu parte do dinheiro das passagens aéreas das atletas. Além disso, inicialmente todos os jogos estavam previstos para acontecer na Arena da Amazônia, algo impensável dado que eram pelo menos duas partidas por dia na primeira fase, sobrecarregando demais o gramado – percebendo isso, houve a transferência de alguns jogos no meio da competição. 

  • Sem vestiário no Independência

Meninas do Nacional se trocam para o jogo contra o América em tenta improvisada no Independência (ANA PAULA COELHO, JOGADORA DO NACIONAL)

Em 2015, as equipes femininas do América-MG e Nacional se enfrentaram uma preliminar do jogo masculino entre o mesmo América-MG contra o Botafogo, em partida válida pela 19ª rodada da Série B no estádio Independência. O momento tinha tudo para ser especial, mas as jogadoras foram impedidas de de usar os vestiários do estádio e precisaram improvisar, montando tendas para que pudessem se trocar. Sem banheiro, sem água, sem bancos.

Em abril deste ano, uma imagem ficou famosa onde as jogadoras do time feminino do São Paulo apareceram cobrindo o banco de reservas com sacos plásticos para se protegerem do frio e da chuva. Era a segunda rodada do Campeonato Paulista Feminino com São Paulo e Palmeiras em campo, no Estádio Municipal Antônio Soares de Oliveira, em Guarulhos. 

O banco de reservas do clube visitante sem estrutura no estádio de Guarulhos (Foto: Divulgação)

Na ocasião, o administrador do Estádio revelou que o problema foi causado pelas fortes chuvas que atingiram o local um dia antes da partida acontecer.

Hora da mudança

Mais do que nunca as atletas, dirigentes e treinadoras têm pedido maior atenção, apoio e estrutura para o futebol feminino.

Ao final da Copa do Mundo deste ano, muito se falou em cobrar mais “profissionalismo” das atletas. Mas como é possível exigir profissionalismo quando a estrutura oferecida para elas é completamente amadora? Dá para chamar de profissional um campo que tem grama até o tornozelo e sequer carrega a marcação das linhas do jogo? Antes de questionar o profissionalismo das atletas, é preciso questionar a falta de profissionalismo de quem gere o futebol feminino por aqui. É inadmissível que uma atleta de alto-rendimento não tenha o mínimo de estrutura para poder desempenhar seu papel.

Já passou da hora de tratarem o futebol feminino com o respeito que ele merece.

 

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Seleção foi eliminada há 25 dias, e CBF não se pronunciou sobre futuro http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2019/07/19/selecao-foi-eliminada-ha-25-dias-e-cbf-nao-se-pronunciou-sobre-futuro/ http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2019/07/19/selecao-foi-eliminada-ha-25-dias-e-cbf-nao-se-pronunciou-sobre-futuro/#respond Fri, 19 Jul 2019 07:00:36 +0000 http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/?p=7064

Foto: CBF

Há exatos 25 dias, a seleção brasileira feminina foi eliminada da Copa do Mundo pela França nas oitavas de final. Desde então, não houve qualquer manifestação da CBF a respeito da continuidade ou não da comissão técnica que há está há dois anos no comando – quatro na somatória final, considerando que o técnico Vadão assumiu a equipe em 2014, ficou até 2016, depois voltou em 2017.

A reportagem cobrou um posicionamento da entidade máxima do futebol a respeito do futuro da seleção e recebeu a seguinte nota:

“A CBF está internamente trabalhando e planejando os próximos passos das Seleções Femininas. No momento oportuno vamos divulgar.”

O plural empregado aí é porque assim como não há definição a respeito da seleção principal, as seleções de base femininas também estão aguardando seus próximos rumos. Só que isso desde setembro do ano passado, quando o técnico Doriva foi demitido. Ou seja, há 10 meses, a seleção sub-17 e a seleção sub-20 estão sem técnico.

No caso da principal, a espera soma apenas dias, não meses. Mas já é bastante longa se considerarmos o contexto de seleção brasileira. Por exemplo, a seleção masculina recebeu a confirmação da permanência de Tite no cargo antes mesmo da final da Copa América. No ano passado, o mesmo aconteceu durante o Mundial, quando a CBF fez a proposta da renovação para o treinador antes da definição sobre os rumos do Brasil no torneio.

Mas nada foi dito publicamente até agora a respeito da permanência ou da saída do técnico Vadão do cargo. A reportagem apurou que houve uma reunião de avaliação do desempenho da seleção na Copa do Mundo que aconteceu na sede da CBF na semana após a final do torneio. O técnico esteve presente lá e passou a semana no Rio de Janeiro. No entanto, oficialmente, a entidade não informa qual foi a avaliação que ela fez sobre o trabalho do treinador e de sua comissão. O “balanço foi feito internamente”, segundo a confederação.

Enquanto isso, saíram notícias a respeito de uma possível sondagem do presidente Rogério Caboclo com relação à ex-técnica dos Estados Unidos, a sueca Pia Sundhage, bicampeã olímpica. Isso também não foi confirmado oficialmente pela CBF.

 

De todas as formas, o tempo está passando e, como sempre, o que se vê é um descaso da CBF com relação ao futebol feminino e à seleção das mulheres. Antes mesmo da Copa começar, o técnico Vadão acumulava nove derrotas consecutivas e nunca foi questionado por seu mau desempenho – nem mesmo seu currículo como técnico antes disso justificasse sua presença como comandante da seleção feminina. O coordenador de futebol feminino da entidade, Marco Aurélio Cunha, acumula quatro anos no cargo e, na era de maior investimento na modalidade, não conseguiu resultados satisfatórios.

Ambos seguem intocáveis em seus respectivos cargos, sem que ninguém da CBF apareça para questioná-los ou cobrá-los por evolução. Enquanto isso, nos outros países, o investimento e o planejamento que foram feitos nos últimos anos já mostram resultados dentro de campo – é o caso da França, da Holanda, e das próprias Itália e Austrália, que superaram o Brasil na classificação da fase de grupos.

Os problemas na gestão do futebol feminino seguem se multiplicando. Nas últimas semanas, algumas jogadoras passaram a se manifestar a respeito da desorganização na logística do Campeonato Brasileiro e também alertaram para a falta de profissionalismo que existe na modalidade.

 

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O futebol feminino precisa de ajuda, e não é de hoje. O descaso com as mulheres que jogam pelos gramados esburacados em horários ensolarados neste país não é de hoje. Mas é hoje, é agora a oportunidade de mudar tudo isso. Se tanta gente falou, assistiu, se importou com o futebol feminino na Copa do Mundo, vamos aproveitar esse momento para mostrar a realidade dele que se vive por aqui. Vamos falar, vamos cobrar, vamos nos unir – não vamos nos calar. Aqui estão algumas das vozes que ecoaram nos últimos dias. Da Cristiane (@crisrozeira ) nossa eterna artilheira que nunca abaixou a cabeça para o preconceito que tenta brecar nosso sucesso desde sempre. Da Andressa Alves (@andressaalves9oficial ) uma das novas líderes da nossa seleção que se entrega de corpo e alma a essa profissão dentro de campo e fora dele pra brigar por seus diretos. Da Érika (@erikotinhac ), a xerife da nossa zaga que engrossa o coro por respeito ao futebol feminino. Da @maurine , da @alinereisfutbol , da @gabizanottid , da @patiisochor , da @ketlenwiggers , da @poliana_13 , da @sandrinhaatodynho , e de todas as jogadoras que já se manifestaram sobre as condições precárias que vivem no dia a dia do futebol feminino no Brasil. Não dá mais para aceitar as migalhas que nos dão achando que devemos agradecer de joelhos por tão pouco. É hora de falar, de cobrar e exigir mudanças. “Se não for agora, quando? Se não formos nós, quem?”. Juntas somos mais fortes. #futebol #futebolfeminino #brasileirofeminino #respeitaasmina #igualdade #respeito #mulheresnopoder #jogadoras #girlpower #juntassomosmaisfortes #elasporelas #visibilidadeparaofutebolfeminino

