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Histórico, Paulista Feminino emociona atletas, atrai torcida e vira exemplo

Roberta Nina

18/11/2019 12h56

(Foto: Bruno Teixeira)

Que 2019 foi um ano diferente e marcante para o futebol feminino, ninguém duvida. Impulsionado pelo boom da Copa do Mundo  – que pela primeira vez na história foi transmitida pela Rede Globo –, os demais campeonatos ganharam destaque no cenário esportivo. 

Com a criação dos times de camisa – impulsionados pela imposição da Conmebol – o público pode conhecer melhor as jogadoras do nosso país, a mídia passou a destacar os jogos femininos, inúmeros perfis foram criados com o intuito de divulgar ainda mais a modalidade e as pessoas marcaram presença nos estádios.

Neste final de semana, a Federação Paulista de Futebol fechou a temporada de 2019 entregando um campeonato que já entrou para a história do futebol feminino com o Corinthians conquistando seu primeiro título paulista em casa, diante de sua torcida e goleando o São Paulo por 3×0.

(Foto: Rodrigo Coca/Agência Corinthians)

O trabalho realizado pela FPF, com a ex-capitã da seleção brasileira, Aline Pellegrino no comando, alcançou feitos que nenhuma outra entidade havia conseguido. "Tem todo um cenário por trás do ano de 2019 que foi diferente para o futebol feminino por causa da Copa do Mundo e pela visibilidade que teve. Mas, se a gente também não entrega isso, o campeonato não fica desse tamanho. Podemos que falar sim (que é a maior edição da história) e é um problema bom porque agora a gente eleva o nível. Como é que a gente entrega ano que vem um campeonato pelo menos dessa altura? Isso faz todo mundo trabalhar e correr ainda mais", declarou Aline, diretora de futebol feminino na FPF às dibradoras.

Momento inédito para as jogadoras

Jogar uma partida de futebol feminino diante de quase 30 mil pessoas no Brasil é algo raro, quase incomum. Tanto é que jogadoras de seleção, como a atacante Cristiane e a zagueira Erika, ficaram deslumbradas com o que viram no último sábado (16). Nenhuma delas, em mais de 20 anos de carreira, haviam jogado em estádios como o Morumbi e na Arena Corinthians. 

"Só tenho que agradecer a torcida que compareceu ao Morumbi e as pessoas que vieram aqui. É um passo grande. A minha torcida é para que isso continue, que não chegue no ano que vem e caia de novo", declarou Cristiane após a final. 

Comemoração do segundo gol corinthiano (Foto: dibradoras)

A zagueira Erika, que defende o Corinthians há 4 anos, também viveu um momento único ao jogar dentro do estádio oficial do clube pela primeira vez. Em entrevista à jornalista Mariana Pereira, que foi comentarista da transmissão da FPF TV, a jogadora declarou estar emocionada.

"Por mais que passasse pela minha cabeça que eu nunca iria conseguir chegar a viver isso, eu não deixei de trabalhar e insistir no que eu queria e a recompensa tá aí. Pensava que eu não poderia viver isso dentro de campo e agora estou fazendo parte disso com 33 anos e fico super feliz e realizada. Espero que continue e não acabe", disse.

A volante Grazi, que também defende o Corinthians desde o início da parceria com o Audax, foi entrevistada com lágrimas nos olhos pelo SporTV, afirmando que esperou décadas por esse dia. "Na verdade, eu esperei 22 anos pra viver um momento como esse, num estádio lotado para assistir exclusivamente o futebol feminino. Acho que sou a única atleta em atividade a ter disputado todas as edições de Paulista, este é meu 9º título, mas é como se fosse o primeiro e é realmente o primeiro com a camisa do Corinthians."

O recorde de público alcançado anteriormente pela modalidade foi em 2017, na Arena da Amazônia, quando o Iranduba recebeu o Santos em uma partida do Campeonato Brasileiro. Naquele dia, 25.300 pessoas compareceram ao estádio para ver a equipe santista derrotar o time da casa por 2×1. Outro bom público alcançado pelas mulheres foi na Vila Belmiro em 2018, quando 16 mil pessoas viram o Santos derrotar o Corinthians por 1×0.

Vila Belmiro em 2018 para ver Santos x Corinthians (Foto: Santos FC)

A emoção foi tão intensa na Arena Corinthians que até mesmo Cristiane, jogadora do São Paulo, foi ovacionada pela torcida adversária. Ao fim da partida, a camisa 11 do tricolor e da seleção brasileira, entregou meião, caneleiras e chuteiras para o público. Tirou foto com os fãs e ganhou destaque nas redes sociais pela atitude

"Fiquei muito feliz porque o torcedor acompanha em casa quando a gente está na seleção, então ter a oportunidade de ir lá, tirar uma foto é muito bacana, porque tem muita criança aqui. E todo esse carinho que eles tem por mim é por tudo que eu venho fazendo dentro da seleção, fora também de campo e eu tenho a agradecer muito por isso, que mostra o quanto o meu trabalho é reconhecido", afirmou Cris. 

