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Garantido na Libertadores 2020, Avaí/Kindermann sonha com título nacional

Roberta Nina

06/02/2020 04h00

Avaí Kindermann x Flamengo Brasileiro Feminino (Foto: Andrielli Zambonin/Avaí Kindermann)

O Kindermann de Santa Catarina foi fundado em 1975, inicialmente para o futebol masculino. Somente em 2004 é que o clube passou a contar com as mulheres nas equipes de futsal e de campo. De lá pra cá, foram muitas as conquistas, algumas perdas e um recomeço.

O time feminino da cidade de Caçador (185km de Santa Catarina) coleciona 11 campeonatos catarinenses, um vice-campeonato Brasileiro em 2014 e uma Copa do Brasil conquistada em 2015. Mesmo sendo um time que não carrega a tradição do futebol masculino, o Kindermann sempre investiu – dentro de suas limitações – na modalidade. Tanto é que por ali já passaram grandes nomes do esporte, como a zagueira Mimi, as meio-campistas Barrinha e Djeni, as atacantes Cacau, Gabi Portilho, Giovanna Crivelari, Andressinha e Camilinha.

Justamente em 2015, quando vivia uma de suas melhores fases, o clube decidiu interromper as atividades esportivas no final do ano, após o assassinato do treinador Josué Henrique Kaercher, que foi morto por outro ex-treinador do clube, Carlos José Correa. O caso ganhou destaque nas páginas policiais e o time só voltou a disputar competições oficiais em 2017

O retorno do Kindermann em 2017 (Foto: Kindermann/ Divulgação)

E assim, desde que o projeto recomeçou, o comandante da equipe é Jorge Barcellos, nome conhecido no futebol feminino. Jorge treinou a Seleção Brasileira Feminina em duas ocasiões, entre 2006 e 2008 e depois entre 2010 e 2012. Foi sob seu comando que a equipe feminina conquistou os Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro e o vice-campeonato mundial, ambos em 2007. Jorge também treinou o time em dois Jogos Olímpicos: em Pequim (finalista em 2008) e em Londres (2012, eliminado nas quartas de final). 

"O futebol feminino é marcante na minha vida. Foi ele que me transformou como ser humano e profissional. Eu sempre agradeço às atletas, porque tudo que ganhamos juntos foi por uma soma de fatores e uma dedicação muito maior delas. A gente só estava lá pra facilitar o trabalho delas", afirmou em entrevista à dibradoras.

Pensando em cumprir a exigência da Conmebol na criação de equipes femininas, o Kindermann se juntou ao Avaí em 2019 e o resultado da temporada foi muito positivo. O clube conquistou o terceiro lugar no Campeonato Brasileiro – foi eliminado na semifinal para a então campeã Ferroviária – e garantiu a vaga para disputar a Libertadores da América neste ano, no Chile.

Em busca do Brasileirão

Com poucos nomes estrelados no elenco, o Avaí/Kindermann voltou a ser uma equipe competitiva no cenário feminino e sonha com a conquista do título nacional há algum tempo. E, se parar para analisar a campanha da equipe no campeonato de 2019, é bem provável que o time possa entrar na briga pelo título em 2020.

Na primeira fase do último Brasileiro, sofreu apenas três derrotas (para Corinthians, Santos e Minas-Icesp), um empate (contra o Internacional) e 11 vitórias. A equipe marcou 23 gols e sofreu apenas 3. É uma característica do clube levar poucos gols e ganhar de maneira simples também.

Para o treinador, a defesa foi um dos pontos positivos da equipe em 2019 e promete seguir a mesma linha nesta temporada. "Temos uma defesa muito forte e um ataque cirúrgico. Nosso time leva poucos gols porque nossa defesa é bem compactada. Até porque a gente já começa com a Bárbara no gol que passa muita segurança para as zagueiras poderem trabalhar, mas nossa parte defensiva é muito boa", afirmou Jorge.

Bárbara, a goleira titular da seleção brasileira, é a arqueira do Avaí/Kindermann desde 2017 e uma das grandes responsáveis por não deixar os adversários ganharem com larga vantagem da equipe do oeste de Santa Catarina. "Fizemos muitos gols no ano passado. Muitas vezes a gente defendia bem e fazia o gol que era necessário. Por isso que só tivemos uma quantidade elevada de gols contra o Foz-Cataratas (o Avaí/Kindermann venceu o Foz por 5×0), mas na maioria das vezes a gente conseguia fazer o gol e tinha uma resiliência muito boa para poder segurar os placares", completou.

