Dibradoras http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. Fri, 03 Apr 2020 14:03:50 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Mãe-goleadora, Nildinha jogou até os 42 e tenta carreira fora dos campos http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/04/03/mae-goleadora-nildinha-jogou-ate-os-42-e-tenta-carreira-fora-dos-campos/ http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/04/03/mae-goleadora-nildinha-jogou-ate-os-42-e-tenta-carreira-fora-dos-campos/#respond Fri, 03 Apr 2020 07:00:13 +0000 http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/?p=9907

Seleção feminina rumo aos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 96. Nildinha é a primeira da terceira fileira. (Foto: Acervo Pessoal / Romeu Castro)

Nildinha foi atacante e mãe ao mesmo tempo, em uma época em que o apoio à modalidade era praticamente nulo. Parou de jogar há cerca de cinco anos e não foi nada fácil tomar essa decisão. “Se tivessem me dado a oportunidade de treinar e fazer toda a pré-temporada, eu estaria fazendo gol até hoje”, afirmou em entrevista às dibradoras. 

“Atacante de área” – como ela mesma se definiu – levando o número 9 nas costas, ela saiu do Rio Grande do Norte para começar sua trajetória em Brasília aos 18 anos. “Comecei a jogar na rua, como a maioria. Minha mãe não aceitava, não. Queria me bater quando eu chegava suja ou com o chinelo quebrado, era complicado. Sempre dizia que futebol era coisa de homem” revelou.

Depois de passar anos nos gramados, vestir a camisa da seleção e se tornar uma grandes artilheiras da modalidade, Nildinha ganhou a chance que tanto sonhava pós-carreira. Foi auxiliar técnica da equipe feminina do São Paulo (a única mulher a fazer parte da comissão) em 2019, numa ótima campanha que levou o tricolor paulista à elite do Campeonato Brasileiro (campeão da A2) e à final do Paulista. “Fui desligada do nada. Até hoje eu estou esperando uma explicação e não tenho. Trabalhei, fomos campeãs na base, na Série A2 e quando eu voltei das férias, mandaram um supervisor me demitir“, relembrou. 

Entre a creche e o campo

Dentro de casa, ela tinha o apoio do irmão Maciel. Ao lado dele e de outros quatro irmãos, ela ia para a várzea vê-los jogar e tentar bater uma bola no meio dos mais velhos. “Minha referência era o meu irmão, mesmo. Ele colocou na minha cabeça que eu era atacante e eu aceitei. Amava fazer gols”, contou.

Foi no Gama que ela começou a jogar. Ao lado de Grazi – hoje camisa 7 do Corinthians –  ela despontou para o futebol em busca de seu sonho. Sua carreira tem passagens por diversos times, já que, naquela época, não existia contrato profissional. As atletas defendiam equipes por pouco tempo, disputavam um torneio e depois disso o vínculo acabava.

Em 1993, aos 21 anos, ela engravidou e veio para São Paulo jogar em um dos times com maior relevância na modalidade naquela época: o Saad Esporte Clube. Mãe solo e com a filha Mayra, de apenas 4 meses, ela dividia seu tempo entre maternidade e competições.

Nildinha fazia parte do timaço que era o SAAD (Foto: Acervo Pessoal / Romeu Castro)

“Nós morávamos em um alojamento, era uma casa localizada em Campinas. O Romeu Castro (que atualmente é  supervisor de futebol feminino do departamento de competições da CBF) era o presidente do clube e arranjou uma babá para cuidar da minha filha. Mas depois, ela foi embora e eu tive que me virar. Andava 3km toda manhã, deixava minha filha na creche, voltava e já ia direto pro campo. Treinava, ia para casa almoçar, descansava um pouco, treinava novamente à tarde e ia para a creche pegar ela e voltar”, recorda. E durante toda sua vida de atleta, Nildinha precisou levar Mayra consigo. “Todos os clubes sempre me ajudaram, tanto as atletas como os dirigentes.”

“A Mayra acabou virando uma ‘afilhada’ de todos que estavam no Saad naquela época. E a Nildinha era uma jogadora com um talento muito grande, com uma velocidade que assombrava na época e uma das maiores artilheiras do futebol feminino de São Paulo e do Brasil”, declarou Romeu ao blog.

Vale destacar que mesmo sendo tratada como “afilhada” por todo o time do Saad, Mayra tem uma madrinha oficial. “A Roseli (também jogadora que brilhou pela seleção à época) é minha comadre”, afirma a mãe e ex-jogadora.

Pelo Saad, Nildinha foi Campeã Brasileira (1996), Bicampeã da Copa São Paulo (1994-1995) e foi jogando ali que ela foi convocada, pela 1ª vez, para defender a seleção brasileira.

Nildinha do Brasil

“Querer jogar igual a alguém, não tinha isso não (quando era mais nova). Uma vez assistindo a TV, vi uma matéria no Globo Esporte com elas (Sissi, Roseli, Pretinha), e eu dizia para meu irmão: ‘poxa Maciel, quero estar ali um dia. Quero ir pra seleção e conhecer essas meninas’. E aí ele falava: ‘não magrela, não dá, é difícil.'”

Seleção feminina em 95: Maravilha, Kátia Cilene, Nildinha, Sônia, Lêda Maria, Tânia Maranhão, Marisa e Didi (Foto: Acervo Romeu Castro)

Mas deu certo! Nildinha defendeu o Brasil nos Jogos Olímpicos de Atlanta (1996) e em Sydney (2000). “E um dia eu fui pra seleção, conheci todas e joguei com elas. O que eu queria, corri atrás e consegui. E foi bacana naquela época de tanta dificuldade para o futebol feminino, eu ter chegado em uma seleção”, relembra.

E com quem ficou Mayra? “Na Olimpíada, ficou com o pai. Era um sofrimento porque ficava muito tempo longe e ela lembra disso. Às vezes, ela me fala ‘nossa mãe, você ficou mais longe de mim do que perto’. Mas agora eu já tenho minha netinha Manuela pra cuidar”, afirma.

“Choro até hoje por uma bola na cabeça”

Nildinha fazia gol atrás de gol, mesmo. Em duas temporadas (2008 e 2009), ela foi artilheira do Campeonato Paulista, com 26 e 20 gols respectivamente, vestindo a camisa do Corinthians. Defendeu o clube paulista por dois anos e guarda boas recordações. “Na época, tinham até cogitado de trazer a Marta, ela até foi lá fazer uma visita, mas acabou que ficou só na conversa mesmo”, relembra.

Nildinha defendeu o Corinthians em 2008 e 2009 (Foto: Daniel Augusto Jr. / Agência Corinthians)

No início dos anos 2000, Cris Gambaré, hoje diretora do novo projeto bem-sucedido do futebol feminino no Corinthians, já brigava pela modalidade no Parque São Jorge e Nildinha valoriza a luta dela. “Naquela época, o Corinthians não tinha tanto o apoio que tem hoje. A Cris era diretora, mas não tinha tanto respaldo da diretoria pra fazer o que hoje ela faz. Mas desde lá atrás, ela tentou fazer o melhor pelo Corinthians e pelo futebol feminino. Só vieram deixar agora e ela é uma ótima diretora, um exemplo para seguir”, opinou. 

No decorrer da carreira, Nildinha defendeu clubes como a Portuguesa, Flamengo, Grêmio, Vasco, Cresspom, América de Natal, Palmeiras e Juventus. São muitas as lembranças, mas ela guarda com carinho os momentos em que defendeu a Lusa, onde foi Bicampeã Paulista (2000 e 2001) e Campeã Brasileira (2000). “Foi o clube onde eu mais joguei e que tinha uma das melhores equipes.”

A ex-jogadora também tem passagens por clubes estrangeiros, como Kansas City (USA), Takarazuka Bunnys (Japão), Estudiantes (Espanha), Torres (Itália) e Hammarby (Suécia).

Nildinha era letal dentro da área. Rápida, chutava com os dois pés e também era certeira nos cabeceios. E disso ela sente saudade. “Choro até hoje por uma bola na cabeça, é uma coisa que não tem mais no futebol, uma atacante de área que cabeceia. Na minha época, era eu e Katia Cilene como atacante de área e sem medo de cabecear”, conta.

Nildinha carregando a tocha olímpica em 2016 (Foto: Arquivo Pessoal)

Entre os momentos que não consegue esquecer, Nildinha relembra de marcar gols contra os Estados Unidos pela seleção e de ver um gol seu ser eleito como o melhor da rodada. “Não esqueço da Copa Nike que participei em 2001, nos Estados Unidos, e fiz dois gols contra elas, isso me arrepia e me emociona muito até hoje. Outro momento foi a final do Brasileiro, quando jogava pela Portuguesa contra o Palmeiras, em Minas Gerais. Eu fiz um gol e ganhei como mais bonito da rodada, até mesmo dos homens. E o melhor é que foi narrado pelo Valdir Espinosa”, conta.

Pós-carreira

Dar adeus ao futebol não foi fácil. O cenário era totalmente instável e com o passar dos anos, Nildinha não encontrava um lugar onde pudesse fazer o que tanto amava. “Parei de jogar porque a idade vai chegando e os clubes e dirigentes vão querendo pessoas mais novas. Aí foi afunilando, achei melhor parar do que ficar me desgastando e sofrendo.”

Tomou a decisão aos 42 anos, mas enfrentou muita tristeza. “Passei por uma depressão muito grande, ia pro hospital sem motivo, achava que tava entortando tudo. Aí, voltei a jogar no Juventus, uns cinco anos atrás. Fiquei boa da depressão porque voltei pro campo, mas era difícil, não tinha um salário fixo e pensei que era melhor eu parar mesmo para estudar e fazer uns cursos.”

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Primeiro titulo na comissão tecnica. Q venha mts obgd Senhor.

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A passagem pelo São Paulo como auxiliar técnica foi importante e marcante para Nildinha. A saída sem explicação chateou demais a ex-atleta. “As jogadoras me adoravam, queriam meu trabalho. Ali, eu era uma pessoa que ajudava elas em tudo e acho que foi justamente isso que incomodou alguns. Lá dentro, tinham coisas que me chateavam e que eu não achava certo também”, disse.

Agora , aos 48 anos, Nildinha busca uma recolocação para trabalhar com aquilo que fez durante toda a vida e também se qualificar ainda mais na profissão. “Mandei meu currículo e tive algumas propostas de clubes de São Paulo, da Bahia e de Brasília. O que é ruim é ficar longe da minha netinha”, lamentou. 

Da bola, Nildinha não se separa. Toda terça e quinta joga futebol e futevôlei com um grupo de amigos na Granja Viana, perto de onde mora, e agora afirma estar pronta para novos desafios. “Não mudaria nada na minha trajetória, fui feliz do jeito que foi, mesmo com as dificuldades que o futebol feminino tinha. Fui feliz demais.”

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Alex Morgan: ‘Atletas não deviam ter que optar entre esporte e maternidade’ http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/04/02/alex-morgan-atletas-nao-deviam-ter-que-optar-entre-esporte-e-maternidade/ http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/04/02/alex-morgan-atletas-nao-deviam-ter-que-optar-entre-esporte-e-maternidade/#respond Thu, 02 Apr 2020 07:00:27 +0000 http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/?p=9952

Foto: Reprodução Glamour (Radka Leitmeritz)

Alex Morgan começou 2020 com um sonho ousado. Bicampeã do mundo e já campeã olímpica com a seleção americana de futebol, a atacante anunciou gravidez ainda no ano passado e, com a previsão de nascimento da filha para abril, ela ainda fazia planos para voltar a tempo de disputar os Jogos Olímpicos de Tóquio em julho. Com o adiamento desta edição confirmado pelo COI – a Olimpíada agora será em julho de 2021 -, Morgan “ganha” mais uns meses para voltar ainda mais preparada, mas não desiste de seu principal objetivo em meio a tudo isso.

“Eu gosto de falar abertamente sobre isso porque eu quero que mulheres vejam que não precisam escolher entre uma coisa e outra. Quanto mais atletas mães nós tivermos ainda no meio da carreira esportiva, melhor – só olhar o exemplo de Allyson Felix (multicampeã e medalhista de ouro no Mundial de Atletismo de 2019 após ter filho), Serena Williams (campeã do Australian Open grávida em 2017), e minha companheira de equipe Sydney Leroux (voltou a jogar pelo Orlando Pride três meses após dar luz ao segundo filho). Quando mais mulheres desafiarem o sistema, mais ele vai mudar”, afirmou a americana em matéria especial de capa para a revista Glamour nos Estados Unidos.

Morgan foi uma das artilheiras da Copa de 2019 (Foto: Reuters)

Quando anunciou que estava grávida em outubro, Morgan ouviu comentários de alguns fãs questionando o momento escolhido por ela para ser mãe. A atacante vivia, aos 30 anos, talvez o auge da sua carreira, tendo sido artilheira da Copa do Mundo de 2019, uma das finalistas do prêmio de melhor do mundo da Fifa no mesmo ano, e, com os Jogos Olímpicos em vista, muitos pensaram que teria sido uma decisão precipitada engravidar às vésperas de uma competição tão importante para a seleção americana de futebol.

