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Aos 37, Carol Gattaz supera dores, lidera estatísticas e leva Minas ao topo

Roberta Nina

2026-04-20T19:04:03

26/04/2019 04h03

 

(Foto: Guilherme Cirino/Camponesa/Minas)

*Por Renata Mendonça e Roberta Nina

Quem acompanha vôlei há bastante tempo, com certeza vai se lembrar dela. Carol Gattaz joga em alto nível a pelo menos 20 anos e, por incrível que pareça, hoje, aos 37 anos, vive seu auge no esporte. Central do Minas, que é finalista da Superliga feminina – e, se vencer nesta sexta-feira o segundo jogo contra o Praia Clube, já garante o título -, ela lidera estatísticas e eleva o patamar do clube mineiro, que conseguiu chegar à decisão após 15 anos de jejum.

Jogando numa posição que exige bastante velocidade e impulsão a todo tempo – no bloqueio e para puxar os ataques no meio -, Carol precisou "se reinventar" numa temporada em que as dores apareceram com frequência. Ela sofre de tendinite patelar, um problema no joelho que gera um grande incômodo para quem precisa dele o tempo todo para saltar.

"Quando eu era mais nova, não tinha tanto essa preocupação com corpo, saúde, descanso e alimentação. Eu brinco dizendo que antes eu era jogadora de vôlei, hoje eu sou atleta. Muda tudo. Minha rotina e meus cuidados mudaram", contou a central em entrevista ao podcast das ~dibradoras.

Carol brinca que, para aguentar o ritmo de uma temporada intensa como tem sido essa, é preciso "muito anti-inflamatório". Mas o cuidado vai além disso. Tanto ela, quanto a ponteira e veterana Natália, sofrem com o mesmo problema, e ambas têm tido um apoio importante da equipe médica do Minas para conseguir se manter jogando em alto nível.

Mais madura e administrando melhor seu corpo, o resultado não poderia ser melhor. Para se ter ideia, Carol Gattaz é lider das estatísticas de aproveitamento no ataque. Ela acerta nada menos que 60% das bolas que recebe. E, acertar, nesse caso, significa efetivamente pontuar. Das 321 bolas que foram levantadas para ela em 26 jogos, Carol virou 191.

"Tive algumas lesões ao longo da carreira, poucas graves, tive fascite plantar há uns anos atrás e hoje tenho uma tendinopatia (tendinite patelar) que realmente me atrapalha em alguns momentos, tenho que fazer alguns tratamentos intensivos e tomar remédio pra jogar, mas a gente (eu e equipe médica) conseguiu controlar", explicou.

(Foto: Orlando Bento/MTC)

"Consegui jogar durante toda a temporada em alto nível com menos dor e mais funcionalidade dos movimentos e com 37 anos não é muito fácil, mas com a experiência que adquiri, a gente acaba ficando menos ansiosa e pra mim está sendo muito prazeroso jogar hoje em dia, principalmente depois dos 30."

A última vez que o Minas chegou a uma final de Superliga foi há 15 anos – mas o time saiu derrotado. Em 2002, o time de Belo Horizonte conquistou seu único título na principal competição do vôlei ao vencer o Osasco na decisão. Desta vez, a equipe de Carol Gattaz liderou toda a Superliga, venceu as quartas-de-final e as semifinais. Na temporada inteira, o time mineiro perdeu apenas duas partidas.

Agora, a decisão é contra outra equipe de Minas Gerais – algo inédito na história da competição, que costumava ter na final sempre o Osasco contra o Rio de Janeiro. Essa decisão pode até ser chamada de "surpresa" por alguns, mas Carol ressalta que ela é fruto de um investimento muito grande dos clubes e da federação mineira no vôlei para chegar ao topo também no feminino – já que no masculino, o Cruzeiro vinha sendo dominante há algum tempo.

"Temos que dar parabéns para as duas equipes que investiram muito nessa temporada. Dois grupos com jogadoras extremamente experientes. Final pra coroar o que time vem fazendo, a Federação mineira vem ajudando e modernizando o nosso esporte", observou a jogadora.

Com a vitória por 3 sets a 2 no primeiro jogo no Mineirinho, o Minas saiu em vantagem sobre o Praia Clube no primeiro jogo da final. A partida desta sexta-feira será às 21h30 em Uberlândia e o time da casa precisará vencer para levar para um eventual terceiro jogo, que será no dia 3 de maio, em Belo Horizonte, se houver necessidade.

(Foto: Orlando Bento/Minas Tênis Clube)

Ranking

Uma das principais polêmicas do vôlei feminino segue sendo o chamado "ranking das atletas". De acordo com as regras, um clube pode inscrever apenas duas atletas (no máximo) de pontuação 7 (a máxima possível) e duas estrangeiras. Atualmente, 10 atletas que possuem o ranking máximo.

O problema que isso acaba ocasionando é que não são muitos os clubes com alta capacidade financeira para conseguirem manter as atletas de ponta em suas equipes. Sendo assim, as de pontuação 7 acabam restrita a três ou quatro clubes que conseguem pagar seus salários. E isso obriga muitas delas a jogarem no exterior por não conseguirem se alocar em algum clube do Brasil.

No masculino, o ranking – que também era polêmico – acabou extinto pela votação dos clubes para derrubá-lo. No feminino, as equipes votaram a favor – somente o Praia Clube e a Comissão de Atletas votaram contra.

(Foto: Guilherme Cirino/Camponesa/Minas)

"O ranking só atrapalha as atletas e faz com que elas queiram sair do país, isso só prejudica a Superliga. Infelizmente os clubes não entenderam a importância de se tirar o ranking e são eles que optam por isso. Quando os clubes entenderem que sem o ranking pode ficar ainda mais equilibrado, de repente a gente vai ter uma Superliga mais parelha, com todo mundo satisfeito e querendo jogar o nosso campeonato", afirmou Carol.

Se por um lado o ranking tem levado atletas brasileiras ao exterior, o alto nível da Superliga tem atraído inúmeras estrangeiras para jogarem no Brasil. Algumas atletas de ponta como Destinee Hooker, Katarzyna Skowronska e Nicole Fawcett são destaques nas suas equipes e têm até liderado as estatísticas de ataque do campeonato.

"As estrangeiras só tem a acrescentar no nosso voleibol. A Superliga é um campeonato forte e bem visto aos olhos das estrangeiras e somos bem vistos lá fora com ótimos técnicos e ótimos trabalhos. Sabemos que muitas deixam de ir para um mercado mais forte, como o europeu, o turco, para ganhar um pouco menos aqui, mas para aprender mais no nosso voleibol. Acho que elas fortalecem a Superliga", pontuou a central.

Carol Gattaz jogou sua primeira Superliga em 1998, e já está há 20 anos atuando em alto nível no vôlei nacional e internacional. Ela acumula três títulos da Superliga e busca o quarto agora com o Minas.

Ouça o podcast das dibradoras com Carol Gattazz pela Central3

 

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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