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Só 2 mulheres comandam times do Brasileiro; gestão também é masculina

Renata Mendonça

05/02/2020 04h30

Técnica Tatiele comemora com as jogadoras a classificação (Foto: Divulgação)

O Campeonato Brasileiro de futebol feminino está prestes a começar em uma edição histórica. Nunca a primeira divisão do torneio teve tantos times profissionais – que assinam as carteiras de trabalho das atletas -, nem tantas equipes chamadas "de camisa" (que vêm de times grandes do futebol masculino). Mas nem tudo está mudando. Com relação à presença de mulheres como treinadoras, tudo permanece igual.

Em 2019, eram duas mulheres no comando entre os 16 clubes da série A1 – Emily Lima no Santos e Tatiele Silveira na Ferroviária. Em 2020, saiu Emily (que agora treina a seleção feminina do Equador) e entrou Patrícia Gusmão, que subiu para a primeira divisão com o Grêmio no ano passado.

Elas representam pouco mais de 10% de todos os treinadores da elite nacional do futebol feminino. E não é só na beira do campo que são minoria. Nas comissões técnicas e na gestão das equipes femininas, os homens também predominam.

Entre os 16 times da série A1, só um deles tem mais mulheres do que homens na gestão técnica e administrativa do futebol feminino. A Ferroviária, campeã brasileira em 2019, tem uma representação feminina que chega a quase 73%: são oito mulheres no departamento, que é composto por 11 pessoas no total. Na comissão técnica, elas são 6 de 9 – incluindo a própria comandante, Tatiele Silveira, que já completou a Licença A da CBF para treinadores e está fazendo a Pro (último nível).

As mulheres do departamento de futebol feminino da Ferroviária em 2019 (Foto: dibradoras)

O Minas ICESP, time de Brasília criado por duas mulheres, mantém uma boa proporção delas na gestão. São sete em 13 pessoas no departamento de futebol feminino.

Em seguida estão Grêmio, Corinthians e Santos, onde a representação feminina chega a quase 50%. No departamento de futebol feminino corintiano são 9 mulheres em 20 pessoas (incluindo a diretora da modalidade, Cris Gambaré), enquanto no gremista são 5 de 12 (considerando que, na comissão técnica do Grêmio, as mulheres são maioria, sendo 5 de 8 membros, incluindo a própria treinadora Patrícia Gusmão). Já o Santos tem cinco mulheres em 11 pessoas no departamento (quatro na comissão técnica e uma no administrativo).

Foto: Jessica Maldonado / Grêmio

Existe um clube da primeira divisão que não tem nenhuma mulher nem na comissão técnica, nem na equipe que gere o futebol feminino: o São Paulo. Campeão da série A2 do Brasileiro no ano passado, a equipe tricolor tinha a ex-jogadora Nildinha na comissão técnica, mas ela foi demitida neste ano. O diretor do futebol feminino é um conselheiro que só teve atuação na modalidade a partir do ano passado, Antonio Luiz Belardo. Na reapresentação do time neste ano, questionamos o técnico Lucas Piccinato sobre a ausência de mulheres na comissão – uma recomendação que vem da Fifa (a entidade exige a presença de mulheres nas comissões técnicas de competições de futebol feminino organizadas por ela).

"Agradeço a passagem da Nildinha aqui, fez um trabalho muito legal com a gente. A diretoria optou por fazer essa troca. Mas temos a intenção de trazer mulheres pra essa comissão", resumiu o treinador.

Número de mulheres nos departamentos de futebol feminino dos 16 clubes da série A1

Ferroviária – 8 mulheres em 11
Minas ICESP – 7 mulheres em 13
Corinthians – 9 mulheres em 20
Grêmio – 5 mulheres em 12
Santos – 5 mulheres em 11
Vitória – 2 mulheres em 5
Internacional – 5 mulheres em 13
Flamengo – 3 mulheres em 8
Ponte Preta – 3 mulheres em 9
Cruzeiro – 2 mulheres em 7
São José – 2 mulheres em 7
Iranduba – 3 mulheres em 11
Palmeiras – 3 mulheres em 12
Avaí Kindermann – não informou
Audax – 2 mulheres em 13
São Paulo – 0 mulheres em 10

Importância

Claro que não é preciso ser mulher para fazer uma boa gestão de um time de futebol feminino – seja na beira do campo ou nos bastidores. Mas é importante incluir mulheres num departamento que vai majoritariamente administrar mulheres. Especialmente porque há muitas ex-jogadoras e gestoras que buscaram qualificação e são competentes para ocupar esses espaços.