“Fãs de futebol questionaram: ‘por que ela vai fazer algo assim bem no auge da carreira?’. Não é como se uma mulher não conseguisse fazer as duas coisas (carreira no esporte e maternidade) – nossos corpos são incríveis -, é o fato de que o mundo parece não ter sido feito para as mulheres prosperarem”, diz ela.

Foto: Reprodução Glamour (Radka Leitmeritz)

“Eu pensei comigo mesma: eu tenho uma rede de apoio para conseguir voltar a jogar. Não tenho motivos hoje para me aposentar do futebol só porque quero começar uma família”, observou. Morgan reconhece seus privilégios como uma jogadora que conseguiu manter seu emprego e seus ganhos com patrocinadores mesmo durante a gravidez (até pela luta de outras atletas que antes dela falaram disso publicamente e fizeram a Nike mudar sua política para atletas grávidas).

A gravidez ainda é um tabu para mulheres no esporte. Não só pelo julgamento das pessoas, mas principalmente pela falta de estabilidade delas no trabalho. É difícil encontrar clubes e patrocinadores que mantenham os vencimentos das jogadoras enquanto elas estão afastadas na gravidez. E o desafio de voltar após o nascimento de um filho também é grande – o corpo inteiro da mulher muda e a rotina se torna ainda mais exaustiva com amamentação ao longo do dia e na madrugada. Se estivesse nos Jogos de Tóquio, é possível que Morgan tivesse que amamentar no intervalo dos jogos no vestiário, como fez Sydney Leroux no Orlando Pride.

 

“Agora eu tenho mais tempo para lidar com isso e eu vou ter mais tempo com minha filha. Consigo me planejar com mais calma e um pouco mais de clareza. Tenho que olhar de maneira positiva pra isso”, afirmou.

Morgan mantinha uma rotina de treinos de futebol com exercícios monitorados até os sete meses de gravidez. Tudo foi feito pensando em manter seu corpo ativo e acostumado com a atividade que ela retomaria semanas após o parto, se tudo desse certo. Agora, com os Jogos adiados, ela tem menos preocupações com o futebol, mas ao mesmo tempo uma grande aflição na reta final da gravidez.

Foto: Reprodução Glamour (Radka Leitmeritz)

Com os casos de Covid-19 se multiplicando nos Estados Unidos, hospitais estão restringindo acesso de pais e doulas na sala de parto e isso preocupa bastante a atacante, que já pensa, inclusive, na opção de um parto em casa. “Eu não me sentiria bem no parto sem ter meu marido perto. Isso tem gerado uma grande discussão com ele, com minha mãe, minha doula. Ter o parto em casa pode ser um momento intenso e também muito bonito”, disse.

O mais interessante desse momento é que Alex Morgan terá uma menina. E, diante da luta que ela tem até hoje por um mundo mais igual no esporte (ela é uma das líderes no processo judicial da seleção americana contra a US. Soccer pedindo igualdade de tratamento e pagamento com relação à seleção masculina), a atacante já projeta um futuro mais promissor para a filha.

“Eu não lembro de ter ouvido falar sobre a discriminação que meninas e mulheres enfrentam no esporte quando eu era criança. Mas agora eu vejo meninas de oito anos de idade com cartazes dizendo: ‘Alex, obrigada por me dar um futuro melhor’. Eu mal posso esperar para compartilhar todas essas histórias com minha filha e poder contar para ela um pouco da história de luta que a mãe dela teve”, finalizou.

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“Estou vivendo um luto”: o impacto do adiamento de Tóquio-2021 nas atletas http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/04/01/estou-vivendo-um-luto-o-impacto-do-adiamento-de-toquio-2021-nas-atletas/ http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/04/01/estou-vivendo-um-luto-o-impacto-do-adiamento-de-toquio-2021-nas-atletas/#respond Wed, 01 Apr 2020 07:00:51 +0000 http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/?p=9940

(Foto: Getty Images)

No momento em que a notícia do adiamento dos Jogos Olímpicos se confirmou, Isadora Cerullo – também conhecida como Izzy -, co-capitã da seleção brasileira de rugby, tomava café da manhã em sua casa. Era o dia de seu aniversário e, diante daquele novo cenário, a jogadora viu todo seu planejamento de transição de carreira mudar de rota e chorou.

“Eu perdi o apetite, não tive vontade de terminar meu café da manhã. E aí eu me permiti chorar e nem sabia direito o porquê. Faço parte da comissão de atletas da CBRu (Confederação Brasileira de Rugby) e já estávamos falando sobre o adiamento que poderia chegar, que era a melhor coisa a se fazer, já estava envolvida em algumas decisões em termos de apoiar a decisão do COI e, mesmo assim, e eu senti muita coisa fisicamente quando essa decisão saiu nas redes de notícia. Então, eu me permiti sentir o que estava acontecendo naquela hora e faz alguns dias que eu estou digerindo tudo isso”, contou ao blog. 

Filha de brasileiros, Izzy cresceu nos Estados Unidos e praticava rugby na Universidade. Ela viu sua vida mudar quando se inscreveu em uma convocatória da CBRu para defender a seleção brasileira. Fez os testes, passou e, por conta da dupla-nacionalidade, foi convidada a integrar a equipe.

Chegou ao Brasil em 2014 e no ano seguinte ajudou a equipe a conquistar a importante medalha de bronze nos Jogos Pan-Americanos de Toronto. Em 2016, fez parte da equipe olímpica do Brasil e a seleção ficou em 9º lugar.

(foto: Phil Noble/Reuters)

Durante esses quatro anos, Izzy se preparou para viver novamente o que chama de “sonho olímpico” e, depois dos Jogos de Tóquio, sua intenção era voltar aos Estados com sua esposa Marjorie, retomar os estudos (pretende cursar Fisioterapia), estar próximo de sua família e pensar em construir a sua.

“Ninguém está falando sobre o que significa esse momento de perda. Eu, desde o dia da notícia, estou vivendo um luto de muita expectativa, muito planejamento pessoal e profissional, e não sei…. não é que eu não tenha motivação, mas esse é um momento de clareza sobre o que eu estou sentindo.”

O primeiro cancelamento da história e muitas incertezas

Essa foi a 1ª vez que uma edição de Jogos Olímpicos foi adiada. No passado, outras três foram canceladas por conta das 1ª e 2ª Guerras Mundiais: Berlim em 1916, Tóquio em 1940 e Londres em 1944. “Dentro dessa perspectiva, é bom lembrar que a carreira de duas atletas brasileiras, como a Maria Lenk e Maria Esther Bueno, ficaram na sombra do movimento olímpico justamente pelo cancelamento dos Jogos de 1940. Do ponto de vista dos atletas, é bom pensar nisso, já não é a primeira vez que isso acontece e o desdobramento na vida dos atletas é, sem dúvida alguma, algo terrível, absolutamente devastador na vida deles”, relembrou Katia Rubio, Professora Doutora da USP e pesquisadora da história olímpica há mais de duas décadas.

O adiamento da competição por um ano pode significar pouco para alguns atletas, mas para Izzy não foi fácil, não só pelos planos que havia traçado, mas também pelo preparo físico que conseguiu atingir. Uma semana antes da população de São Paulo adotar a quarentena, a jogadora havia passado por avaliações com seus treinadores na seleção.

(Foto: Getty Images)

“Meu técnico disse que eu estava no ponto em que ele queria que eu estivesse com meu rugby, como líder dentro do time e que ainda bem que eu tinha mais alguns meses para chegar no pico. E meu preparador físico, que me conhece há 5 anos, também reforçou que eu havia feito um ciclo praticamente certo, mesmo com algumas lesões, e que eu estava na reta final”, contou. 

Izzy reforça que, como o futuro é incerto por conta dessa pandemia, ela enfrenta dúvidas com relação ao corpo. “Um ano é bastante tempo pra fazer outra periodização porque a gente não sabe quando teremos condições normais para treinar. E bate uma insegurança que talvez esse nível vai passar pela janela e talvez não chego no pico no momento certo de novo. Preciso confiar que trabalho com um staff completo é muito bom, eles vão me ajudar a fazer essa adaptação, mas bate aquela insegurança do tipo: ‘será que vou chegar tão bem quanto estava agora?'”.

Izzy se permitiu viver o luto dessa transformação, mas depois do grande baque, voltou a pensar nos treinos. E tem feito seu preparo em casa, com o apoio da Confederação, tanto no preparo físico como no psicológico. “Agora estou dissecando toda tristeza que senti no momento, é impossível não sentir um pouco de injustiça, de falar ‘nossa, que momento pra tudo isso acontecer’. Mas, acima de tudo, sei que era a decisão certa, não tinha o que fazer.”

‘Sigo com meu planejamento’

Quem vive um sentimento oposto é a central Carol Gattaz, jogadora do Minas Tênis Clube e que, em julho, completará 39 anos. Há, pelo menos três temporadas, a jogadora tem se destacado na Superliga e, mesmo com toda bagagem e experiência, ela ainda sonha em se tornar uma atleta olímpica.

Carol Gattaz em ação pelo Minas (Foto: Minas Tênis Clube/Divulgação)

“O adiamento não impacta em nada, sigo com a mesma preparação que venho fazendo desde o ano passado. Claro, é um ano a mais na minha vida, em 2021 estarei com quase 40, pode ser que tenha alguma mudança. Mas até hoje não senti o peso da idade. Vou continuar com a mesma preparação de sempre, com os mesmos especialistas que eu procuro para me ajudar, tanto física quanto psicológica. Faço terapia, coaching, acompanhamento com fisiologista, nutrólogo e no Minas também tenho todo acompanhamento médico”, destacou ao blog. 

+ Aos 37, Carol Gattaz supera dores, lidera estatísticas e leva Minas ao topo 

Como tem um histórico de lesão, especificamente tendinite patelar – um problema no joelho que gera um grande incômodo para quem precisa dele o tempo todo para saltar – a central revela que faz treinos adaptados no clube. “Treino um pouco menos para não forçar e quando vejo que o corpo tá ficando cansado, aviso os médicos e eles me auxiliam. As lesões estão controladas, nada me impede de fazer qualquer coisa.”

Gattaz comemorando o tricampeonato sul-americano em fevereiro (Foto: Reprodução/Instagram)

Com segurança e brigando por uma vaga na equipe de Zé Roberto Guimarães, o plano de Gattaz é permanecer em quadra mesmo após Tóquio-2021. “Meu desafio maior é comigo mesmo, lógico que não depende só de mim, mas farei de tudo para brigar por uma vaga e estar lá (em Tóquio). Não penso em aposentar depois da Olimpíada, me sinto muito bem pra jogar. Se estiver em alto nível e ajudando minha equipe, vou continuar jogando. Não penso em aposentar tão cedo”, afirmou. 

As renúncias que levam ao propósito

Replanejar um ano por conta de um adiamento não é tão simples assim, e dedicar um ciclo de quatro anos para chegar ao auge na maior competição do planeta, é mais difícil ainda. E quem sabe bem o que significa isso é Fofão, ex-jogadora de vôlei e campeã olímpica com a seleção brasileira nos Jogos de Pequim, em 2008.

(Foto: EFE)

Foram 30 anos dedicado ao voleibol, 5 ciclos olímpicos completos e abrindo mão de convívio familiar, de lua-de-mel e até mesmo de maternidade em busca da realização profissional. “Entendi, desde os meus 15 anos, que a minha vida não poderia ser a mesma, que eu deveria fazer coisas pelo bem da minha profissão. Minha carreira se prolongou porque as coisas foram acontecendo muito tarde. Fui campeã olímpica com 38 anos, parei de jogar aos 45 e isso tudo não foi planejado. Vejo que minha carreira não foi construída, nunca fiz planos, ia (jogando) um ano após o outro”, revelou. 

Fofão frisa que sempre deixou claro – especialmente ao marido João Marcio -, que sua prioridade era o voleibol. E a vida deles sempre foi programada em cima do objetivo da jogadora. Em 2009, depois do ouro olímpico, Fofão ficou um ano sem jogar, e ainda assim não pensou em engravidar.

“Em nenhum momento veio esse pensamento. Acabei cuidando de outras coisas e isso não fez parte do meu planejamento, mas seria uma boa época”, relembrou. Depois, ela voltou às quadras, o tempo foi passando e essa ideia ficou para trás. “Depois que parei, ainda tinha a vontade de ser mãe, mesmo com a questão da idade… hoje em dia está tudo tão mudado. A gente tentou bastante, fizemos vários exames e foi bem complicado porque cada vez tinha alguma coisa e aí a gente acabou abandonando essa ideia. Mas foi uma coisa feita em comum acordo entre eu e meu marido e a gente resolveu seguir nossa vida em frente.”

