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Torcedora ilustre, 1ª dama e cartola: as mulheres que dão nome a estádios

Renata Mendonça

06/04/2020 04h00

Mário Filho, Paulo Machado de Carvalho, Cícero Pompeu de Toledo, Urbano Caldeira, Governador Magalhães Pinto, Raimundo Sampaio, José Pinheiro Borda, Octávio Mangabeira, Governador Plácido Castelo…você pode não saber quem são esses caras, mas com certeza já ouviu falar deles indiretamente ou os conheceu pessoalmente. Não se lembra de todos à primeira vista? Uma ajuda ,então.

Maracanã, Pacaembu, Morumbi, Vila Belmiro, Mineirão, Independência, Beira-Rio, Fonte Nova, Castelão. São alguns dos estádios mais famosos do Brasil, que ganharam apelidos mais populares que seus nomes originais, mas são todos nomeados com homenagens a grandes homens do Jornalismo, da política, ou dos próprios clubes de futebol. Há também alguns jogadores históricos que receberam a honra de dar nome a um estádio, como é o caso do Mané Garrincha, em Brasília, do Rei Pelé, em Alagoas, e do Nilton Santos, no Rio de Janeiro.

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Mas o que é mesmo raro de se ver nos campos de futebol por aí é homenagens a mulheres. A sugestão de um leitor nas redes sociais nos fez parar pra pensar: quantos estádios que levam nomes de mulheres nós conhecemos? Assim, de primeira, minha resposta era: nenhum. Conheci um projeto de estádio, que ainda está no papel, envolvendo a troca do nome do estádio Rei Pelé para Rainha Marta, em homenagem à melhor jogadora de todos os tempos que, inclusive, é alagoana, de Dois Riachos, torcedora do CSA. De resto, não sabia de nenhum estádio que homenageasse mulheres.

E não é que eles existem? As histórias desses estádios são ainda mais inusitadas. Teve torcedora ilustre homenageada em Natal, uma fazendeira no interior de São Paulo, uma primeira dama muito aclamada na Argentina, uma pioneira na Espanha e uma mãe muito criativa no Uruguai.

1- Estádio Maria Thereza Breda em Olímpia -SP (capacidade: 15 mil pessoas) 

Foto: Divulgaçãote

O estádio municipal que é casa do Olímpia, time tradicional do interior de São Paulo que tem três títulos do Paulista (dois na A3 e um na A2), é o mais antigo do Brasil a levar o nome de uma mulher. Maria Thereza Breda foi uma mulher que sempre trabalhou na lavoura, no cultivo de plantações e de animais em Olímpia. Ela foi fundamental para que os negócios do pai na fazenda prosperassem e rendessem bastante dinheiro à família,

Casou-se com Natal Breda, outro homem influente e rico da cidade que, um dia decidiu doar um terreno para a construção do estádio da cidade. A obra ficou pronta em 1946 e apenas era conhecida como "Estádio Municipal de Olímpia", mas com a morte de Maria Thereza dois anos depois, decidiram colocar o nome dela no estádio em homenagem.

2- Estádio Maria Lamas Farache (Frasqueirão) – ABC, em Natal-RN (capacidade: 18 mil pessoas)

Foto: Divulgação

Maria Lamas era chilena de nascimento e ABC de coração. Casada com Vicente Farache, ex-jogador do clube e também torcedor apaixonado do ABC virou dirigente e sua esposa Maria Lamas se envolveu completamente com o time junto com ele. Enquanto Vicente era diretor técnico, ela era o porto seguro dele nas questões administrativas e cuidava de tudo para o marido.

Mas o ABC não era só um trabalho para ela. Maria Lamas realmente abraçou o clube e virou grande defensora dele em todas as esferas. Fez até mesmo tias de Vicente que torciam para o América-RN mudarem de time com seu poder de persuasão. A história do casal se misturou com a do clube, que conseguiu grande expansão sob gestão deles e, quando em 2006 foi inaugurado o estádio, o nome dela foi escolhido para batizá-lo.

3- Estádio Eva Perón, Junín, Argentina – Sarmiento (capacidade: 22 mil pessoas)

Foto: Divulgação

O modesto Sarmiento ganhou notoriedade quando conseguiu investimento público para construir seu estádio na pequena Junín, uma cidade de menos de 90 mil habitantes na província de Buenos Aires. No fim da década de 1940, quando o general Juan Domingo Perón era o presidente do país, uma ação populista dele fez com que muitos clubes de futebol ganhassem financiamento do governo para construírem seus campos. Essa foi uma época em que o sobrenome do presidente se multiplicou em estádios argentinos.