Uma publicação compartilhada por Mulher, Esporte e Futebol (@dibradoras) em

“O que vemos é uma falta de respeito, somos tratadas de qualquer forma e isso é revoltante. Gostaria de saber por que tanto descaso com a modalidade? O Brasil realmente precisa evoluir: Confederação, Federações, Clubes. Nos tratem como profissionais, somos atletas, mas antes somos pessoas e temos famílias que precisam da gente. Então por que não podemos falar ? Por que temos que aceitar tanta falta de profissionais no comando da modalidade, tanta falta de respeito com o próximo ? Queremos apenas que nos deem condições de trabalho adequadas, vocês cobram tanto a modalidade pra vencer uma Copa do mundo ou Olimpíada (…), mas acreditem, ninguém quer vencer mais do que a gente. Infelizmente, isso está longe de acontecer, o maior motivo é o descaso com a modalidade”, desabafou a atacante Andressa Alves em seu instagram.

Entre as atletas da seleção que também falaram sobre a situação do futebol feminino no Brasil estão Cristiane, Erika, Tamires, Poliana, Fabi Simões, Aline Reis, além de outras jogadoras que atuam nos clubes brasileiros.

E diante de tudo isso, a CBF segue em silêncio sobre o futuro do futebol feminino por aqui.

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Bahia encerra parceria com Lusaca e assumirá a gestão do futebol feminino http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2019/07/18/bahia-encerra-parceria-com-lusaca-e-assumira-a-gestao-do-futebol-feminino/ http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2019/07/18/bahia-encerra-parceria-com-lusaca-e-assumira-a-gestao-do-futebol-feminino/#respond Thu, 18 Jul 2019 13:45:46 +0000 http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/?p=7054

(Foto: Felipe Oliveira / EC Bahia)

Por Juliana Lisboa, de Salvador, para coluna “~dibres com dendê”

Agora é oficial: o Bahia não vai renovar a parceria com o Lusaca e vai assumir a gestão do futebol feminino por conta própria já no Campeonato Baiano, previsto para começar em novembro. A decisão de não renovar a parceria foi comunicada na semana passada pela diretoria do tricolor baiano ao apresentar o balanço da gestão acompanhado por metas futuras.

Mas não estava muito claro como seria essa transição – já que a parceria entre Bahia e Lusaca está vigente até novembro deste ano -, e nem por quê a decisão de criar o núcleo de futebol feminino foi anunciada tão antes do final do acordo. Em 2019, o Bahia estreou no Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino disputando a Série A2, mas foi eliminado nas oitavas de final pelo América-MG. No sub-18, ainda não venceu.

De acordo com o vice-presidente do Bahia, Vitor Ferraz, desde que o tricolor soube que precisaria manter ao menos uma equipe feminina, tinha interesse em administrar o núcleo. 

“A gente não tinha essa expertise com o futebol feminino e procuramos o Lusaca para dar um apoio para que a gente pudesse abreviar esse caminho. A parceria teve sua relevância, mas tivemos alguns percalços, por assim dizer. As circunstâncias não foram da forma que a gente tinha imaginado. Diante disso, para melhorar a estrutura e acolher as atletas de uma forma mais satisfatória, com o padrão de qualidade que o Bahia está acostumado, a gente está conversando para internalizar essa estrutura o mais rapidamente possível”.

Equipe do Bahia em amistoso contra o Amazonas/BA no começo do ano (Foto: Felipe Oliveira / EC Bahia)

Além das questões estruturais, denúncias por parte de jogadoras acabaram acelerando o processo. Algumas atletas, que pediram anonimato, acusaram o Lusaca de não-pagamento de salários, que chegou a três meses de atraso. Questionada, a diretoria do Lusaca informou que o acerto com as jogadoras não previa remuneração fixa.

“O que todas sabem é que não existe remuneração, o que o clube sempre fez foi distribuir entre elas qualquer tipo de receita oriunda de patrocínio ou doação”, disse o presidente do clube, Djailton Conceição. Ainda de acordo com a diretoria, o clube não conseguiu mais patrocínios desde que foi firmada a parceria com o Bahia. Os valores que o tricolor adiantou ao clube como previsto em contrato, cerca de R$ 80 mil, não teriam entrado nessa cota de patrocínios ou doações.

Só que não foi esse o acerto que as atletas disseram ter feito com o Lusaca no início da temporada, e o atrito cresceu. 
Quando a denúncia chegou à diretoria do Bahia, o tricolor assumiu a remuneração das jogadoras – isso foi confirmado pelas mesmas atletas que reclamaram dos atrasos. O Bahia preferiu não comentar esse assunto.

O vice-presidente não definiu uma data para a conclusão da migração da parceria para um núcleo, mas explicou que o Bahia pretende incorporar alguns profissionais da equipe vigente. “A gente já está começando a administrar o futebol feminino de forma direta. Vamos aproveitar parte das pessoas que já fazem parte da parceria e que não faria sentido não aproveitar. Pensamos em trazer pessoas nossas também. Faremos também toda a gestão logística, de treinamento e alojamento que, dentro da parceria, é de responsabilidade do Lusaca”, pontuou.

Além disso, a ideia é que tanto a equipe principal quanto as categorias de base sejam transferidas para a Cidade Tricolor, no centro de treinamento em Dias D’Ávila. Ferraz preferiu deixar o prazo em aberto, mas explicou que a equipe feminina, assim como a masculina e as categorias de base, irão treinar lá.

A iniciativa do Bahia em assumir a gestão do futebol feminino é ótima e necessária. Com os clubes abraçando o futebol feminino, a modalidade só tem a crescer e a competição nacional também se fortalece. É preciso avançar e oferecer para as mulheres as mesmas oportunidades dadas aos homens. Só assim o desenvolvimento acontece.

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Jogadoras desabafam sobre ‘bagunça’ do Brasileiro feminino http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2019/07/17/jogadoras-desabafam-sobre-bagunca-do-brasileiro-feminino/ http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2019/07/17/jogadoras-desabafam-sobre-bagunca-do-brasileiro-feminino/#respond Wed, 17 Jul 2019 13:50:17 +0000 http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/?p=7047 Um vídeo da técnica do Santos, Emily Lima, falando sobre a realidade do futebol feminino no Brasil viralizou nesta terça-feira e gerou uma série de desabafos por parte de jogadoras que atuam no país. Nas imagens, a treinadora mostrava suas atletas dormindo na recepção de um hotel em Manaus, porque não havia quartos disponíveis para elas – isso aconteceu por um erro da empresa responsável pela logística do Campeonato Brasileiro feminino. Depois disso, atletas do Santos e até da seleção brasileira se manifestaram sobre a “bagunça” do torneio.

