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Escola de futebol gratuita e exclusiva para meninas? Esse lugar existe

Roberta Nina

08/08/2019 11h14

(Foto: Divulgação)

Ainda são raros os espaços em que as meninas são aceitas e bem-vindas para jogar futebol. E quando se pensa em um espaço exclusivo para garotas, a busca fica ainda mais difícil, mas ele existe. E o melhor de tudo: de forma gratuita.

Este lugar é a ACAFF – Academia de Futebol Feminino, que nasceu da vontade de Isaque Guimarães em fazer algo para ajudar a desenvolver a prática entre as meninas. Criada em 2016, a iniciativa atende 260 meninas que desejam praticar futebol e boa parte delas são do Grande ABC e de regiões vizinhas.

As aulas acontecem aos sábado e às quartas-feiras para meninas a partir dos 7 anos de idade.

Pontapé inicial 

Quando era mais novo, Isaque teve a oportunidade de treinar em escolinhas de futebol e chegou até mesmo a defender as equipes de base do Corinthians e do São Paulo. Aos 18 anos, ele começou a dar aulas de futebol para meninos em uma escolinha em São Bernardo do Campo, mas foi em 2007 que a chegada de uma garota de 18 anos mudou o rumo de atuação de Isaque.

"Uma menina nos procurou dizendo que nunca havia praticado o esporte, mas tinha vontade de jogar e não encontrava lugares. Eu comecei a trabalhar com ela e vi que tinha um enorme potencial. Pouco depois, ela jogou no clube da cidade e passou em uma avaliação física no Santos, que na época era treinado pelo Kleiton Lima", contou às dibradoras.

Isaque comandando o treino com meninas da categorias Sub-9 e Sub-11 (Foto: Divulgação)

De uma única menina, ele passou a ter um grupo de 30 interessadas, todas na faixa etária de 17 anos. Para atendê-las, Isaque firmou parceria para usar o espaço de escolinhas de clubes de São Paulo para oferecer treinos mistos de futebol (com meninos e meninas jogando juntos). "Em 2016 tive a vontade de criar algo independente, porque ficava a mercê do espaço cedido pelos clubes e, de repente, acabavam as parcerias e o projeto tinha que ser interrompido. Aí pensei em criar um espaço onde as meninas não só jogassem futebol, mas que também pudessem aprender"

Impulsionado pelo ano olímpico, Isaque iniciou o projeto da ACAFF com 15 meninas em torno de 17 e 18 anos. Com o término da Rio-2016, o interesse pelo futebol feminino cresceu e o número de participantes aumentou para 60, contemplando inclusive as mais novas, de 14 anos em diante. 

Atualmente, o espaço onde a ACAFF oferece seus treinos nasceu de uma parceria firmada com a Secretaria de Esportes de São Bernardo do Campo em 2017, que cedeu os campos do CREC (Clube Recreativo Esportivo Cultural) Baetinha para a prática esportiva. Depois disso, a turma aumentou ainda mais, chegando a 260 meninas.

"Pai, eu também quero jogar"

Isaque tem dois filhos, a Maria Eduarda de 10 anos e Eduardo Luciano de 13. Sua esposa Evelyn, de 32, também joga no projeto – que oferece treinos inclusive na categoria adulta (maiores de 22 anos). E ao ver os pais envolvidos com o futebol, Maria Eduarda fez seu pedido. "Pai, você me leva para ver os treinos? Meu irmão e minha mãe jogam e você toma conta do time. Eu quero jogar também."

Maria Eduarda, filha de Isaque, de chuteira azul (Foto: Divulgação)

Na época ela tinha sete anos, e não havia turmas dessa idade nos treinos. Até que certo dia apareceu mais uma interessada. "Colocamos as duas para jogar com as meninas de 13, com toda supervisão e cuidado necessário e, a partir de publicações de fotos delas nas redes sociais, outras meninas vieram", contou. Hoje, a turma iniciada por elas tem 60 meninas.

Elenco formado por pais e filhos 

Oferecendo estrutura e treinamentos de forma voluntária até então, Isaque está prestes a transformar a ACAFF em uma ONG para que, dessa forma, ele possa receber auxílios e contar com patrocinadores para bancar alguns custos do projeto. "Conto com a ajuda de pais dos alunos. Uns são advogados, outros contadores, e assim vamos viabilizar a mudança para nos tornarmos uma associação. Minha ideia é ampliar o trabalho e abrir mais dois espaços em São Paulo", contou.

Isaque com seus filhos que treinam na ACAFF (Foto: Divulgação)

Referência no ABC, o projeto conta com a ajuda de seis profissionais: três de Educação Física e outros três que auxiliam na parte de marketing e apoio administrativo.

