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Em Pan histórico, mulheres tiveram conquistas inéditas e marcantes

Roberta Nina

12/08/2019 18h12

Rafaela Silva conduziu a bandeira brasileira no encerramento do Pan de Lima (Foto: Alexandre Loureiro/COB)

Os Jogos Pan-Americanos chegaram ao fim no último domingo (11) e trouxeram  muitos recordes e conquistas inéditas para o Brasil. Começando pelo segundo lugar na classificação geral, ficando atrás apenas dos Estados Unidos no quadro de medalhas – fato que não acontecia há 56 anos, desde 1963, no Pan de São Paulo.

O país ganhou 171 medalhas, sendo 55 ouros, 45 pratas e 71 bronzes. Foram três de medalhas de ouro a mais do que o último recorde, conquistado no Pan de 2007, no Rio de Janeiro. 

A delegação brasileira no Pan-Americano foi composta por 485 atletas, em 49 modalidades. Foram 249 homens e 236 mulheres (48% da delegação) – considerando que no primeiro Pan, em 1951, o Brasil levou apenas 22 mulheres numa delegação de 179 atletas, dá para ver o tamanho da evolução para 2019. 

Elencamos aqui algumas conquistas femininas importantes – elas tiveram 74 pódios, representando 43% das medalhas brasileiras nesse Pan. Sejam elas inéditas ou significativas, fato é que muitas mulheres entraram para a história com suas vitórias e marcas alcançadas.

Natação

A natação brasileira obteve o melhor resultado da história em Jogos Pan-Americanos. Foram 30 medalhas conquistadas (10 de ouro, 9 de prata, 11 de bronze).

Não dá para negar que o grande nome feminino da modalidade no país atualmente é Etiene Medeiros e ela chegou à competição como a única mulher brasileira da natação a ter uma medalha de ouro em Jogos Pan-Americanos – quando venceu o 100m costas em 2015, no Pan de Toronto.

(Foto: Pilar Olivares/Reuters)

Desta vez, ela subiu ao pódio novamente faturando os 50m livre. A pernambucana bateu as americanas Margo Geer e Madison Kennedy e conquistou sua oitava medalha em Pan.

Outro destaque é Larissa Oliveira, que faturou cinco medalhas em Lima e é um nome para ficar de olho daqui pra frente. Com apenas 26 anos, ela conquistou o ouro no revezamento 4×100 misto, bronze nos 100m e nos 200m livre e prata nos revezamentos 4x100m livre feminino e 4x100m livre misto.

(Foto: Ricardo Bufolin/Panamerica Press)

Somando às outras três medalhas conquistadas em Toronto (prata no 4x200m livre e bronze no 4×100 livre e 4×100 medley), a mineira se tornou nadadora brasileira mais vitoriosa no Pan, superando marcas de Joanna Maranhão e Tatiana Lemos.

Outro destaque, desta vez nas águas abertas, é Ana Marcela Cunha que trouxe uma medalha inédita para o Brasil. A nadadora conquistou o primeiro lugar na Maratona Aquática no Peru (prova dos 10km). Antes dela, ninguém havia conquistado esse feito. 

(Foto: Wander Roberto/COB)

Com o resultado, a baiana, que já tem no currículo o título de mulher com mais medalhas na modalidade na história dos Mundiais de esportes aquáticos (dez), conquista o primeiro pódio pan-americano da carreira – e primeiro ouro do Brasil.

Judô

Rafaela Silva, campeã olímpica na Rio-2016, conquistou a medalha que estava faltando: seu primeiro ouro pan-americano na categoria até 57 quilos. Ela venceu a cubana Anailys Dorvigny.

Com a conquista recente, Rafaela chegou à quatro medalhas em Jogos Pan-Americanos – já havia ganhado prata e bronze em edições anteriores. 

(Foto: Reuters)

Rafaela Silva foi a primeira atleta brasileira a conquistar a "tríplice coroa" esportiva na história do esporte brasileiro (campeã olímpica, mundial e pan-americana).  Além do ouro, Rafa foi a porta-bandeira do Brasil na cerimônia de encerramento dos Jogos Pan-Americanos. 

Vela

Se Rafaela foi escolhida para fechar a cerimônia do Pan, a dupla da vela Martine Grael e Kahena Kunze foram as responsáveis carregar a bandeira brasileira na cerimônia de abertura dos Jogos – foi a primeira vez na história dos Jogos que mulheres levaram a bandeira do Brasil na abertura. 

(Foto: Jonne Roriz/COB)

A dupla levou o ouro na classe 49er FX e, assim como a judoca, também conquistaram a "tríplice coroa" em Lima. Na edição anterior, em Toronto, elas chegaram perto da conquista histórica, mas ficaram com a medalha de prata. 

Taekwondo

Milena Titoneli, de apenas 20 anos, foi a primeira mulher do país a ser campeã da modalidade em Jogos Pan-Americanos. A paulistana, que derrotou a norte-americana Paige Pherson por 9 a 7, revelou em entrevista que escreveu em um papel colocado em cima de sua cama a frase "eu vou para as Olimpíadas e vou ser o ouro."

