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O que já mudou e o que ainda precisa mudar na seleção feminina com Pia

Renata Mendonça

09/10/2019 09h32

Foto: CBF

Já se passaram pouco mais de dois meses desde que Pia Sundhage assumiu a seleção brasileira e, de lá para cá, foram quatro jogos com ela no comando – três vitórias e um empate contra o Chila em meio a condições adversas pela chuva torrencial que caía no Pacaembu.

É claro que não se muda um time da noite para o dia. Ainda mais  considerando uma seleção, que se encontra somente em datas Fifa e com pouquíssimo tempo de treino. Mas não dá para negar que já é possível ver diferença no time em campo – não só na escalação, mas principalmente na disposição em campo e na postura das jogadoras. Os resultados não vieram por acaso, foram construídos.

+ Como Pia Sundhage pretende levar seleção feminina ao topo

Ainda assim, há muito por fazer, claro. O time ainda carrega heranças do passado que talvez precisem ser repensadas. Elencamos aqui algumas coisas entre o que já evoluiu e o que ainda precisa ser trabalhado nos próximos meses até a Olimpíada.

As mudanças

1- Meio-campo

Quem acompanhou o Brasil de Vadão vai lembrar que era um time que não trabalhava a bola no meio-campo. Até por conta desse estilo de jogo mais vertical e cheio de ligações diretas, o treinador não costumava convocar muitas jogadoras para esse setor.

 

Com Pia, a bola sempre passa pelo meio-campo. Ela já disse que é esse o setor que dita o ritmo do jogo e quer trabalhar bastante por ali. Ainda não houve grandes mudanças nas convocações da sueca entre as meio-campistas, mas em campo dá para ver claramente como o time, aos poucos, vai absorvendo o jeito dela de jogar.

Contra a Inglaterra, a seleção teve um primeiro tempo muito ruim, sem que a bola passasse muito pelo meio. Não havia transição da defesa para o ataque. Foi então que Pia mudou o time, povoou o meio-campo e, acima de tudo, orientou as jogadoras na construção.

Foto: Daniela Porcelli/SPP/CBF

"Ela queria que colocasse a bola no chão. Chegava na lateral, a gente já não tinha muito a triangulação, chutava para frente, ela falou: 'não, vocês têm que achar a triangulação. Se vira, não quero chute para frente'. Isso foi importante, a gente confiar no que ela falou para tocar e sair jogando", contou a zagueira Erika após a vitória sobre as inglesas por 2 a 1.

Contra a Polônia, de novo isso acontecer. Após uma queda de rendimento no primeiro tempo em que a seleção fez o primeiro gol e depois teve dificuldades para atacar contra uma seleção que veio bem fechada, Pia fez alterações no segundo tempo para dar velocidade e variação ofensiva ao Brasil – tudo isso passando pelo meio-campo.

"Fiquei um pouco decepcionada com o 1º tempo. Estava devagar demais. Elas não aproveitaram as chances. Nós trabalhamos variações de ataque, viradas de bola, cortes das atacantes nos treinos e isso não aconteceu. Com Luana e Debinha, tivemos mais velocidade e conseguimos gols", explicou a treinadora.

"Jogamos contra uma defesa muito compacta e, pra quebrar isso, você precisa variar o ataque, ser mais rápido e partir pra cima. Debinha fez diferença nisso. E, para Luana, eu disse para sair do meio e avançar para somar no ataque. A velocidade de Ludmila também foi importante para o time", completou.

2 – Coragem de testar

Talvez o que mais chame a atenção no trabalho de Pia até agora seja a coragem que ela tem para mudar o time e usar todas as opções que tem em mãos. Das 30 jogadoras convocadas até agora, a sueca utilizou 28. Claro que o fato de serem amistosos com mais possibilidades de trocas (em vez das 3 alterações permitidas em torneios oficiais) ajuda, mas para além dos nomes em campo, a técnica tem alterado também a forma de jogar da seleção conforme as modificações que faz.

A leitura de jogo que fez nas duas partidas contra Inglaterra e Polônia no intervalo foi perfeita. Pia percebeu que o Brasil não estava bem e fez alterações em todos os setores – defesa, meio-campo e ataque – e, nas duas situações, viu suas mudanças surtirem efeito.

"Só nos amistosos é possível fazer tantas mudanças. Esses testes não podem ser feitos na Olimpíada, tem que ser agora. Fizemos mudanças para dar às jogadoras alguma chance", afirmou a técnica após a vitória contra a Inglaterra.

Foto: Daniela Porcelli/SPP/CBF

Um dos testes que a treinadora fez foi apostar na zagueira Kathellen jogando de lateral direita. Ela explicou sua opção já pensando em Tóquio-2020.