Inaugurado em julho de 1951, o estádio do Sarmiento homenageou a primeira dama, Eva Perón, conhecida e admirada na Argentina com o Evita, mas nunca contou com a nobre presença dela nas dependências do campo. Atriz nos tempos de juventude, Eva se casou com Perón e, quando ele foi preso por militares descontentes com sua política, a primeira dama mostrou seu tamanho, organizou comícios enormes na Argentina em favor dele e lutou por sua libertação. Ele foi eleito presidente em 1946 e Evita ajuda a aproximar o governo de seu marido dos mais pobres. Ela morreu com apenas 33 anos vítima de um câncer de útero e até hoje seu túmulo é condecorado e visitado por milhares de pessoas (é, inclusive, um dos pontos turísticos de Buenos Aires).

Estima-se que o Sarmiento tenha recebido mais de um milhão de pesos para a construção do estádio pela lei do governo Perón – então, nada mais justo a homenagem ao sobrenome dele pelo nome da popular esposa. A capacidade do estádio chega a ser 20% da quantidade de habitantes de toda a cidade de Junín, o que também chamou a atenção na época. O clube hoje disputa a primeira divisão do Campeonato Argentino.

4- Estádio Maria Mincheff de Lazaroff, Montevidéu – Danúbio (capacidade: 18 mil pessoas)

Foto: Divulgação

O Danúbio é um clube de futebol de Montevidéu criado em 1932 por meninos que se reuniam depois da escola para jogar bola no bairro Curva de Maroñas. Inicialmente, o time era chamado de Tigre, mas três dos garotos que jogavam nele não gostavam desse nome. Um dia, quando estavam na casa da mãe de um deles, ela participou da discussão com sugestões. A mulher era Maria Mincheff de Lazaroff, uma búlgara que deixou seu país para tentar uma vida melhor no Uruguai.

Foi dela que veio a sugestão do nome que daria origem ao clube uruguaio. Danúbio é o segundo maior rio da Europa, que atravessa 10 países (um deles a Bulgária), começando na Alemanha e desaguando no mar na Romênia. Os garotos gostaram da ideia e adotaram o nome sugerido por ela.

Em 2017, após uma eleição entre os sócios do clube, decidiu-se fazer a homenagem a Maria Mincheff Lazaroff batizando o estádio com o nome dela. A partir de então, o campo oficial do Danúbio passou a se chamar Jardines del Hipódromo – María Mincheff de Lazaroff, o primeiro estádio do Uruguai com nome de mulher.

5- Estádio Teresa Rivero, Madri – Rayo Vallecano (capacidade: 14.708 pesssoas)

Foto: Divulgação

O estádio do Rayo Vallecano em Madri leva o nome de uma mulher muito importante na história do clube. Teresa Rivero foi uma pioneira no futebol – a primeira mulher a presidir um clube espanhol da primeira divisão. Ela se envolveu com o time por causa do marido José Maria Ruiz-Mateos, foi nomeada presidente em 1994 e, daí em diante, fez do futebol a sua vida.

Nas reuniões com outros presidentes de clubes, era a única mulher e isso chocava os cartolas do futebol. Sob sua administração, o Rayo Vallecano viveu altos e baixos, com quedas para divisões inferiores e retornos triunfantes. Teresa se gaba em dizer que, quando ela e o marido chegaram, o Rayo não apresentava "um cêntimo de receita" e que eles tiveram que injetar dinheiro no clube para garantir a sobrevivência dele.

O auge da popularidade dela no cargo veio em 1998, quando o time subiu de volta à primeira divisão e estava de bem com a torcida. Foi aí que em 1999 o estádio foi batizado com o nome dela com aprovação de 74% dos sócios.

Ela depois acabou bastante criticada pela torcida pela forma como conduzia o clube, que sofreu com resultados ruins e crises infindáveis. Na década de 2000, Teresa optou por investir no futebol feminino também no intuito de conseguir sucesso em mais uma frente do futebol e, por algum tempo, a estratégia deu certo. O time conseguiu o tricampeonato espanhol em 2009, 2010 e 2011, último ano de sua gestão.

Hoje, já longe do clube, Teresa Rivero é viúva, e a família Ruiz-Mateos enfrenta acusações de fraude fiscal e penhora de bens.

 

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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