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Palmeiras abraça futebol feminino e dá lição de inclusão com jogadora surda

Renata Mendonça

13/01/2020 10h37

Foto: Divulgação Palmeiras

Em 2019, o Palmeiras foi um dos últimos clubes a definir como seria seu projeto no futebol feminino em cumprimento à obrigatoriedade da Conmebol e da CBF. Com uma apresentação feita às pressas, o clube buscou uma parceria com a cidade de Vinhedo, importou o projeto da Ponte Preta com técnica e jogadoras e sequer fez coletiva com as atletas – no evento realizado na Academia de Futebol, só os homens falaram (o diretor de futebol feminino, Alberto Simão, o prefeito de Vinhedo e o então diretor de futebol, Alexandre Mattos).

Tudo mudou completamente em 2020. O clube começou o ano já anunciando um pacote de reforços incluindo jogadoras vindo de seus rivais (São Paulo e Santos) e fez uma apresentação completa no último sábado na Academia de Futebol. Se no ano passado, as atletas foram lá só para tirar foto, desta vez elas chegaram a treinar no campo do CT e foram as protagonistas na coletiva de imprensa. No domingo, foi a vez de um evento no Allianz Parque – pela primeira vez, as jogadoras tiveram a chance de treinar na arena diante da torcida, que compareceu e aplaudiu o novo elenco feminino (foram cerca de 2 mil pessoas no estádio para acompanhar o treino aberto).

Tudo isso já mostra um pouco de como mudou o nível de atenção que o Palmeiras começa a dar para o futebol feminino. Mas para além da apresentação, um momento histórico marcou a apresentação das atletas na Academia de Futebol. A jogadora Stefany Krebs, campeã mundial pela seleção brasileira de futsal para surdos no ano passado, fez todo mundo se emocionar na sala de imprensa. Ela sempre sonhou em jogar num time de ouvintes e exalava felicidade ao ser anunciada como jogadora do Palmeiras. Na coletiva, ela respondia às perguntas em libras e sua mãe era a intérprete no microfone.

 

"Minha única diferença para elas é que eu não escuto. Mas o futebol é o mesmo. Tenho certeza que a gente vai encontrar formas de se comunicar em campo", disse a jogadora.

Durante a coletiva, Stefany falou sobre o quanto sonhou com essa oportunidade. Com a presença dela no elenco, as outras atletas já estão aprendendo a se comunicar em libras. A própria goleira Karen trocou alguns sinais com ela ao longo do evento. O diretor de futebol feminino, Alberto Simão, também fez questão de apresentá-la ao público em libras. E enquanto as outras atletas iam respondendo às perguntas dos jornalistas, um intérprete traduzia tudo para que Stefany fizesse parte do evento por completo (e não só quando as perguntas eram direcionadas a ela).

Foi um momento histórico para o futebol e uma lição de inclusão dada pelo Palmeiras e pela Stefany no CT. Se todo mundo diz que "futebol é uma língua universal", a gente pôde ver isso na prática no sábado com Stefany treinando com as atletas e mostrando em campo o quanto pode contribuir com o time do Palmeiras.

Foto: Divulgação Palmeiras

Investimento

Se no ano passado, nós criticamos aqui o descaso do time alviverde com o futebol feminino, fazendo as coisas de última hora e sem demonstrar preocupação em divulgar os jogos da equipe das mulheres, hoje precisamos elogiar a mudança de postura que o clube teve nesta temporada. Reformas estão sendo feitas na estrutura de treinamento para as atletas em Vinhedo e há um planejamento para tentar trazê-las mais vezes para treinar em São Paulo, usando a estrutura de excelência que o Palmeiras fornece para o masculino.

O novo elenco palmeirense, reforçado pelas meias Ary Borges, Angelina e Stefany, pelas atacantes Rosana e Ottilia, a zagueira Augustina e a goleira Karen, não é um dos mais caros do país, mas com certeza é um dos mais qualificados. O diretor Alberto chamou o pacote de "contratações pontuais" planejadas ao longo dos últimos oito meses.

Foto: Divulgação Palmeiras

"Nós passamos os últimos oito, nove meses estudando o mercado. Identificamos os pontos onde precisávamos nos reforçar e fomos atrás de contratações pontuais para fortalecer o elenco. Nós não estamos gastando mais, como o pessoal falou. Saíram oito atletas, trouxemos oito atletas. O que convenceu todas elas a virem para cá não foi dinheiro, mas o projeto que apresentamos. Hoje eu posso te falar com toda a certeza que ninguém tem uma estrutura melhor que a nossa no Brasil", afirmou às dibradoras.

"Hoje a gente tem um respeito muito grande de todas as áreas do Palmeiras. Não é simples tirar uma capitã do Santos, do São Paulo. E não foi com poderio financeiro. Tiramos pelo projeto."

Foto: Divulgação Palmeiras

Alberto admite que não é ideal ter o elenco feminino em Vinhedo, porque a maior base de torcedores do Palmeiras é em São Paulo, capital. O fato de as jogadoras estarem lá cria até um distanciamento com o clube – no sábado, vimos um funcionário da Academia de Futebol assistindo ao treino das meninas e comentando: "nossa, eu nem sabia que o Palmeiras tinha time de futebol feminino". Isso é algo que os dirigentes buscam mudar aos poucos. Cada vez mais trazer o futebol feminino para dentro do clube, com mais treinos em São Paulo e uma integração maior com a sede palmeirense.

"Hoje, a gente prioriza oferecer a melhor estrutura possível para elas e isso a gente consegue lá em Vinhedo. Renovamos a parceria para 2020, mas a gente vai estudar isso ano a ano. O que posso te garantir é que lá elas têm excelência, uma estrutura completa da melhor qualidade", disse.

"O Palmeiras não fez os maiores investimentos, pode ter certeza. O Palmeiras, na minha opinião, fez a melhor gestão. A gente nunca vai ter o plantel fechado, estamos analisando mercado, estamos observando atletas. O importante é manter a filosofia do clube. Esse é um projeto que a gente almeja ser vencedor esse ano. A gente é um clube que está num segundo ano apenas. O importante é fornecer uma estrutura profissional e digna. Nós pontuamos os problemas que nós detectamos. Estamos atacando nossos problemas, internamente sabemos onde temos que melhorar", observou o dirigente.

A meta traçada pelo Palmeiras neste ano é chegar às semifinais de todas as competições que disputar – as principais serão a série A1 do Brasileiro e o Campeonato Paulista. Com esse projeto, dá a entender que é possível sonhar até mesmo com o título em algumas delas.

 

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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