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Cristiane tentou ficar, e SPFC não quis; declarações incomodaram diretores

Renata Mendonça

14/01/2020 11h12

(Foto: Renata Damasio/saopaulofc.net)

O São Paulo anunciou, há um ano, a contratação de Cristiane para marcar o retorno do clube ao futebol feminino. À época, a jogadora disse, inclusive, que o projeto apresentado pelo clube a convenceu a apostar no time do Morumbi para seu retorno ao Brasil. Com propostas de Barcelona e Lyon, a atacante da seleção brasileira preferiu ficar no Brasil para poder cuidar da mãe, que estava com um problema de saúde, e retomar sua carreira após uma sequência de lesões e um período de depressão.

A temporada dela esteve longe do esperado. Cristiane precisou ter paciência com a recuperação das contusões e ficou bastante tempo fora dos gramados. Pediu liberação ao São Paulo para tentar ficar 100% a tempo da Copa do Mundo feminina e se apresentou antes à seleção brasileira para fazer a preparação física. No Mundial, deu quase tudo certo – ela teve um ótimo desempenho, foi artilheira do Brasil no torneio, mas retornou com nova lesão e ficou quase dois meses afastada novamente. Mal participou da campanha do título brasileiro da A2 e voltou a tempo das semifinais e finais do Paulista.

Considerando o fato de que jogou muito pouco pelo Tricolor, Cristiane se sentia em falta com o clube e gostaria de ficar por mais uma temporada por conta disso. Ela deixou claro no fim do ano passado que a estrutura oferecida ali, no entanto, deixava a desejar – o São Paulo é o único dos 4 grandes do estado que coloca as mulheres para treinar em campo sintético; além disso, a academia é compartilhada com os associados – e pedia algumas melhorias para 2020, ano em que o time disputará a primeira divisão do Brasileiro.

O São Paulo, porém, sequer tentou renovar o contrato da atacante para este ano. Houve uma tentativa de marcar uma reunião para conversar sobre esta temporada e a possibilidade de renovação, mas o clube cancelou o encontro por entender que não queria mais contar com ela em 2020.

Diante disso, é inevitável questionar: quem não quer contar com Cristiane no elenco? É como se você tivesse o Ronaldo no time e sequer se importasse em tentar negociar para que ele ficasse mais uma temporada.

A reportagem  apurou que as declarações de Cristiane sobre a estrutura oferecida pelo clube (treinos em campo sintético e academia compartilhada com associados) incomodaram os dirigentes.

Na coletiva de imprensa do técnico Lucas Piccinato após a apresentação da nova equipe tricolor, ele respondeu sobre a não renovação do contrato de Cristiane.

"Em relação a Cris, agradeço muito ter podido trabalhar com uma jogadora desse porte, jogadora diferente que eu já tinha trabalhado anteriormente, foi uma jogadora muito importante pro São Paulo mostrar a sua cara nesse retorno ao futebol feminino. Infelizmente pra gente ela não conseguiu jogar, acho que isso atrapalhou um pouco tanto o clube, quando a jogadora, isso frustrou um pouco as duas partes, porque  o clube também tinha interesse em ver ela jogando mais. Em relação a não renovação, a gente pensou bastante em um novo perfil, novas características, mas sempre com muito respeito à história e à capacidade que ela sempre teve. De coração, espero que ela tenha um 2020 brilhante", afirmou.

É de se estranhar também que ao menos não tenha havido uma reunião, ainda que fosse para encerrar o ciclo de forma mais respeitosa. Seria mais digno, mais justo com uma atleta desse tamanho, que está no top 3 entre os maiores artilheiros da história da seleção brasileira. Até porque a estrutura oferecida pelo São Paulo realmente deixa a desejar se comparada a dos outros times de camisa.

Diante do burburinho nas redes sociais de que Cristiane não ficaria no São Paulo, logo começaram os "ataques" de torcedores questionando a atleta pela decisão. Há que se reforçar primeiro que a decisão foi do próprio clube – nesse caso, seriam os dirigentes que deveriam ser questionados. A atleta chegou a se manifestar nas redes sociais.

"Toda história tem dois lados, mas tem pessoas que só optam por uma. Elas preferem acreditar naquilo que leem ou na fofoca dita, em vez de procurar os lados para tentar saber a verdade. Eu JAMAIS vou aceitar que falem coisas que não existem ou mentiras para denegrir a minha imagem. Não pastei à toa junto de um monte de atleta que por ANOS tentou fazer com que o futebol feminino fosse valorizado. Não gosta de mim? Para de me seguir. Acha que não fiz por onde? Para de me seguir. Agora inventar mentiras e ainda vir falar que sou jogadora aposentada, vá se lascar. Se ainda estou na seleção e graças a Deus tem clube me querendo, é porque eu tenho valor e porque essas pessoas me respeitam acima de tudo", afirmou.

O São Paulo começou o projeto do futebol feminino dando indícios de que seria um dos principais clubes do país na modalidade, trazendo as jogadoras para morar no Morumbi e apresentando todas elas num treino que aconteceu no próprio estádio. Mas ao longo do ano, o fato do clube não ter criado uma estrutura adequada para as jogadoras prejudicou até mesmo preparação para jogos – houve treinos que precisaram ser encerrados mais cedo porque era preciso liberar o campo sintético para os associados.

Claro que não é simples criar essa estrutura e entendemos que há um processo dentro de qualquer clube para que o futebol feminino se torne efetivamente parte dele. Mas ao que parece, o time do Morumbi está ficando para trás, já que Corinthians e Santos já criaram uma cultura de futebol feminino há mais tempo, o Palmeiras mostrou estar disposto a abraçar a modalidade neste ano e, enquanto isso, as perspectivas no São Paulo para ter uma estrutura mais adequada de treinamento não existem.

Da parte de Cristiane, ela ainda está definindo o futuro para 2020 – o Santos é um dos interessados.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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