A jogadora de futebol Rosana, medalhista de prata e 4 ciclos olímpicos no currículo, também viu seu sonho de ser mãe não se concretizar após o falecimento de seu noivo. “Abri mão de muitas coisas por causa da minha carreira, uma delas foi ficar longe da minha família por muito tempo, jogar em outros países e muitas vezes só eu de brasileira no time. A renúncia maior foi prorrogar pra ter um filho. Meu noivo acabou falecendo e eu não tive essa felicidade por conta de sempre prorrogar esse prazo.”

Juliana Cabral, Daniela Alves e Rosana na chegada ao Brasil após a conquista da medalha de prata (Foto: Acervo Museu do Futebol)

De volta aos gramados após uma breve aposentadoria de 10 meses, a parada esportiva por conta do Coronavírus também atrapalha o condicionamento físico de Rosana. “Confesso que esse retorno não tem sido fácil. Sabia que correria alguns riscos maiores com probabilidades de ter uma lesão por conta desse tempo de inatividade no futebol. Mas, tenho conseguido alcançar alguns objetivos, tem o fator da idade que implica um pouco mais e aí, num momento de ascensão, vem essa pandemia e novamente eu tenho que fazer os treinos em casa”, afirmou a jogadora que vem seguindo uma programação de treinos feita pelos profissionais do Palmeiras.

Tanto Fofão quanto Rosana reforçam que todo esforço foi compensador. A ex-levantadora agradece por ter parado de jogar em alto nível e campeã da Superliga. E Rosana entende que o adiamento pode atrapalhar os planos de um pós-carreira, mas pela recompensa vale o esforço. “É um ano a mais de trabalho e de renúncias, mas acho que vale muito a pena. É o maior evento do mundo, que todo atleta sonha em jogar, é o ápice da carreira. É um preço alto que se paga, mas o prazer e a glória são compensadores.”

A importância da rede de apoio

Repensar decisões e treinamentos requer estrutura emocional e esse ponto, muitas vezes, acaba sendo pouco analisado pelas pessoas. E Izzy percebe isso.

“Nesse mesmo dia, eu e a Marjorie sentamos e conversamos sobre o que ia significar pra gente, querendo ou não, a gente refaz as prioridades. Eu sou atleta e estou correndo atrás desse sonho e eu me sinto muito sortuda que ela me apoia. Mas temos consciência de que abrimos mão de muita coisa para priorizar o meu trabalho e as exigências de atleta”, contou. 

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1-4 how are we feeling today?? Yes, I’m out here pushing myself, but that doesn’t mean it’s business as usual. It means things that are usually straightforward are more complicated, I have to adapt so many things, I have to be more patient and flexible, I have to embrace what I have and let go of what I don’t. But we’re out here trying to make lemonade , right? It’s about trusting in this power of adaptation, about being open with my support network that I need them and love them for helping me stand up and face these challenges ; about knowing that I can feel conflicting things and that doesn’t take my focus off the long-term goal ⛰. We’re in this together! Close your eyes and take 3 deep breaths (make some noise if you feel like it) . #mentalhealthmonday #motivationmonday #staystrong #stayactive #mindset #adapt #risetothechallenge #olympicdream #rugby #quarantinefitness #quarantraining #quarentreino #mygirl #shoutouttosupportnetworks #askforhelp #offerhelp #hereifanyoneneedstotalk

Uma publicação compartilhada por Isadora Cerullo (@izzycerullo) em

A jogadora de rugby cita como é importante contar com essa rede de apoio que pode ser visível na vida do atleta – como os treinadores, psicólogos, terapeutas, nutricionistas – e a rede invisível, que dá amparo emocional, como a família, a companheira, as amigas.

“Todos os tipos de rede de apoio são afetados com essa decisão. Estou nesse momento de ter clareza sobre o que estou sentindo e o que isso significa pra mim no emocional, tentando apontar as coisas que geraram tristeza, mas saber que eu também estou muito motivada para continuar lutando por esse sonho, que só acontece a cada quatro anos e saber que sim, eu estou lutando por isso, mas não estou deixando de viver o luto também.”

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Pra ter voz e vez, mulheres criaram organizada feminina do Inter em 2009 http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/03/30/para-ter-voz-no-futebol-mulheres-criaram-1a-organizada-feminina-ha-10-anos/ http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/03/30/para-ter-voz-no-futebol-mulheres-criaram-1a-organizada-feminina-ha-10-anos/#respond Mon, 30 Mar 2020 07:00:35 +0000 http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/?p=9908

Foto: FFC/Arquivos pessoais

As primeiras torcidas organizadas do Brasil surgiram na década de 1940 para fazer festa na arquibancada e garantir apoio incondicional aos times em questão em todos os jogos. De certa forma, a Força Feminina Colorada, nasceu em 2009 com o mesmo objetivo, mas com um adendo importante: o de garantir voz para as mulheres no futebol.

As torcidas organizadas “tradicionais” não proíbem a participação feminina. Mas guardam a elas um papel longe do protagonismo, na maioria das vezes. Há restrições ao papel que uma torcedora pode exercer dentro da organização – isso varia de torcida para torcida, mas, no geral, mulheres não podem tocar determinados instrumentos na bateria, não podem carregar bandeirão, e muitas vezes também não têm permissão para viajar para determinados jogos fora de casa nas tradicionais caravanas. Sentindo falta de um espaço que garantisse a elas liberdade nas arquibancadas, Jéssica Maciel, Patricia Belem e mais quatro torcedoras decidiram criar, em 2009, uma torcida organizada só de mulheres.

“A ideia da torcida feminina surgiu por uma comunidade do Inter no Orkut em 2009. Algumas torcedoras começaram a comentar sobre a necessidade de ter uma torcida de mulheres porque elas enfrentavam aquelas questões de sempre do medo de ir sozinha ao estádio, tinha o tabu de violência no futebol e etc. Elas se organizaram, fizeram uma reunião e decidiram fundar uma torcida organizada”, contou ao blog Francine Malessa, diretora de comunicação da torcida.

Francine entrou na torcida em 2014 e hoje é diretora de comunicação (Foto: FFC/Arquivos pessoais)

A Força Feminina Colorada foi registrada oficialmente no cartório, foi reconhecida pelo Ministério Público e aí só faltava o reconhecimento do próprio clube para garantir a elas um espaço específico na arquibancada. Com a ajuda de familiares e amigos, a estratégia delas foi inundar o Internacional com ligações pedindo por uma torcida organizada feminina – até que o clube cedeu e reconheceu institucionalmente a Força Feminina Colorada como uma das torcidas organizadas oficiais do Inter.

“Consta no site institucional entre as torcidas organizadas do Inter. Isso politicamente, na questão de convivência com clube, nos coloca no patamar de participar de reuniões pra organizar ações e ter um diálogo mais aberto com o clube para reivindicar mudanças que achamos importantes. Hoje, há uma diretoria feminina lá e isso nos ajuda a ter mais voz ativa institucionalmente”, explica Francine.

Foto: FFC/Arquivos pessoais

Representatividade

Naqueles tempos, a discussão sobre o preconceito com a mulher na arquibancada ainda era muito rasa e muito rara também. Ideias hoje ultrapassadas sobre futebol ser coisa de homem e sobre a mulher ter um papel de “embelezar” a torcida ainda eram muito reproduzidas e aceitas. Não à toa, o lema inicial da Força Feminina Colorada remetia a essa última ideia: “Paz e beleza no futebol”. Em 2014, porém, isso mudou. Com o entendimento de que o papel delas tinha muito mais a ver com empoderar mulheres – em vez de falar delas como um “adorno” no futebol -, o lema mudou para: Paz, Representatividade e Empoderamento no futebol.

“Um dia eu lancei essa discussão sobre o lema estar ultrapassado. Casou com o momento que começou a ter esse boom de discussões sobre feminismo no Brasil. A gente começou em conjunto a ter discussões internas para se posicionar também sobre representatividade. Foi aí que decidimos mudar o lema”, relata Francine.

(Foto: FFC/Arquivos pessoais)

Com a mudança, elas também passaram a se manifestar diante de situações machistas sofridas por torcedoras ou jornalistas. Foi o que aconteceu quando a comentarista Eduarda Streb ouviu do colega Peninha em um programa de rádio que ela “deveria voltar pra cozinha”. A Força Feminina Colorada saiu em defesa da jornalista e foi ao estádio no jogo seguinte com aventais e pano de prato em protesto mostrando que elas já haviam saído da cozinha e agora ocupariam a arquibancada também.

“A gente já saiu desse papel doméstico que era das mulheres. Nosso intuito com a torcida é marcar presença e posição nisso também”.

Das seis integrantes que fundaram a torcida, hoje elas são mais de 200 cadastradas e são presença certa em todos os jogos do Inter, seja no Beira-Rio ou fora de casa. E desde 2016, elas passaram a ter também uma banda com instrumentistas para animar as torcedoras no estádio.

Foto: FFC/Arquivos pessoais

“Essa banda é formada por jovens e adolescentes que estudam em escolas públicas, faz parte do desenvolvimento de um projeto social nosso. Recebemos meninas e meninos também e aí isso também gera uma mudança cultural neles, de entender que não tem essa de lugar de mulher ou de homem. A gente mexe na autoestima deles, eles se sentem muito protagonistas e se envolvem nas nossas ações. Então a banda é formada por esses adolescentes e também por mulheres da torcida. Tivemos a primeira mulher de sopro em torcida organizada”, diz Francine.

Foto: FFC/Arquivos pessoais

Briga por espaço persiste

Desde que foi oficializada como torcida organizada do Inter, a Força Feminina Colorada ganhou seu setor reservado na arquibancada do Beira-Rio. Mas ao contrário do que acontece com as outras organizadas, o espaço delas muitas vezes não é respeitado pelos torcedores.

“Já tive que ter algumas discussões com torcedores que queriam ocupar o espaço que era reservado para nós. Ainda hoje tem algumas resistências. No último Grenal do Beira-Rio, a gente colocou umas fitas de isolamento pra ter o espaço da banda. A gente costuma entrar mais cedo e fica por ali avisando que é espaço da torcida e tal. A gente dialoga, argumenta, pede pras pessoas saírem. Aí teve cara que parou ali e pulou a fita de isolamento e só saiu quando o amigo dele falou para ele sair – eu pedi o tempo todo pra ele sair, mas ele só atendeu quando o amigo falou. Eu fico um pouco impressionada com o fato de isso ainda acontecer, ainda não respeitam nosso espaço ou a nossa voz”, contou Francine.

Força Feminina Colorada tem seu espaço reservado no estádio, assim como as outras organizadas do clube (Foto: FFC/Arquivos pessoais)

Completando 10 anos no ano passado, a Força Feminina Colorada também se dedica agora a apoiar o futebol feminino do clube. A modalidade foi reativada há três anos por lá, e elas também passaram a acompanhar os jogos das mulheres. O problema é que eles quase nunca são no Beira-Rio, o que gera um problema de logística e mais uma reivindicação delas junto ao clube.

“Na primeira temporada, a gente conseguiu organizar de levar banda pra todos os jogos. E eles não são no Beira-Rio, então tem toda uma logística. Como levar instrumento, os adolescentes da banda e tal. Acho que o que ainda impede um apoio maior é justamente o fato de elas não jogarem no Beira-Rio, que é algo que a gente questiona para o clube inclusive”.

Inspiração para rivais

Considerada como uma referência por ter sido a primeira torcida organizada feminina do país, a Força Feminina Colorada é vista como inspiração até mesmo para as rivais gremistas. Já houve uma tentativa delas de criar algo assim do lado de lá, mas dificuldades burocráticas impediram a oficialização da organizada tricolor só com mulheres. Ainda assim, as coloradas mantêm contato com coletivos de torcedoras gremistas com o intuito de fortalecer a luta feminina no futebol.

Torcedoras também viajam para jogos fora de casa (Foto: FFC/Arquivos pessoais)

“Pra nós, seria muito legal ter uma iniciativa no Grêmio porque incentivaria mais mulheres a irem ao estádio. E muda a fotografia que a gente tem da arquibancada. No nosso setor, as famílias já se identificam, levam crianças, tem mais mulheres também. Fica um estádio mais inclusivo. Pra nós, a rivalidade existe, mas, enquanto o machismo e a misoginia existirem no futebol, pra nós isso é nosso maior rival, e não o simbolo do Grêmio”, destacou Francine.

Durante os tempos de futebol parado por conta do coronavírus, a FFC tem feito lives no Instagram com torcidas ou coletivos femininos de outros clubes para compartilhar ideias e ações. Elas seguem com o principal propósito que norteou a criação da torcida há dez anos: somar forças entre as mulheres.

“Eu entrei na torcida no momento bem crítico da minha vida. Estava saindo de um relacionamento abusivo e precisava encontrar algum espaço pra eu buscar minha independência, minha autoestima. Na convivência com essas mulheres, consegui me reerguer. Consegui entender a força da mulher. Pelo futebol, a gente também pode ajudar umas às outras”.

