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Tamires é a única mãe da seleção, parou de jogar 2 vezes e hoje vive auge

Renata Mendonça

12/06/2019 05h18

    Foto: Arquivo Pessoal

Quando Tamires Cassia começou a jogar bola na rua durante a infância com o irmão e os amigos, ela não poderia sonhar que um dia seria jogadora de futebol. Só pelos comentários que ouvia na vizinhança de "menina-macho" e afins, já imaginava que não poderia haver futuro para uma mulher com a bola no pé.

Mas aos 11 anos, assistindo à televisão, viu uma seleção brasileira de mulheres jogando e ali soube o que queria ser quando crescesse: atleta. Morava em Caeté, a 50 km de Belo Horizonte, mas ainda na adolescência se mudou para São Paulo com uma tia para tentar a vida no futebol. Com 15 para 16 anos, foi para o Juventus e estreou no profissional cheia de sonhos pela frente. Só que aos 21 anos, tudo mudou: Tamires namorava César, também jogador do clube, e os dois descobriram que seriam país dali alguns meses.

"Quando eu descobri (que estava grávida), eu tinha 21 anos, não era tão nova, mas como eu era atleta, essa é a fase que você está começando a ganhar experiência. Para mim, foi um baque muito grande. Era uma responsabilidade enorme. Eu pensei que futebol tinha acabado pra mim ali", disse Tamires às dibradoras.

Foto: CBF

"Ouvia as pessoas falando: você não tem juízo, seu sonho acabou. O que você vai fazer da vida. As pessoas se afastaram de mim também, parecia que eu já não servia mais. Mas eu tive suporte da família, foi isso que me deu energia pra continuar lutando, porque a vida não acabou", afirmou.

Hoje, ela está na França, disputando pela segunda vez uma Copa do Mundo, como titular da lateral esquerda do Brasil. A única atleta-mãe da seleção brasileira que está por lá. Mas para chegar nisso, teve um longo caminho pela frente.

Foto: Arquivo Pessoal

Pausa no sonho

Tamires não conseguiu se separar totalmente dessa paixão. Ela apenas seguiu, cuidou da gravidez e não se separou da atividade física. Enquanto o marido jogava, ela foi cuidando de Bernardo e procurando times de futsal para matar a saudade.

"Em toda a cidade que ele ia jogar, eu procurava um time pra me manter na ativa", contou.

Até que em 2010, ela recebeu um convite para retornar ao futebol. O técnico do Atlético-MG estava montando um time feminino e a convidou para voltar a jogar. A família a apoiou e lá se foi Tamires de volta para os gramados.

De início, a primeira dificuldade foi o fôlego. "Voltei e não conseguia correr 30 minutos seguidos", contou. Mas ela estava determinada a conseguir jogar bola outra vez, então seguiu com os treinamentos intensos e voltou ao alto nível. Aí o problema que pegou foi a distância.

"Joguei um ano, um ano e meio pelo Galo, minha mãe ficava cuidando do Bernardo. Só que o César (marido) jogava pela Patrocinense, então a gente se via muito pouco. Só em fim de semana e quando coincidia de os dois não terem jogo", explicou a jogadora.

Patrocínio fica a mais de 600 quilômetros de BH. Já imaginou conciliar um casamento com essa distância, um filho e o pai e a mãe jogando futebol? Com jogo quarta, domingo, quarta, domingo? Foi realmente impossível para os dois.

"A gente ficou um tempo assim, mas achamos que não seria bom pro Bernardo a gente separado, então eu larguei o futebol de novo e fui acompanhá-lo".

É mais comum mesmo a mulher abrir mão de uma carreira para seguir o marido no futebol – foi assim por mais um ano. Mas houve um dia em que tudo mudou.

O destino sorriu pro casal boleiro de novo, e César foi jogar perto de São Paulo. Ali havia o Centro Olímpico, time de futebol feminino tradicional da capital e ela conseguiu fazer um teste. Em 2013 estaria sua "última" oportunidade pra jogar futebol profissionalmente – e essa ela não largaria mais. Foi do Centro Olímpico para ser a lateral da seleção brasileira, de lá para a Copa do Mundo, o Pan-Americano (onde conquistou o ouro), a Olimpíada de 2016 e o auge da carreira que vive agora.

