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Na quarentena, Pia usa futebol e Bob Dylan para manter seleção conectada

Renata Mendonça

16/04/2020 04h00

Pia tocando violão em sua casa na Suécia (Foto: Reprodução)

Um amistoso contra os Estados Unidos, outro contra a Costa Rica, uma viagem para o Japão pelo sonho da medalha olímpica. Todos esses eram os planos da seleção brasileira feminina, que tinha um ano cheio em 2020, com muitos desafios pela frente. Mas a pandemia global de coronavírus derrubou todos esses compromissos (ao menos por ora) e fez tudo mudar – menos a obsessão da técnica Pia Sundhage por futebol e Bob Dylan.

"Isolada" com a família na Suécia desde que retornou dos últimos amistosos com a seleção – disputados em março -, a técnica mantém seu trabalho a todo vapor, só que agora via internet. Se antes ela já gostava de se manter muito próxima das jogadoras conversando diretamente com elas ou acompanhando treinos ou jogos dos clubes, agora ela tenta fazer o mesmo, só que à distância. São reuniões diárias com a comissão técnica e semanais com grupos de jogadoras para analisar detalhadamente o que ainda precisa melhorar – mas não sem uma pitada de música para manter o equilíbrio.

Todo mundo sabe que Pia é uma grande cantora nas horas vagas e uma grande admiradora de Bob Dylan. E é essa a tática que ela usa para começar todos os dias bem com seu grupo de trabalho.

 

"Eu começo o dia conversando com minha assistente técnica na Suécia (Lilie Persson) e mando uma música para a minha comissão", conta a treinadora ao blog. A estratégia, explica ela, é para lembrar o grupo que eles estão juntos em meio a tudo isso.

"Gosto de lembrar a todos que nós pertencemos uns aos outros (somos um grupo) e devemos ser gratos por um novo dia juntos", disse.

Foto: CBF

O discurso "coletivo" está muito presente no trabalho de Pia em todas as seleções pelas quais ela passou. A treinadora sueca costuma questionar jogadoras sobre o que elas podem fazer para melhorar o trabalho umas das outras e, nesse período de isolamento, ela tem reforçado esse trabalho em grupo.

"Nós temos conferências de vídeo com a comissão e com as jogadoras. Por exemplo, na próxima teremos grupos de quatro jogadoras e nós vamos pedir pra que elas escolham um vídeo de um lance do time em que haja melhorias a serem feitas. Aí o grupo todo vai discutir como elas podem trazer a melhor performance umas das outras", explicou a comandante.

As próprias jogadoras sempre mencionam como Pia costuma ser detalhista no trabalho com a seleção. "Não tem nada que ela não veja. Quando a gente acha que passou batido, ela vem falar: olha, naquele momento ali, você fez isso e aquilo", contou a zagueira Erika após um dos jogos sob o comando da treinadora. Isso porque Pia assiste e "reassiste" a todos os jogos inúmeras vezes. Agora, durante o isolamento, essa tem sido uma prática ainda mais frequente.

"No início da semana, a gente decide qual partida (e qual pedaço dela) eu vou assistir e analisar. Uso os programas sportscode ou instat data. Eu tenho aproveitado esse momento para ver mais detalhes do que nunca e discutir com meus assistentes qual fase do jogo nós vamos destrinchar e analisar", conta.

A julgar pelos últimos jogos na seleção, há muita coisa para Pia analisar. O Brasil enfrentou Holanda, França e Canadá, com dois empates e uma derrota, na série de maior desafio que enfrentou desde que a sueca chegou. E cometeu erros principalmente no meio-campo e na transição da defesa para o ataque. São melhorias que a treinadora pretendia implementar nos próximos amistosos, mas enquanto não sabe quando eles vão acontecer, ela aproveita para reforçar com as jogadoras a importância de cada uma estar comprometida com a melhora do time como um todo.

Reuniões online com as jogadoras são frequentes (Foto: Divulgação CBF)

"É sempre importante estar preparado, estar pronto para o próximo jogo e o próximo sonho", reforçou ela.

Claro que a vida de uma técnica da seleção brasileira na quarentena não é só trabalho. Nos tempos que tem passado na Suécia, ela não perdeu o vício de tocar violão – uma prática que faz questão de ter todos os dias – e até praticar algumas músicas em português. E não dá pra dizer que a treinadora não esteja afinada ao cantar "Tiro Certo", de Gusttavo Lima.

 

"Também estou tendo a chance de aprender a andar de cavalo, minha irmã está sendo minha instrutora", brincou a técnica.

Ela ainda não sabe quando poderá retornar à sua casa no Rio de Janeiro, mas já está ansiosa para isso. "Eu garanto que estou pronta para isso todos os dias, todas as manhãs. Estou 'presa' na Suécia, mas sei exatamente onde meu passaporte está para quando eu puder pegar um voo para o Rio".

 

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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