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Torcedoras imortalizam mulheres em bandeiras e faixas nas arquibancadas

Roberta Nina

08/10/2020 04h00

Foto: Gustavo Marchesine

Nesta quinta-feira (08), quando o Athletico Paranaense receber o Ceará pela 14ª rodada do Brasileiro Masculino, uma torcedora ilustre estará presente simbolicamente na Arena da Baixada, em Curitiba. Graças às torcedoras atleticanas, uma faixa em homenagem à jornalista Sônia Nassar dividirá espaço com outros ídolos nas arquibancadas e ficará sempre atrás do gol. 

Sônia foi pioneira no jornalismo esportivo paranaense e era fanática pelo Furacão. Ela faleceu em 2001, aos 50 anos e eternizou uma frase que – além de ilustrar a faixa – se tornou um mantra entre os torcedores: "O Athletico é um estado de espírito".

Segundo a fundadora do Atleticaníssimas, Milene Szaikowski, a ideia surgiu dentro do grupo de torcedoras com o objetivo de homenagear mulheres importantes na história do clube. A iniciativa também foi uma forma de contribuir para a união das mulheres que amam o time.

Para a torcedora Michele Toardik, responsável por apresentar a ideia no grupo, esse feito foi muito emblemático. "Lançamos no grupo e, na hora, todas as mulheres compraram a ideia. Foi aí que pensamos, logo em seguida, que isso não poderia ser um projeto só das Atleticaníssimas, mas de todas as mulheres atleticanas, algo muito maior que o nosso grupo", conta.

Com um valor simbólico de contribuição, todas as mulheres que participaram da ação tiveram seus nomes gravados nas barras da faixa, que resultou no total de 216 mulheres. O valor excedente será destinado a um projeto que desempenha um trabalho para meninas que jogam futebol.

A importância de Sônia

Michele ressalta que a primeira mulher que veio em mente para homenagear mulheres importantes para o Athletico foi a Sônia. O clube já prestou uma homenagem para sua torcedora ilustre, dando seu nome para a sala de imprensa do CT do Caju.

(Foto: Acervo pessoal)

"Muita gente talvez desconheça a história da Sônia, então a faixa é um marco para que a gente faça ecoar a história dela. E que seja a primeira de muitas homenageadas que a gente ainda vai levar para o estádio".

Justamente por Sônia ser tratada como um ícone e uma referência para tantas mulheres, que as Atleticaníssimas fizeram um episódio especial sobre ela no podcast "Quebra o Muro". O papo conta com a presença da irmã de Sônia, a Sandra Nassar, onde elas contam muitas histórias e falam sobre a importância dela para o clube, para o jornalismo e para o futebol.

Sônia com Pelé (Foto: Acervo pessoal)

"Se hoje ainda é necessário discutir o respeito em relação à presença feminina no estádio, imagina na época da Sônia", frisou Milene.

Sônia Nassar se formou em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) nos anos 70 e foi a primeira repórter esportiva do rádio paranaense. Pioneira na área esportiva, mesmo atleticana, é respeitada por todas as torcidas.

(Foto: Acervo pessoal)

A jornalista e torcedora chegou a costurar os uniformes do Athletico em épocas difíceis e também ajudou a criar o troféu Corujinha de Ouro, premiação feita pelo jornal O Estado do Paraná para eleger os melhores jogadores do Campeonato Paranaense.

Torcidas que homenageiam mulheres

Na última segunda-feira (05/10) a equipe feminina do Palmeiras recebeu o Internacional no Allianz Parque pelo Brasileiro Feminino. E a atacante Carla Nunes – artilheira do time e da competição – foi surpreendida com uma faixa em sua homenagem.

Neste caso, mais uma vez, a iniciativa de homenagear as mulheres com uma faixa na arquibancada também partiu de outras mulheres. Foi o Movimento VerDonnas que articulou a ação, impulsionada por um pedido feito pela narradora Natália Lara que, ao ver faixa de outros ídolos estendidas na arquibancada no Allianz durante a transmissão, jogou a ideia no ar: por que não homenagear a maior goleadora da história do clube?

Depois disso, Tainá Shimoda, administradora do VerDonnas e jornalista do Base Palestrina, contou com o apoio de Raphael Marques, dono de uma gráfica, que se dispôs a fazer a arte e confeccionar a bandeira.

"A gente nunca tinha visto uma homenagem assim no estádio (com bandeira homenageando alguma mulher). As pessoas ficaram bem impressionadas nesse sentido porque é uma coisa bastante nova. E o futebol feminino do Palmeiras foi e voltou, teve parcerias com prefeituras de cidades do interior e não era muita gente que acompanhava. Mas com esse time, eu acredito que as pessoas estão acompanhando mais", declarou Tainá ao blog.

A escolha por fazer essa menção à Carla Nunes – a primeira mulher a marcar um gol no Allianz Parque – em uma bandeira, segundo Tainá, tem um sentido de representatividade. "Algumas pessoas até questionaram a escolha de fazer a bandeira pra Carla, mas nós fizemos isso motivadas pela importância que ela tem nessa reconstrução do futebol feminino no Palmeiras do que ter feito grande história pelo clube. Por enquanto ela representa muito bem o time feminino", declarou.

(Foto: Crygfotos.com)

No Brasil existem outras torcidas fazem homenagens às mulheres nas arquibancadas. Como por exemplo o Vasco da Gama, com um coletivo chamado "Rosalinas", que fez uma faixa em consagração à Dulce Rosalina, torcedora e dirigente de torcida organizada. Torcedoras do Grêmio, que formam o coletivo "Elis Vive", também fizeram uma em homenagem à cantora Elis Regina.

Coletivo Elis Vive (Foto: Reprodução Instagram)

Fora do Brasil, temos o exemplo do Junior Barranquilla da Colômbia, que foi fundado por uma mulher e, em todos os jogos da equipe no estádio Metropolitano, é possível ver uma faixa com os dizeres: "Obrigado Micaela por este amor tão insuportável".

O futebol sempre fez parte da vida das mulheres. Mesmo diante das imposições da sociedade e da proibição por lei – que vetou a participação feminina no esporte por quase 40 anos – elas nunca deixaram sua paixão de lado, ainda que fossem escanteadas.

Esse resgate das torcedoras com o intuito de manter viva a memória dessas mulheres é admirável. É uma forma de reafirmar que dentro de campo ou na arquibancada, elas também devem ocupar os espaços que tentaram priva-las e, de certa forma, reverenciar suas trajetórias, assim como já fazem aos ídolos imortais de cada clube.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre as autoras

Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Renata Mendonça é apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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