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Futebol feminino não atrai público? A realidade prova o contrário

Renata Mendonça

2018-03-20T19:04:00

18/03/2019 04h00

Foto: Divulgação Atlético de Madri

Por muito tempo, repetiu-se por aí um clichê de que "futebol feminino é chato e ninguém quer ver". Ainda que a maioria das pessoas que digam isso nunca tenha parado para ver um jogo entre mulheres nos últimos tempos – até porque raramente há transmissão deles na TV -, essas frases são tomadas como verdade até hoje.

"Elas só não perceberam que futebol feminino mesmo de graça não lota estádio. Futebol masculino tem estádio lotado até na 3ª divisão. Vão catar coquinho…jogo de mulher não dá…", esse foi um dos comentários recentes em um post que fizemos sobre o futebol de mulheres. Teve esse também: "Qualquer 'corrida' de lesmas tem mais emoção que o futebol feminino." E esse: "Futebol feminino é muito chato, não tem interesse do público, parem de querer forçar a barra."

Eis que reunimos aqui algumas constatações recentes que contrariam essas máximas por completo.

O futebol feminino é tão chato que, no último domingo, 60.739 pessoas lotaram o Estádio Wanda Metropolitano para ver as mulheres jogando futebol entre Atlético de Madri e Barcelona. O time da casa colocou à venda os ingressos e em pouquíssimos dias eles se esgotaram. Não era preliminar do masculino, nem era final de campeonato. Era apenas "mais um jogo" do Campeonato Espanhol, que é disputado por pontos corridos. O Barça venceu e colocou fogo na tabela – o Atlético de Madri tinha seis pontos de vantagem na liderança sobre o rival, agora são apenas 3.

 

E na Espanha, aliás, não é a primeira vez que as mulheres alcançam um recorde. Em janeiro deste ano, as quartas-de-final da Copa da Rainha entre Athletic Bilbao e Atlético de Madri tiveram mais de 48 mil pessoas ocupando as arquibancadas no estádio San Mamés. Prova do quão grande é o desinteresse do público por ver mulheres jogando bola, não é mesmo?

Ninguém quer ver futebol feminino mesmo, mas em um dia de venda de ingressos para a Copa do Mundo Feminina – que acontece entre 7 de junho e 7 de julho na Franca neste ano -, mais de 590 mil entradas foram vendidas e jogos como a abertura, as semifinais e a final foram esgotados.

Foto: Divulgação Atlético de Madri

Não tem nenhum interesse do público pelo futebol feminino, só que em Manaus, um lugar em que os times locais de futebol não atraem mais de mil pessoas para o estádio, uma equipe feminina já colocou mais de 25 mil pessoas na Arena da Amazônia para um jogo do Brasileiro feminino. O Iranduba é o detentor do recorde de público da modalidade no campeonato nacional, na semifinal entre o time amazonense e o Santos em 2017. Ainda teve o Santos em 2018, que lotou a Vila Belmiro (foi o maior público do ano no estádio) para a final do Campeonato Paulista contra o Corinthians.

Poderíamos citar também o recorde de público no México para a final do campeonato nacional entre Monterrey e Tigres em 2018, quando 51.211 pessoas estiveram no estádio. Ou ainda a final da FA Cup feminina no ano passado, entre Chelsea e Arsenal em Wembley, com 45.423 torcedores. E para fechar, poderíamos mencionar também a própria semifinal olímpica entre Brasil e Suécia em 2016, quando mais de 70 mil pessoas estiveram no Maracanã para prestigiar o futebol delas. Números que não fazem outra coisa senão comprovar o que sempre se repetiu: futebol feminino é chato e ninguém quer ver.

 

Lições da Espanha

Nos últimos anos, a Espanha passou a investir no futebol feminino e viu uma evolução absurda acontecer com a modalidade. Com investimento de alguns dos principais clubes do masculino e com o apoio da mídia na divulgação, a Liga Espanhola foi crescendo, hoje já conta com seus próprios patrocinadores e atrai uma torcida fervorosa para o estádio. Importante frisar que lá não existe imposição para que os clubes invistam na modalidade. O interesse é genuíno.

"Acho que aqui eles querem realmente fazer as coisas da melhor maneira possível. Já faz mais de um mês que eles vêm divulgando que o jogo seria no Wanda, reforçando isso. A torcida foi, acompanhou, a mídia espanhola também fez bastante alvoroço, e o estádio ficou lotado", contou Andressa Alves, atacante da seleção brasileira e camisa 10 do Barça.

 

"É muito importante para o futebol feminino ter um público assim, a gente fica muito feliz. Os recordes vêm da vontade de fazer a diferença, dos clubes quererem, de divulgar o futebol feminino, por isso cada vez mais na Espanha as pessoas têm interesse em ver os jogos."

Fernanda Chamusca, uma brasileira que estuda Direito Esportivo em Madri, conta como a relação dos espanhóis com o futebol feminino foi se intensificando nos últimos anos.

Capa do Marca destacando o futebol feminino (Foto: Reprodução)

"Eu abri o site essa semana, e já não consegui mais comprar os ingressos. Hoje tentamos ver com uma colega que mora perto do Wanda, e ela não achou também. Madrid é uma cidade que vibra muito o futebol, e principalmente sobre o espaço da mulher nesse cenário. Aqui descobri que não importa o gênero, se você é uma boa profissional, você será vista e ouvida", pontuou ela às dibradoras.

Foto: Divulgação Atlético de Madri

"Acho que é isso que vem acontecendo com esse boom do futebol feminino. As pessoas começaram a ter mais acesso ao futebol feminino, e começaram a transmitir a mesma paixão que já tinham pelos seus clubes, a identificação em ver a camisa do seu time brilhar, também para as atletas. Hoje, todos os meios de comunicação aqui falavam incansavelmente sobre o jogo. É de aplaudir de pé a naturalidade como fazem acontecer."

Na Espanha, há transmissões na TV de pelo menos um jogo por rodada e o interesse do público tem aumentado cada dia mais – comparando a temporada do Campeonato Espanhol feminino de 2016-2017 com a de 2017-2018, a audiência cresceu 40% segundo os dados oficiais da organização do torneio.

 

A forma como o país tem promovido o futebol feminino é a prova de que, quando se tem vontade de fazer acontecer, o resultado vem. Que os clubes do Brasil, a CBF, e a mídia daqui siga esse exemplo, porque é possível fazer do futebol feminino um grande negócio, com públicos recordes e patrocinadores, se todos estiverem juntos e dispostos a isso.

"A sensação é a melhor possível, quem é jogadora sabe a emoção que é jogar com estádio lotado. Eu tive essa sensação na Olimpíada, no Maracanã, mais de 70 mil pessoas, é um momento que fica gravado na sua cabeça pelo resto da vida", finalizou Andressa.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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