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De olho em Tóquio: quatro mulheres se tornaram campeãs mundiais em 2019

Roberta Nina

15/10/2019 08h18

Bia Ferreira, campeã mundial de boxe (Foto: COB)

Faltam 283 dias para os Jogos Olímpicos de Tóquio e, para atletas de diversas modalidades, a corrida rumo à classificação já começou. Falando especialmente do ano de 2019, as brasileiras têm conquistado resultados expressivos e destacando-se em competições preparatórias.

Alcançar o degrau mais alto do pódio em um Mundial às vésperas de um ano olímpico é muito relevante e significativo, ainda mais quando falamos das mulheres que só foram aceitas nos Jogos Olímpicos muitos anos depois que os homens.

Os Jogos Pan-Americanos de Lima também foram muito importantes para o Brasil que ficou em segundo lugar na classificação geral do quadro de medalhas e viu as mulheres subirem ao pódio 74 vezes, representando 43% das conquistas do país na competição. 

+ Em Pan histórico, mulheres tiveram conquistas inéditas e marcantes

Na história do esporte (além das quatro citadas nessa matéria), outras seis mulheres foram campeãs mundiais (em provas individuais e olímpicas): Daiane dos Santos (2003, no solo da ginástica artística), Natalia Falavigna (2005, taekwondo na categoria até 72kg), Fabiana Murer (2011, salto com vara), Poliana Okimoto (2013, maratona aquática), Rafaela Silva (2013, judô até 57kg) e Mayra Aguiar (2014 e 2017, bicampeã de judô). 

Em 2019, quatro mulheres conquistaram o título de melhor do mundo na sua categoria. São elas: a esgrimista Nathalie Moellhausen, a skatista Pamela Rosa, a boxeadora Beatriz Ferreira e a maratonista aquática Ana Marcela Cunha.

Campeãs do mundo

Em julho deste ano, Nathalie Moellhausen alcançou o maior feito da modalidade no país. Aos 33 anos, a italiana naturalizada brasileira foi campeã do mundo em Budapeste, na espada. 

A esgrimista Nathalie Moellhausen (Foto: COB)

Em 2015, chegou a ganhar duas medalhas nos Jogos Pan-Americanos e foi até as quartas de final dos Jogos Olímpicos do Rio, ficando a uma vitória da medalha.

Também em julho, a baiana Ana Marcela Cunha foi ao pódio pela 10ª vez na história dos Mundiais de esportes aquáticos e se tornou a mulher com mais medalhas de toda a modalidade. No Mundial disputado na Coréia do Sul, a maratonista aquática levou a medalha de ouro nas provas de 5 e 25km.

(Foto: Wander Roberto/COB)

Apesar das provas vencidas por Ana Marcela neste ano não serem olímpicas, o feito da nadadora precisa ser exaltado, afinal são inúmeros os recordes da atleta, que disputou seu primeiro Mundial aos 14 anos de idade e é a única competidora que participou da primeira edição olímpica do esporte em 2008, e que estará nas Olimpíadas de Tóquio em 2020. 

No skate – modalidade recém-incluída no circuito olímpico – Pamela Rosa garantiu o topo do mundo ao vencer na categoria street, em setembro deste ano. O título deixou a atleta muito perto de ter sua vaga garantida em Tóquio já que a pontuação no ranking é uma das formas de classificação.

Pamela campeã mundial no Skate Street (Foto: REUTERS / Amanda Perobelli)

No último domingo (13), Bia Ferreira entrou para o hall de campeãs mundias de boxe. Na competição disputada na Rússia, ela garantiu a medalha de ouro ao derrotar a chinesa Cong Wang – na categoria até 60kg – e os juízes deram o título para a brasileira por unanimidade.

Bia é um fenômeno. Em 25 torneios disputados, ela conseguiu 24 pódios. Suas conquistas mais recentes são: Campeã sul-americana em Cochabamba (2018), Campeã Pan-americana em Lima (2019) e agora, campeã Mundial em Ulan-Ude na Rússia. O Brasil não ganhava uma medalha na modalidade desde 2010, quando Roseli Feitosa (81kg) havia vencido.

(Foto: Ivan Alvarado/Reuters)

Filha de Sergipe (tricampeão baiano e bicampeão brasileiro no boxe, além de sparring de Popó nos anos 90), a atleta tem 26 anos, mas só começou a lutar pra valer no circuito internacional neste ciclo olímpico. Somente no Mundial do ano passado ficou fora do pódio.