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Multicampeã, Fabi sonha com futuro ‘além do rosa e da boneca’ para filha http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/03/27/multicampea-fabi-sonha-com-futuro-alem-do-rosa-e-da-boneca-para-filha/ http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/03/27/multicampea-fabi-sonha-com-futuro-alem-do-rosa-e-da-boneca-para-filha/#respond Fri, 27 Mar 2020 07:00:51 +0000 http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/?p=9883

Foto: Arquivo Pessoal

Ao ler o comentário maldoso de um seguidor na sua foto do instagram anunciando a gravidez da companheira, Fabi nem conseguiu sentir raiva ou retrucar. Ali em janeiro de 2019, mesmo em meio a tantas incertezas sobre o futuro da sua família (que não é considerada “tradicional brasileira”), a bicampeã olímpica do vôlei estava tomada de amor e nada mais importava. O sonho de ser mãe finalmente se tornaria realidade.

“Grávida, como? Milagre”, foi o que escreveu um homem na foto em que Fabi aparecia abraçando a barriga de Julia em uma cachoeira. “Pode ser também. Chame como achar melhor. Muito amor pra você”, ela respondeu. Amor foi o que não faltou para ela e a esposa desde que Maria Luiza chegou na vida delas em julho do ano passado. Faltaram algumas noites de sono, é verdade, e sobrou um pouco de cansaço, mas nada que um sorriso dela não apague em questão de segundos. Para quem sempre gostou de desafios dentro de quadra, Fabi enfrenta agora do lado de fora o maior deles em toda a sua vida: o de criar uma menina verdadeiramente livre em um mundo que ainda é cheio de amarras para elas.

“A maternidade é um aprendizado diário. É um desafio enorme colocar um ser humano no mundo, tentar passar pra ele valores, princípios, coisas inegociáveis. Ter a missão de formar uma pessoa, trazer pra pessoa a primeira impressão do mundo, é um grande desafio”, contou a ex-jogadora ao blog.

 

“Eu vivi essa ‘limitação’ por ser menina. Meus pais brigavam comigo porque eu estava sempre brincando com os meninos. Por uma questão cultural enraizada, tinha essa coisa da boneca. Eu sempre deixei claro que boneca não era meu brinquedo de maior interesse. Mas para ter a bola eu tive que pedir muito. Pra Maria, a gente quer apresentar tudo. Como meta, a gente tem isso, que ela tenha liberdade nas escolhas até de compra das coisas. Mas vai buscar brinquedo ou roupa que não seja rosa ou de brilho, é uma dificuldade gigantesca”, relata.

Não é que Fabi e a esposa sejam “contra” o rosa. Mas elas querem que a filha vá além dessa cor. Saiba que existem outras que ela pode gostar também. E que existem brinquedos além das bonecas, das brincadeiras “de casinha”. Mas quando vão comprar algo para a menina, as seções de roupas ou brinquedos de crianças das lojas já dão o recado.

Foto: Arquivo Pessoal

“As peças de roupa da loja são separadas por gênero, as seções de brinquedos também, nada é por idade. Tentei não ser radical, mas a primeira coisa que a gente tentou fazer era fugir do rosa. Desmistificar. Ela ganhou presentes, tem coisas rosas lindas. Mas a gente quer ir além da cor. A gente teve uma outra sorte que o meu cunhado teve nenê muito próximo, e é um menino. Eles também pensam muito parecido com a gente e ficamos torcendo pra que os dois sejam parceiros, que consigam ser menino e menina convivendo juntos, brincando os dois de bola, de boneca, de tudo o que quiserem, está tudo certo”.

Quebrando preconceitos

Fabi se aposentou das quadras aos 38 anos em 2018 jogando em altíssimo nível na sua 13ª final de Superliga com o Rio de Janeiro. Nessa época, ela e a namorada já haviam tentado a gravidez pela primeira vez com uma inseminação que não deu certo. Quando tentaram de novo – depois que a líbero parou de jogar -, a confirmação veio justamente um dia após a eleição de Jair Bolsonaro como presidente do Brasil.

“Na segunda tentativa, e eu descubro exatamente um dia apos a eleição do Bolsonaro. O momento era de polarização. A gente tinha certeza que a gente estava ameaçada enquanto família. A gente até casou, a gente quis se proteger como família mesmo, porque era o discurso que se propagava, era a sensação que se tinha naquele momento, como família homoafetiva a gente estava ameaçada. E foi nesse sentido também que postei a foto mostrando a Julia grávida. Era uma forma de reafirmar que minha família existe e iria continuar existindo independentemente de qualquer coisa”, disse a ex-jogadora.

Fabi encerrou a carreira com 10 títulos da Superliga pelo Rio de Janeiro (Foto: Acervo Pessoal)

As descobertas de Fabi e Julia na maternidade não se restringiram ao dia a dia com a bebê. Antes mesmo de ela chegar, as duas perceberam o quanto ainda existia um preconceito das pessoas com relação a uma família com duas mães.

“Sempre nos perguntavam se era menino ou menina. E aí falavam que era melhor que fosse menina, porque menino sentiria falta da presença masculina. Mas poxa, quantos meninos foram criados só por mulheres? Pela mãe, pela avó. Quantos não tiveram um pai como referência? Isso mudou alguma coisa para eles? Então isso é falta de conhecimento. Eu sempre respondia com esse questionamento, porque era uma forma de fazer a pessoa pensar, e o debate legal é esse, refletir em cima de um questionamento.”

Pós-carreira

Dois anos depois de ter parado com a rotina de atleta, Fabi não abandonou por completo o esporte. Nos últimos tempos, ela estava se dedicando a treinamentos para disputar provas de triatlo (que ficaram para depois, já que agora a prioridade é o tempo dedicado a Maria Luiza), e, profissionalmente, virou comentarista de vôlei do SporTV, o que a mantém próxima da modalidade.

Foto: Divulgação FIVB

Hoje, ela está realizada assim e confessa que planejou bastante o momento da aposentadoria para que não sentisse o vazio comum aos ex-atletas logo que param de jogar. Mas não descarta também um futuro como treinadora. A ausência de mulheres em postos como esse ainda incomoda a bicampeã olímpica.

“É algo que me incomoda hoje a gente não ter nenhuma mulher comandando algum time na Superliga, e são raríssimas mulheres em comissões técnicas também. Ao mesmo tempo eu pensava que pra eu me tornar treinadora, eu teria que voltar pra mesma rotina de atleta que já estava muito difícil. Então deixei isso para o futuro. Mas é algo que eu penso ainda mais pra frente”, contou.

Como comentarista, a rotina de trabalho permite que Fabi fique mais tempo com a filha ao longo do dia (já que os jogos costumam ser no horário noturno) e faz com que ela estude e conheça também um outro olhar sobre o jogo, de fora da quadra.

“Fui atrás de como era fazer daquilo (comentários) uma profissão. Aí você tem aquela ânsia de atleta de se preparar, treinar para tudo o que você vai fazer. E eu fui me inteirar do mundo do vôlei de forma mais dinâmica”, contou.

Depois de comentar os Jogos Olímpicos ainda quando jogava (mas estava aposentada da seleção) em 2016, Fabi analisa o momento da seleção feminina hoje como ainda um pouco instável pela renovação que ainda não se concretizou após a saída da bicampeãs olímpicas.

“A gente olha de certa forma com preocupação de continuidade. O grande segredo do vôlei ao longo dos anos foi a constância, conseguir chegar, estar sempre no pódio, trazer medalhas, essa sempre foi a carta de apresentação, ser contínuo. O que acabou tendo foi uma lacuna aí. Acho que foram poucas as meninas que apareceram pra dar uma continuidade. Hoje, vejo até que temos boas perspectivas, mas não é o cenário ideal”, avaliou.

“Não temo por resultados. Temo pra gente viver um momento de instabilidade no futuro próximo.”

Se a filha dela pode ser o futuro de uma nova geração para o vôlei? “Eu gostaria muito que ela gostasse de esporte. Mas aqui ela vai ter liberdade para gostar do que quiser”, finalizou Fabi.

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Pioneira, Falavigna agora abre caminhos para mulheres na gestão do esporte http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/03/26/pioneira-falavigna-agora-abre-caminhos-para-mulheres-na-gestao-do-esporte/ http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/03/26/pioneira-falavigna-agora-abre-caminhos-para-mulheres-na-gestao-do-esporte/#respond Thu, 26 Mar 2020 07:00:27 +0000 http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/?p=9885

A brasileira Natália Falavigna comemora a conquista da medalha de bronze na categoria acima de 67 kg (Foto: NATHAN CAMPOS/GAZETA DO POVO/AE)

Não existia campeões mundiais juvenis, nem adultos e nem medalhistas olímpicos no taekwondo antes de Natália Falavigna abrir esse caminho. Aliás, a modalidade nem era olímpica quando ela começou a dar seus primeiros golpes em uma academia perto de sua casa e que ficava nos fundos de uma ótica.

Natural de Maringá, Natália afirma que ser atleta sempre fez parte de seus sonhos e, com essa certeza, ela partiu em busca do esporte que praticaria.”Fiz o caminho contrário. Sabia que queria ser atleta e só depois é que fui descobrir a modalidade. Falava desde os 4 anos pra minha mãe que eu queria ir para uma Olimpíada e ser campeã do mundo. E comecei a pensar como é que eu iria fazer para conseguir tudo isso”, revelou em entrevista às dibradoras.

Além de praticar todo tipo de esporte na escola, foi assistindo as conquistas olímpicas de vencedores como Aurélio Miguel, Paula, Hortência e Ana Moser que Natália foi projetando seu início de carreira. “Fui conhecendo diversas modalidades na escola e percebi que eu tinha uma predileção por modalidades individuais porque, pra mim, qualquer disputa era uma ‘final de copa do mundo’. As crianças estavam lá só pra brincar, mas eu levava muito a sério.”

Individual e mundialmente conhecida

Foi levada por uma amiga em uma aula que ela conheceu o taekwondo e, na terceira visita, seu primeiro professor viu que ela levava jeito pra coisa. “Ele me disse: ‘treina aqui comigo que daqui dois anos você vai ser campeã do mundo’. E eu respondi: ‘opa, isso aqui pode me levar pra uma Olimpíada?'” E foi com a resposta positiva do treinador que ela começou a praticar o esporte com 14 anos. E como o treinador havia previsto, dois anos depois Natália se tornou a primeira atleta a ser campeã mundial juvenil de taekwondo aos 16 anos.

Em casa, o apoio da família foi irrestrito, mas a mãe de Natália exigiu dela um diploma universitário. “Eles sempre me deram asas pra sonhar, mas o estudo era algo que eu tinha que levar junto com o esporte. Agradeço muito a eles por isso. Mais do que a medalha olímpica, a minha mãe deve ter ficado mais feliz com o meu diploma da faculdade”, relembra. 

Depois de conseguir um enorme feito com a conquista do Mundial na Irlanda, em 2000, ela concretizou seu maior objetivo com seis anos de treinamento e se classificou para os Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004. Vale ressaltar que o taekwondo entrou no ciclo olímpico apenas quatro anos antes, em Sydney.

Com o prêmio Brasil Olímpico em 2005 (Foto: Arquivo pessoal)

“Fui para os Jogos Olímpicos com meu primeiro treinador e foi tudo muito rápido. Estava muito certa de que isso iria acontecer. Tinha dentro de mim aquele ímpeto dos mais jovens de que eu poderia conseguir (a medalha de ouro), apesar da imprensa não conhecer e não saber muito sobre a modalidade e atletas”, recordou.

A geração do início dos anos 2000 foi, sem dúvidas, uma das mais importantes para o taekwondo. Natália sabia que poderia chegar longe e projetava somente a conquista do 1º lugar. Mas a medalha não veio, ela caiu na semifinal diante da lutadora chinesa, Chen Zhong, que seria a então campeã olímpica. Depois foi para a repescagem e também foi derrotada pela venezuelana, Adriana Carmona, que na época tinha 37 anos e disputava sua última Olimpíada.

“Pra mim foi muito difícil encarar essa repescagem depois de perder a chance da medalha de ouro e ver meu sonho ir embora. Essa maturidade pesou a favor da venezuelana, ela acabou se saindo melhor e eu acabei voltando pra casa sem medalha.”

Em busca da medalha de ouro

O ano de 2004 deixou marcas em Natália e a obsessão em busca do lugar mais alto do pódio aumentou. “Nunca fui uma atleta de querer uma medalha olímpica ou mundial, eu sempre foquei e coloquei na minha mente que eu queria o ouro. Na minha entrevista pós-luta (em 2004, nos Jogos de Atenas), eu estava muito frustrada. Eu lembro de dizer que eu tinha sentido o cordão da medalha no pescoço e ela tinha ido embora. Aquilo mexeu comigo e quando eu voltei, mudei tudo. Mexi nos meus treinos, não tirei férias, foquei totalmente, coloquei toda aquela raiva e frustração por não ter conseguido a medalha nos meus treinamentos.”

No ano seguinte, ela finalmente sentiu o cordão da medalha de ouro em seu pescoço ao vencer o Campeonato Mundial de Taekwondo em Madrid. Além disso, no final da temporada, ela foi eleita como a melhor atleta brasileira do ano, ganhando o Prêmio Brasil Olímpico na categoria feminina.

