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Quem é o técnico que levou o Corinthians a conquistar tudo em 4 anos

Renata Mendonça

29/10/2019 14h50

Foto: Bruno Teixeira

Desde que voltou a investir no futebol feminino, o Corinthians já ganhou todos os títulos possíveis. Não houve uma temporada em que o clube tenha terminado zerado de 2016 para cá. Uma Copa do Brasil, um Brasileiro e duas Libertadores nesse meio tempo firmaram o time alvinegro como protagonista entre as mulheres recentemente.

E por trás de todo esse sucesso, para além de uma gestão bem feita com a supervisão da diretora Cris Gambaré, tem também o trabalho de um treinador que já foi até mesmo contato para a seleção brasileira. Arthur Elias já deixou seu nome marcado na história do futebol feminino levando primeiramente o Centro Olímpico ao título brasileiro em 2013. Mas foi no Corinthians que ele conseguiu desenvolver o melhor de suas ideias para formar um time que encanta e vence. São 43 jogos invictos nesta temporada, um recorde mundial de vitórias consecutivas (34) e a coroação com o bicampeonato da Libertadores feminina conquistado nesta segunda-feira.

Tal campanha fez o Corinthians chegar a todas as finais dos torneios que disputou neste ano. Decidiu o título brasileiro com a Ferroviária (perdeu nos pênaltis), chegou à final do Campeonato Paulista (disputará o título contra o São Paulo nos próximos dias 2 e 16 de novembro) e levou o título da Libertadores também em cima da equipe de Araraquara.

É claro que o Corinthians tem um dos melhores elencos do país, com jogadoras de seleção brasileira que fazem a diferença, como é o caso da lateral/meio-campista Tamires e da zagueira/volante Erika. Mas é o conjunto da obra que chama a atenção.

Foto: Agência Corinthians

Em 2018, por exemplo, o time corintiano já havia conseguido números muito expressivos com 33 vitórias em 42 jogos e apenas duas derrotas em toda a temporada – 84% de aproveitamento, com direito ao título brasileiro e ao vice-campeonato paulista. Em 2019, os resultados foram ainda mais positivos: 88% de aproveitamento no Brasileiro, 100% de aproveitamento no Paulista até aqui e 88% na Libertadores.

A soma de gols marcados na temporada toda chega a 141 em 45 jogos, uma média de 3 por partida com um aproveitamento de 93% dos pontos.

Conhecimento do grupo e estilo ofensivo

O segredo para tudo isso é um trabalho muito bem feito do lado de fora do campo. Há quatro anos no comando do Corinthians, Arthur Elias manteve a base do seu elenco e conseguiu fazer as atletas entenderem muito bem suas ideias de jogo. Com isso, o estilo ofensivo da equipe, que não abre mão de atacar e, ao mesmo tempo, mantém uma segurança defensiva, fica evidente em cada partida, independentemente das peças em campo.

"Nosso time trabalha pra vencer todos os jogos e todas as competições. A gente tem um grupo reduzido, com lesões de algumas jogadoras importantes, sobrecarga de algumas. Então acho que esse trabalho de todos os dias pensando sempre em vencer é um dos diferenciais. A gente passa por cima das adversidades pelo grupo que a gente tem", afirmou a meio-campista Cacau.

Foto: Bruno Teixeira

Outro segredo de um time tão vitorioso é o fato de Arthur Elias conseguir fazer trocas táticas sem sequer tirar uma jogadora do campo. "Acho que o Arthur conseguiu rodar bem o time esse ano, conseguiu usar todas as jogadoras, e ele pode trocar 5 ou 6 e o time continua o mesmo. O time consegue jogar da mesma maneira, ofensivo, homogêneo na defesa. Ele conseguiu fazer com que a gente jogasse em mais de uma posição. Às vezes ele nem precisa substituir, faz as trocas de posicionamento no campo mesmo", contou Cacau.

É comum ver a zagueira Erika jogando de volante no time de Arthur. A lateral esquerda Tamires virou meia com ele. Gabi Zanotti, que é camisa 10 de origem, meio-campista que gosta de armar as jogadas e dar ritmo ao time, por vezes já jogou de atacante lá na frente. Esse é o tipo de jogo de quem conhece muito bem o elenco formado ao longo dos últimos anos.

"O fato de termos sequência de trabalho, a mesma comissão técnica, uma base do grupo se mantendo e contratamos atletas com características favoráveis para adaptação à nossa maneira de jogar.  O tempo de trabalho nos trouxe muita consistência tática, hoje trabalho com diferentes sistemas e estratégias e as atletas entendem e executam muito bem porque temos comportamentos treinados que não mudam e uma identidade de jogo muito bem formada", explicou Arthur às dibradoras ainda antes do fim do Brasileiro.

Foto: Bruno Teixeira

Início na faculdade

Boa parte dos treinadores de futebol de hoje em dia são ex-jogadoras ou ex-jogadoras. Arthur Elias até jogou bola, mas não chegou a se profissionalizar. Só que ele sempre foi um "estudioso" do futebol. Formou-se em Educação Física e foi buscar ainda mais cursos para se aperfeiçoar na função. Suas primeiras experiências no comando fora de campo vieram do futebol feminino universitário. Comandando um projeto na USP, o técnico chamou a atenção e começou a galgar seu espaço.

(Foto: Mauro Horita)

Seu primeiro grande resultado no futebol das mulheres foi o título brasileiro em 2013 com o Centro Olímpico, time bancado pela prefeitura de São Paulo que sempre teve uma base muito forte. Ele começou no projeto em 2010 a convite da ex-jogadora de basquete Magic Paula, que coordenava o clube. Muitas jogadoras renomadas passaram por ele nessa época, como Cristiane, a própria Tamires, Erika e a Gabi Zanotti que estão com ele ainda hoje, entre outras. O técnico ficou por lá até 2015 e, no início de 2016, já assumiu o novo projeto do Corinthians no futebol feminino em parceria com o Audax.

De lá para cá, o resto é história. Foram cinco títulos conquistados em quatro anos e mais um que poderá vir no Paulista no próximo mês. Uma carreira vitoriosa que já o fez até ser cotado para a seleção feminina, antes da sueca bicampeã olímpica Pia Sundhage ser convidada para o cargo. Se continuar assim, mais cedo ou mais tarde, ele terá essa chance.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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