Victoria Albuquerque, que é da nova geração de atletas, foi artilheira do Paulistão com 11 gols. Foi a camisa 17 que, aos três minutos de jogo, abriu o placar da goleada corinthiana sobre a equipe são-paulina. Questionada sobre viver esse momento ainda jovem, diferente das outras atletas renomadas, a atacante entende o valor da conquista e disse que busca aproveitar momentos como esse da melhor maneira.

"Minha geração está colhendo coisas que plantaram lá atrás, não só as atletas mas também as pessoas que acreditaram no futebol feminino. Troco muita experiência com a Erika e ela fala muito sobre isso pra mim, que é pra aproveitar cada momento porque é muito diferente do que elas viveram. Tento contribuir de alguma forma, retribuindo o carinho nas mensagens que recebo, tiro foto com todo mundo e tento aproveitar o máximo possível. Espero que não pare por aqui, que a gente continue recebendo esse apoio e que elas fiquem felizes também com o resultado de tudo que fizeram lá atrás", afirmou em entrevista coletiva. 

(Foto: Bruno Teixeira)

A própria Cristiane é uma das atletas que sempre frisa o quanto as jogadoras mais novas precisam valorizar e lutar pela modalidade, buscando sempre o profissionalismo. "Eu nunca tinha jogado no Morumbi, aqui eu já tinha jogado por conta da Olimpíada. Então, jogar dentro da nossa casa foi muito importante pra equipe e para as meninas. Eu falei pra elas 'aproveitem isso aqui, vocês são mais novas do que eu, eu tô pegando as coisas no final, descendo a ladeira, vocês estão subindo'. Então elas tem que dar valor por jogar no estádio, dar valor ao público, ao torcedor, a toda estrutura que é dada e precisam ter isso dentro delas de se tornarem profissionais. Não é só estar dentro de um clube, vestir a camisa e acabou, você também tem que se tornar profissional."

Colhendo frutos 

Desde o ano passado, a Federação entendeu que os jogos precisavam ser transmitidos e, se a TV aberta ou fechada não demonstravam interesse, a saída encontrada por eles foi a exibição via internet. Com narradoras e comentaristas, todos os  jogos foram transmitidos via Youtube e Facebook. No final de 2018, as jogadoras foram convidadas para uma festa de premiação no Museu do Futebol como forma de valorizar todo o trabalho feito por elas ao longo do ano.

Seleção do Paulista Feminino 2018 (Foto: dibradoras)

Neste ano, a FPF seguiu trabalhando em conjunto com os clubes, fazendo com que os gestores das equipes participassem das decisões, da organização do calendário, sempre de forma muito transparente. Por conta da Libertadores da América, o São Paulo – finalista do Paulista Feminino – precisou aguardar por 40 dias pelo retorno do Corinthians de Quito, onde disputavaa a competição sul-americana. Mas nem isso foi empecilho para realizar uma final sem precedentes. Com ótimos resultados na gestão do campeonato, a FPF acaba sendo um grande exemplo para as demais Federações e Aline Pellegrino declara que eles estão sempre abertos para ajudar.

"Óbvio que cada Federação tem contexto e situações diferentes, as estratégias que usamos aqui não necessariamente vai dar certo em outro lugar, mas acho que a gente pode falar onde já erramos e ter essa troca pra gente também aprender. O mais importante é elevar o nível do futebol das mulheres no Brasil, mostrar o quanto tem potencial de investimento, de mídia, de retorno, de público e de interesse. Isso é o mais importante", declarou.

+ Final do Paulista muda placar para mostrar que mulheres ganham menos 

Aline Pellegrino é diretora de futebol feminino na FPF (Foto: Rodrigo Corsi/FPF)

O treinador do Corinthians, Arthur Elias, também ressaltou viver um momento especial na modalidade. "Eu tinha expectativa de que a gente conseguisse dar um espaço maior, conseguisse mais apoio e respeito dos clubes e das instituições e evoluir enquanto modalidade. Essa expectativa fez com que eu investisse a minha profissão, dedicação e tempo ao futebol feminino. Eu tinha esse olhar lá atrás e poucos acreditavam e eram comprometidos com a modalidade. Acho que tenho contribuído e tenho expectativas ainda maiores porque esse ano foi marcante – não só pela Copa em que um bilhão de pessoas assistiram – mas também pelo que se passou aqui no Brasil com as competições, o dia de hoje, então tenho muita esperança que a gente possa ter uma situação ainda melhor e chegar um pouco mais perto de algo mais justo", afirmou. 

Aline Pellegrino, que ganhou duas Libertadores defendendo o Santos diante da Vila Belmiro lotada, entende o quanto é especial viver um momento como foi a final deste Paulista. "Ver a torcida do Corinthians aplaudindo as jogadoras do São Paulo foi demais. As jogadoras demoraram para sair do campo porque queriam viver ao máximo esse dia porque ele é único, a gente não sabe quando pode acontecer de novo."

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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