Hoje, analisando sua primeira participação olímpica, Natália entende que, em 2004, ela ainda precisava se desenvolver melhor tecnicamente e também amadurecer como atleta. “Levei 10 anos para alcançar tudo isso. Para lutar contra as grandes potências, eu precisava criar artimanhas e soluções. Então, eu treinava com os meninos, buscava ver treinos diferentes e seguir o que os grandes atletas faziam. Fui agregando pessoas ao meu redor e tentando fazer coisas diferentes. Não tinha um caminho traçado, a gente não era potência, não tinha muitas referências aqui, então eu fui tentando criar um caminho diferente daquilo que todo mundo fazia”, contou.

A medalha de bronze conquistada em Pequim (Arquivo pessoal)

E foi em Pequim que uma nova chance de conquistar a medalha olímpica apareceu. “Cheguei na semi contra a Nina Solheim, da Noruega. Sabia que ela era perigosíssima, perdi o combate na interpretação do árbitro (após empate no tempo normal e no golden score, a arbitragem decidiu a favor na norueguesa). Mas o que me marcou foi que, conforme a coisa não tinha acontecido como eu queria mais uma vez, eu já tinha experimentado o que era voltar pra casa de mãos vazias. Então, eu tive aquela uma hora antes da disputa do bronze para me recompor, voltar para fazer a melhor luta da minha vida e não deixar a medalha escapar.”

Natália derrotou a sueca Karolina Kedzierska por de 5 a 2 e conquistou uma medalha inédita para o taekwondo brasileiro. “Não foi a de ouro, mas foi conquistada com muito êxito. Agradeço, comemoro e tenho orgulho desse bronze porque eu deixei tudo de mim dentro da quadra”, afirmou.

Em 2009, Natália chegou a ser a 1ª colocada do ranking da modalidade e conquistou mais um título internacional inédito para o Brasil: medalha de ouro na Universíada de Belgrado. Em 2012, fechou sua participação olímpica em Londres e nos anos seguintes enfrentou uma série de lesões. Era então o momento de pensar na transição de carreira.

Da quadra para a gestão 

Natália é formada em Educação Física, fez mestrado focado em Exercício Físico e depois concluiu um MBA em Gestão de Pessoas. Durante a Rio-2016, ela recebeu um convite da Confederação Brasileira de Taekwondo (CBTkd) para atuar como um apoio aos atletas e passar sua experiência aos lutadores. O ano preparatório para os Jogos do Rio não havia sido bom e a Confederação enfrentava uma série de problemas administrativos. 

Divulgação / CBTKD

Em 2017, recebeu o convite do então presidente eleito, Alberto Maciel Junior, para fazer parte do departamento técnico da modalidade. “As experiências que vivi na pele me fizeram entender como é importante dar suporte e fazer com que os atletas só se preocupem em treinar. Cheguei na Confederação e a nossa prioridade foi fazer uma força tarefa para sanar as prestações de contas pendentes que o Taekwondo tinha. Tínhamos muitos projetos com problemas com o Ministério do Esporte e com o COB, na época. Depois disso, a gente começou a traçar o plano com as seleções adulta e juvenil para chegar bem no ciclo olímpico de 2020 e 2024.”

Hoje, ela consegue visualizar a diferença e os avanços que a modalidade conseguiu alcançar em comparação à época em que era atleta. “Me lembro que as pessoas não imaginavam que seria possível chegar a uma conquista. Ninguém falava em ganhar um Mundial, não tinha atletas que pensavam dessa forma. Quando conquisto o Mundial juvenil, o Mundial adulto e depois a medalha olímpica, aí passa a real para as pessoas que praticavam a modalidade que era possível. Não pra mim, porque isso já era real na minha cabeça. A principal contribuição (para que a modalidade avançasse) foi essa mudança de paradigma, de entender que dava pra fazer e chegar.”

As mulheres no taekwondo

Para Tóquio-2020, apenas Milena Titonelli – a caçula da delegação – garantiu a classificação. Já Talisca Reis ficou pelo caminho. Natália vê com bons olhos a participação feminina na modalidade, mesmo com muitas transições entre as categorias.

“A gente tem essa geração mais experiente que é a da Talisca, que lutou muito bem e ficou próxima de alcançar a vaga olímpica. Mas também temos atletas com pouca idade e que também são experientes como a Milena, que já foi pra Jogos Olímpicos da Juventude, é campeã Pan-americana, é medalhista em Mundial, participa de todos os circuitos. Então, com seus 21 anos, ela é bem experiente.”

A gestora também cita novos nomes que estão sendo trabalhados para o ciclo de 2024 e 2028. “Vejo outras surgindo como a Sandy (categoria júnior, – 55kg), que foi medalhista em Jogos da Juventude, tem duas boas atletas no pesado, a Gabriele e a Raiany, a Carolina que está na mesma categoria que a Milena e vem numa crescente. Mas também dependemos dos clubes e academias para massificar a modalidade. Essa é uma das vertentes para aumentar o número de atletas participantes na CBTkd”, revelou. 

Natália Falavigna e atletas classificados para os Jogos Olímpicos de Tóquio (Divulgação / CBTKD)

Depois das mulheres quebrarem paradigmas e alcançarem resultados expressivos na modalidade, Natália entende que essa barreira precisa ser quebrada na gestão. “Vejo que a gente necessita disso. Quando fui atleta, éramos de uma geração que começou a ganhar medalhas, a ter o mesmo nível em quantidade, atuação e importância que os homens. Agora eu vejo que isso precisa ser feito nos cargos gerenciais e administrativos de alta gestão, que ainda é um ambiente predominantemente masculino. É importante ter essa representatividade feminina e acredito que a mescla (entre homens e mulheres) é que faz o sucesso dentro de uma instituição. Precisamos de mais trainadoras também. Temos muitas mulheres na Confederação na parte administrativa, mas falta nos comandos técnicos.”

Novos marcos

A nova luta de Natália tem como objetivo fazer com que o taekwondo brasileiro vire uma potência da modalidade. Uma vez por ano, a CBTkd promove um camping de integração entre os atletas da base, juvenil e adulto para trocas de experiências e palestras. 

Diferente da época em que ela começou, os atletas hoje têm referências e são os marcos do passado que eles precisam ultrapassar. “A geração em que eu lutei foi considerada como a melhor e esse é um desafio que tenho com eles. Eu falo: ‘olha, vocês precisam deixar o sarrafo mais alto para que sejam a melhor geração que o taekwondo já teve’. E os mais novos vêm com esse objetivo de superar esses resultados também. É assim que o taekwondo se fortalece. Quero permitir que os atletas que estão em atividades e que sonham em buscar uma medalha, tenham todo suporte possível e que a Confederação seja parceira desses atletas e que os impulsione nessas conquistas.”

Com o apoio de uma multicampeã que desbravou esses caminhos, a luta parece ganha.

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Tóquio em 2021: ‘Atletas usam pouco a voz que têm’, diz Poliana Okimoto http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/03/25/toquio-em-2021-atletas-usam-pouco-a-voz-que-tem-diz-poliana-okimoto/ http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/03/25/toquio-em-2021-atletas-usam-pouco-a-voz-que-tem-diz-poliana-okimoto/#respond Wed, 25 Mar 2020 07:01:59 +0000 http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/?p=9876

Poliana Okimoto foi bronze na Rio-2016 (Foto: Marcelo Pereira/Exemplus/COB)

Depois de ter sofrido pressão por parte de atletas e confederações esportivas ao redor do mundo, o Comitê Olímpico Internacional (COI) finalmente anunciou o adiamento dos Jogos Olímpicos de Tóquio para o próximo ano. O anúncio foi feito na última terça-feira – quando faltariam exatos quatro meses para a abertura se ela se mantivesse para a data prevista – e foi comemorado por muitos atletas brasileiros.

Se na semana passada, o COI havia afirmado que “ainda era cedo” para falar em adiamento da Olimpíada e pedido para os atletas seguirem “se preparando”, desta vez o tom da mensagem mudou e foi mais realista com o contexto que o mundo vive hoje. Mas foi preciso que atletas do mundo inteiro se manifestassem para alertar a entidade que os protagonistas do show são eles – e, sem eles, não existem Jogos. Em conversa com as dibradoras, a ex-maratonista aquática e atual membro do Comitê de Atletas do COB (Comitê Olímpico Brasileiro), Poliana Okimoto, reforçou a importância de ver atletas se manifestando numa questão que os afeta diretamente.

“Acho que os atletas usam pouco a voz que eles têm. Sem atletas, não existem Jogos Olímpicos. Naquele momento que eles mantiveram data, a última coisa que levaram em consideração foram os atletas”, afirmou a medalhista olímpica. “O Japão poderia estar apto a receber os Jogos, mas não pensaram que os atletas não estariam aptos a se prepararem. Acredito que ainda hoje atletas têm medo de se pronunciar, até estranhei que nesse caso não tivemos mais deles se pronunciando publicamente. Porque é o interesse de todos. Uma pesquisa com 4 mil atleas, mostrou que quase 80% estavam firmes na posição pelo adiamento dos Jogos. Mas nem todos se manifestaram”.

Entre os atletas brasileiros que se pronunciaram publicamente, o que mais chamou a atenção foi o nadador Bruno Fratus, que respondeu a um tuíte de Kirsty Koventry, bicampeã olímpica e presidente da comissão dos atletas do COI, dizendo que era preciso “reconsiderar e consultar outros atletas ao redor do mundo”, reforçando que muitos deles estavam incapazes de treinar.

“O conselho de ‘continuar fazendo o que você está fazendo’ parece desconectado da realidade quando temos líderes mundiais diariamente na televisão pedindo às pessoas que fiquem em casa e se isolem”, disse ele.

Foto: Getty Images

A nadadora Etiene Medeiros também se manifestou pelo adiamento de Tóquio-2020, mas não houve muitos atletas brasileiros que reforçaram esse discurso publicamente. No entanto, na consulta que a Comissão de Atletas do COB fez com os representantes de todas as modalidades olímpicas, a grande maioria se colocou a favor do adiamento.

“A gente sempre está conversando entre nós, temos um grupo com o presidente do COB, e o cenário era de incertezas. Temos um grupo com representantes dos atletas de todas confederações olímpicas e ouvimos todos eles. Foi uma lavada de que todo mundo defendia o adiamento. Nossa postura sempre foi de pensar no atleta, no interesse e bem estar físico e emocional”, contou Poliana.

A pressão dos atletas funcionou. Foram eles que fizeram com que tantas confederações enviassem ao COI o pedido de adiamento – inclusive com o Canadá afirmando que não enviaria delegação se os Jogos acontecessem em 2020. Por isso, Poliana Okimoto alerta que seria importante os atletas terem consciência da força que têm e se livrarem do “medo” de retaliação na hora de opinar sobre algo que diz respeito principalmente a eles.

“Eu acredito que a gente vem de uma cultura no Brasil que dentro das confederações e federações esportivas existia muita retaliação para o atleta que falava sua opinião. Hoje atletas ainda sentem essa essa cultura do medo do que pode acontecer lá na frente, o que o presidente da confederação vai pensar. Mas acredito que aos poucos a gente está mudando, a iniciativa da comissão de atletas nas confederações, o COB também tem uma comissão de atletas atuante. Tem que ir aos poucos colocando atletas dentro do cenário de ter opinião pra mudar as coisas. Se não, a gente vai acatar sempre tudo o que vem de cima, mesmo que nos prejudique”, avaliou a ex-maratonista aquática.

Foto: Lucas Lima / UOL

Poliana Okimoto entende que o COI demorou mais do que o necessário para tomar uma decisão que seria óbvia nesse momento. Mas ela concorda com a posição da entidade pelo adiamento – e não cancelamento dos Jogos Olímpicos. Diante de todos os sacrifícios que um atleta faz para conseguir disputar uma Olimpíada, ela considera que o adiamento é a forma mais justa de garantir a competição e zelar pela saúde dos protagonistas dela.

“O atleta abdica de tanta coisa pra estar no auge da carreira nos Jogos Olímpicos que seria injusto com ele cancelar agora. Hoje o atleta vive pra isso, é um sonho que ele constrói desde criança. Não são sacrifícios nos quatro anos pré-olímipicos. A gente abdica da nossa vida. Eu não tive uma infância normal, ou uma adolescência normal, uma juventude normal. Eu acordava 4h da manhã quando ainda era criança pra ir treinar. Sempre foi uma vida dedicada e pautada pelo esporte. A gente deixa de estudar, perdi casamento do meu irmão, formatura, nascimento do meu sobrinho, porque eu estava treinando. O esporte olímpico hoje é diferente do que era no passado. Por isso, hoje seria muito injusto com o atleta cancelar”.

Depois da medalha olímpica conquistada na Rio-2016, Poliana Okimoto decidiu se aposentar do esporte para tentar ser mãe, mas não se desvinculou dessa paixão por completo. E ela acredita que Tóquio-2020 em 2021 pode ser uma grande celebração do melhor dos valores olímpicos.