Só que nesse meio do caminho, quase houve um obstáculo. Quando Tamires voltou do Pan em agosto de 2015, ela recebeu uma proposta do Fortuna Hjørring, clube da Dinamarca. Nessa hora, foi a vez do marido abandonar a carreira para acompanhá-la.

Foto: CBF

"Ele viu que era uma oportunidade boa e falou: você deixou sua carreira duas vezes, agora é hora de eu te acompanhar".

Novo país

Tamires, César e Bernardo se mudaram quando o menino tinha 4 pra 5 anos. No início, a dificuldade de adaptação dele foi imensa e partia o coração dela.

"Levava na escola, e ele não queria ficar de jeito nenhum, chorava bastante, meu coração partia. Teve momento que a gente deixou ele não ir para a escola, mas isso não ia fazer bem pra ele. Aí seguramos a onda, deixava ele lá mesmo chorando. Passando os dias ele foi se adaptando muito bem, hoje está tranquilo", contou.

Aos poucos, tudo foi se encaixando. César também passou por um período difícil, sem conseguir emprego por conta da língua e ficou um tempo como "dono de casa". Mas hoje ele trabalha no clube em que Tamires joga.

"No início foi mais difícil para arrumar trabalho, ele não fala a língua, tem todo o período de adaptação. Ele fez alguns trabalhos aqui pontuais, mas aí nessa renovação de contrato, a gente negociou um trabalho para o Cesar. Então ele trabalha no clube, faz tudo lá, até ajuda a gente no treino coletivo quando falta alguém".

A responsabilidade de cuidar de Bernardo é bem dividida, mas Tamires não deixa de ouvir alguns comentários sobre sua rotina itinerante do futebol.

"As pessoas dizem; vai ficar um mês fora? E o Bernardo? E o César?"

Mas ela se acostumou a essa rotina e diz que hoje joga não só pelo seu sonho, mas pelo Bernardo e pelo Cesar também. Só que ela admite: as viagens são a parte mais difícil da rotina de mãe-atleta. "A gente às vezes tem que ficar um mês sem se ver é a saudade aperta. Ele entende, mas também solta às vezes: mãe, por que você não para de jogar e me da um irmãozinho?", brinca.

A resposta vem em forma de promessa – só para lá de 2020, depois da Olimpíada.

Mãe, mulher e atleta

Bernardo não fazia parte dos planos de Tamires quando ela tinha 21 anos, mas hoje ela entende que foi até bom tê-lo "tão cedo".

"Eu vejo muitas meninas no futebol com o sonho de ser mãe. Quando elas falam comigo, elas falam: mas já estou com 27, 29, como eu vou voltar? É essa indecisão de ser mãe ou continuar jogando. É difícil explicar ou aconselhar, até. Hoje entendo que foi melhor eu ter tido cedo, porque me deu a chance de voltar."

Foto: CBF

Ela convive com o dilema das jogadoras que sonham em ser mães, mas evitam pensar nisso por conta da carreira. Se no mercado de trabalho já é difícil ser mulher e mãe, no esporte e quase uma escolha eliminatória: se optar por um, vai ter que abdicar do outro.

"Os clubes têm que começar a pensar nisso. É uma coisa que a gente tem que mudar no Brasil, resolver essa situação. Toda mulher pode ter o sonho de ser mãe e também pode ter o sonho de jogar bola. Não tem que ser empecilho", pontuou.

Tamires defende que haja uma estrutura que permita à mulher atleta engravidar com o respaldo do clube para que um sonho não interrompa o outro.

"É um sentimento que não consigo descrever, hoje eu me sinto muito mais forte como mulher, profissional de enfrentar as dificuldades que a vida traz. No momento que descobri que eu estava grávida foi difícil, mas hoje eu diria é a coisa mais maravilhosa que aconteceu na minha vida. Eu chegar do treino ver ele abrindo a porta com sorriso e me dando abraço, não tem coisa mais gratificante. É um presente."

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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