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Federação Paulista terá programa de liderança para mulheres

Renata Mendonça

04/03/2020 04h00

Reunião de gestores de clubes com FPF quase não tem mulheres (Foto: Rodrigo Corsi / FPF)

Ainda é muito raro encontrar mulheres em cargos de liderança nas empresas. Segundo dados do IBGE de 2017, apenas 37% dos cargos de direção nas empresas eram ocupados por mulheres. Se na vida normal já é assim, no futebol, uma área considerada totalmente masculina, é ainda mais raro encontrar representantes femininas nos postos de comando.

Considerando, por exemplo, a entidade máxima do futebol brasileiro, a CBF, não há nenhuma mulher nos principais cargos de direção e vice-presidência. São 12 diretores, todos homens. E oito vice-presidentes, todos homens também.

A Federação Paulista de Futebol (FPF) também não fica tão distante. Dos 26 cargos no Conselho de Administração, só há quatro mulheres, o que representa 15%.

Para tentar mudar um pouco essa realidade, por iniciativa de uma dessas mulheres que fazem parte da gestão por lá, a FPF promoverá um programa de liderança exclusivo para mulheres, com intuito de capacitar gestoras para atuarem no futebol e também em outras áreas onde tenham interesse. A ideia veio de Aline Pellegrino, ex-jogadora de futebol e diretora de futebol feminino da federação.

"Ao olharmos para o mundo do futebol, principalmente no Brasil, podemos perceber que o número de mulheres ainda é muito baixo, em todos os cargos, mesmo dentro do futebol praticado por mulheres. Por exemplo, nas competições de futebol feminino, o número de técnicas ainda é muito baixo. Porém, o problema não é só nos cargos de área técnica. Entrar dentro deste universo é muito difícil, precisamos nos capacitar para conseguir entrar e depois para continuar dentro do processo", observou Pellegrino.

Aline Pellegrino é diretora de futebol feminino da Federação (Foto: FPF)

No caso das técnicas, um levantamento feito pelo blog no início da Série A1 do Campeonato Brasileiro mostra que elas são apenas duas em 16 times da competições. Considerando os departamentos de futebol feminino e as comissões técnicas, elas seguem sendo minoria. É curioso perceber que, até mesmo num esporte onde as protagonistas são as mulheres, a gestão ainda é feita por homens.

Foi com esse questionamento, que Aline Pellegrino e as outras três mulheres que fazem parte do Conselho de Administração da FPF desenvolveram o Programa de Liderança Feminina no Futebol, que terá início na próxima segunda-feira, 9 de março. A ideia do curso foi inspirada nos programas de capacitação para mulheres que foram desenvolvidos recentemente pela Fifa. Como uma das participantes deles, Pellegrino sentiu a necessidade de ter uma iniciativa parecida no Brasil para incentivar as mulheres a buscarem funções de liderança também no futebol e no esporte em geral.

"Observamos, que fora do Brasil, já existem alguns cursos de capacitação voltado para a liderança de mulheres, como o que aconteceu na FIFA no ano de 2019, em parceria com a UEFA, e outros em Portugal e Espanha. Mas, no Brasil, é algo inédito dentro do futebol, nunca foi pensado algo especialmente para elas, para que elas possam melhorar suas habilidades de liderança e que possam influenciar e empoderar muitas outras mulheres", disse.

"O objetivo do programa é conectar mulheres que trabalham no futebol, capacitando-as para assumir cada vez mais posições de liderança, enriquecendo a indústria do futebol com mulheres capacitadas, e com experiências diversas para tornar o futebol cada vez mais inclusivo e igualitário".

Nessa primeira edição, o programa terá a participação de 35 pessoas, entre elas gestoras e executivas de clubes, jornalistas, outras funcionárias da federação, professoras, historiadoras e mulheres que, em geral, já trabalham de alguma forma com o futebol. O curso terá duração de um dia (presencial) com palestras sobre comunicação, liderança autêntica e positiva, entre outros temas. A ideia é estabelecer as conexões entre mulheres que atuam na área e também fazer com que esse contato vá além do dia de palestras e seja uma grande oportunidade de networking.

"A ideia do programa é que não seja algo apenas de um dia, um ciclo de palestras. Queremos algo a mais, que elas possam se conectar e começar uma rede de networking muito importante para o futuro. Além disso, cada participante irá realizar um teste psicológico, realizado por uma empresa especializada na área, antes do primeiro encontro e terá em mãos uma avaliação do perfil comportamental que irá ajudar muito no autoconhecimento e auxiliar na evolução como líder", explicou Pellegrino.

Você pode se questionar por que criar um programa de liderança só para mulheres, quando já existem programas de liderança sem especificação de gênero. Acontece que, muitas vezes, elas acabam sendo minoria nesses programas e não se sentem confortáveis na hora de se conectar com os outros integrantes – até por não se sentirem identificadas com as experiências que eles vivem no ambiente de trabalho.

"Entendo que é importante criarmos espaços seguros para que certas capacidades sejam desenvolvidas. É um momento também de troca de experiência entre essas mulheres que vai fortalecer muito umas às outras. Falo porque foi exatamente o que aconteceu comigo no curso da FIFA/Uefa", relata Pellegrino.

"O objetivo do Programa é potencializar as mulheres enquanto lideranças dentro do futebol, entendendo que por muito tempo não se pensava nas mulheres em cargos de destaque e decisão. Sendo assim acredito que seja importante em determinados momentos, explorar ao máximo essas potencialidades voltado de uma forma especificamente para as mulheres."

Essa será a primeira edição do programa, e a FPF pretende fazer outras periodicamente. Haverá também um encontro presencial desse grupo seis meses após a primeira etapa do programa para apresentarem a evolução no cumprimento das metas estabelecidas.

 

Sobre as autoras

Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Renata Mendonça é apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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