O primeiro passo foi dado e a atleta agora foca seus próximos desafios em conseguir a vaga para Tóquio, no ano que vem

(Foto: Abelardo Mendes Jr/rededoesporte.gov.br)

Vale destacar que a Confederação Brasileira de Taekwondo (CBTkd) conta com a coordenação de Natália Falavigna, medalhista olímpica em Pequim 2008, que tem feito um ótimo trabalho em conjunto com o COB e proporcionando melhorias para a modalidade

Patinação

Aos 18 anos, Bruna Wurts foi a primeira mulher a conquistar um ouro para o país na patinação artística. Importante dizer que a modalidade não é olímpica, por isso, os Jogos Pan-Americanos representam oportunidade única de divulgá-la no país e no continente.

(Foto: Abelardo Mendes Jr/ rededoesporte.gov.br)

Bruna começou a patinar com três anos de idade e desde 2015 mora em Barcelona, onde treina. Para competir, precisa ter vínculo com um clube de seu país e por isso é atleta da Escola de Patinação Artística Marcel Stürmer – patinador brasileiro tetracampeão pan-americano.

Boxe 

Beatriz Ferreira é mais uma atleta que fez história em Lima. Na categoria até 60kg, se tornou a primeira mulher da modalidade a vencer uma medalha pan-americana. Ela derrotou a argentina Dayana Sanchez e quebrou um jejum de 12 anos do país na modalidade. A última conquista veio com o ouro de Pedro Lima na Rio 2007. 

Soteropolitana, de 26 anos, ela ganhou o ouro na categoria leve até 60kg por decisão unânime dos juízes.

(Foto: Ivan Alvarado/Reuters)

Bia começou a treinar boxe bem cedo e seu pai é seu maior incentivador. Com dificuldades de encontrar adversárias na modalidade, começou a disputar suas primeiras lutas somente aos 21 anos. Ainda assim, conquistou resultados importantes como Prêmio Brasil Olímpico como melhor nome do boxe amador brasileiro de 2017.

Também ganhou duas vezes o Campeonato Pan-Americano (que é diferente dos Jogos Pan-Americanos) e faturou dois torneios importantes na Europa, em Belgrado (Sérvia) e Sófia (Bulgária). Em 2018, levou a medalha de ouro nos Jogos Sul-Americanos de Cochabamba (Bolívia).

Triatlo 

Foi Luisa Baptista quem trouxe o primeiro ouro do Brasil nos Jogos Pan-Americanos de Lima. Além disso, essa foi a primeira vez na história que o Brasil ficou com o lugar mais alto do pódio no triatlo feminino. 

Luisa e Vittoria no pódio (Foto: Wander Roberto/COB)

Quadragésima nona colocada no ranking mundial da categoria, Luisa Baptista ultrapassou a colega brasileira Vittoria Lopes na linha de chegada. Ela completou a prova com o tempo de 2:00:55, seguida por Lopes, que fez 2:01:27. 

Handebol

Nos esportes coletivos, o destaque é a seleção brasileira de handebol feminino, que confirmou seu favoritismo e foi hexacampeã nos Jogos Pan-Americanos. O Brasil está invicto há 36 jogos no torneio. Na final, bateu a Argentina de virada, por 30 a 21, e além da medalha de ouro, carimbou o passaporte para os Jogos Olímpicos de 2020. É a primeira seleção a conquistar um hexacampeonato de maneira consecutiva.

Basquete 

Foram 28 anos de espera para que o a seleção feminina de basquete conquistasse o ouro em uma edição pan-americana. A última conquista das mulheres havia sido em 1991, sob a batuta da Rainha Hortência e de Magic Paula, em Havana, ao derrotar Cuba em casa e ser aplaudida até mesmo pelo presidente Fidel Castro. 

A conquista emblemática do basquete feminino em Cuba, 1991 (Foto: CBB)

Podemos dizer que, no esporte coletivo, essa conquista pode ser considerada das mais importantes. Isso porque o basquete feminino enfrenta muitos problemas há anos e desde a última conquista – a medalha de bronze olímpica em Sydney – o esporte passou por muito descaso e sofreu com os casos de corrupção dentro da própria Confederação (CBB).

A medalha significa muito mais do que o primeiro lugar no Pan de Lima, mas sim um passo fundamental na reconstrução do time e na busca da autoestima das jogadoras, que sofrem dentro do Brasil com uma liga bem enfraquecida.

(Foto: PEDRO RAMOS AGENCIA BRASIL)

Depois de duras derrotas e campanhas vergonhosas em grandes competições, como a Copa América e Sul-Americano, vencer por 79 a 73 a equipe americana na final (ainda que as jogadoras que representaram os Estados Unidos sejam de nível universitário) era mais do que necessário.

O treinador José Neto assumiu a seleção feminina às vésperas da competição e, apesar de ter uma carreira multicampeã sob o comando do time masculino do Flamengo, o técnico vai enfrentar muitas dificuldades para renovar e entrosar esse time para os desafios futuros em busca da vaga olímpica.

+ Como escola de samba Mangueira moldou base da seleção de basquete do Pan

Mesmo com poucos dias de treinamento para o Pan, a seleção brasileira subiu ao degrau mais alto do pódio de maneira invicta e foi evidente a emoção das atletas e da comissão técnica no momento do hino nacional.

Entre os destaques da competição estão as jogadoras mais novas Raphaella Monteiro e Tainá Paixão e as veteranas Clarissa e Érika.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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