Topo
Dibradoras

Dibradoras

Quem é o time com a maior média de público do mundo para o futebol feminino

Renata Mendonça

21/11/2019 04h00

Craig Mitchelldyer / Divulgação Portland Thorns

Os Estados Unidos não são exatamente o "país do futebol" – até são, mas do futebol americano apenas. Só que é exatamente nos Estados Unidos que um time de futebol conseguiu atingir uma marca significativa: é a equipe feminina com maior média de público do mundo todo.

O Portland Thorns – ou apenas Thorns, como é conhecido – coloca em média 20 mil pessoas no estádio por jogo. A capacidade do "Providence Park" foi ampliada para 25 mil justamente pra poder abrigar mais torcedores. Só em uma oportunidade em sete anos de história, o Thorns colocou menos de 10 mil pessoas nas arquibancadas.

Os números são expressivos, ainda mais considerando o contexto do futebol feminino e especificamente do futebol nos Estados Unidos. A modalidade ainda está em desenvolvimento e só agora passou a ter mais investimento e visibilidade – o que possibilita atrais mais público. Mas o trabalho bem-sucedido do Thorns com as mulheres tem rendido bons frutos, tanto em termos de arrecadação, quanto em termos de títulos.

O clube já foi duas vezes campeão da NWSL, a liga americana que existe desde 2012. E alguns dos principais talentos da seleção dos Estados Unidos estão na equipe. É claro que o fato de o clube ter essa média de público tão alta também ajuda na hora de atrair as principais jogadoras.

"O diferencial do Thorns é a organização do clube, o apoio das pessoas que trabalham lá. É uma equipe de profissionais mesmo que buscam sempre ter um time competitivo, um time forte, pra sempre buscar classificar para as semifinais, que sempre busca título, isso contribui bastante pra esse amor da torcida", disse a meio-campista Andressinha, jogadora do Thorns.

O clube conta também com uma torcida organizada, tanto para a equipe feminina (Thorns) quanto para a masculina (Timbers).

"Essa atmosfera todo jogo é uma coisa que atrai bastante as jogadoras, que desperta esse interesse de querer jogar lá. Porque isso não é ainda uma realidade, os estádios lotados são mais comuns no futebol feminino quando você está jogando pela seleção. Mas lá você tem essa realidade diferente, todo jogo você pode ter certeza que o estádio vai estar lotado. Isso acaba mexendo com as jogadoras. Acredito que o time é muito mais forte nos jogos em casa porque a torcida empurra. Eles têm também essa cultura lá de torcida organizada bem parecido com o Brasil, eles ficam atrás do gol, tem a torcida organizada pro feminino e pro masculino, cada um tem suas próprias músicas, então é uma coisa muito legal", completou a brasileira.

"Soccer city"

Um dos principais fatores que levam o Thorns a ter tanto sucesso é justamente o fato de a cidade onde o clube estar ser considerada a "soccer city" dos Estados Unidos. Ali, a maior paixão das pessoas não é o futebol da bola oval ou o beisebol ou o basquete, mas sim o chamado "soccer" pelos americanos. Isso somado ao trabalho bem desenvolvido pelo clube faz com que a torcida compareça em todos os jogos.

"Isso já vem da cidade. Lá é a cidade conhecida como soccer city, talvez porque não tenha um time de grande destaque no futebol americano, ou no beisebol, que são esportes tradicionais lá, mas o esporte favorito na cidade é o futebol, então tanto no masculino quanto no feminino, as pessoas sempre comparecem no estádio. O clube é o grande destaque nos Estados Unidos por isso", pontuou Andressinha.

O técnico do Portland, Mark Pearsons, é inglês e vem de um país onde futebol é religião. Mas ele reconhece que em Portland, há uma paixão mais parecida com a que vê na sua terra natal.

"Aqui a atmosfera é completamente diferente. As pessoas são completamente apaixonadas por futebol. A torcida fica sempre depois do jogo para tirar foto com as jogadoras, eles formaram mesmo uma comunidade do futebol em torno desse clube e é legal que as jogadoras retribuem isso", explicou.

Estrutura do futebol feminino nos EUA

Os Estados Unidos contam com um sistema esportivo único e referência no mundo inteiro que se apoia muito na relação entre esporte e educação. Lá, praticamente todo atleta inicia a carreira na escola (high school) pra depois vestir a camisa de uma universidade (college) é só aí de repente se tornar profissional. Atualmente, segundo os dados mais recentes (2017), os EUA têm 575.849 mil atletas distribuídos em 2.078 universidades.

Claro que a maioria desses atletas universitários não consegue avançar para o profissional. Mas a maneira como o sistema funciona faz com que a imensa maioria dos(as) jogadores(as) profissionais tenham passado pela universidade. No caso do futebol feminino, por exemplo, 91% das atletas jogaram na universidade antes de se tornarem profissionais. No caso do futebol americano (masculino), a estatística é ainda maior: 99%. E se considerarmos todos os atletas que representaram os Estados Unidos na Olimpíada do Rio, 80% deles passaram pelas universidades do país.

Sala de transmissão da Universidade de Portland, onde a própria universidade gera imagens para as transmissões de todos os esportes (Foto: Dibradoras)

Isso acontece também porque o esporte universitário é muito forte e recebe muito investimento nos Eua. É ele quem basicamente sustenta o sucesso esportivo do país. Então quando você vai a um jogo universitário, é bem possível que você não consiga distinguir que aquilo é de faculdade e não é profissional se ninguém te contar antes.

Os estádios são de nível profissional. Ingressos são comercializados. Os patrocinadores incluem algumas das maiores empresas do mundo, como Coca Cola, Nike, etc. Até mesmo os direitos de transmissão de jogos universitários são comercializados.

Na partida do Portland Pilots (time de futebol feminino da Universidade de Portland) contra o San Diego Toreros que pude acompanhar in loco, o material de mídia que recebemos é infinitamente melhor do que o de muitos jogos profissionais no Brasil. Ele traz as estatísticas de todas as jogadoras na temporada, o histórico de confronto das equipes e inúmeros detalhes que nos dão um pouco da ideia sobre o quanto se preza pelo esporte universitário nos Estados Unidos.

Foto: Dibradoras

Ali dos Pilots muitas vezes saem talentos que serão estrelas do Portland Thorns ou até mesmo da seleção americana. A atual melhor jogadora do mundo, Megan Rapinoe, é talvez o exemplo mais bem-sucedido da universidade – ela vestiu a camisa dos Pilots e sua foto até hoje está num grande outdoor do estádio.

Mesmo com chuva, a partida universitária atraiu muita gente, muitas famílias e muitas meninas que ali podiam se inspirar no que sonham em ser um dia.

É essa estrutura que ajuda a alimentar o sucesso dos eua no futebol feminino. São mais de 40 mil atletas atletas universitárias na modalidade e são mais de 9,5 milhões de mulheres jogando futebol no país inteiro. Pelas universidades, eles ainda conseguem atrair craques estrangeiras na juventude que um dia podem vestir a camisa americana – como é o caso da brasileira Catarina Macario, melhor jogadora de 2018 no futebol universitário, que está se naturalizando para jogar pelos EUA. Investimento e estrutura é sempre o melhor segredo para o sucesso em qualquer esporte.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

Dibradoras