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Como basquete feminino ficou fora da Olimpíada - e como pode se reerguer

Renata Mendonça

11/02/2020 04h00

Foto: Divulgação/CBB

A seleção feminina de basquete terminou o Pré-Olímpico na França sem conseguir vencer nenhuma de suas adversárias – Porto Rico, Austrália e as próprias francesas – e, com isso, ficou fora de uma Olimpíada pela primeira vez desde 1992. Um banho de água fria num trabalho de reconstrução que começou a ser feito principalmente em 2019, teve êxito no Pan-Americano e agora precisa de respaldo para seguir até o próximo ciclo olímpico.

Quando uma modalidade tradicional do país falha, há uma tendência brasileira em se culpar o técnico do momento e trocar o comando da equipe. Mas o treinador José Neto, um dos responsáveis pela conquista do ouro no Pan após 28 anos, é o menor dos problemas do basquete feminino no Brasil. Aliás, pelo contrário, ele é uma das poucas soluções encontradas nos últimos anos em meio a falhas grotescas de gestão que deixaram a modalidade no limbo.

Foto: Divulgação CBB

A Liga de Basquete Feminino (LBF) quase acabou, as categorias de base foram esquecidas e o intercâmbio da seleção quase inexistiu nos últimos anos. Além disso, a Confederação Brasileira de Basquete (CBB) praticamente faliu, recebeu punição da FIBA e, sem patrocinador máster, depende de recursos escassos do COB para se manter. Como reconstruir uma modalidade sem dinheiro nenhum em caixa?

Esse é o desafio da gestão de Guy Peixoto, que assumiu a CBB em 2017. Com a aposta em um treinador vindo do basquete masculino – mas com um histórico justamente de renascimento de uma equipe (Flamengo) que se tornou vitoriosa -, houve alguns bons resultados com a seleção feminina, mas o problema, na verdade, é muito mais embaixo. Conversando com Magic Paula, um dos maiores nomes do basquete brasileiro, tentamos entender qual é a situação da modalidade no momento e como seria possível levar o Brasil ao topo novamente.

Foto: Divulgação CBB

Dibradoras: Como você avalia essa reconstrução na seleção feminina?

Magic Paula: Eu vejo a reconstrução do basquete feminino como dá, não como deveria. A gente vem passando por um momento importante de renovação da comissão técnica, onde a gente já viu uma mudança de comportamento e uma evolução no nível com essa nova comissão técnica. Mas está muito longe ainda do que a gente precisa, porque como você consegue fazer gestão de uma entidade sem recursos, sem ter a documentação necessária que a entidade precisa pra se manter, sem ter patrocinador máster? Na verdade, a gestão da entidade está sendo feita como dá, não como deveria. A entidade hoje sobrevive com apoio do COB pras viagens, para o custeio do trabalho da comissão técnica e as diárias das jogadoras, fazendo alguns torneios pra categorias menores com recursos da confederação de clubes, mas ainda sem condições de fazer a gestão que a gente considera efetiva, de ter gestores profissionais no comando, uma área de departamento feminino na confederação, uma área para captar recursos, enfim. Está indo como dá, tentando pagar as dívidas, sem condições de fazer um planejamento a longo prazo.

Mas a gente vê uma reconstrução do nível técnico. A gente jogou de igual para igual com duas equipes de alto nível com Austrália e França, não ganhou o jogo que poderia ter mudado totalmente esse cenário, que a gente achou que poderia e que tinha condições de ganhar, mas Porto Rico fez o jogo da vida e o Brasil se assustou. A gente está sempre compensando. Quando tem um trabalho que parece que está indo bem, a gente fica devendo pelo outro lado. Mas está longe de pensar que estamos num nível ideal.

Foto: Divulgação CBB

Dibradoras: O Brasil conseguiu ouro no Pan, que não vinha há 28 anos, mas ficou fora da Olimpíada pela primeira vez desde 1992. O que você acha do trabalho que tem sido feito na seleção?