“Acho que os atletas e a organização da Olimpíada têm uma chance incrível de mostrar para o mundo o quanto nós somos fortes como sociedade. Nós vamos vencer isso, vamos chegar lá em Tóquio para festejar tudo isso que aconteceu de ruim. Vamos sair melhores de tudo isso.”

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Teste obrigava atletas a comprovar que eram mulheres nos Jogos Olímpicos http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/03/24/teste-obrigava-atletas-a-comprovar-que-eram-mulheres-nos-jogos-olimpicos/ http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/03/24/teste-obrigava-atletas-a-comprovar-que-eram-mulheres-nos-jogos-olimpicos/#respond Tue, 24 Mar 2020 07:00:13 +0000 http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/?p=9855

Foto: Tim Clayton/Corbis – Getty Images

Passar por testes científicos com o objetivo de evitar a “trapaça” no esporte faz parte da rotina de qualquer atleta. Mas entre as décadas de 1960 e 1990, um exame destinado especificamente às mulheres chamou a atenção. Começou em 1966 quando a IAAF (Federação Internacional de Atletismo) submeteu as competidoras a um procedimento um tanto incomum – e considerado invasivo por elas.

“Fui obrigada a deitar no sofá e levantar os joelhos. Os médicos então realizaram um exame que, no jargão moderno, equivaleria a uma palpação desprezível. Supostamente, eles estavam procurando testículos ocultos. Foi a experiência mais cruel e degradante pela qual passei em toda minha vida”, descreveu Mary Peters, representante britânica do pentatlo moderno (ela foi medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Munique em 1972).

A ideia desse procedimento, que ficou conhecido como “teste de feminilidade”, era evitar que um homem pudesse competir na categoria feminina trapaceando as regras. Isso aconteceu apenas uma vez na história dos Jogos Olímpicos da Era Moderna – em 1936, quando, por ordem do governo nazista, Dora Ratjen disputou o salto em altura pela Alemanha ficando em quarto lugar. Dora era, na verdade, Hermann Ratjen que, mesmo disfarçado de mulher, não conseguiu subir ao pódio na categoria feminina.

Enriqueta Basilio acende a pira olímpica na abertura dos Jogos Olímpicos de 1968 na Cidade do México (Foto: COI)

Em 1968, esse teste passou a ser aplicado em todas as atletas que fossem disputar a Olimpíada em alguma modalidade. Por conta das inúmeras contestações a respeito da “palpação”, houve uma alteração do protocolo para que o teste fosse “apenas” visual, sem toque. As atletas precisariam passar nuas por um comitê formado por três médicas que determinariam se elas atendiam aos critérios que as classificariam como “mulheres”.

“A justificativa dada pela entidade (COI), nesse intervalo que contempla a Guerra Fria, era de que os resultados de algumas atletas do bloco oriental soviético seriam incompatíveis às expectativas de desempenho para uma mulher. A entidade suspeitava que homens estivessem se infiltrando na categoria feminina e seria necessário ‘proteger’ as mulheres dessa invasão (CAVANAGH e SYKES, 2006). Surge, então, uma série de testagens que vão da inspeção visual dos órgãos genitais de todas as atletas, entre 1966 e 1968, até as provas cromossômicas entre 1968 e 1998 (WACKWITZ, 2003)”, conforme relata a pesquisadora de Gênero e Sexualidade no Esporte da USP Waleska Vigo em sua tese de doutorado.

Após as reclamações sobre o constrangimento dos exames visuais, o COI (Comitê Olímpico Internacional) mudou o protocolo para exigir, então, um teste cromossômico que determinaria, pela presença ou não do cromossomo Y (característico do sexo masculino), se a atleta estaria ou não “trapaceando” o sistema. O procedimento ali era menos invasivo, passavam um cotonete na bochecha delas para retirar as células que possibilitariam o mapeamento dos cromossomos. 

Carteirinha rosa

Nos Jogos Olímpicos da Cidade do México em 1968, nasceu a tal “carteirinha rosa” – uma espécie de atestado de feminilidade que permitia às atletas que passassem pelo teste competirem em categorias femininas. Foram 781 mulheres naquela edição e todas elas tiveram que fazer o exame. No documento, vinha a comprovação científica para ser apresentada em todas as competições validadas pela federação daquela modalidade. Na falta dele ou em caso de qualquer “incongruência” no exame, a atleta seria proibida de competir. No texto da carteirinha, vinha escrito algo como:

“A atleta acima mencionada passou por aprovação em teste médico, cujo resultado da cromatina sexual foi positivo. Isso satisfaz os requisitos para competições femininas”.

Foto: Reprodução

De 1968 a 1998, ou seja, por oito edições olímpicas, todas as mulheres que conseguiram vaga para disputar os Jogos eram submetidas a esse teste. Em trinta anos, mais de 11 mil atletas fizeram os exames para comprovar sua feminilidade antes de competir. Nunca foi encontrado nenhum caso de “homem” se passando por mulher para competir na categoria feminina.

Quantidade de atletas testadas
Munique, 1972: 1.280
Montreal, 1976: 1.800
Los Angeles, 1984: 2.500
Barcelona, 1992: 1.406
Atlanta, 1996: 3.387
Total: 11.373

Fonte: Artigo científico publicado na revista Nature em agosto de 2000: “Gender verification of female athletes”

A médica da seleção feminina de basquete em 1996, Marli Kekorius, conta que o procedimento era realizado por todas as atletas em um laboratório credenciado pelo COI. Os resultados positivos garantiam a emissão dos certificados das atletas (apelidados de “carteirinha rosa”) que eram encaminhados para a confederação.

“O teste era feito aqui no Brasil, e as atletas deveriam portar o certificado. Mas, como muitas delas perdiam ou esqueciam, eu levava uma cópia para a CBB e outra para a FIBA. O exame era feito só uma vez e o resultado valeria sempre, mas como muitas atletas perderam os delas, tivemos que fazer novamente. Depois que tomamos a atitude de guardar esses exames na confederação, não tivemos mais problemas”, relatou.

Quando o teste indicava a presença dos cromossomos sexuais XX, a atleta estava “apta” a competir na modalidade feminina. Mas existiram “Y”s inesperados no meio do caminho. E aí?

Teste arruinou carreira de espanhola

Atleta da corrida com barreiras, Maria José Martínez Patiño era uma das mais promissoras da Espanha na década de 1980. Passou pelo teste de feminilidade em 1983, mas acabou se esquecendo de levar o resultado para o Mundial Universitário de Atletismo em Kobe, no Japão, em 1985. Lá, precisou fazê-lo novamente, e o resultado atestou a presença do cromossomo Y. Ela foi reprovada e não pôde competir.

Foto: Reprodução

A instrução dada por seus técnicos e pela confederação do país foi para que ela fingisse uma lesão e não deixasse o caso vazar enquanto não “resolvesse” a questão. Mas o caso de Patiño demonstraria a grande incongruência das regras impostas pelo COI às mulheres. Apesar de apresentar o cromossomo Y, ela sofria de síndrome de insensibilidade androgênica, o que significa que nenhum de seus tecidos ou células respondiam à testosterona. Sendo assim, ela não desenvolveu o órgão sexual masculino, nem qualquer característica típica da testosterona. “Eu sabia que eu era uma mulher. Pelos olhos da medicina, pelos olhos de Deus e, acima de tudo, pelos meus olhos. Se eu não fosse atleta, minha feminilidade nunca teria sido questionada”, disse.

Impedida de competir, Patiño nunca aceitou a decisão dos órgãos esportivos e apelou de todas as formas. Isso fez seu caso ganhar a atenção da mídia da pior forma possível. Humilhada nos jornais como uma mulher que tentava “fraudar” o sistema, ela perdeu todas as medalhas conquistadas até ali.

“Eu perdi amigos, perdi meu noivo, minha esperança e minha energia. Mas eu sabia que eu era uma mulher e que minha diferença genética não me dava nenhuma vantagem física. Eu não conseguiria nem fingir ser um homem. Eu tenho seios e uma vagina. Nunca trapaceei. Eu lutei contra minha desclassificação”.

Patiño não pôde disputar os Jogos de 1988, mas conseguiu reverter a decisão do COI e voltou a se tornar apta a competir no Atletismo mundial. O problema é que aí o auge da sua carreira já havia passado, e ela não conseguiu se classificar para a Olimpíada de 1992 por dez centésimos de segundo.

Testes de feminilidade ainda existem

Após muita pressão das atletas, o COI decidiu suspender o teste de feminilidade imposto a todas as atletas a partir dos Jogos Olímpicos de Sidney. Mas isso não extinguiu a existência dele para sempre. Hoje, a verificação é recomendada quando existe algum questionamento sobre alguma atleta em específico. É o que acontece no caso da sul-africana Caster Semenya.

Foto: Reuters

Bicampeã olímpica nos 800 metros e tricampeã mundial na mesma categoria , Semenya foi submetida ao primeiro teste de feminilidade ainda aos 18 anos quando conquistou o ouro no Mundial de Berlim terminando a prova em 1:55:45 (dez segundos mais lenta que o campeão da mesma distância no masculino). Desde então, ela foi questionada por adversárias alegando que Semenya “parecia um homem” e passou por inúmeros testes, incluindo análises sanguíneas, provas cromossômicas, exames genitais e ressonância magnética.

Nesse meio tempo, a IAAF classificou a atleta como um “homem biológico com identidade de gênero feminina”. Semenya tem o cromossomo Y e produz mais testosterona do que o considerado “normal” para mulheres e, por isso, a entidade máxima do atletismo exige que ela controle esses níveis de hormônio no corpo para poder competir entre as mulheres. A sul-africana chegou a tomar remédios para isso, mas sofreu com ganho de peso, cólicas e outros efeitos que a fizeram desistir. Atualmente, ela está proibida de competir em eventos de 400m a 1.500m.

O que muitos especialistas questionam é se há mesmo um único critério que possa definir uma atleta como apta a competir nas categorias femininas (como já foi o cromossomo XX e agora é o nível de testosterona no sangue). Além disso, eles levantam o debate: por que as mulheres que conseguem ser excepcionais em seus esportes são vistas imediatamente como “estranhas”? Aconteceu com a tenista Serena Williams, acontece agora com Caster Semenya.

Foto: Reuters

“Quando são homens que ocupam esse espaço genético único, eles são elogiados por isso, são como ‘deuses’ entre nós. Quando são mulheres, elas imediatamente são colocadas como suspeitas. Ninguém nunca questionou Shaquille O’Neal por ser muito alto ou muito forte. Michael Phelps já foi muito elogiado por ter desenvolvido um corpo de peixe, mas ninguém diz que ele leva vantagem por seus tornozelos flexíveis, ninguém diz que ele é ‘estranho’. As pessoas dizem: uau, que maravilha genética é o Phelps”, exemplifica o jornalista esportivo do The Nation, Dave Zirin, no documentário “Sports On Fire: She Runs Like a Man”.

Professora Doutora da USP e pesquisadora da história olímpica há mais de duas décadas, Katia Rubio pontua que a participação das mulheres no esporte sempre esteve submetida às determinações feitas por homens. E que os testes de feminilidade foram construídos sobre uma ideia ultrapassada da inferioridade feminina.

“É interessante pensar que a participação das mulheres no esporte sempre foi condicionada aos limites indicados pelos homens que sempre foram as lideranças do esporte. Então se no primeiro momento elas foram impedidas absolutamente de participar e depois foram aceitas paulatinamente, elas vão ser sempre entendidas como usurpadoras de um espaço construído para ser masculino”, afirmou.

“Toda vez que uma mulher se aproximar dos resultados dos homens que, historicamente foram construídos antes e por mais tempo do que as mulheres, elas vão ser questionadas sobre sua essência feminina, que é de inferioridade ao homem, de incompetência em relação ao homem. Isso é uma ideia higienista, machista, e acima de tudo pouco humana do século 19”.

A doutoranda Waleska Vigo também ressalta que, na história olímpica, sempre tentou-se limitar os caminhos das mulheres. “Do documento mais recente do COI – publicado em 2015 – que contempla assuntos como a inclusão de atletas trans e intersexo, até as primeiras cartas do Barão Pierre de Coubertin, se vê uma busca constante dessa entidade por um ideal de mulher para os esportes. Enquanto não há limites estabelecidos de desempenho para os homens, existem expectativas quanto aos resultados das mulheres. Os homens são super-heróis quando batem recordes, as mulheres aberrações. Ou seja, não só para o COI, mas, em especial para a IAFF, há um modelo preponderante e ‘autêntico’ de mulher, que deve ter certa aparência e atingir resultados sempre inferiores ao dos homens. Isso é confirmado pelos anos a fio de aplicação dos testes de verificação de gênero. Com isso, todos os corpos que não se adequam a esse modelo são excluídos ou precisam passar por um processo de normalização para participar das competições, como é o caso de atletas trans ou intersexo. Já na categoria masculina, não há um ‘homem autêntico’ a se procurar, todos o são”, pontua.