Cristiane, atacante do São Paulo, foi uma das porta-vozes das jogadoras para pedir “profissionalismo” aos responsáveis por organizar o Campeonato Brasileiro. “Copa do mundo foi linda, todo mundo amou, as pessoas ficaram felizes em conhecer nosso trabalho, porém aquele oba oba todo acabou. O que tem rolado depois de toda essa passagem? Bagunça, falta de apoio de alguns clubes com as atletas, falta de logística e brasileiro sub 18 jogando de dois em dois dias. E aiiii ??? Será que não tá na hora de realizar uma reciclagem nas pessoas que colocamos para trabalhar com a modalidade no país? Colocar pessoas que queiram realmente mudar esse cenário, pessoas que sejam PROFISSIONAIS. Eu acho que tá na hr de darmos as mãos de verdade e brigar por algo melhor”, afirmou a camisa 11.

 

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Copa do mundo foi linda, todo mundo amou, as pessoas ficaram felizes em conhecer nosso trabalho, porém aquele oba oba todo acabou. O que tem rolado depois de toda essa passagem? Bagunça, falta de apoio de alguns clubes com as atletas, falta de logística e brasileiro sub 18 jogando de dois em dois dias. E aiiii ??? Será que não tá na hora de realizar uma reciclagem nas pessoas que colocamos para trabalhar com a modalidade no país? Colocar pessoas que queiram realmente mudar esse cenário, pessoas que sejam PROFISSIONAIS. Vai ser sempre na bunda das atletas em ano de competição? Eu acho que tá na hr de darmos as mãos de verdade e brigar por algo melhor. Meu puxão de orelha é pra geral: Confederação, Federações, Clubes e nós atletas em certas situações tmb. Quer ver isso aqui evoluir de verdade? Ganhar uma Copa e uma Olimpíada? Faça por onde desde cedo, planeje nem que seja a longo prazo, mas tentem fazer algo efetivo para mudar o cenário nacional que envolve o futebol feminino!

Uma publicação compartilhada por Cristiane Rozeira (@crisrozeira) em

“Meu puxão de orelha é pra geral: Confederação, Federações, Clubes e nós atletas em certas situações tmb. Quer ver isso aqui evoluir de verdade? Ganhar uma Copa e uma Olimpíada? Faça por onde desde cedo, planeje nem que seja a longo prazo, mas tentem fazer algo efetivo para mudar o cenário nacional que envolve o futebol feminino!”

+ Estudo da Fifa mostra descaso de anos do Brasil com o futebol feminino

A jogadora santista Patricia Sochor também se manifestou nas suas redes sociais fazendo um grande desabafo sobre as dificuldades enfrentadas pelas atletas no Brasil para jogar futebol. Ela cita os horários de jogos às 13h ou 15h no calor que faz por aqui, os campos muito mal cuidados, os problemas com a logística para viajar para as partidas e também os intervalos muito curtos entre um jogo e outro no Brasileiro sub-18 recém-iniciado.

“Nos pedem para ser profissionais, mas não nos dão CAMPOS decentes para treinar ou jogar. Nos pedem para ser profissionais, mas nos colocam em alojamentos que sempre falta algo, uma geladeira, uma máquina de lavar, um microondas e guarda-roupas e nossas roupas ficam em malas o ano todo. Quem não passou por isso, teve privilégio. Nos pedem para ser profissionais, mas colocam meninas de 15 a 18 anos para fazer 6 jogos em 10 dias, 1 jogo a cada 48horas. São meninas ou são máquinas? Nos pedem para ser profissionais, mas nos fazem roteiros de viagens em que precisamos dormir por horas em aeroportos e quando chegamos em nossos destinos, ficamos 1 ou 2 horas distantes do local do jogo. Isso quando tem hotel, porque a organização do campeonato coloca o voo em uma data e o hotel apenas ás 12horas do dia seguinte. Nos pedem para ser profissionais, mas não podemos treinar em dias de chuva, porque o campo estraga, porque o clube não libera o campo.. entre outros motivos. Nos pedem para ser profissionais, mas colocam nossos jogos 11 horas da manhã, 13 horas da tarde, em dias de calor absurdo”, afirmou a atleta.

“Nos pedem para ser profissionais, vocês que nos pedem isso, nós pedimos 3 coisas, RESPEITO, VISIBILIDADE E RECONHECIMENTO. Porque se nós dependêssemos de vocês para ser profissionais, me pergunto onde estaríamos, porque vocês não dão suporte algum. PRAZER, FUTEBOL FEMININO.”

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Nos pedem para ser profissionais. Nos pedem para ser profissionais, mas não nos dão CAMPOS decentes para treinar ou jogar. Nos pedem para ser profissionais, mas nos colocam em alojamentos que sempre falta algo, uma geladeira, uma máquina de lavar, um microondas e guarda-roupas e nossas roupas ficam em malas o ano todo. Quem não passou por isso, teve privilégio. Nos pedem para ser profissionais, mas colocam meninas de 15 a 18 anos para fazer 6 jogos em 10 dias, 1 jogo a cada 48horas. São meninas ou são máquinas? Nos pedem para ser profissionais, mas nos fazem roteiros de viagens em que precisamos dormir por horas em aeroportos e quando chegamos em nossos destinos, ficamos 1 ou 2 horas distantes do local do jogo. Isso quando tem hotel, porque a organização do campeonato coloca o voo em uma data e o hotel apenas ás 12horas do dia seguinte. Nos pedem para ser profissionais, mas não podemos treinar em dias de chuva, porque o campo estraga, porque o clube não libera o campo.. entre outros motivos. Nos pedem para ser profissionais, mas colocam nossos jogos 11 horas da manhã, 13 horas da tarde, em dias de calor absurdo. Nos pedem para ser profissionais, mas não podemos jogar no campo do profissional, porque NÓS ESTRAGAMOS O CAMPO. Quem fala isso, olha o campo depois de um jogo do feminino é um jogo do masculino, e análise. E afinal? O campo foi feito apenas para os homens? ( Lembrando que, recentemente na Copa América, o MESSI disse: “…a bola pula muito, parece um coelho…” ele tem razão, mas Messi, se você jogasse nos campos precários que jogamos aqui no Brasil, diria que não é um coelho, mas sim um canguru). Mas ainda assim…Nos pedem para ser profissionais, nos pedem qualidade, falam que não sabemos tocar uma bola, falam que o futebol feminino é feio, que não tem emoção. Pois então, nós te convidaríamos para assistir mais uma vez a COPA DO MUNDO FEMININA, jogos e jogadoras que nos fazem sentir orgulho do que fazemos e do trabalho que escolhemos para a vida. Que aliás, a FINAL feminina, deu mais audiência em telespectadores, do que a FINAL da Copa do Mundo masculina.. pasmém! … continua nos comentários…

Uma publicação compartilhada por Patricia Sochor (@patiisochor) em

Além delas, várias outras atletas se manifestaram seja com postagens similares – como a atacante Ketlen e a goleira Kemelli, ambas do Santos – ou com comentários apoiando o desabafo das outras. A técnica Emily Lima ainda convocou outros técnicos e pessoas do futebol feminino a falarem sobre os problemas que enfrentam e se unirem por mudanças.

Entre as atletas da seleção brasileira, a atacante Andressa Alves, as laterais Fabi Simões, Tamires e Poliana, a zagueira Erika, e a goleira Aline Reis foram as que se manifestaram publicamente sobre a questão.

Problemas enfrentados

A reportagem conversou com representantes de cinco clubes do país que participam do Brasileiro Série A1, Série A2 e também do sub-18 e eles relataram inúmeros problemas com a organização da logística feita pela empresa Pallas – a contratada da CBF para a função.

