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"Estou vivendo um luto": o impacto do adiamento de Tóquio-2021 nas atletas

Roberta Nina

01/04/2020 04h00

(Foto: Getty Images)

No momento em que a notícia do adiamento dos Jogos Olímpicos se confirmou, Isadora Cerullo – também conhecida como Izzy -, co-capitã da seleção brasileira de rugby, tomava café da manhã em sua casa. Era o dia de seu aniversário e, diante daquele novo cenário, a jogadora viu todo seu planejamento de transição de carreira mudar de rota e chorou.

"Eu perdi o apetite, não tive vontade de terminar meu café da manhã. E aí eu me permiti chorar e nem sabia direito o porquê. Faço parte da comissão de atletas da CBRu (Confederação Brasileira de Rugby) e já estávamos falando sobre o adiamento que poderia chegar, que era a melhor coisa a se fazer, já estava envolvida em algumas decisões em termos de apoiar a decisão do COI e, mesmo assim, e eu senti muita coisa fisicamente quando essa decisão saiu nas redes de notícia. Então, eu me permiti sentir o que estava acontecendo naquela hora e faz alguns dias que eu estou digerindo tudo isso", contou ao blog. 

Filha de brasileiros, Izzy cresceu nos Estados Unidos e praticava rugby na Universidade. Ela viu sua vida mudar quando se inscreveu em uma convocatória da CBRu para defender a seleção brasileira. Fez os testes, passou e, por conta da dupla-nacionalidade, foi convidada a integrar a equipe.

Chegou ao Brasil em 2014 e no ano seguinte ajudou a equipe a conquistar a importante medalha de bronze nos Jogos Pan-Americanos de Toronto. Em 2016, fez parte da equipe olímpica do Brasil e a seleção ficou em 9º lugar.

(foto: Phil Noble/Reuters)

Durante esses quatro anos, Izzy se preparou para viver novamente o que chama de "sonho olímpico" e, depois dos Jogos de Tóquio, sua intenção era voltar aos Estados com sua esposa Marjorie, retomar os estudos (pretende cursar Fisioterapia), estar próximo de sua família e pensar em construir a sua.

"Ninguém está falando sobre o que significa esse momento de perda. Eu, desde o dia da notícia, estou vivendo um luto de muita expectativa, muito planejamento pessoal e profissional, e não sei…. não é que eu não tenha motivação, mas esse é um momento de clareza sobre o que eu estou sentindo."

O primeiro cancelamento da história e muitas incertezas

Essa foi a 1ª vez que uma edição de Jogos Olímpicos foi adiada. No passado, outras três foram canceladas por conta das 1ª e 2ª Guerras Mundiais: Berlim em 1916, Tóquio em 1940 e Londres em 1944. "Dentro dessa perspectiva, é bom lembrar que a carreira de duas atletas brasileiras, como a Maria Lenk e Maria Esther Bueno, ficaram na sombra do movimento olímpico justamente pelo cancelamento dos Jogos de 1940. Do ponto de vista dos atletas, é bom pensar nisso, já não é a primeira vez que isso acontece e o desdobramento na vida dos atletas é, sem dúvida alguma, algo terrível, absolutamente devastador na vida deles", relembrou Katia Rubio, Professora Doutora da USP e pesquisadora da história olímpica há mais de duas décadas.

O adiamento da competição por um ano pode significar pouco para alguns atletas, mas para Izzy não foi fácil, não só pelos planos que havia traçado, mas também pelo preparo físico que conseguiu atingir. Uma semana antes da população de São Paulo adotar a quarentena, a jogadora havia passado por avaliações com seus treinadores na seleção.

(Foto: Getty Images)

"Meu técnico disse que eu estava no ponto em que ele queria que eu estivesse com meu rugby, como líder dentro do time e que ainda bem que eu tinha mais alguns meses para chegar no pico. E meu preparador físico, que me conhece há 5 anos, também reforçou que eu havia feito um ciclo praticamente certo, mesmo com algumas lesões, e que eu estava na reta final", contou. 