"Eu quero uma jogadora (na lateral) que consiga segurar no 1 contra 1, mas que também saiba apoiar o ataque. Mas acima de tudo, que segure o 1 contra 1. São 18 jogadoras que vão para Olimpíada, meu plano é levar 6 defensoras. Kathellen consegue jogar de central e na lateral, se eu encontrar esse tipo de jogadora, vai ajudar muito. Maria joga pelo lado e também no ataque. Marta joga aberta e pelo meio. Na Olimpíada, são menos jogadoras, então elas precisam ser versáteis", explicou.

Essa coragem para fazer testes e mudar o time quando algo não está dando certo é definitivamente algo que faltava na seleção brasileira e um dos pontos mais positivos trazidos pela sueca. Não há medo de reconhecer que uma estratégia deu errado, nem falta atitude na tentativa de mudar a cara da equipe para buscar a vitória.

Foto: Daniela Porcelli/SPP/CBF

O que ainda precisa mudar

1- Transição da defesa para o ataque

O estilo de jogo de Pia, como já foi dito aqui, é muito diferente do estilo de jogo que a seleção estava acostumada a jogar com Vadão. Para a construção de jogadas, ela precisa de uma transição que funcione para levar a bola com qualidade da defesa para o ataque. Essa transição antes acontecia com passes longos que, na maioria das vezes, saíam das laterais e iam direto para o setor ofensivo. Agora, Pia quer triangulações, toque de bola, e nunca uma ligação direta.

Esse foi o ponto fraco da seleção nos dois amistosos – o que é compreensível, porque não é fácil fazer uma mudança estrutural como essa do dia para a noite. Mas talvez ainda faltem peças no meio-campo que potencializem esse estilo de jogo, principalmente com a saída de bola mais rápida.

Foto: CBF

O Brasil chegou a se atrapalhar uma ou outra vez nisso contra a Polônia e gerou contra-ataques. E contra a Inglaterra, no primeiro tempo o setor ofensivo brasileiro foi quase inutilizado, porque a bola não chegava até ele. Para fazer funcionar da melhor forma, Pia precisa ter uma volante que saiba sair para o jogo e as meias se aproximando para receber a bola e levá-la até o ataque. E tudo isso com uma organização tática que não deixe espaços para as adversárias em caso de contra-ataque. É a tal compactação que a sueca tanto fala e que ainda falta na seleção brasileira – talvez, a melhor saída para consegui-la seja mudando as próprias peças em campo.

2- Novos nomes nas convocações

Está aí talvez o grande "ponto fraco" da técnica até aqui. Nas duas vezes em que convocou a seleção brasileira, Pia mudou muito pouco os nomes com relação aos que já vinham sendo utilizados por Vadão. Claro, é natural que ela precise conhecer as jogadoras para poder entender quem vai render melhor em qual posição, mas para quem acompanha a modalidade, ainda faltou um pouco mais de ousadia de tirar alguns nomes de sempre e incluir alguns nomes que já merecem essa vaga há algum tempo.

Foto: Mowa Press

Quando perguntamos à sueca sobre isso (repetição de nomes) na última convocação, ela disse: "Nomes repetidos podem significar uma coisa boa. Significa que elas fizeram algo que agradou. Meu trabalho é fazer com que elas sejam ainda melhores. Eu também acredito que, além de ter um time experiente, a mistura que é interessante."

Conversamos com Rafael Alves, editor do Planeta Futebol Feminino, e com a ex-jogadora Alline Calandrini, comentarista de futebol feminino da Band, para listar alguns nomes que estão merecendo uma chance com a sueca – quem sabe na próxima convocação para o torneio da China em novembro:

Rafael Alves – Goleiras: Yasmin (Inter), Karen (Audax); Defensoras: Mimi (Coritnhians), Pardal (Corinthians), Sorriso (Inter), Luana (Ferroviária), Thais Regina (São Paulo); Laterais: Yasmin (Benfica), Paulinha (Corinthians), Mary (ex-Vitória e agora Grêmio), Bruna Calderan (Kindermann); Meias: Andressinha (Thorns), Angelina (Santos), Rafa Mineira (Ferroviária), Gabi Zanotti (Corinthians); Meia-atacante: Mônica (ex-Palmeiras e agora Corinthians), Valéria (São Paulo), Larissa (Flamengo), Verena (Vitória-BA); Atacantes:
Darlene (Benfica-POR), Fernanda (Pitea-SUÉ).

Alline Calandrini – Goleiras: Tayna (Corinthians), Dani Neuhauss (Benfica); Zagueiras: Pardal (Corinthians); Rafaelle (Changchun Yatai); Laterais: Yasmin (Benfica); Meio-campistas: Angelina (Santos), Vitória (Benfica), Juliana (Flamengo), Gabi Zanotti (Corinthians).

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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