+ Desabafo de atleta do Sport mostra realidade do futebol feminino no Brasil

Os principais são os horários de voo – muitos deles são na madrugada e envolvem escalas e viagens muito longas para chegarem ao local de jogo sem o devido descanso e tempo de treinamento e preparação. Além disso, outros enfrentaram problemas com a logística para ir até o aeroporto, porque o ônibus contratado para levar as jogadoras até lá não apareceu. Foi o que aconteceu com o Cruzeiro, que tinha um voo às 6h da manhã e precisou transportar a delegação toda de Uber porque o transporte contratado pela Pallas não estava disponível naquele horário.

Sport foi goleado pela equipe santista na 11ª rodada do Brasileirão A-1 (Foto: Pedro Ernesto Guerra)

As equipes relatam que tentam sempre passar a melhor logística para empresa sobre quando gostariam de viajar, e já indicando os voos disponíveis para a data. Mas o principal problema é que a Pallas só pode reservar voos de uma companhia aérea, que é a patrocinadora da CBF, e isso limita muito a logística para alguns lugares do país – o caso do Cruzeiro, por exemplo, o voo da equipe sub-18 foi para Presidente Prudente em vez de ir para São José do Rio Preto, que era muito mais perto de Bálsamo, onde elas jogariam a primeira fase, porque a empresa aérea parceira da CBF não fazia voos para esse destino. Resultado, a equipe ficou um dia inteiro viajando.

No caso do Santos, os horários e dias de voo também não agradaram a comissão para o jogo contra o Iranduba pelo Brasileiro A1. O clube pediu para viajar na terça, um dia antes do jogo, mas o voo disponibilizado pela Pallas foi na segunda-feira, com escala, o que fez com que elas chegassem 00h a Manaus e ainda tivessem que varar a madrugada esperando a resolução para o problema da reserva do hotel – algo que só foi resolvido por volta de 1h.

No Sub-18, a grande reclamação é com relação ao intervalo dos jogos – as atletas de 15 a 18 anos estão jogando dia sim, dia não, completando as seis partidas da primeira fase em 10 dias, sempre às 13h30 ou 15h30.

Peneira realizada no São Paulo em 2018 (Foto: Igor Amorim)

A CBF se manifestou por meio de nota sobre a questão logística alegando que “A organização do campeonato busca sempre as melhores condições para a viagem das equipes. Eventuais conexões e esperas em aeroportos devem-se às possibilidades da malha aérea do país.A CBF ressalta ainda que a organização do campeonato busca sempre as melhores condições para a viagem das equipes, sempre levando em consideração o tempo necessário de descanso das atletas e o interesse dos clubes. Eventuais conexões e esperas em aeroportos devem-se às disponibilidades da malha aérea nacional.”

Sobre o Brasileiro sub-18, Romeu Castro, diretor de competições da entidade, fez uma postagem em seu Facebook explicando que o calendário feito dessa maneira é comum nas categorias de base tanto do masculino quanto do feminino aqui em outros lugares do mundo.

“Na contramão exigem que no primeiro Brasileiro Sub-18, as equipes tenham uma pausa maior entre as partidas, do que aquela que as nossas Seleções Masculinas e Femininas Sub-17 e Sub-20 tem no Sul-americano, onde se joga exatamente em dias alternados. A diferença de calendário escolar entre os estados fez com que muitos clubes não pudessem viajar antes do dia 13 de julho. Tivemos que apoiar os clubes que priorizam o ano escolar da maioria das meninas. Jovens brilhantes que ingressam neste momento no futebol feminino de base, ainda sem um contrato profissional, mas com sonhos do tamanho de uma Copa do Mundo. Por isso, temos o turno e returno da primeira fase sendo realizados numa só sequência, na mesma sede. Certamente para 2020 poderemos ter atualizações no calendário. Me orgulho que possamos discutir melhorias e evolução para as nossas meninas de forma construtiva e leal”, escreveu.

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Estudo da Fifa mostra descaso de anos do Brasil com o futebol feminino http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2019/07/16/estudo-da-fifa-mostra-descaso-de-anos-do-brasil-com-o-futebol-feminino/ http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2019/07/16/estudo-da-fifa-mostra-descaso-de-anos-do-brasil-com-o-futebol-feminino/#respond Tue, 16 Jul 2019 07:00:20 +0000 http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/?p=7041

Foto: AFP

A seleção brasileira de futebol feminino já chegou a ser vice-campeã mundial e a conquistar duas medalhas de prata em Olimpíadas nos tempos em que não existia sequer um Campeonato Brasileiro minimamente organizado por aqui. No entanto, na era de maior investimento, com duas divisões nacionais para o futebol feminino e uma equiparação da estrutura da CBF entre as seleções feminina e masculina, os resultados sofreram uma queda abrupta. Neste ano, o Brasil chegou até mesmo a ter dificuldades para passar da primeira fase da Copa do Mundo, conseguindo a classificação somente no terceiro lugar do grupo.

Diante de toda a visibilidade que se deu para o futebol feminino neste ano, apareceram também os críticos dizendo que a seleção feminina é feita de “amarelonas”, que ela nunca vai chegar “a lugar nenhum”, etc, etc. Houve até alguns colegas jornalistas questionando por que a cobertura estava sendo tão “branda” com as jogadoras, poupando-as das cobranças que normalmente acontecem quando uma seleção masculina é eliminada.

Pois um estudo da Fifa lançado neste mês traz as perfeitas respostas para esses questionamentos em números. Uma espécie de “diagnóstico do futebol feminino” em todas as confederações associadas a ela, mostrando quantas mulheres jogam futebol em cada país, quantas jogadoras estão registradas na base e no profissional, quantas categorias de seleção existem em cada um deles, quantas técnicas sao licenciadas, etc.

Os números do Brasil são pífios comparados aos países que dominam o cenário do futebol feminino mundial e também são baixos se comparados até mesmo a nações vizinhas bem menos promissoras da modalidade, como a Venezuela, o Peru e a Argentina.

Foto: AFP

Pegando alguns dados principais da pesquisa: o Brasil tem um total de 15 mil mulheres jogando futebol de maneira organizada (disputando campeonatos amadores ou profissionais). Os Estados Unidos, tetracampeões mundiais, têm 600 vezes mais – são 9,5 milhões de mulheres jogando bola por lá. Na Argentina, são mais de 27 mil, na Venezuela são mais de 24 mil; até mesmo países com população infinitamente menor, como Irlanda, Peru e Namíbia, têm mais mulheres jogando futebol do que o Brasil – isso em termos de futebol “organizado”, disputando campeonatos em algum nível.

Quando olhamos para a base, a situação brasileira fica ainda mais sofrível. O Brasil tem apenas 475 jogadoras abaixo de 18 anos registradas nos clubes. Os EUA têm 1,5 milhão de atletas nessa idade registradas. Por lá, eles têm 8 categorias de base na seleção, começando pelo sub-14 – nos clubes, as categorias femininas começam com 4 ou 5 anos de idade. Por aqui, cumprimos as exigências da Fifa e mantemos uma seleção sub-17 e uma sub-20, sendo que ambas estão sem técnico desde setembro de 2018, há quase um ano.

Esses números refletem o descaso com que a CBF tratou o futebol feminino por anos, décadas. Algumas mudanças começaram a acontecer por aqui somente depois que a Fifa e a Conmebol vieram com exigências a serem cumpridas pelo desenvolvimento do futebol das mulheres – como a resolução que obriga os times masculinos a investirem no futebol feminino.

