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Audiência brasileira na TV foi a segunda maior da história da Copa feminina

Renata Mendonça

15/06/2019 08h27

Foto: CBF

Muito já se ouviu por aí que "futebol feminino não dá audiência" e que "ninguém quer ver mulher jogando bola". Os números da Copa do Mundo feminina em 2019 mostram algo diferente. Na primeira semana do torneio, os recordes de audiência nas televisões do mundo inteiro reforçam que há um potencial enorme a ser explorado no futebol das mulheres.

O próprio Brasil é protagonista nisso. No relatório divulgado pela Fifa nesta sexta-feira, o país simplesmente bateu o recorde nos números deste Mundial e assumiu o segundo lugar entre as maiores audiências da história da Copa do Mundo feminina. O jogo entre Brasil e Jamaica, que marcou a estreia da seleção no Mundial – e também a primeira vez que o maior canal de TV aberta do país transmitiu o torneio – foi visto por 19,728 milhões de pessoas. Isso significa que quase metade das TVs brasileiras estavam ligadas no jogo. E esse número só fica atrás da final da Copa do Mundo feminina de 2015, que nos Estados Unidos bateu os 25 milhões de espectadores.

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O pico de audiência no Brasil para a estreia da seleção feminina aconteceu no segundo tempo e chegou a 22,293 milhões de espectadores. Isso era só um jogo de fase de grupos, o primeiro deste Mundial. Já imaginaram se o Brasil chegar à final da Copa, qual seria o tamanho da audiência no país?

É claro que o Brasil tem uma população alta e isso ajuda a elevar esses números. Mas a população dos Estados Unidos – mega favoritos ao título e onde existe uma tradição do futebol feminino – e da China são maiores e, mesmo assim, não chegaram perto da audiência brasileira nos jogos de estreia de suas seleções. As chinesas, que começaram a caminhada nesta Copa diante da Alemanha no sábado, dia 8 de junho, tiveram uma audiência de 12 milhões de pessoas. Nos EUA, que estrearam quebrando o recorde da maior goleada da história do Mundial feminino, com 13 a 0 sobre a Tailândia, a partida que aconteceu em território americano durante a tarde de uma terça-feira, foi vista por 2,6 milhões de pessoas, com o pico chegando a apenas 3 milhões.

A França foi outro país que mostra ter abraçado de vez o futebol das mulheres ao exibir números fantásticos de audiência para os jogos deste Mundial. Começando com a abertura, que teve o recorde de 10,6 milhões de pessoas assistindo à estreia das francesas diante da Coreia do Sul. Isso também representa cerca de 48% das TVs do país ligadas no futebol feminino.

Foto: Museu do Futebol

É a maior audiência da história da França em uma Copa feminina. Em 2015, quando o país chegou às quartas-de-final contra a Alemanha, 4,12 milhões de pessoas assistiram àquele jogo. Desta vez, mais do que o dobro viram a abertura e a média se manteve na partida entre França e Noruega ainda pela fase de grupos no meio desta-semana. Isso é mais que o dobro da audiência do jogo da seleção masculina pelas eliminatórias da Euro-2020, contra a Turquia. E também supera a audiência da mesma seleção masculina da França na primeira fase da Copa do Mundo da Rússia no ano passado (10,1 milhão de espectadores).

Houve recorde de audiência também no Reino Unido para a partida entre Inglaterra e Escócia, que atraiu mais de 4 milhões de espectadores – o pico superou os 6 milhões. Antes, a maior audiência de um jogo de futebol feminino por lá havia sido as semifinais da Eurocopa 2017 entre Inglaterra e Holanda, com 2,7 milhões de espectadores.

Todos esses números evidenciam o momento do futebol das mulheres no mundo inteiro. Se a Copa do Mundo de 2015 já conseguiu um recorde de audiência, com mais de 750 milhões de pessoas acompanhando os jogos, para esta a organização espera bater o 1 bilhão – e, ao que se vê pela primeira semana de jogos, essa meta é muito possível de ser ultrapassada.

Tudo isso só é possível porque, pela primeira vez, os principais veículos de imprensa do mundo estão dando a devida atenção ao Mundial das mulheres. Quando há visibilidade para o futebol delas, percebe-se que, na realidade, existe sim um interesse das pessoas em acompanhar mais de perto esses jogos e essas histórias.

Foto: Reuters

Isso fica claro quando olhamos, no Brasil, por exemplo, para o aumento da busca por informações sobre as jogadoras e sobre o futebol feminino. No Google, houve um crescimento exponencial das procura pelo nome de Cristiane (aumentou 7.800% de um dia para o outro) depois que ela fez 3 gols para a seleção na estreia contra a Jamaica. No Observatório do Futebol Feminino, que lançamos em parceria com a Vert.Se Inteligência Digital, pudemos notar também o aumento do alcance das conversas sobre a seleção feminina nas redes sociais já nessa segunda partida contra a Austrália – se no primeiro jogo, o alcance chegou a 15 milhões de pessoas, desta vez ultrapassou 25 milhões.

E é perceptível o impacto que uma TV aberta falando sobre o futebol feminino tem sobre o conhecimento das pessoas a esse respeito. Neste ano, por conta da transmissão da Copa, a Globo passou a inserir o assunto da seleção feminina em toda a sua programação – desde o programa da Ana Maria Braga, até o Encontro Com Fátima Bernardes e o Globo Repórter. Nesta semana, soube por uma amiga que trabalha com a rede pública de colégios do Rio de Janeiro que, em uma pesquisa feita com meninas de 10 a 14 anos dessas escolas periféricas – são crianças que têm pouquíssimo acesso à internet ou TV à cabo – das 21 garotas que responderam à pergunta "qual atleta é sua inspiração no futebol?", só uma colocou o nome de Neymar, e todas as outras citaram jogadoras da seleção, como Marta, Cristiane, Formiga, Barbara, Tamires e Andressa Alves. Essa é a principal diferença dos tempos de hoje para os tempos que as jogadoras da seleção começaram a jogar bola: as meninas agora têm mulheres para se inspirar. E com a visibilidade da TV aberta, isso começa a chegar a mais e mais pessoas pelo país.

Nos resta torcer para que essa conversa não acabe nesta Copa do Mundo. Que os veículos de imprensa percebam que há um potencial gigante no futebol das mulheres e que, se eles derem visibilidade, o interesse só aumenta.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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