Letícia, do Rio Preto, eleita como melhor e atacante do Paulista em 2018 (Foto: dibradoras)

Com a defesa muito bem garantida, a grande contratação do time para esta temporada é a atacante Letícia Silva, que foi campeã brasileira e bicampeã paulista defendendo o Rio Preto. Foi artilheira do Paulista em 2018 e também fez parte da seleção do campeonato.

"Esse ano, além da defesa, apostamos num ataque muito forte também. Por isso que trouxemos a Letícia, uma menina que vai ajudar bastante a gente e que é muito profissional. Estou confiante que ela vai jogar muito bem", revelou o treinador. Além dela, Jorge destaca outros nomes que vivem um momento muito bom, como as meias Catyellen e Duda e a atacante de 19 anos, Mylena – que faz parte da seleção brasileira sub-20.

Com contratações pontuais e revelando jogadoras, outro grande trunfo do Avaí/Kindermann é seguir mantendo alguns nomes no time ao longo dos anos. "Estamos com a mesma base de jogadoras há umas três temporadas. Tem meninas que estão desde 2017 no clube. A gente recomeçou do zero, o clube estava parado. Hoje está melhor, vem crescendo a todo ano, mas ainda temos nossas dificuldades. Quando você para, perde aquele gancho de contratação, as atletas ficam com medo e com incertezas", disse.

No Avaí/Kindermann, as jogadoras tem contrato profissional e alojamento (algumas em casas e outras usam a estrutura do clube). Além disso, o clube oferece bolsa de estudos integral para suas atletas e esse foi um dos grandes motivos que fez a goleira Bárbara aceitar a proposta do clube em 2017.


Após os Jogos Olímpicos do Rio, em 2016, Bárbara ficou seis meses sem clube. Chegou a questionar se valeria a pena seguir no futebol, até receber uma proposta da equipe de Santa Catarina. "Decidi voltar com o pensamento de estudar porque eu estava vivendo uma fase muito triste da minha vida. Após uma Olimpíada tão boa que eu tinha feito, ficar tanto tempo sem clube. Recebi a proposta do Kindermann em 2017 e conciliou. Quando eu fechei, fiz a minha proposta de estudar Enfermagem (na faculdade que tem parceria com o clube) e eles aceitaram", contou ao blog em 2019, durante a Copa do Mundo na França. 

+ Sem clube após auge em 2016, Bárbara quase parou, mas hoje vai para 4ª Copa

"A gente não tem como competir com os maiores. Temos o status de time grande no futebol feminino, mas em algumas coisas ficamos atrás. Já tem time (feminino) com folha salarial parecida com a série B, série C do masculino. Então fica complicado pra gente competir, mas vamos melhorando a parte de fisiologia e preparação física. O crescimento é resultado disso e graças ao Salésio (presidente do clube) que vem dando subsídio e força pra gente", pontuou Jorge. 

Jorge Barcellos na seleção brasileira (Foto: Rafael Ribeiro/CBF/Arquivo)

Aos 52 anos, o treinador reforça que sua bagagem na modalidade vem de muitos anos, mas que foi recentemente que o futebol feminino passou a ser melhor organizado. "Na minha época os campeonatos duravam seis meses, não tinha um campeonato regular. As condições mudaram e esse ano vai ser muito mais competitivo do que o ano passado. Com a chegada dos times de camisa, tende a aumentar o nível de exigência. Cada vez mais os departamentos de futebol feminino vão utilizar mais recursos pra elas melhorarem fisicamente e psicologicamente também", revelou. 

Dos momentos gloriosos em que conquistou os principais feitos para a seleção feminina de futebol, Jorge revela que mantém contato com algumas ex-atletas, como a Maycon, Tânia Maranhão e Simone Jatobá e revela que as aconselhava a ocupar lugares de destaque na modalidade. "Eu sempre falei pra elas que a ordem cronológica das coisas é que elas começassem a assumir os nossos lugares (na gestão). Sempre dizia à elas que se preparassem pra assumir nossos cargos."

O Avaí/Kindermann estreia no Campeonato Brasileiro no sábado (08/2), às 15h, diante do Vitória, em Caçador-SC.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

Dibradoras