Foto: Reprodução Fifa

Em outros países, houve um plano de desenvolvimento para as mulheres, com investimentos acontecendo nas duas pontas: na base e na categoria principal. A principal estratégia sempre foi aumentar o número de meninas jogando e dar a elas a oportunidade de seguir nessa carreira. Foi assim que a França passou a ser um dos maiores expoentes do futebol feminino no mundo, campeã mundial no sub-17 e no sub-20, a quarta colocada no ranking atual. Modelo parecido seguido pela Holanda, que já foi campeã europeia, chegou à final da Copa neste ano e é o quinto país com mais mulheres jogando bola no mundo.

O plano de desenvolvimento do futebol feminino no Brasil é desconhecido. No comando da modalidade, estão homens que acumularam anos de experiência no futebol masculino – não há nenhuma ex-jogadora ou gestora do futebol feminino com poder de decisão sobre o futuro da modalidade na CBF. Marco Aurélio Cunha é o coordenador, Vadão é o técnico – nenhum dos dois que ocupam os principais postos do departamento de futebol feminino da confederação têm qualquer experiência prévia na área. Não é de se admirar que o desenvolvimento da modalidade esteja parado há tanto tempo.

Investimento da CBF e dos Clubes

Durante todos os anos em que a seleção feminina foi vencedora, fazendo frente às principais seleções do mundo mesmo sem ter qualquer estrutura para isso, nada foi feito pelo futebol feminino no Brasil. Falamos com algumas jogadoras sobre isso logo após a eliminação na Copa do Mundo e elas reconhecem que ficamos para trás por conta de todo o descaso com a modalidade.

Foto: Reprodução Fifa

“O apoio é óbvio que a gente perdeu muito tempo pra fazer isso. Aquela geração de 2004 e que levou até 2008 era um momento que a gente podia começar a lapidar outros talentos, para continuar a crescer o futebol feminino. Infelizmente a gente perdeu aquele momento de aproveitar aquela grande equipe para dar o apoio necessário, começar logo cedo. Um trabalho não vai fazer tanto efeito em meses. São coisas que acontecem em anos e anos. É um trabalho contínuo, não dá pra fazer nada a curto prazo”, disse Marta.

O trabalho no Brasil começou a ser feito há pouco mais de cinco anos. O Brasileiro passou a existir em 2013, ganhou duas divisões somente em 2017, e só agora há um torneio nacional de base, o Brasileiro sub-18. Por aqui, o futebol feminino ainda é muito amador, com poucos clubes realmente investindo nele. Vimos a situação do Sport, que desmanchou a equipe feminina no início do ano sob o pretexto de “falta de verba” (o custo do time não chegava a mais de 400 mil por ano, parte ínfima do orçamento do clube) e montou uma às pressas que acumula goleadas em todos os jogos. Lá, as jogadoras não treinam regularmente, viajam em cima da hora para os jogos, não são tratadas como atletas. Muitos outros times vivem a mesma situação. Enquanto não houver investimento tanto da CBF, quanto dos clubes no futebol feminino, não dá para exigir resultados.

“É preciso dar estrutura para essas meninas nos clubes. Pra quem sabe a gente ser uma potência como a França é considerada hoje. Eu acho que machuca. Não é só a França, a Itália tem investido muito também. Não é só a CBF, os clubes precisam dar uma estrutura boa de trabalho, uma comissão boa que realmente entende. Aqui fora são pessoas que entendem. A Europa está crescendo muito e nós estamos ficando para trás”, argumentou a meio-campista Thaísa após a eliminação do Brasil.

Vadão e Marco Aurélio Cunha durante o anúncio das 23 convocadas na CBF (Foto: Laís Torres/CBF)

A evolução do futebol feminino depende da vontade de quem está no comando. Em São Paulo, em dois anos no cargo de coordenadora (agora diretora) do futebol feminino na Federação Paulista de Futebol, a ex-capitã da seleção Aline Pellegrino já conseguiu avanços importantíssimos, como a criação do Paulista sub-17 (primeiro torneio feminino de base do país), a criação de um torneio sub-14 e a organização de uma peneira histórica para meninas de 14 a 17 anos que reuniu quase 400 atletas e inseriu 65% delas nos principais clubes paulistas. Uma mulher que conhece a realidade da modalidade e que por isso é muito mais certeira no seu modo de atuação pelo desenvolvimento da modalidade. Enquanto isso, a CBF segue apostando em nomes ultrapassados do futebol masculino no comando técnico e em gestores sem experiência e conhecimento da modalidade.

Há 21 dias, o Brasil foi eliminado e ainda nenhuma palavra foi dita pela entidade sobre os rumos da seleção feminina após a Copa. Quanto maior o tempo perdido, maior a dificuldade para correr atrás do prejuízo.

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Desabafo de atleta do Sport mostra realidade do futebol feminino no Brasil http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2019/07/15/desabafo-de-atleta-do-sport-mostra-realidade-do-futebol-feminino-no-brasil/ http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2019/07/15/desabafo-de-atleta-do-sport-mostra-realidade-do-futebol-feminino-no-brasil/#respond Mon, 15 Jul 2019 07:00:22 +0000 http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/?p=7029

Sport foi goleado pela equipe santista na 11ª rodada do Brasileirão A1 (Foto: Pedro Ernesto Guerra)

A Copa do Mundo Feminina acabou há uma semana com a equipe americana conquistando o título mundial pela quarta vez. Com alto nível de competição, grande presença de público nos estádios e ótimos índices de audiência, a Copa mostrou ao mundo o potencial do futebol feminino e os desafios ainda enfrentados pelas atletas.

+ “Deem às pessoas o que elas querem”: Rapinoe ecoa pedido por igualdade 

O discurso de Megan Rapinoe e a representatividade de Marta dentro de campo queriam a mesma coisa: equidade de gênero. No jogo final entre Estados Unidos e Holanda, a arquibancada de Lyon bradou em volume máximo o pedido feito pelas atletas: “Equal play, equal pay”, pedindo por oportunidades e salários iguais entre os gêneros.

Torcedores pedem oportunidades iguais para homens e mulheres no futebol (Foto: Dibradoras)

+ Marta divide a majestade com todas as mulheres – e é contestada por homens

E bastou poucos dias para que a realidade mostrasse o quão necessária é essa luta. No último sábado (14/07), as equipes femininas do Santos e Sport-PE entraram em campo pela Série A1 do Campeonato Brasileiro Feminino. O resultado foi 9×0 para a equipe da Baixada Santista e, após o jogo, a atleta Sofia Sena revelou toda a dificuldade que a equipe feminina pernambucana enfrenta.

Em entrevista à CBFTV, a atleta respondeu a pergunta da repórter Gabriela Nolasco sobre o que faltou para o Sport fazer um gol na partida e respondeu. “Vou dizer a você o que faltou: elas são superiores a nós, somos cientes disso, elas treinam todos os dias e a gente mal tem horário para treinar, elas convivem mais com a bola e a gente mal toca na bola. O que falta mesmo para o Sport é foco do clube em nós e é uma dificuldade tremenda pra isso poder acontecer, não tem prioridade para o feminino”.

Em um minuto e trinta e sete segundos de fala, Sofia escancarou uma realidade que acontece em diversos clubes do Brasil e, falando especificamente sobre o time pernambucano, a realidade é ainda mais grave. Vale lembrar que noticiamos em março deste ano como Sport dissolveu a equipe feminina (bicampeã estadual e campeã do Nordeste) às vésperas do início do Campeonato Brasileiro.