Magic Paula: Eu vejo algo bom que o Pré-Olímpico mostrou, porque a gente jogou contra a segunda melhor seleção do mundo, jogamos contra a escola francesa que é muito forte na Europa, e teve determinados momentos do jogo que a gente falava: dá pra ganhar. Então talvez com tudo isso, com todos os problemas que a gente tem, a gente vislumbrou aí, eu particularmente, vi que a gente não está tão distante assim de tudo o que está acontecendo. Mas precisamos ter um carinho maior por parte de federações, dos clubes e, de verdade, parar de fazer um trabalho amador. Porque a gente continua esse trabalho amador, com poucos que fazem realmente um trabalho profissional.

Não é chegar lá, contratar as melhores, jogam por 4 ou 5 meses e tchau, manda todo mundo embora. Nós precisamos criar algum mecanismo para que pelo menos esses clubes que jogam a liga terem que fazer um time juvenil ou infanto, ser obrigado a fazer isso. Na parte de desenvolvimento, falta um plano, um projeto, definir papéis, qual é o papel de cada um, quem é responsável pelo quê. Fica difícil quando cada um faz as coisas do seu jeito sem ter um sistema definindo de que forma cada um vai fazer aquilo.

Foto: Divulgação CBB

Dibradoras: Como o basquete feminino pode voltar ao topo?

Magic Paula: A gente vê um avanço enorme de comportamento, técnica e tática da equipe, uma equipe mais corajosa, que enfrenta, não tem medo de jogar, mas ao mesmo tempo você percebe que falta o intercâmbio, falta fazer essas meninas jogarem mais, falta essas meninas estarem mais juntas, atuando. Acho que precisamos pensar num projeto para 2028, com duas seleções, uma mais jovem, e uma que já venha apresentando trabalho. Acho que é importante se pensar de repente ter essa equipe mais jovem quem sabe jogando a Liga de Basquete Feminino, para que elas possam jogar mais e estarem mais preparadas. Repatriar as jogadoras, fazer com que as meninas estejam um pouco mais juntas, por mais tempo, não só uma semana antes de competição, que é o que costuma acontecer.

E padronização também de uma melhor gestão dos clubes, melhor estrutura, uma sintonia na parte física e técnica para que as meninas cheguem bem na seleção. Fazer as meninas se encontrarem a cada 40, 50 dias, num camping onde vão absorver a nova filosofia de trabalho. É um sonho ter algo assim, porque quando você pensa que não tem recurso pra fazer isso, fica muito difícil pensar em algo que faça com que essas meninas possam jogar mais, participar de torneios, trazer torneios pro Brasil, e não deixar essas meninas jogando 4 ou 5 meses a liga no Brasil e aquelas que têm condição de ir pro exterior, vão. As outras que ficam aí por 7 meses sem trabalho. Muitas meninas atuam no basquete universitário, foram buscar mercado, porque aqui elas jogam 4 ou 5 vezes no ano quando jogam. Precisamos urgentemente criar um trabalho de recuperar a base, fazer um trabalho de verdade. Capacitar treinadores pra voltar a ter uma quantidade grande de meninas fazendo basquete mais novas.

Foto: Divulgação CBB

Dibradoras: O que pode melhorar na gestão atual do basquete, dadas as circunstâncias?

Magic Paula: Nessa gestão ideal, vejo que precisa rever qual é o papel das federações pelo país, o que elas vêm fazendo para contribuir com melhorias para a modalidade no país. São ações distintas que a confederação tem e que a liga tem. A liga tem mais a função de assumir um campeonato de clubes e a confederação assumir o comando da seleção, mas as coisas têm que caminhar juntas, não podem caminhar separadas, e a gente precisa pensar urgentemente também numa gestão mais profissional dos clubes, não ficar nessa dependência quase que exclusiva da Liga bancar todo custo desse campeonato. A cada ano existe uma dependência enorme desses clubes pra liga feminina de basquete. Apesar de a gente ter hoje um momento de uma equipe técnica que conseguiu dar um caminho, que é um alento para nós, sem recursos, é impossível seguir um planejamento.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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