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Como Corinthians foi à 3ª final seguida e virou dominante entre as mulheres

Renata Mendonça

16/09/2019 11h06

Foto: Divulgação Corinthians

Faz três anos que o Corinthians voltou a investir no futebol feminino – primeiro por meio de uma parceria com o Audax, depois trazendo a modalidade para o clube – e, desde então, não houve uma temporada que o time tenha passado em branco. Campeão da (extinta) Copa do Brasil em 2016, campeão da Libertadores em 2017 e campeão brasileiro em 2018.

Agora, em 2019, o clube chega fortíssimo nas três competições que disputa: está na semifinal do Paulista, na final do Brasileiro e embarcará para a disputa da Libertadores em outubro. A equipe comandada por Arthur Elias desde o início do projeto acumula uma sequência impressionante de 33 vitórias consecutivas. Não, você não leu errado. São 33 jogos sem derrota, sem empate, sempre terminando a partida à frente do placar. A última vítima foi o Flamengo, que empresta a camisa para um time muito bem treinado na Marinha e, mesmo assim, não conseguiu surpreender o Corinthians em nenhum dos dois jogos das semifinais – perdeu o primeiro por 2 a 1 e foi derrotado por 2 a 0 no último domingo no Parque São Jorge.

Diante do que se vê em campo, fica difícil imaginar uma equipe brasileira que poderia "parar" o Corinthians no atual cenário. A última derrota do time alvinegro foi no dia 21 de março, justamente para o Santos, equipe que conta com um investimento parecido, mas depois disso, os dois clubes já se enfrentaram novamente, e o Corinthians saiu em vantagem.

Fora de campo, também tem sido difícil encontrar um projeto com a mesma excelência do clube do Parque São Jorge. Isso é, inclusive, um dos fatores que ajudam a explicar tamanho sucesso. Com uma estrutura muito forte oferecida para o elenco treinar – a mesma utilizada pelo futebol de base do Corinthians – e um trabalho forte de divulgação e marketing (incluindo redes sociais exclusivas para a equipe feminina, e uma embaixadora do futebol feminino, que é Milene Domingues), o clube vai se consolidando como o mais forte no cenário do futebol das mulheres no país. Se há ainda uma "falha" nessa gestão, é o fato de as jogadoras ainda não terem carteira assinada.

Foto: Divulgação Corinthians

Investimento contínuo

A estratégia do Corinthians de voltar ao futebol feminino com uma parceria acabou sendo importante para convencer o clube internamente de que aquele era um investimento que valeria a pena. Enquanto atuava como "Corinthians Audax", os coordenadores do projeto também trabalhavam nos bastidores a ideia de trazer o futebol feminino para a estrutura do próprio clube alvinegro. Conforme resumiu a diretora da modalidade desde aquela época, Cris Gambaré, o Corinthians "fez a lição de casa fora de casa", mas isso também fez parte do processo no caminho do sucesso.

"Foi uma trajetória que nós fizemos importante, começando com a parceria com o Audax, até o crescimento da modalidade. Trabalhando juntos por 12 meses lá e isso foi importante para que tudo desse certo. Nós fizemos a lição de casa na casa dos outros, aprendemos, erramos, acertamos, e optamos por estar no clube em gestão própria. Isso sempre compartilhado com apoio da presidência, da diretoria", explicou Cris às dibradoras.

 

"Conseguimos trazer a modalidade e fazer esse trabalho aqui dentro. Foi quando a gente começou a entender o que é o futebol feminino, as deficiências de campeonatos, as necessidades das meninas, entendemos internamente e conseguimos buscar os melhores caminhos. Lógico que um time de camisa facilita, mas se você não tiver um bom direcionamento, um bom trabalho, você não chega a lugar nenhum", resumiu. 

Falando em "bom direcionamento", isso passa também pelas pessoas escolhidas pelo clube para tocar o projeto. Cris Gambaré é a responsável pelas questões fora de campo, e Arthur Elias é o cara para armar um time competitivo dentro de campo. A parceria dos dois tem sido muito bem-sucedida em ambos os lados. Primeiro porque Cris tem conseguido o apoio do clube para fazer os investimentos necessários na equipe – atualmente, o Corinthians é o time com maior orçamento na modalidade – e segundo porque Arthur tem montado um time quase que imbatível, que funciona muito bem mesmo quando tem inúmeras peças trocadas.

"O fato de termos uma boa sequência do trabalho, com a mesma comissão técnica, uma base do grupo se mantendo e contratando atletas com características favoráveis para adaptação a nossa maneira de jogar, contribuiu muito. O tempo de trabalho nos trouxe muita consistência tática, hoje trabalho com diferentes sistemas e estratégias, e as atletas entendem e executam muito bem porque temos comportamentos treinados que não mudam e uma identidade de jogo muito bem formada", explicou Arthur.

(Foto: Mauro Horita)

Conquistas fora de campo

O fato de ter montado um projeto muito bom fez com que o Corinthians conseguisse resultados expressivos (títulos) já no início do trabalho no futebol feminino e isso, claro, ajudou o clube a começar a "gostar da ideia" de investir na modalidade.

Com isso, algumas pequenas "conquistas" foram somadas também fora de campo. Por exemplo, o Corinthians tem seu próprio ônibus personalizado para a equipe feminina. As redes sociais são exclusivas delas, o que permite uma produção maior de conteúdo sobre as jogadoras e também um engajamento maior do público – aliás, permite, inclusive, a construção de um público "específico" do futebol feminino. Não há um descolamento da equipe feminina das outras categorias, mas o fato de a comunicação ser exclusiva delas naquelas redes faz com que haja uma atenção maior para elas ali.

Foto: Divulgação Corinthians

Há também o uso do símbolo das conquistas recentes do clube na camisa das mulheres. Elas entram em campo com as "badges" comemorativas do título brasileiro em 2018 e da Libertadores em 2017.

Além disso, o Corinthians trouxe Milene Domingues para ser a embaixadora oficial da modalidade. Ex-jogadora e declaradamente corintiana, ela é a responsável por divulgar jogos, treinos e todas as atividades da equipe das mulheres. É comentarista nas transmissões da TV Corinthians e ajuda muito na promoção da imagem do time.

Foto: Divulgação Corinthians

"Hoje me orgulho de estar no Corinthians e de ter feito esse trabalho. É uma responsabilidade muito grande, hoje eles estão começando a respeitar a modalidade, então tenho muito orgulho do que estamos fazendo e onde queremos chegar. Temos uma embaixadora que nos ajuda muito. Estamos fazendo um feito histórico para o Corinthians e para o futebol feminino", finalizou Cris.

"Nosso desafio é, fora do campo contribuir para tomadas de decisões importantes internamente pra ganharmos em estrutura de trabalho, respeito e conhecimento do futebol feminino, e dentro do campo treinar e conduzir a equipe para atuar dessa maneira, futebol bem jogado, com organização, variações e eficiência. É um trabalho exaustivo mas a recompensa é muito boa", pontuou Arthur.

 

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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