Time demitido, choro e improviso: o descaso do Sport com o futebol feminino

Como não havia avisado a CBF sobre a desistência em tempo hábil, de acordo com o regulamento da competição, a Confederação poderia punir o time masculino e o feminino caso o Sport não jogasse o campeonato. Mas nesse ponto, a direção do clube já havia demitido todo o elenco e a comissão técnica, a saída encontrada foi firmar uma parceria às pressas com o Ipojuca, uma equipe que não é profissional. 

O resultado dessa má gestão pode ser visto no desempenho do time. Em 11 jogos pelo Brasileirão, o Sport perdeu todos e está na lanterna do campeonato com um gol marcado e 46 sofridos.

“Declaração infeliz”

A reportagem entrou em contato com Nira Ricardo, coordenadora de futebol feminino do Sport, para saber como recebeu a declaração da atleta Sofia pós-jogo e ela não escondeu a insatisfação.

“Minha atleta foi infeliz. Nós sabemos da dificuldade do clube e estávamos chateadas com a logística pós-jogo que é organizada pela Pallas (operadora logística oficial da competição). Saímos muito cedo para viajar para Santos, jogar e depois da partida ainda tinha que fazer o exame antidoping que dura cerca de 1h30, 2h e ainda teríamos que voltar para São Paulo e depois ir para Congonhas. E aí, Sofia misturou tudo e falou aquilo”, afirmou a dirigente. 

Sport foi bicampeão pernambucano (Foto: Marlon Costa – pernambucanopressa)

Nira reforçou que o Sport não vive boa situação financeira e que toda essa dificuldade reflete não só no futebol feminino, mas também no masculino e nos esportes olímpicos. A coordenadora classificou o time feminino como “caseiro”, já que foi remontado às pressas e oferece apenas ajuda de custo e passagens para que as atletas possam treinar.

“Nós sabíamos da atual situação do clube, não vou culpá-lo, afinal não era nem pra gente estar jogando. Entramos na competição em cima da hora, mas quando montei o time não enganei nenhuma atleta e e elas quiseram encarar. Sofia, por exemplo, mora em Caruaru (2h de Recife) e só chega para os jogos. Ela não consegue treinar porque tinha outro trabalho. Agora ela saiu do emprego e essa foi a primeira viagem que fez com o time. Na hora da entrevista, ela misturou as coisas”, contou. 

Nira relembrou que no ano passado, não faltou nada para o time feminino do Sport. Mesmo com os pagamentos atrasados em 2018, o time que foi desfeito no início deste ano recebia apoio do clube e conquistou bons resultados. Mas, com a mudança na presidência, o atual mandante encontrou o clube sem dinheiro e precisou cortar diversos custos e demitir alguns funcionários.

(Foto: Divulgação)

“Só quem está dentro do clube é que sabe como está a situação e o que está acontecendo. A dívida do Sport é muito grande e não tem onde buscar dinheiro. Os salários de maio, por exemplo, foram pagos nesta última quinta-feira”, afirmou.

Nira contou que o presidente do Sport, Milton Bivar, garantiu que se a situação melhorar este ano, tudo se ajeita. Mas, mesmo assim, o time feminino pernambucano terá que começar 2020 um degrau abaixo. “Esse ano nós já caímos. Vamos ter que disputar a série B no ano que vem”, disse.

Sete dias depois de uma final de Copa do Mundo acontecer e repercutir tanto, um time grande do futebol brasileiro demonstra dificuldade e certo descaso com a modalidade feminina. O Sport não é o único clube do Brasil a sofrer com dívidas e a priorizar investimento e visibilidade apenas para o futebol masculino.

São decisões como essa que atrasam a evolução do futebol feminino no país e o resultado é imediato: não é possível fortalecer o campeonato nacional, não há contribuição para o surgimento de novas atletas e de profissionais capacitadas para trabalhar com a modalidade como profissionais.

Ao contrário do que acontece nos Estados Unidos e na Europa, onde os clubes são os grandes aliados para impulsionar o esporte feminino, o Brasil segue tratando como obrigação algo pode ser facilmente transformado em oportunidade. O reflexo disso pode ser visto na seleção brasileira, que sempre ficará pelo caminho nas principais competições disputadas e muito refém dos talentos individuais, atrapalhando até mesmo uma renovação.

Enquanto os clubes não entenderem que também são responsáveis pela transformação do futebol feminino, o Brasil continuará sendo ultrapassado por países de menor expressão no cenário do futebol mundial.

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Google resgata história das mulheres proibidas de jogar futebol no Brasil http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2019/07/09/google-resgata-historia-das-mulheres-proibidas-de-jogar-futebol-no-brasil/ http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2019/07/09/google-resgata-historia-das-mulheres-proibidas-de-jogar-futebol-no-brasil/#respond Tue, 09 Jul 2019 21:22:23 +0000 http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/?p=6986

Foto: Divulgação Museu do Impedimento

Se hoje o futebol feminino está em evidência, com jogos batendo recordes de audiência, no passado ele chegou a ser proibido por lei. Um decreto da época da ditadura brasileira em 1941 dizia que “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país.”

A proibição durou até 1979, mas não impediu as mulheres de jogarem. Elas seguiram desafiando as regras pelo direito de ocupar os campos e as ruas com a bola nos pés. Só que faziam isso de maneira não oficial, o que impossibilitou essa história de ser contada. Os registros da prática do futebol por mulheres entre as décadas de 1940 e 1980 são raros e, por muito tempo, ficaram “em branco”. Não era possível encontrá-los em lugar nenhum – nem mesmo no Google, a maior plataforma de buscas do mundo.

Mas agora muitas dessas informações estão ao alcance de qualquer pessoa por um clique. Nesta segunda-feira, o Google Arts & Culture lançou a exposição virtual “Museu do Impedimento”. Durante mais de um mês, o site convidou as pessoas a ajudarem a escrever a história do futebol feminino em uma plataforma multimídia, contribuindo com fotos, textos, áudios e vídeos e, com a curadoria do Museu do Futebol, o material foi organizado e disponibilizado para o mundo inteiro em inglês com todos os dados coletados.

Fazem parte da coleção 205 fotos, inúmeros arquivos de jornais e documentos que contam como as mulheres continuaram resistindo no futebol mesmo durante os anos de proibição. Para acessar as histórias é só entrar na página do Museu do Impedimento (g.co/museudoimpedimento).

Foto: Reprodução

O Mundial da França em 2019 mostrou o tamanho da curiosidade que as pessoas têm de conhecer essa história. Logo após o primeiro jogo do Brasil, algumas das perguntas mais buscadas no Google foram justamente: quando começou o futebol feminino no Brasil?; e quando surgiu o futebol feminino no Brasil? Agora, todas essas informações estão online.

Chama a atenção os jornais exibidos na exposição do Google que destacam o esforço que os órgãos oficiais tinham para impedir os jogos de futebol feminino nas décadas passadas. “Moças defendem o direito de jogar bola”, dizia o título de um texto publicado no jornal O Globo em 1965; “Não levou em piada o CND o futebol de mulheres na Bahia”, noticiou o Correio Paulistano de 1956, falando de uma punição do Conselho Nacional de Desportos à Federação Baiana por ter permitido uma partida de futebol feminino à época da vigência do decreto.