Entre os talentos que passaram por lá, Isaque destaca a história de Julia Moni que chegou na ACAFF com 20 anos. Ela sempre gostou de jogar futebol, mas foi desencorajada a praticar logo cedo por não conseguir encontrar escolinhas.

"Cheguei na ACAFF para jogar como hobby. Achava que já estava velha demais para correr atrás disso e também não tinha uma formação base", nos contou Julia. Segundo ela, mais do que auxiliar em campo, o projeto a ajudou a crescer como pessoa. "Na época que comecei a treinar, eu estava muito triste, de repente comecei a querer ir jogar todo sábado. Me ajudou muito na questão de ansiedade também e me deu coragem para treinar em outros lugares", contou.

E foi também na base da brincadeira, mas com muita coragem, que ela participou de uma peneira no Juventus e foi aprovada, aos 22 anos de idade. "Na época eu fazia estágio e foi muito difícil a decisão de largar o trabalho para poder jogar. Conversei com meus pais e entendi que era uma oportunidade que acontece uma vez na vida"

Julia é formada em Arquitetura e está defendendo o Juventus há um ano. Ela largou um estágio na Mercedes-Benz para se tornar jogadora de futebol. Neste ano, chegou a defender a equipe no Campeonato Paulista, mas não tem vínculo nenhum com o clube.

Por ter começado na modalidade de maneira tardia, Julia sente que ainda está em desvantagem em comparação com suas colegas de time. "Quando entrei no Juventus percebi que ainda preciso crescer muito em questão de fundamento. Falta muita coisa em mim e estou tendo que correr atrás agora", revelou a garota que segue treinando aos sábados na ACAFF e ainda tem a família envolvida no projeto: sua mãe auxilia na parte administrativa e seu pai é um dos professores. 

Outro grande nome que tem participado dos treinos na ACAFF é Julia Rosado, mais conhecida como Juju Gol. Hoje, com 9 anos, mas treinando desde os cinco, Juju coleciona conquistas. Ela foi a primeira menina federada no Brasil a disputar torneios contra meninos. Além disso, joga pelo PSG Academy Brasil (projeto de jovens atletas fundado pelo Paris Saint-Germain),  pelo Resende, do Rio de Janeiro, Centro Olímpico e agora também veste a camisa da ACAFF. 

E foi defendendo o projeto do ABC que Juju entrou em campo pela IberCup, um dos maiores e mais tradicionais torneios de futebol juvenil que, pela primeira vez, abriu espaço para a categoria feminina. 

"A ACAFF é um projeto que acolhe e agrega. Já vi a Julia jogando bola feliz em muitos lugares, mas lá, a Julia passa o dia inteiro sorrindo. A ACAFF é tudo que o futebol feminino precisa: tem apoio, treinamento de qualidade com meninas que começam aos seis anos de idade e quando eu vejo essa turma, eu volto três anos atrás que foi como a Julia começou. E ver um projeto desse só com meninas dá uma alegria muito grande pra gente", declarou Wellington Souza, pai da Juju Gol. 

Laura Ribeiro, de 10 anos, também jogou a IberCup pela ACAFF. Ela está treinando no projeto desde maio.

Laura (na fileira de baixo, ao centro, de chuteira verde) na IberCup (Foto: Divulgação)

Jaqueline Ribeiro, de 34 anos, é mãe da Laura, que desde muito pequena se interessou por esportes. Para ela, a ACAFF fez toda a diferença, já que fez com que a filha jogasse ao lado de outras meninas.

"Queria que ela soubesse que existem outras meninas como ela, queria que o discurso 'mulher pode fazer o que quiser – inclusive jogar futebol' fosse vivenciado e não visto como uma filosofia distante da realidade dela. Aí conheci a ACAFF e  posso te dizer que eles não perdem em nada para uma escolinha de futebol paga. O treinamento deles é bem completo, eles dão oportunidades para meninas de todas as classes sociais e de graça. É possível perceber o amor e a dedicação de cada profissional durante as aulas e saber que eles fazem isso somente por amor ao futebol feminino é motivador", contou Jaqueline.

Enquanto não consegue atender mais meninas, Isaque mantém uma lista de espera com mais de 40 meninas e batalha para abrir mais unidades. Para ele,  oferecer o futebol para as meninas é mais do que competir, é uma forma de lazer.

Para nós, é até mais do que isso, sua inciativa dá oportunidade e encoraja meninas e mulheres de todas as idades, quebrando antigas barreiras e abrindo novos caminhos para quem ama o esporte. Na ACAFF, elas podem crescer em um espaço só delas, longe de proibições e julgamentos. Graças ao apoio dele podemos afirmar que a base vem forte!

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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