Izzy reforça que, como o futuro é incerto por conta dessa pandemia, ela enfrenta dúvidas com relação ao corpo. "Um ano é bastante tempo pra fazer outra periodização porque a gente não sabe quando teremos condições normais para treinar. E bate uma insegurança que talvez esse nível vai passar pela janela e talvez não chego no pico no momento certo de novo. Preciso confiar que trabalho com um staff completo é muito bom, eles vão me ajudar a fazer essa adaptação, mas bate aquela insegurança do tipo: 'será que vou chegar tão bem quanto estava agora?"'.

Izzy se permitiu viver o luto dessa transformação, mas depois do grande baque, voltou a pensar nos treinos. E tem feito seu preparo em casa, com o apoio da Confederação, tanto no preparo físico como no psicológico. "Agora estou dissecando toda tristeza que senti no momento, é impossível não sentir um pouco de injustiça, de falar 'nossa, que momento pra tudo isso acontecer'. Mas, acima de tudo, sei que era a decisão certa, não tinha o que fazer."

'Sigo com meu planejamento'

Quem vive um sentimento oposto é a central Carol Gattaz, jogadora do Minas Tênis Clube e que, em julho, completará 39 anos. Há, pelo menos três temporadas, a jogadora tem se destacado na Superliga e, mesmo com toda bagagem e experiência, ela ainda sonha em se tornar uma atleta olímpica.

Carol Gattaz em ação pelo Minas (Foto: Minas Tênis Clube/Divulgação)

"O adiamento não impacta em nada, sigo com a mesma preparação que venho fazendo desde o ano passado. Claro, é um ano a mais na minha vida, em 2021 estarei com quase 40, pode ser que tenha alguma mudança. Mas até hoje não senti o peso da idade. Vou continuar com a mesma preparação de sempre, com os mesmos especialistas que eu procuro para me ajudar, tanto física quanto psicológica. Faço terapia, coaching, acompanhamento com fisiologista, nutrólogo e no Minas também tenho todo acompanhamento médico", destacou ao blog. 

+ Aos 37, Carol Gattaz supera dores, lidera estatísticas e leva Minas ao topo 

Como tem um histórico de lesão, especificamente tendinite patelar – um problema no joelho que gera um grande incômodo para quem precisa dele o tempo todo para saltar – a central revela que faz treinos adaptados no clube. "Treino um pouco menos para não forçar e quando vejo que o corpo tá ficando cansado, aviso os médicos e eles me auxiliam. As lesões estão controladas, nada me impede de fazer qualquer coisa."

Gattaz comemorando o tricampeonato sul-americano em fevereiro (Foto: Reprodução/Instagram)

Com segurança e brigando por uma vaga na equipe de Zé Roberto Guimarães, o plano de Gattaz é permanecer em quadra mesmo após Tóquio-2021. "Meu desafio maior é comigo mesmo, lógico que não depende só de mim, mas farei de tudo para brigar por uma vaga e estar lá (em Tóquio). Não penso em aposentar depois da Olimpíada, me sinto muito bem pra jogar. Se estiver em alto nível e ajudando minha equipe, vou continuar jogando. Não penso em aposentar tão cedo", afirmou. 

As renúncias que levam ao propósito

Replanejar um ano por conta de um adiamento não é tão simples assim, e dedicar um ciclo de quatro anos para chegar ao auge na maior competição do planeta, é mais difícil ainda. E quem sabe bem o que significa isso é Fofão, ex-jogadora de vôlei e campeã olímpica com a seleção brasileira nos Jogos de Pequim, em 2008.

(Foto: EFE)

Foram 30 anos dedicado ao voleibol, 5 ciclos olímpicos completos e abrindo mão de convívio familiar, de lua-de-mel e até mesmo de maternidade em busca da realização profissional. "Entendi, desde os meus 15 anos, que a minha vida não poderia ser a mesma, que eu deveria fazer coisas pelo bem da minha profissão. Minha carreira se prolongou porque as coisas foram acontecendo muito tarde. Fui campeã olímpica com 38 anos, parei de jogar aos 45 e isso tudo não foi planejado. Vejo que minha carreira não foi construída, nunca fiz planos, ia (jogando) um ano após o outro", revelou. 