Foto: Arquivo Museu do Impedimento

Mas apesar da proibição e da pressão do CND para que ela fosse cumprida, as mulheres continuaram resistindo. A exposição virtual do Google resgata a história de dois times de Pelotas, no Rio Grande do Sul, que organizaram equipes femininas na década de 1950, fazendo treinos e jogos semanais à despeito do decreto. O Corinthians Pelotense e o Vila Hilda se enfrentaram pela primeira vez em 8 de julho daquele ano, e as mulheres chegaram a viajar para outras cidades gaúchas para jogar entre agosto e novembro. Mas no fim daquele ano, o CND apertou a fiscalização e acabou com a diversão delas, exigindo que fosse cumprida a lei. A partir daí, nenhum jornal noticiou mais as atividades das equipes femininas, e a história desses dois clubes ficou esquecida no tempo – agora, porém, está registrado no Google.

Time do Corinthians de Pelotas (Foto: Arquivo Museu do Impedimento)

São muitos outros times femininos formados nessa época sobre os quais não tínhamos ideia da existência. Desde um dos mais “famosos” pioneiros do futebol feminino, o Araguari em Minas Gerais, até histórias bem desconhecidas envolvendo os clássicos regionais como Comercial x Operário no Mato Grosso do Sul, dois clubes que mantinham equipes femininas apesar da proibição.

Sem falar na partida entre atrizes de teatro realizada no Maracanã em um evento beneficente que quase a acabou impedido de acontecer por causa da proibição. O ano era 1959, e diante das ameaças de cancelar o jogo, a estratégia dos organizadores foi anunciá-lo como um “espetáculo”. A verdade é que foi exatamente isso que aconteceu em campo, com as arquibancadas lotadas e uma renda recorde recolhida para ajudar o Hospital dos Atores em São Paulo.

Foto: Museu do Impedimento

E para quem se interessa em saber mais sobre algumas das pioneiras que já vestiram a camisa do Brasil no futebol, a exposição também traz a história de Michael Jackson, a artilheira que tem mais de mil gols na carreira e leva o apelido do astro do pop mundial.

Como bem destaca a professora Silvana Goellner, da UFRGS e uma das pioneiras na pesquisa sobre as mulheres no futebol no Brasil, é preciso “conhecer para reconhecer”. Sem o conhecimento de toda essa história de resistência que as jogadoras tiveram ao longo das décadas para poder ocupar os gramados, é impossível entender a luta que as trouxe até aqui. Para isso, fica o convite para que todos aproveitem essa oportunidade e visitem a exposição virtual do “Museu do Impedimento”.  

*Esse post foi feito em parceria com o Google Brasil

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Tetracampeãs: Por que os EUA são tão imbatíveis no futebol feminino? http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2019/07/08/tetracampeoes-por-que-os-eua-sao-tao-imbativeis-no-futebol-feminino/ http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2019/07/08/tetracampeoes-por-que-os-eua-sao-tao-imbativeis-no-futebol-feminino/#respond Mon, 08 Jul 2019 07:00:57 +0000 http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/?p=6978

Foto: U.S. Soccer

Os Estados Unidos são campeões do mundo mais uma vez. Em oito edições da Copa do Mundo feminina desde 1991, as americanas levantaram o caneco quatro vezes – essa, porém, é a primeira vez que fazem isso consecutivamente. Uma hegemonia que já dura três décadas, soma quatro ouros olímpicos e quatro Copas e não parece que irá acabar tão cedo.

+’Essas americanas são diferentes mesmo. Parecem um time masculino jogando’

A trajetória delas até esta final passou longe de ser a mais simples. Se na fase de grupos, a seleção americana teve “tranquilidade” para passar por Tailândia (13 a 0), Chile (3 a 0 com as reservas) e Suécia (2 a 0), dali em diante vieram ameaças constantes: Espanha nas oitavas (2 a 1), França nas quartas (2 a 1) e Inglaterra na semi (2 a 1). Agora, diante das campeãs europeias da Holanda, os Estados Unidos impuseram seu ritmo de jogo e venceram por 2 a 0.

Mas o que explica um time que permanece por tanto tempo ganhando tudo, no topo, praticamente sem sofrer ameaças? Por que as americanas são tão imbatíveis no futebol feminino? A explicação não tem nada a ver com sorte, nem com a fragilidade dos adversários. Explicamos aqui como os Estados Unidos construíram essa hegemonia com muito trabalho entre as mulheres.

Foto: AFP

1- A maior base do mundo

Nos Estados Unidos, futebol é “coisa de menina”. Enquanto os meninos vão para o basquete, o futebol americano, o beisebol, o esporte mais popular entre as meninas é justamente o futebol. É mais ou menos a mesma lógica que aplicamos no Brasil com os meninos, que aqui todos eles nascem com a bola no pé – só que lá isso acontece com as meninas.

A brasileira Marcia Tafarel trabalha em um dos clubes de base dos EUA (Foto: Arquivo Pessoal)

Elas podem começar em casa ou na escola, mas desde muito pequenas já têm a oportunidade de jogar em clubes. Existem muitos que oferecem categorias de base para garotas a partir dos 7 anos. Isso faz com que elas se desenvolvam desde muito cedo e que tenham o futebol como uma possibilidade de futuro – lá, o esporte está sempre atrelado à educação e quem joga bola tem grandes chances de conseguir uma bolsa na universidade para seguir essa carreira.

“A beleza do nosso país é que temos muitas, muitas meninas jogando, acho que essa é a nossa grande vantagem. Acho que temos mais mulheres jogando no nosso país comparado com o resto do mundo somado. Mas é um país grande, então é um desafio fazer com que esse desenvolvimento seja igual em todos os lugares, sempre temos esse debate”, disse às dibradoras Julie Foudy, ex-capitã dos Estados Unidos, bicampeã mundial (1991 e 1999) e bicampeã olímpica (1996 e 2004).

“Temos leis muito fortes que permitem que as meninas joguem, elas têm a oportunidade também de jogar na faculdade também. A nossa liga profissional não é a mais forte, mas elas têm a chance de jogar. Isso ajuda a conseguir se manter no topo”.

Não é mentira quando Foudy diz que os Estados Unidos têm mais mulheres jogando do que a soma do resto do mundo. Um estudo divulgado na última semana pela Fifa mostrou que existem 9,5 milhões de meninas/mulheres jogando futebol (disputando campeonatos, etc) em território americano. Considerando que todos os países somados têm 13,3 milhões de jogadoras, os EUA representam 71% de todas as mulheres que jogam bola no mundo.

Somente entre as atletas menores de 18 anos registradas em clubes, são 1,5 milhão. Um número muito expressivo que garante a formação de atletas de alto nível para abastecer as seleções de base e a principal.

2- Mais investimento

Quando perguntada na coletiva de imprensa antes da final sobre o que seria necessário para manter o futebol feminino no topo após a Copa, a capitã americana Megan Rapinoe não pestanejou: “money, money, money, money”.

Foto: Reuters

Sem investimento, você nunca vai conseguir construir um negócio rentável – e também não vai conseguir um time campeão. O investimento da US Soccer, a confederação americana, ao longo das últimas décadas foi o que permitiu aos Estados Unidos se manter no topo por muito tempo. E isso é reconhecido até mesmo pelas atletas, que travam na Justiça uma batalha contra a entidade reivindicando igualdade nos pagamentos e nas condições de trabalho em relação à seleção masculina.

“Nossa Confederação é um exemplo quando se fala em financiamento da equipe. Obviamente eu sou a primeira a questioná-los e cutucá-los sobre isso, mas eles nos apoiaram demais. Comparando com todas as outras confederações do mundo, não acho que exista alguém próximo. Acho que essa é a grande razão pela qual conseguimos ser tão bem-sucedidas e dominantes por todo esse tempo”, pontuou Rapinoe.