Todos os seres humanos têm características distintas. Alguns são mais altos, outros são mais fortes, outros mais resistentes. Não há como unificar um critério para determinar como “padrão” para definir as mulheres ou os homens. Por isso, a antropóloga e bioeticista (pesquisadora de intersexualidade e testes de verificação sexual no esporte) Katrina Karkazis encerra o documentário “She Runs Like a Man” levantando aquela que talvez seja a principal questão sobre os testes de feminilidade hoje em dia: “Acho que está na hora de perguntarmos por que temos o teste de feminilidade e quais problemas ele está resolvendo? Acho que ele cria mais problemas do que resolve”.

*Colaborou Waleska Vigo Francisco, doutoranda pela Escola de Educação Física e Esporte da USP. Integrante do Grupo de Estudos Olímpicos da USP (GEO-USP). Pesquisa Gênero e Sexualidade no Esporte.

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Elas driblaram o preconceito e criaram iniciativas por amor ao futebol http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/03/23/elas-driblaram-o-preconceito-e-criaram-alternativas-viver-amor-pelo-futebol/ http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/03/23/elas-driblaram-o-preconceito-e-criaram-alternativas-viver-amor-pelo-futebol/#respond Mon, 23 Mar 2020 07:00:42 +0000 http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/?p=9837

Duda Dalponte durante transmissão de Brasil x Australia na UFSC (Foto: Gabriel Lain)

Duda, Bianca, Amanda. Uma de Santa Catarina, outra de Itanhaém e a última de Pernambuco. E o que elas têm em comum? Além do Jornalismo, nutrem um amor pelo futebol feminino que as conduz por caminhos que elas jamais imaginaram.

Trabalhos voluntários, mudança de cidade e aposta em uma nova área de atuação são alguns dos esforços que as três têm feito para mudar a falta de visibilidade para as mulheres que atuam nos gramados. Por causa desse incômodo, elas mesmas resolveram fazer a diferença. Conheça as histórias:

Do microfone da Universidade à locução no estádio

Duda Dalponte tem 20 anos e está cursando o último semestre de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Durante a Copa do Mundo Feminina, a professora Fernanda Nascimento passou a coordenar um projeto de Radiojornalismo Esportivo com as alunas do curso. E foi assim que nasceu o Donas do Placar que, dentro do estúdio da Universidade e com o apoio ativo de 16 meninas, passou a transmitir jogos do Mundial que acontecia na França com mulheres narrando, reportando e comentando os jogos em tempo real.

Para isso, o grupo se organizou e cada garota contribuiu pesquisando histórico das Copas, buscando informações sobre as seleções participantes, as jogadoras que estariam em campo. Além disso, elas mesmas desenvolveram a identidade visual do projeto e criaram seus canais. O último passo foi realizar testes para decidir quem assumiria o posto ainda tão pouco ocupado por mulheres: a narração dos jogos.

Conhecemos as Donas do Placar em setembro de 2019, na Semana do Jornalismo na UFSC (Foto: Divulgação)

“Nunca tinha narrado e nunca esperei que poderia narrar. A gente pensava: será que vai ser viável a transmissão? A Profª Fernanda falava que alguma de nós teria que narrar e as gurias já falaram que deveria ser eu. A Thaisy e a Virgínia também quiseram e pronto, já tínhamos três narradoras”, contou Duda ao blog.

Até a Copa começar, a garota que já tinha familiaridade com a reportagem e a fazer comentários de jogos, mergulhou no universo da narração de rádio e o grupo produziu um dicionário do futebol com vocabulários e jargões para que elas pudessem usar na transmissão.

E foi assim, no primeiro jogo da Copa, entre França e Coréia do Sul, que Duda soltou a voz no estúdio de rádio da UFSC. No total, elas transmitiram sete partidas da Copa em um projeto que não era de extensão do curso. Elas se mobilizavam antes ou depois das aulas para produzir o conteúdo e organizar as divisões de tarefas. E o sucesso delas foi incrível nas mídias locais e de outros estados do Brasil.

Thaisy Regina, Duda Dalponte, Maria Heloísa Vieira e Simone Malagoli na transmissão da Rádio Avaí (Foto: Divulgação)

O Donas do Placar cresceu e agora ele é uma realidade dentro da UFSC. Em março deste ano, o Departamento de Marketing do Avaí Futebol Clube criou uma ação para o Dia Internacional da Mulher e decidiu fazer, em parceria com a Rádio Avaí, uma transmissão 100% feminina para a partida entre Avaí e Juventus. E três meninas do Donas fizeram parte desse momento.

Duda foi indicada para ser narradora da partida e ela, mesmo com certo nervosismo, aceitou o desafio. “Na hora eu disse a eles que teríamos que conversar pessoalmente porque eu não era uma narradora profissional e que não era ritmada como os narradores mais experientes”. Ao lado de Thaisy Regina ( que fazia a interatividade durante a partida) e Maria Heloísa Vieira (nos comentários), as garotas que começaram um projeto sem grandes pretensões na Universidade, com o apoio de uma professora, acabaram ganhando projeção nacional. 

“Me gravaram narrando o gol de desempate e foi surreal. O Avaí tinha aberto o placar no início do jogo e foi muito empolgante, mas aí o Juventus empatou no final do primeiro tempo. E dali em diante, o jogo ficou muito morno. Passei o segundo tempo inteiro tentando botar animação na narração e a gente queria ser pé-quente, né? Nos acréscimos eu falei ‘tô sentindo que  vai sair um gol, hein!’ e deu dois minutos e o Da Silva fez um gol. Me emocionei, fiquei toda arrepiada, ouvi toda a torcida comemorar e foi incrível”, relembrou Duda. 

Depois disso, a garota de Floripa descobriu uma nova paixão no jornalismo esportivo e recebeu muitos elogios de inúmeras pessoas, até mesmo de mulheres que ela tanto admira. “A Ana Thaís (comentarista do SporTV) retuitou meu vídeo e me passou o número do WhatsApp dela. E eu sempre me inspirei muito nela como comentarista. A Ana disse que minha voz era muito boa na narração”, revelou. 

“Queria fazer as meninas da minha cidade jogarem futebol”

Com apenas 15 anos na época, Bianca Ramos se mobilizou para realizar um campeonato de futebol feminino em Itanhaém. “Eu sempre joguei bola e via como era complicado para as meninas terem seu espaço na escola e sempre tive essa percepção de que pra gente as coisas eram diferente e não tinham campeonatos”, contou ao blog. 

Com a ideia na cabeça, ela tentou fazer uma parceria com um organizador local de eventos. “Só que essa pessoa queria cobrar um valor alto de inscrição e não estava tendo retorno das meninas. Eu não tenho essa ganância, não queria isso. Eu queria conhecer os times e juntar as meninas. Aí meu pai falou pra gente fazer um evento beneficente e eu fui atrás de tudo”

1º Campeonato organizado por Bianca em 2018 (Foto: Arquivo Pessoal)

Bianca ia para a escola e quando acabavam as aulas, ela rodava por diversos bairros de Itanhaém pedindo apoio para os comerciantes de Itanhaém. “A Prefeitura me cedeu a quadra para realizar o campeonato e os troféus. Pedia R$ 50 de porta em porta porque eu precisava comprar as medalhas. Sempre ia sozinha, chegava lá e explicava para o que era e consegui arrecadar R$ 600.”

Em junho de 2018 ela conseguiu realizar seu primeiro campeonato com categoria livre (para mulheres de todas as idades) e outra Sub-17. “O campeonato foi um sucesso, durou um mês, com jogos rolando aos sábados. A Prefeitura me cedeu isso e depois divulgaram uma matéria dizendo que eles que organizaram o campeonato. Não me deram crédito em nada, fiquei muito chateada”, revelou.

Depois disso, segundo ela, “a coisa deu um boom” e inspirada pelo projeto Passa a Bola, comandado por Luana Maluf em São Paulo, Bianca quis ir além. “Todo mundo passou a me procurar para organizar campeonatos, mas eu fiz tudo isso porque eu só queria que as meninas jogassem e que a gente tivesse um espaço nosso. E aí começou a surgir times do Vale do Ribeira e aí eu quis unir a Baixada Santista com o Vale do Ribeira”, disse.

Por conta de sua iniciativa em Itanhaém, outros campeonatos começaram a surgir pela região.”As meninas começaram a pediram para eu ir cobrir os jogos. Aí eu fui pra Jacupiranga, Juquiá e não parava de ter campeonato. E o meu intuito era esse, unir as meninas para que elas pudessem jogar.”

Campeonato de 2019 em prol das garotas do time feminino de Rugby de Itanhaém que sofreram um acidente (Foto: Arquivo Pessoal)

Depois do primeiro campeonato, ela realizou outros dois. O mais recente deles – e até então o último – foi em 2019, livre de taxa de inscrição e sempre com arrecadação ou de alimentos ou de brinquedos para ajudar em doações. “Eu fazia tudo sozinha, era muito cansativo e não é fácil conseguir apoio na minha cidade. Esse ano entrei na Faculdade de Jornalismo e estou trabalhando, não consigo mais administrar os campeonatos, mas parece que quanto mais eu me afasto disso, mais gente me procura”, contou.

Hoje, aos 17 anos, ela corre atrás de realizar seu objetivo que é trabalhar na área esportiva. Ela produz conteúdo para a página Rainhas do Drible (ao lado de outras garotas), é colunista dos sites Papo de Mina e do Aliança Esportiva. “Meu sonho era ser jogadora, mas aos 12 anos, assistindo o Jogo Aberto, vi a Renata Fan apresentando e falei que eu queria fazer a mesma coisa que ela”, revelou a garota que também se inspira em Fernanda Gentil e em Ana Thaís Matos, que é da mesma cidade que Bianca.

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Eu tinha aqui fotos bem mais bonitas, porém, nenhuma delas representam tão bem o que foi o meu ano de 2019 igual essa, que tirei quando acabou a segunda edição do meu Festival Solidário de Futsal Feminino. 2019 foi um ano em que eu pude sorrir bastante, mas também me foi muito cansativo em todas as áreas. Ao mesmo tempo em que foi de sorrisos, foi também de exaustão! Assim como eu estou representada nessa foto. Foi um ano de erros, de acertos, preocupações, decepções… mas acima de tudo, foi um ano de muita aprendizagem, experiências e conquistas! E agora, nesse último dia, eu só consigo falar de Deus. Falar Dele, exaltá-lo e agradecê-lo por tanto! Principalmente por ter me permitido viver e realizar INÚMERAS coisas, por eu ter tido o privilégio de ter todos da minha família bem e ao meu lado em mais um ano, pelas amizades feitas e as que eu mantive. 2019 foi o ano que fortifiquei ainda mais a minha Fé e me aproximei muito de Deus, digo sempre as pessoas que me perguntam sobre os meus sonhos e “como eu consigo?” É que o segredo está todo Nele, está todo na nossa relação e proximidade. Está todo no buscar e acreditar! A força que tive para não desistir em meio a um turbilhão de coisas que foram me acontecendo durante o ano, veio Dele. E para 2020, um dos meus maiores desejos é que isso se mantenha e melhore cada vez mais! Enfim, é isso! Gratidão por 2019. Fé, Amor, Paz e Esperança para 2020. Tenho certeza que grandes coisas estão por vir! ⚽️

Uma publicação compartilhada por Bianca Ramos (@_biancaaramos) em

Depois de tudo que mobilizou, Bianca percebe um engajamento maior na região. “Agora, elas marcavam amistoso toda semana. Por mais cansada que eu ficasse, elas me mandam mensagem dizendo que se eu parar de vez, não vai ter mais nada. Sei que sou nova ainda, mas ter conquistado o respeito e admiração delas é algo que vou levar sempre comigo, fazendo campeonatos ou não”, contou.

Duas faculdades e a vontade de viver apenas de conteúdo sobre futebol feminino

Amanda Porfírio tem 29 anos e é quem administra a página Fut das Mina, que está no ar desde 2019 e cresceu muito rápido. “O crescimento me assustou muito, mas foi a Copa do Mundo que me impulsionou”, contou ao blog. 

Apaixonada por futebol desde criança e muito influenciada pela mãe, Amanda se formou em Educação Física na Universidade Federal em Pernambuco por conta da proximidade com o esporte, mas era o Jornalismo que mais a atraía. “Quando comecei a pensar no jornalismo como segundo curso, era para trabalhar no esporte. Foi o 1º curso que eu sempre quis fazer na vida”, nos contou.

Amanda (a segunda da esquerda para a direita) na TV Universitária (Foto: Divulgação)

Depois de formada, decidiu ir para Natal para cursar Comunicação na Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e logo no primeiro ano de faculdade soube de um projeto da TV Universitária e tudo começou ali. “Era um programa esportivo onde só mulheres atuariam, chamado TVU Esporte. Era voluntário e experimental, mas a gente fazia pra valer mesmo. Atuei como repórter e como produtora.”

