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Finalista da Sul-Americana, Barranquilla foi fundado por uma mulher

Roberta Nina

2012-12-20T18:04:00

12/12/2018 04h00

(Foto: Hansel Vásquez / El Heraldo)

"Obrigado Micaela por este amor tão insuportável". Estes são os dizeres de uma famosa faixa que a torcida do Junior Barranquila costuma estender nas arquibancadas do estádio Metropolitano em Barranquilla, na Colômbia.

Tudo isso para nunca esquecerem de Micaela Lavalle de Mejía, a mulher que fundou o Club Deportivo Popular Junior Fútbol Club S.A – também conhecido por Atletico Junior ou somente Junior – em 1924.

Nesta quarta-feira (12/12) dois times entram em campo em busca de um mesmo sonho: ganhar o primeiro título internacional da história de seus clubes. Atlético Paranaense e Junior Barranquilla decidem a Copa Sul-Americana na Arena da Baixada após empate por 1×1 na Colômbia.

A mãe do Junior Barranquilla

Os dois finalistas da competição sul-americana foram fundados no mesmo ano, mas o time de Barranquilla tem uma história curiosa e muito rara nos registros de seu nascimento.

Micaela Lavalle de Mejía morava em uma casa com telhado de palha e em um bairro com muitos criadores de gado. Foi ela quem liderou a criação da equipe – que inicialmente se chamava Juventude Infantil – para que seus filhos e vizinhos, pudessem ter um espaço em meio às vacas e bois para jogarem futebol.

As cores do Junior Barranquilla (vermelho, branco e azul) imitavam os barcos ingleses que viviam atracados no Porto Colômbia e, juntamente com Micaela, era a vizinhança quem comprava e lavava os uniformes do time.

Sua fundadora chegou a ver a "equipe do bairro" crescer, mas faleceu em 1962, quando seu clube vivia uma grande crise que o deixou fora da primeira divisão por longos 13 anos – de 1953 a 1966.

O primeiro título nacional d'O Tubarão veio em 1977 e, atualmente, com sete campeonatos nacionais e duas Copas Colômbia conquistadas, o Junior Barranquilla se considera como o único clube no mundo a ser fundado por uma mulher.

A torcida colombiana jamais esquece o feito de sua matriarca e é possível encontrar a faixa com o agradecimento à Micaela nas arquibancadas do Estádio Metropolitano Roberto Meléndez.

Outros exemplos

Talvez Micaela não seja a única, mas sim uma das raríssimas mulheres a fundar um time de futebol. Há relatos de que o Manchester City nasceu como forma de um trabalho social de Anna Connell, filha do vigário da igreja de São Marcos (saiba mais aqui).

Anna acreditava que a criação de clubes masculinos ajudaria a melhorar o espírito comunitário em West Gorton e manter a população longe de conflitos religiosos e raciais que aconteciam naquela época.

Ao lado de dois membros da igreja, eles batizaram o time de Saint Marks, em 1880. O clube passou a ter seu nome atual e de maneira definitiva em 1894.

No Brasil, o Mixto Esporte Clube, de Cuiabá, também conta com participação feminina em sua fundação. Em 20 de maio de 1934, reunidos em um casarão, Maria Malhado, Gastão de Matos, Naly Hugueney de Siqueira, Avelino Hugueney de Siqueira e Zulmira Dandrade Canavarros decidiram fundar um clube esportivo.

(Foto: Mixtonet.com)

A ideia deles era fazer um clube diferente, onde pudesse reunir homens e mulheres para o entretenimento cultural e esportivo, algo incomum para a época já que os clubes esportivos eram majoritariamente frequentado por homens (saiba mais aqui).

A mais ilustre entre os fundadores foi Zulmira Canavarros. Compositora, pianista, teatróloga e professora, é de sua autoria o hino do alvinegro.

Antes do Mixto, Zulmira fundou o Clube Esportivo Feminino em 1928, onde liderou um grupo de mulheres cuiabanas em atividades de recreação, esporte e cultura.

Apesar de muitos acreditarem e reproduzirem o clichê de que "o futebol não é coisa de mulher", por meio de pesquisas, a história vai mostrando justamente o contrário. Mitos vão caindo por terra ao longo dos anos ao revelar o pioneirismo feminino em diversas áreas esportivas: nos campos, na arbitragem, no jornalismo esportivo, na fundação de equipes e até mesmo na arquibancada – originando inclusive o nome "torcedoras" no século XX, quando as mulheres torciam suas luvas e lenços em momentos de tensão durante a partida.

Mesmo em meio a tantas proibições (falamos sobre isso aqui), as mulheres também são protagonistas no esporte e não há mais maneiras de esconder seus feitos.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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