Fofão frisa que sempre deixou claro – especialmente ao marido João Marcio -, que sua prioridade era o voleibol. E a vida deles sempre foi programada em cima do objetivo da jogadora. Em 2009, depois do ouro olímpico, Fofão ficou um ano sem jogar, e ainda assim não pensou em engravidar.

"Em nenhum momento veio esse pensamento. Acabei cuidando de outras coisas e isso não fez parte do meu planejamento, mas seria uma boa época", relembrou. Depois, ela voltou às quadras, o tempo foi passando e essa ideia ficou para trás. "Depois que parei, ainda tinha a vontade de ser mãe, mesmo com a questão da idade… hoje em dia está tudo tão mudado. A gente tentou bastante, fizemos vários exames e foi bem complicado porque cada vez tinha alguma coisa e aí a gente acabou abandonando essa ideia. Mas foi uma coisa feita em comum acordo entre eu e meu marido e a gente resolveu seguir nossa vida em frente."

A jogadora de futebol Rosana, medalhista de prata e 4 ciclos olímpicos no currículo, também viu seu sonho de ser mãe não se concretizar após o falecimento de seu noivo. "Abri mão de muitas coisas por causa da minha carreira, uma delas foi ficar longe da minha família por muito tempo, jogar em outros países e muitas vezes só eu de brasileira no time. A renúncia maior foi prorrogar pra ter um filho. Meu noivo acabou falecendo e eu não tive essa felicidade por conta de sempre prorrogar esse prazo."

Juliana Cabral, Daniela Alves e Rosana na chegada ao Brasil após a conquista da medalha de prata (Foto: Acervo Museu do Futebol)

De volta aos gramados após uma breve aposentadoria de 10 meses, a parada esportiva por conta do Coronavírus também atrapalha o condicionamento físico de Rosana. "Confesso que esse retorno não tem sido fácil. Sabia que correria alguns riscos maiores com probabilidades de ter uma lesão por conta desse tempo de inatividade no futebol. Mas, tenho conseguido alcançar alguns objetivos, tem o fator da idade que implica um pouco mais e aí, num momento de ascensão, vem essa pandemia e novamente eu tenho que fazer os treinos em casa", afirmou a jogadora que vem seguindo uma programação de treinos feita pelos profissionais do Palmeiras.

Tanto Fofão quanto Rosana reforçam que todo esforço foi compensador. A ex-levantadora agradece por ter parado de jogar em alto nível e campeã da Superliga. E Rosana entende que o adiamento pode atrapalhar os planos de um pós-carreira, mas pela recompensa vale o esforço. "É um ano a mais de trabalho e de renúncias, mas acho que vale muito a pena. É o maior evento do mundo, que todo atleta sonha em jogar, é o ápice da carreira. É um preço alto que se paga, mas o prazer e a glória são compensadores."

A importância da rede de apoio

Repensar decisões e treinamentos requer estrutura emocional e esse ponto, muitas vezes, acaba sendo pouco analisado pelas pessoas. E Izzy percebe isso.

"Nesse mesmo dia, eu e a Marjorie sentamos e conversamos sobre o que ia significar pra gente, querendo ou não, a gente refaz as prioridades. Eu sou atleta e estou correndo atrás desse sonho e eu me sinto muito sortuda que ela me apoia. Mas temos consciência de que abrimos mão de muita coisa para priorizar o meu trabalho e as exigências de atleta", contou. 

A jogadora de rugby cita como é importante contar com essa rede de apoio que pode ser visível na vida do atleta – como os treinadores, psicólogos, terapeutas, nutricionistas – e a rede invisível, que dá amparo emocional, como a família, a companheira, as amigas.

"Todos os tipos de rede de apoio são afetados com essa decisão. Estou nesse momento de ter clareza sobre o que estou sentindo e o que isso significa pra mim no emocional, tentando apontar as coisas que geraram tristeza, mas saber que eu também estou muito motivada para continuar lutando por esse sonho, que só acontece a cada quatro anos e saber que sim, eu estou lutando por isso, mas não estou deixando de viver o luto também."

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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