Ainda assim, a conquista neste Mundial não garantiu a vaga de Bia nas Olimpíadas de Tóquio, já que a Associação de Boxe Amador foi suspensa pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) por conta de má gestão. Mesmo assim, a boxeadora terá duas oportunidades de carimbar seu passaporte para o Japão: em pré-olímpicos continentais que acontecerão em março, em Buenos Aires, ou no Pré-Olímpico Mundial que será disputado em maio, em Paris. 

A luta das mulheres olímpicas

Os Jogos Olímpicos da Era Moderna aconteceram, pela primeira vez, em 1920. Mas foi apenas 12 anos depois que a primeira mulher pode competir. Foi Maria Lenk quem quebrou a primeira barreira para as mulheres dentro de uma Olimpíada e, mesmo sem ter conquistado uma medalha, a nadadora se tornou uma grande referência feminina no esporte. Na época, além de ser a primeira brasileira, Maria Lenk foi a primeira mulher sul-americana a disputar uma edição olímpica.

Maria Lenk, uma das pioneiras no nado borboleta (Foto: Reprodução)

+ Consciência Negra: as pioneiras do esporte que você nunca ouviu falar

Aos poucos, as atletas foram se inserindo no esporte – sempre, é claro, enfrentando muita resistência, seja de familiares e até mesmo da própria Confederação. Em 1936, foi a vez da nadadora Piedade Coutinho entrar para a seleta lista de mulheres olímpicas. Ela participou dos Jogos de Berlim aos 16 anos, chegando em 5º lugar na prova dos 400m livre, batendo o recorde sul-americano, resultado que só foi igualado 68 anos depois, por Joanna Maranhão, em 2004.

Wanda dos Santos (Foto: Reprodução Documentário "Sem Barreiras"/ESPN Brasil)

Em Londres (1948), Melania Luz – atleta dos 200 metros – foi a primeira mulher negra a disputar uma Olimpíada. Feito que seria repetido quatro anos depois por Wanda dos Santos, nos Jogos de Helsinque, representando o Brasil no atletismo (80 metros com barreiras). Na ocasião, foi vítima de preconceito, quando as competidoras se recusavam a ficar próximas ou até mesmo cumprimentá-la por ela ser negra. Anos depois, em 1960, a mesma Wanda foi a única mulher entre os 81 atletas brasileiros que estavam em Roma. 

Em Melbourne (1956), Mary Dalva Proença, disputou a competição dos saltos ornamentais até que Aída dos Santos – também do atletismo – foi a primeira mulher a disputar uma final olímpica em 1964 em Tóquio. Luísa Parente, em 1988, não medalhou na ginástica, mas se destacou entre as participantes.

Somente em Atlanta (1996) que as mulheres – finalmente – conquistaram medalhas. Ouro e prata no vôlei de praia –  com a dobradinha de Jaqueline e Sandra contra Mônica e Adriana -, a prata do basquete feminino – comandado por Paula e Hortência – e o bronze no vôlei de quadra.

Dobradinha olímpica em 96: Mônica, Adriana, Jaqueline e Sandra (Foto: Arquivo / Site Jackie Silva)

A primeira medalha individual do Brasil na história dos Jogos Olímpicos veio nos Jogos de Pequim, em 2008, com a judoca Ketleyn Quadros. Na mesma edição, Maurren Maggi faturou o ouro olímpico no salto em distância e o vôlei feminino também sagrou-se campeão. O futebol das mulheres ficou com a prata, Fernanda Oliveira e Isabel Swan ganharam bronze na vela e Natália Falavigna ganhou bronze no Taekwondo. Na edição de 2008 as mulheres conquistaram duas das três medalhas de ouro e seis das 15 medalhas totais.

Ju Cabral, medalhista olímpica com o futebol em Atenas, 2004 (Foto: Museu do Futebol/Divulgação)

Em 2012, Sarah Menezes faturou o ouro no judô e a seleção feminina de vôlei garantiu o bicampeonato. Na mesma edição, em Londres, quatro modalidades ganharam o bronze: Mayra Aguiar no judô, Juliana Silva e Larissa França no vôlei de praia, Adriana Araújo no boxe e Yane Marques  no pentatlo moderno. 

Em 2016, no Rio de Janeiro, sete mulheres conquistaram medalhas na Olimpíada: Rafaela Silva conquistou o ouro e Mayra Aguiar o bronze, ambas no judô, Poliana Okimoto foi bronze na maratona aquática, Ágatha e Bárbara levaram a prata no vôlei de praia e Martine Grael e Kahena Kunzi foram campeãs na vela.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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