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Não foi a imprensa que agrediu sua esposa, Jean

Dibradoras

14/02/2020 04h00

(Foto: Paulo Marcos / Atlético-GO)

No final de dezembro do ano passado, o goleiro Jean – que na época defendia o São Paulo Futebol Clube – foi preso nos Estados Unidos após ter sido denunciado pela esposa Milena Bemfica por agressão. O jogador estava de férias com a família em Orlando com a mulher e duas filhas.

+ Caso Jean: a violência contra a mulher e os crimes que o futebol ainda cala

A acusação contra o atleta fez com que seu antigo clube rompesse o contrato profissional com o goleiro e, nesta quinta-feira (13), o Atlético-GO o apresentou como novo reforço. Pela primeira vez, Jean falou sobre a agressão à esposa – dizendo que em breve irá contar sua versão sobre o que o levou a agredir Milena.

O goleiro disse estar arrependido e chegou a pedir desculpas "para todas as mulheres que se sentiram ofendidas" e declarou: "Não sou esse monstro que a imprensa fez de mim".

Oras, a imprensa não fez nada além de noticiar os fatos. E os fatos mostram que Jean agrediu sua esposa com oito socos, alguns chutes, e deixou muitas marcas no rosto dela. Tudo isso diante das duas filhas que estavam com eles nos Estados Unidos. Não foi a imprensa que cometeu esse crime, foi o próprio goleiro.

E é bem importante lembrar que a cada 4 minutos, uma mulher é agredida no Brasil, segundo os dados oficiais do Ministério da Saúde. No ano passado, foram 145 mil casos de violência contra a mulher, contando apenas as que sobreviveram para contar essa história triste.

Não importa se o agressor é famoso, ou se ocupa posição destaque ou é menos favorecido, a violência contra a mulher é crime e são inúmeros os relatos de mulheres que são agredidas, ameaçadas e silenciadas, e que deixam de fazer a denúncia por medo, vergonha ou por não se sentirem seguras. Por muito tempo, essas denúncias não vieram à tona e não repercutiram. Hoje, ainda bem, repercutem. É preciso, sim, fazer barulho com isso para que homens entendam que não é aceitável agredir suas esposas, namoradas, filhas.

Ao menos Jean não se recusou a falar sobre seu erro – como outros agressores do futebol fizeram. E ao menos ele reconheceu que não há o que justifique o que ele fez, nem mesmo a tal versão dos fatos que ele prometeu dar um dia.

"Eu devia esclarecimento para todos. Vocês tomaram conhecimento desde dezembro de coisas pessoais. Durante esse tempo, eu estava impossibilitado pela Justiça Americana, não poderia me referir à minha ex-mulher, por isso, não falei antes. Peço desculpa pelo meu erro. Toda história tem dois lados, sim, mas nada justifica a agressão. Fiquei totalmente errado", disse.

"Não estou dizendo que pela história ter dois lados eu estou certo em agredir. Foi uma reação que eu tive. Nunca tinha agredido ninguém. Quem me conhece há mais tempo sabe de toda a minha história e se surpreendeu com o que aconteceu. Mas tem coisas que eu só vou poder falar em breve. Peço desculpa a todas as mulheres. Não sou esse monstro que a imprensa fez de mim".

Antes de criticar a imprensa por "fazê-lo de monstro", Jean deveria ter se preocupado com a própria imagem que ele passaria às filhas ao agredir a mãe delas durante a viagem de férias da família. Não foi a imprensa que agrediu Milena – foi o próprio goleiro.

Aliás, se tem um clichê que precisamos quebrar é justamente esse de o agressor de mulheres ser "um monstro". Não é. Não é possível que existam tantos monstros numa sociedade que agride mais de 500 mulheres por hora, que mata mais de três mulheres por dia (dados da Secretaria de Segurança Pública de feminicídios em 2018). Os responsáveis por essa violência, inclusive, na maioria das vezes são conhecidos: o marido, o pai, o namorado, o ex, o irmão – em 70% dos casos são eles.

O caso de Jean e todos os casos de violência contra a mulher que a mídia tem tanto noticiado são muito importantes para lançar os holofotes sobre uma questão tão delicada e que foi considerada tabu por muito tempo. Havia até um inconsciente de que isso "fazia parte" da vida de esposa num casamento. Tanto que não são poucas as músicas dos mais prestigiados compositores que falam abertamente de agressões a mulheres.

"Mas que mulher indigesta, merece um tijolo na testa", diz a letra de Noel Rosa; "Eu só sei que mulher que engana o homem merece ser presa na colônia, orelha cortada, cabeça raspada, carregando pedra pra passar vergonha", fala o samba de Bezerra da Silva.

Noticiar casos assim pode estimular denúncias. E casos não faltam para serem reportados, infelizmente. Que a história de Jean, como ele mesmo disse, sirva de lição para que outros homens não caiam no mesmo erro.

"Estou completamente arrependido. Que minha história sirva de lição para que outros casos não aconteçam, não só figuras públicas, todos os homens do mundo. Sei da repercussão, minha família ficou triste, tem criança que se espelha em mim e não foi bom para eles. Tenho duas filhas mulheres e estou arrependido".

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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