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A emoção da jogadora ao voltar a campo 3 meses após nascimento do 2º filho

Renata Mendonça

02/10/2019 11h12

Foto: Reprodução Instagram

Voltar ao trabalho após o nascimento de um filho é sempre um desafio para uma mulher – até porque, para muitas, o emprego não está mais lá quando ela volta (segundo pesquisa da FGV, metade das mães perde o emprego em até 2 anos após voltar de licença). Agora imagine essa situação quando seu trabalho é jogar futebol. Conseguir retomar seu desempenho físico após uma gravidez para disputar uma partida em campo é um desafio que poucas escolhem enfrentar – afinal, não depende só de força de vontade, mas principalmente de um clube que decida apoiar essa escolha e oferecer condições para uma jogadora continuar como mãe.

A atacante Sydney Leroux sabia de todas essas dificuldades porque já havia passado por isso. Mas é impossível conter a emoção quando se enfrenta tanta coisa simplesmente para poder fazer o que ama. E foi isso que aconteceu no último final de semana. Três meses depois de ter dado à luz seu segundo filho, a pequena Roux, Sydney voltou aos gramados e foi ovacionada em um estádio que sequer era do seu time. Até mesmo a torcida adversária soube reconhecer a importância daquele momento. Foram apenas alguns minutos em campo, mas que serviram para reforçar uma mensagem que ela faz questão de passar todos os dias: a vida não precisa parar porque você é mãe. Com Roux no colo após o apito final, Sydney e suas companheiras de equipe não conseguiram conter as lágrimas.

"Foi muito emocionante. Está sendo um ano difícil. Era um jogo fora de casa e os torcedores do outro time gritaram meu nome. Foi muito especial", contou a jogadora ao site ABC News.

"Nós muitas vezes achamos que, quando começamos uma família e temos filhos, nós não podemos continuar com nossos sonhos e ambições. Acho que é muito importante ver que a vida não para, e você pode ter uma família e também ter uma carreira. É possível fazer as duas coisas ao mesmo tempo", declarou.

Mãe e atleta

Chega a ser raro ver atletas que decidem ter filhos durante a carreira no esporte, porque há sempre uma desconfiança – não só sobre sua capacidade de voltar a atuar em alto nível, mas também sobre seus rendimentos. Não é fácil encontrar clubes e patrocinadores que apoiem atletas mães e aceitem manter seus pagamentos mesmo quando elas não estão em atividade por conta da gravidez ou da recuperação pós-parto.

Foto: Reprodução Instagram

Na seleção brasileira, por exemplo, há apenas uma jogadora que é mãe – a lateral esquerda Tamires. E, quando ela engravidou, acabou ficando sem clube e parou de jogar por um ano até que conseguisse retornar aos gramados. Na época, a jogadora achou que teria que pendurar as chuteiras de vez.

Com Sydney Leroux foi diferente. Em 2016, após ter sido campeã do mundo com os Estados Unidos um ano antes, ela decidiu fazer uma pausa na carreira para ter seu primeiro filho. Voltou e, em 2017, já estava de novo vestindo a camisa da seleção americana. Na segunda vez, a escolha foi engravidar em 2018 para poder ter o bebê ainda antes do início da temporada, em março. Mas a jogadora acabou sofrendo um aborto espontâneo. 

"O ano não foi como era planejado por mim e pela minha família. Eu queria ter o filho em março para conseguir jogar a maior parte da temporada, mas nós perdemos o bebê no ano passado", contou.

A atleta conseguiu engravidar novamente e contou com o apoio do Orlando Pride em toda a gestação. Treinou com a equipe mesmo grávida de seis meses – claro, sempre com acompanhamento médico. Prometeu voltar ainda neste ano após o nascimento de sua filha em junho. Cinco semanas depois do parto, ela já estava treinando.

"Meu plano era voltar nesta temporada, sem me importar com a opinião dos outros. Eu ia fazer isso acontecer", declarou.

"Eu amo esse jogo. Esse último ano teve muitos altos e baixos, mas eu fiz uma promessa para mim mesma que eu iria voltar. Não importa o quão difícil seria. Tem sido uma longa jornada, mas eu consegui. Três meses e um dia depois que eu dei à luz minha pequena menina", escreveu a jogadora em seu Instagram.

Sydney treinou até os seis meses de gravidez (Foto: Reprodução Instagram)

Mensagem do retorno

O primeiro jogo de Sydney Leroux após o nascimento de sua segunda filha foi contra o Sky Blue FC em New Jersey, a quase 1.700 quilômetros de Orlando. Na viagem de avião, as jogadoras foram fazendo graça com a pequena Roux, que foi junto com a mãe. As noites de Sydney, claro, ainda não são bem dormidas, já que ela precisa amamentar a filha ao longo da madrugada. Mas nada disso foi impeditivo para que ela estivesse no campo no domingo. Até mesmo no intervalo, na conversa entre atletas e treinador, Sydney precisou dar de mamar enquanto ouvia as instruções dele para a etapa final. E, nos últimos minutos da partida, foi seu momento de viver aquela emoção. Ao entrar em campo em uma das substituições feitas pelo técnico, Sydney sentiu o que aquilo representava.

"Quando você tem um filho, seu corpo muda completamente. Eu ainda tenho peso a mais da minha gravidez. É como se você tivesse que aprender a usar seu corpo de novo. É como se sua mente funcionasse, mas seu corpo não acompanhasse. Eu ainda sinto que preciso melhorar, mas me sinto muito mais forte".

Depois do término do jogo, pegou Roux no colo e a envolveu num abraço emocionante. Suas colegas de time também se renderam ao momento. "Você é incrível", foi o que muitas de suas companheiras de seleção americana escreveram para ela nas redes sociais.

"Eu senti muito apoio e vi que muita gente estava orgulhosa de mim. Isso traz um sentimento muito bom", afirmou.

A mensagem que Sydney trouxe ao simplesmente entrar em campo por alguns minutos é muito forte. É a prova de que mães também são pessoas normais, que têm o direito de viver não só para seus filhos, mas para realizar seus sonhos também. O sonho dela sempre foi jogar bola – hoje, sua menina pode ver que a mãe realizou tudo o que mais almejava.

Sobre as autoras

Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Renata Mendonça é apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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