Foto: Fifa

“Nós não costumamos elogiá-los, mas é definitivamente válido mencionar isso. Eles apoiam a equipe de uma forma muito forte e elevam o nível do jogo, não só em nosso país, mas em todo o mundo. Então eu acho que eles merecem uma quantidade enorme de crédito por isso e vamos continuar a empurrá-los para frente”, completou.

3- Renovação

Os Estados Unidos nunca tiveram uma “Marta”, no sentido de ter revelado uma jogadora absoluta, que tenha conquistado tantos prêmios individuais e encantado o mundo com sua forma diferente de jogar. Mas eles sempre tiveram grandes destaques. Em todas as gerações das seleções americanas, é possível identificar “algumas craques” que lideraram a equipe para as conquistas.

Campeãs em 1991, na China (Foto: US Soccer)

Na geração de 1991 e 1999, Mia Hamm, Julie Foudy, Brandi Chastain. Na geração de 2004 e 2008, elas já foram passando o bastão para Abby Wambach, Carli Lloyd, Tobin Heath e Hope Solo; em 2012 e 2015, surgiram vieram as líderes que tomariam conta dessa geração, Alex Morgan e Megan Rapinoe; e nessa Copa, já se vê outros nomes despontando, como Rose Lavelle e Lindsay Horan (24 e 25 anos). Ou seja, a renovação é constante. Sempre há novas craques e, principalmente, novas líderes surgindo para não só manter o nível do time dentro de campo, mas também para continuar a luta da equipe fora dele.

(Foto: Getty)

“Acho que isso é definitivamente uma característica do nosso time. Sempre fomos guerreiras em termos de cobrar a confederação para apoiar o futebol feminino. E quando começa assim, nós ensinamos as novas gerações, isso é o que importa. Nós sempre falamos para elas: é por isso que você vai lutar, para fazer o jogo melhorar para as próximas gerações. Nós somos muito conscientes na hora de fazer com que as gerações futuras saibam da importância disso também e que elas se importem com a luta”, explicou Julie Foudy.

Esse discurso, inclusive, é muito visível em todas as atletas. É muito comum ouvir Morgan e Rapinoe falando sobre o papel que elas têm para “deixar o jogo melhor para o futuro”. Uma consciência coletiva que é difícil de encontrar em outros times do mundo. É que alimenta o surgimento de novas craques dentro de campo, que também são líderes fora dele. As atletas de hoje sempre fazem questão de mencionar as que vieram antes delas – Rapinoe nomeou algumas das campeãs de 1999 na coletiva e também pediu a Carli Lloyd, que está em sua última Copa, para levantar a taça de campeã.

“Nós tentamos honrar a tradição que as gerações de 1991 e 1999 deixaram”, disse Alex Morgan.

4- Reivindicações coletivas

Esse talvez seja o maior exemplo das conquistas americanas. Porque se elas conseguiram tantos títulos, isso só foi possível graças ao investimento que tiveram por parte da confederação. E elas não tiveram isso de mão beijada. Na primeira Copa do Mundo, em 1991, elas também viajaram com os uniformes que restavam da seleção masculina e não tinham tanto apoio da US Soccer. Mas para elas essas reivindicações sempre foram cruciais e coletivas, e isso ajudou muito o time a conseguir avançar.

(Foto: AP)

“Em muitos países, questionar, cobrar as confederações significa ser cortada depois. Então é difícil quando você não tem muitas oportunidade para falar. Mas o que nós aprendemos muito cedo é que, quando você faz isso coletivamente, juntas, eles não podem cortar o time todo. Você vai ter que cortar 20 jogadoras, 40, e aí eles estão ferrados, porque não podem fazer isso”, explicou Julie Foudy.

Foi essa união que levou as atletas da seleção americana a processar a US Soccer alegando desigualdade de gênero institucionalizada. Todas as 28 atletas entraram na Justiça reivindicando as mesmas condições de trabalho e os mesmos pagamentos que a confederação dá à seleção masculina – tudo isso em março, a três meses do início do Mundial. Nenhuma jogadora foi cortada, porque não seria possível uma punição a todas elas. Hoje, elas ainda precisam fazer seu papel no campo e também fora dele.

“Infelizmente ainda sobra para as jogadoras fazer isso (lutar por igualdade). Esperamos que chegue o dia em que as jogadoras não precisem levantar a voz nessa luta. Mas acho que é importante ter jogadoras que continuam lutando e é isso que temos visto hoje no mundo todo. Espero que chegue um momento em que não precisemos mais lutar.”

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Campeã, artilheira e eleita como melhor jogadora da Copa do Mundo que terminou hoje, com título da seleção dos Estados Unidos, Rapinoe reforçou um coro dos torcedores que lotaram o estádio da final entre Estados Unidos e Holanda. Durante a cerimônia de premiação do torneio, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, foi chamado ao palco para entregar medalhas e acabou vaiado por mais de 57 mil pessoas.

Em seguida, o dirigente ouviu um grito uniforme das arquibancadas: “Equal pay”, que pode ser traduzido como “pagamentos iguais”, uma crítica à diferença na premiação da Copa do Mundo masculina para a feminina.

Na Copa da França, a seleção americana receberá US$ 30 milhões, com possibilidade de o valor ser dobrado na Copa do Mundo de 2023. Já a seleção masculina que vencer o Mundial do Qatar no ano anterior receberá US$ 400 milhões. É a condição que os torcedores em Lyon decidiram não aceitar.

“Eu amei (os gritos). Ter um estádio lotado mostra que o movimento está crescendo. É incrível ver isso no estádio em que estão o presidente da França (Emmanuel Macron), da Fifa (Infantino), delegados de todos os lugares do mundo. É isso o que as pessoas querem. As pessoas estão gritando por isso. Deem às pessoas o que elas querem”, sentenciou Rapinoe, o nome do tetracampeonato dos Estados Unidos.

“Acho que todo mundo está pronto para ver esse debate evoluir para o próximo passo. Nós já passamos a fase do ‘será que vale a pena?’ ou ‘o mercado não é o mesmo’, etc, todo mundo já está cheio disso. Os torcedores estão cansados, as jogadoras estão cansadas disso, vamos avançar para o próximo nível da discussão. O que vem depois? Como nós apoiamos as federações, os programas de desenvolvimento de futebol feminino ao redor do mundo, o que a Fifa pode fazer, o que nós podemos fazer para apoiar as ligas do mundo todo”, afirmou a atacante.

“Nós, todas nós jogadoras desse Mundial, fizemos o melhor espetáculo que alguém poderia querer ver nessa Copa. Não poderíamos ter causado melhor impressão, não poderíamos ter sido melhores embaixadoras. Está na hora de avançar essa conversa. E passar um pouco de vergonha em público não machuca ninguém”, finalizou.

Hoje, em Lyon, Rapinoe fez o gol que abriu a vitória por 2 a 0 diante da Holanda ao converter cobrança de pênalti contra a goleira holandesa Van Veenendaal, eleita a melhor da Copa do Mundo.

Mais do que a reconhecida qualidade em campo,  ela é uma atleta que não se cala diante das injustiças que acontecem ao seu redor e que ainda lidera as americanas em um processo judicial contra a US Soccer (confederação americana de futebol) por igualdade de condições de trabalho e de pagamento com relação à seleção masculina. Para além de ser craque dentro de campo, Rapinoe é um exemplo gigantesco fora dele e merece todas as nossas reverências.

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