O Fut das Minas era uma ideia que ela sempre pensou em colocar em prática, mas ele nasceu mesmo depois da Libertadores Feminina que aconteceu em Manaus, em 2018. “Eu fui pra lá na loucura, decidi investir pra ir e foi meu pontapé inicial para começar a fazer o meu conteúdo. Me marcou demais essa experiência de estar em uma cidade onde as mulheres consomem muito futebol feminino por conta da equipe do Iranduba. Eu estava lá, no meio de uma torcida em que as pessoas sabiam quem eram as jogadoras e vi isso lá pela primeira vez, foi marcante pra mim.”

Amanda trabalhou como educadora física nas escolas e afirma que é ali que a transformação pode acontecer de verdade. ” Atuei por cinco anos em escolas e lá futebol não é visto como coisa de menina. Na maioria onde trabalhei, as meninas me diziam que os meninos jogavam futebol e elas queimada, ou então vôlei. Já vi muito talento sendo dispensado. Quando penso no aumento de interesse e na visibilidade da mulher no futebol, eu penso logo na escola porque é um reflexo da sociedade. Então se você influencia e estimula ali dentro, isso vai crescer muito.”

Amanda acompanhando a Libertadores Feminina em Manaus, em 2018 (Foto: Arquivo Pessoal)

Cuidando da página sozinha e produzindo conteúdo, Amanda entendeu que precisava vir para São Paulo para cobrir melhor a modalidade e, quem sabe, conseguir transformar o Fut das Minas em seu trabalho fixo. “Essa coisa de querer fazer mais pela modalidade foi o que me impulsionou muito. Meu objetivo é que a plataforma cresça a ponto de eu viver dela. Tenho muito ideia e projeto que eu quero botar pra frente. Enxergo minha vinda para São Paulo como possibilidade de colocar outros projetos em vigor. Decidi arriscar mais uma vez e dar outra virada na vida e vim pra cá.”

Com a experiência de cobrir campeonatos em Natal e pela TV Universitária, Amanda pretende ir além da produção de conteúdo e se engajar em uma transformação real da modalidade no cenário esportivo. “O que eu quero é produzir conteúdo sobre futebol feminino, tanto para as redes sociais, como para o site. Tenho vontade de atuar também com ações que possam ajudar efetivamente a modalidade, envolver políticas públicas, essas coisas, além da comunicação” revelou. 

Inspirada pelo conteúdo produzido por Cinthia Barlem, por Bruna Dealtry no telejornalismo e Ana Thaís Matos nos comentários, Amanda busca seu espaço com a benção da mãe, torcedora do Sport, que lhe apoiou dizendo “qualquer coisa, a casa está aqui se precisar voltar.”

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Técnica quebrou barreiras nos EUA e voltou após 20 anos para desafio no Sul http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/03/19/tecnica-quebrou-barreiras-nos-eua-e-voltou-apos-20-anos-para-desafio-no-sul/ http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2020/03/19/tecnica-quebrou-barreiras-nos-eua-e-voltou-apos-20-anos-para-desafio-no-sul/#respond Thu, 19 Mar 2020 14:03:39 +0000 http://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/?p=9820

Lessa foi eleita como melhor treinadora em 2015, nos EUA (Foto: Divulgação)

Depois de quase 20 anos, Christiane Lessa está de volta ao Brasil. A garota de 16 anos que começou a jogar futsal e passou em uma peneira no Vasco – na mesma época em que Marta defendeu o clube de São Januário -, trocou seu país pelos Estados Unidos em 2001, onde jogou e treinou equipes profissionais e universitárias.

Sua carreira como treinadora começou a caminhar por lá em 2008, comandando o sub-20 do Washington Spirit (NWSL) e depois, o sub-20 do Shandong na China. Na Noruega, foi auxiliar técnica do Avaldness, passou pelo Sky Blue dos EUA e, logo depois, se tornou a 1ª mulher a ser auxiliar técnica de um time masculino de futebol na liga americana profissional; o Atlanta Soccer Club.

Depois de enfrentar tantos desafios em terras estrangeiras, Lessa encontra agora – como ela mesma definiu – o maior desafio de sua carreira: comandar o time feminino do Foz Cataratas, que está na Série A-2 do Campeonato Brasileiro e sonha em voltar à elite do torneio nacional.

“Foi a melhor decisão que poderia ter tomado e o melhor time que poderia treinar. É claro que tem dificuldade financeira aqui, eles tinham um patrocínio grande antigamente, mas como o time caiu de divisão, as coisas ficaram mais difíceis. Mas eu adoro desafios, não que tenha que ser assim pra sempre, mas quando eu cheguei aqui, não tive nenhuma surpresa. Nada assusta mais depois que você trabalha em vários cenários”, afirmou a treinadora em entrevista às dibradoras. 

Chris Lessa no Avaldsness da Noruega (Foto: Divulgação)

Lessa desejava voltar ao Brasil há algum tempo e em 2019, chegou até a negociar uma possível volta para assumir o comando do Rio Preto, mas como o clube se desfez por falta de verba, o plano foi adiado. Em dezembro, ela começou a conversar com o presidente do Foz, Gezi Damaceno, e recebeu a proposta. Desde fevereiro Lessa está aqui e seu contrato é curto, ela deve ficar na equipe até o final da A-2, mas deseja continuar o trabalho. 

“Pedi pra ter um contrato de pouco tempo porque não sabia o que ia encontrar aqui, mas se seguirem do jeito que está, tirando o episódio do Coronavírus, claro, eu adorei a cidade, o clube, o tratamento. Sei que a vida do treinador no Brasil não é fácil, vim com a mentalidade de ficar até o Brasileiro acabar, mas se o Gezi gostar do meu trabalho, eu adoraria ficar, porque ainda teremos o Sub-16 e Sub-18 para jogar”, afirmou.

Montagem de elenco e o primeiro desafio do ano

A tradicional equipe do Foz Cataratas tem em seu histórico um título e um vice-campeonato da Copa do Brasil, um vice-campeonato na Libertadores da América, além dos nove títulos do Campeonato Paranaense.

Em 2019, o Foz Cataratas fez uma parceria com o Athletico-PR e acabou sendo rebaixado no Brasileirão para a segunda divisão. A parceria aconteceu por conta da obrigatoriedade de equipes masculinas da Série A de manterem uma equipe feminina, mas o acordo acabou no final do ano e, com isso, a equipe do Paraná perdeu grande parte de seus recursos e até cogitou não participar das competições nesta temporada. 

Lessa afirmou que, enquanto não havia chegado, foi o presidente quem começou a montar o time. Inicialmente, Gezi trouxe 14 garotas e a treinadora gostou do que recebeu. “Adorei as jogadoras que ele trouxe. Por exemplo, a Pamela Dutra, que era reserva no Cruzeiro em 2019 e agora é minha capitã, com 22 anos. Também tenho comigo a lateral-direita do São Paulo, campeã brasileira da A2, a Jaja. Também temos três meninas que retornaram do ano passado e todas elas com uma mentalidade muito boa”, contou.

A técnica, é claro, também deu seu toque especial ao elenco. Sob aprovação do clube, ela trouxe Thaynara, uma garota que, segundo ela, será a futura Catarina Macario (brasileira de 20 anos que desde criança mora nos Estados Unidos, foi eleita a melhor jogadora da liga universitária e se naturalizou americana). “Foi o pai da Catarina que me deu o contato dessa menina do Maranhão que se chama Thaynara. Também trouxe a Millene que é uma baita jogadora, jogou quatro anos nos Estados Unidos e um no Japão. Ela estava aqui solta e fez um golaço no final de semana. E trouxe também a Eduarda Chagas que jogou quatro anos atrás numa faculdade dos Estados Unidos”, revelou ao blog.

Além delas, Lessa também trouxe três americanas para o Brasil: Mariah Powers (que defendeu a seleção americana sub-15 e sub-17 e em 2016 jogou pelo Oregon State PAC 12, na mesma conferência que a Catarina Macario), Shanoska Young (que atuou pela seleção da jamaica entre 2015 e 2019) e Junique Rodrigues (que jogava pela Georgia Southern University NCAA D1). Elas ainda não estão aptas para jogar porque os registros nacionais de estrangeiras não ficaram prontos. “Ainda não posso usá-las, mas vão fazer um baita efeito no meu time”, reforçou.

Lessa (de boné) com o elenco do Foz Cataratas (Foto: Divulgação)

A comissão técnica de Lessa é enxuta. Ela conta com um preparador físico (Brito Dornelles) e um treinador de goleiras (Everton Bizu). Mas o grande nome de seu time é, ninguém menos do que Tânia Maranhão. Hoje, com 45 anos, a atleta que defendeu a seleção por mais duas décadas e foi duas vezes vice-campeã olímpica, é a inspiração para todas as jogadoras do Foz, e claro, para a treinadora.

Eu nem sabia que a Tânia se lembrava de mim, porque eu joguei com ela na base do Vasco, na época da Marta. Eu era a menina que ficava vendo o treino delas e depois eu entrava em campo. Ela me respeita mais do que qualquer atleta já me respeitou, não tenho como explicar. Ela disse que veio por minha causa, mas não deve ser, não é possível”, revelou emocionada.

Em conversa com a reportagem, Tânia assumiu que aceitou o convite do Foz – deixando o Botafogo e o Ceará pra trás – por conta da treinadora. “Estou muito feliz, sinto uma união muito grande da equipe. Independentemente da minha história, existe uma hierarquia e tem que respeitar e escutar quem está no comando. A Lessa está mostrando um excelente trabalho e eu tento ajudar com uma opinião, uma dica. Falei para as meninas do grupo para aproveitarmos essa chance de trabalhar com alguém que ficou nos Estados Unidos por 20 anos. Tenho certeza que faremos bonito nesse campeonato”, disse a experiente zagueira.

Goleada na estreia 

O Foz estreou no final de semana contra o Operário-MT e venceu bem, por 4×0, em casa. Mas não tem sido fácil para Lessa estudar o adversário e montar a estratégia de sua equipe. “Peguei dicas conversando com uma atleta que está com a gente e jogou no Operário e perguntei quem era a melhor jogadora, qual o lado mais fraco, o mais forte, o que que fazem melhor e etc. Também tinha olhado em um site de scout alguns jogos do ano passado, mas o Operário não tinha jogo! Aí peguei um highlights do campeonato mato-grossense e foi isso. Independentemente do adversário, a gente tem que tentar impor nosso jogo”, contou. 

Lessa com parte do elenco (Foto: Divulgação)

Por conta do Coronavírus, a Série A2 do Brasileirão foi interrompida, mas Lessa tem aproveitado essa pauta para preparar melhor sua equipe. “Não  tem desculpa. Tenho apenas cinco jogos pra classificar e depois jogar o mata-mata.

Durante o período em que está no Brasil, Lessa quer aproveitar para concluir as Licenças A e Pro para treinadores que a CBF promove. “Pretendo fazer a A, adoro o curso. Não posso prometer, mas a ideia era fazer em maio. Me sinto atrasada sem fazer esse curso e ele é caro. Espero que a CBF dê uma ajudinha pra mim”, contou.

Das lições que aprendeu nos Estados Unidos, a técnica deseja implantar aqui o controle emocional nas atletas. “Não acho que nossas atletas são mal preparadas fisicamente, mas somos muito fracas emocionalmente e isso pode ser preparado no treinamento. É o treinador quem implementa situações de jogo dentro de campo e trabalha para que sua mentalidade faça você ganhar força de onde não tem”, disse.

Ela usou como exemplo recente a virada que a seleção feminina sofreu em 2017, contra os Estados Unidos, no Torneio das Nações, quando vencia por 3 a 1, relembrou as derrotas do Brasil nos Jogos Olímpicos de 2004 e 2008 também para as americanas e a final do Brasileiro do ano passado entre Corinthians e Ferroviária.

“Temos que estar ligadas o tempo todo. No meu primeiro jogo, eu ganhava de 3×0 e estava preocupada. Meu preparador falava que estava controlado e, depois disso, a gente fez um pênalti e perdi uma jogadora. Sorte que a bola foi pra fora, mas e se elas fazem 3×1? Se eu não estivesse preocupada com isso, meu time ia acomodar, ligar o freio e ficar tocando a bola no nosso campo e aí crescem as chances delas fazerem gol. Então, a mentalidade que eu trago é essa, olho aberto sempre”, resumiu.

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Assim como acontece na Série A1, além de Christiane Lessa, poucas mulheres estão no comando técnico das equipes de futebol. Mas a treinadora entende que, depois de ter quebrado barreiras nos EUA e Noruega, ela chega ao Brasil para ocupar um espaço que ainda é tão carente da presença feminina e pode ser inspirador para outras mulheres.

“Penso no futuro, mas focada no presente. Se o presidente do Foz me disser que só tem verba para me bancar até o final do ano, eu quero seguir aqui e ajudar essas meninas. Não tenho pensamento de ir pra um clube grande, ganhar mais, ficar numa vitrine e não desenvolver a vida das atletas. Eu vim aqui pra mudar o cenário dessa equipe.”

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