Ana Lorena Marché foi um bom exemplo que deu certo na administração do futebol feminino da Ferroviária. Ela trabalhou na Universidade do Futebol e saiu de lá em 2017 para o clube de Araraquara, onde conquistou o título brasileiro no ano passado e o vice-campeonato da Libertadores, mantendo a Ferroviária sempre entre os primeiros colocados em todas as competições que disputou. A competência de Ana Lorena foi, inclusive, reconhecida pela Federação Paulista de Futebol, que a contratou para trabalhar junto com a diretora de futebol feminino da entidade, a ex-jogadora Aline Pellegrino.

14 dos 16 times da primeira divisão são comandados por homens (Foto: Agência Corinthians)

"É um indicativo negativo (ter poucas mulheres no departamento de futebol feminino dos clubes). Sabemos que o número de mulheres atuando no futebol está crescendo principalmente em áreas como preparação física, fisioterapia, funções não necessariamente ligadas à gestão. E é importante ter mulheres no comando, principalmente pelas demandas específicas, para entendê-las. Precisamos de mulheres ligadas à modalidade, com conhecimento da causa, que entendam das especificidades que as atletas têm", disse Ana Lorena, coordenadora de futebol feminino da FPF.

Tatiele Silveira se tornou no ano passado a primeira mulher no comando de um time a conquistar um título nacional. Ela também falou com a reportagem sobre a ausência de mulheres nos cargos de gestão do futebol feminino dos clubes.

"O que falta é oportunidade dos clubes e confiança no trabalho das mulheres, das treinadoras, que já estão na modalidade, mas não têm oportunidades dos clubes para ocupar esses cargos de comando. Acho que a maior falta é no comando técnico, de treinadora, assistente técnica, na parte de comissão de campo. Na área da saúde ou na supervisão até tem mais, mas acho que o mais relevante é na questão do campo. Acho que os clubes deveriam abraçar essa ideia de que o futebol feminino pode e deve ser liderado por mulheres que entendam de futebol, que se qualificam, ex-atletas que estão buscando cada vez mais as licenças e qualificação", afirmou.

Os cursos de capacitação de treinadores da CBF também já começam a contar com uma maior participação feminina nos últimos anos.

A FPF também quer desenvolver um programa específico de capacitação de lideranças femininas no futebol também com o objetivo de trazer mais representantes femininas para essa área.

Cursos da CBF para técnicos ainda são dominados por homens, mas a presença de mulheres começa a ser cada vez mais frequente (Foto: CBF)

"Há muitos homens atuando na modalidade, e eles conhecem bem o futebol feminino. Mas em qualquer empresa, a diversidade é fundamental. Se queremos mudar o futebol feminino, precisamos de uma cultura diferente, com pessoas diferentes, que conheçam a fundo a modalidade e suas necessidades. Há, ainda, a questão dos conhecimentos específicos, a fisiologia da mulher, por exemplo, além de maior diálogo e abertura com as atletas. Ter mulheres na comissão é fundamental, as meninas se sentem mais acolhidas e seguras, sobretudo nas categorias de base", afirmou Ana Lorena.

Há poucas mulheres atuando pois a modalidade é muito nova, a primeira Copa do Mundo acontece nos anos 90. Então, há poucas ex-jogadoras capacitadas. Um dos principais passos da Federação é capacitar as mulheres. Não adianta dar a oportunidade e não capacitá-la. Precisamos de um olhar atento para as treinadoras, preparadoras, gestoras, criar um ciclo para que este número cresça. Precisamos de ações específicas para formar mulheres no futebol.

O Campeonato Brasileiro feminino começa no próximo final de semana. O jogo entre Palmeiras e Corinthians no domingo às 14h será transmitido pela Band. Cruzeiro x São Paulo na segunda às 19h será transmitido via Twitter e os outros jogos entre sábado e domingo serão mostrados na CBF TV.

 

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

Dibradoras