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O nome dessa Copa é Megan Rapinoe

Renata Mendonça

07/07/2019 14h18

Foto: AFP

Os Estados Unidos conquistaram o tetracampeonato mundial neste domingo com muita propriedade na vitória por 2 a 0 sobre a campeã europeia Holanda e não dá para negar que esse título teve uma protagonista: Megan Rapinoe. Escolhida melhor jogadora da Copa do Mundo, ela também faturou o prêmio de artilheira do torneio e reinou absoluta nesta final.

A capitã americana terminou a campanha nesta Copa do Mundo com seis gols nas seis partidas que disputou, sendo a grande maioria deles nos jogos decisivos. Nas oitavas de final contra a Espanha, Rapinoe fez os dois gols da vitória por 2 a 1, convertendo dois pênaltis perfeitos para garantir a classificação.

Depois, diante da França, a camisa 15 mais uma vez deixou o dela logo nos primeiros minutos, em cobrança de falta, e ainda fez mais um para fechar o placar por 2 a 1 em cima das donas da casa. Contra a Inglaterra na semifinal, não pode jogar por conta de uma lesão na coxa, mas voltou para a final e, mais uma vez, foi decisiva. Após o pênalti anotado em cima de Morgan aos 15 minutos do segundo tempo, mais uma vez Rapinoe se apresentou para bater e, com toda a frieza que lhe é característica, abriu o placar para as americanas.

Foi um gol importante, porque o jogo não estava fácil para as favoritas ao título. A Holanda se fechou muito bem e não estava deixando os Estados Unidos chegarem. A partir desse gol, o campo se abriu mais para as americanas, que conseguiram inclusive ampliar o placar com golaço da jovem Rose Lavelle.

Mas o protagonismo de Rapinoe não ficou só dentro do campo. Além de ter sido uma das melhores jogadoras desta Copa, com performances consistentes e decisivas, a atacante teve uma grande atuação fora das quatro linhas, pela defesa da igualdade de gênero no futebol, com duras críticas à Fifa e até mesmo ao governo de Donald Trump.

"Acho que Megan (Rapinoe) foi feita pra esses momentos, pra ser essa líder. Eu fui a coletivas com ela, ela é eloquente e fala com o coração. Precisamos de pessoas assim. Acho que ela sempre lidou muito bem com isso, com a pressão. Quanto maior é o desafio, mais ela brilha", elogiou a técnica Jill Ellis.

Alex Morgan também não poupou elogios: "Pinoe é a melhor companheira de equipe que alguém pode ter. Ela mostrou para o mundo a pessoa verdadeira que é e que nós já conhecíamos há muito tempo.

A primeira polêmica que ganhou as manchetes dos jornais do mundo todo durante o Mundial foi relacionada ao presidente dos Estados Unidos. Rapinoe, que já não canta o hino em protesto contra o racismo (ela foi uma das únicas atletas brancas a ajoelhar durante o hino em apoio ao quarterback Colin Kaepernick), falou em uma entrevista que não iria "à m**** da Casa Branca" caso a seleção americana fosse campeã do mundo. Assim que esse assunto veio à tona, a capitã compareceu à entrevista coletiva dos Estados Unidos e reiterou sua opinião.

Foto: Reuters

"Eu mantenho o que eu disse sobre não ir à Casa Branca, com a exceção do palavrão. Minha mãe ficaria muito chateada com isso", afirmou, diante de mais de 100 jornalistas do mundo todo.

"Acredito que eu reagi com muita paixão (naquela entrevista), considerando o tempo, o esforço e o orgulho que nós temos por estarmos nessa plataforma. E aqui nós tentamos usar essa plataforma da melhor maneira possível, para fazer um jogo melhor, quem sabe um mundo melhor também. Então eu não acho que eu gostaria de ir e incentivaria minhas companheiras a pensar muito antes de emprestar essa plataforma para uma administração que não luta pelas mesmas coisas que lutamos."

Ativista LGBT, Rapinoe também falou sobre isso logo após a vitória contra a França que eliminou as donas da casa. O jogo aconteceu no dia do orgulho LGBT e ela não deixou de reforçar sua luta por essa causa. "Você não pode ganhar um campeonato sem gays no seu time. A ciência diz isso".

E à véspera da final, a atacante esteve na coletiva de imprensa ao lado da técnica Jill Ellis e roubou a cena. O que normalmente costuma ser uma entrevista cheia de clichês de um pré-jogo como esse virou um momento importante de reivindicações pelo futebol feminino com a voz de Rapinoe. A primeira crítica ficou por conta das três finais de campeonato acontecendo no mesmo dia – final da Concacaf (EUA x México), final da Copa América (Brasil x Peru) e final da Copa do Mundo.

"Péssima ideia colocar tudo ao mesmo tempo. Essa é a final da Copa do Mundo, cancelem todo o resto. Não dá para entender como isso aconteceu. Ouvi dizer que eles não pensaram sobre isso. Sério? Merecemos respeito", afirmou.

Depois, falou sobre a necessidade de se olhar para o futebol feminino como um negócio e investir nas mulheres. Quando questionada sobre o que precisaria acontecer para manter a modalidade no auge depois da Copa, a camisa 15 respondeu.

"Money, money, money, money…MONEY!", brincou. "Eu realmente não entendo por que existe uma resistência em investir nas mulheres"Já está muito claro que as mulheres no esporte não foram tratadas com o mesmo cuidado ou com os mesmos recursos financeiros que os esportes masculinos têm. Ninguém consegue ter um negócio lucrativo sem investir nele. O futebol feminino já provou que vale a pena".

Foto: AFP

Para fechar, Rapinoe ainda alfinetou a Fifa por não valorizar o futebol feminino da mesma maneira como valoriza o futebol dos homens. Uma repórter perguntou sobre a diferença de premiação entre as Copas do Mundo, que irá aumentar na próxima edição, já que a entidade que rege o futebol mundial dobrou o prêmio do feminino, mas também aumentou bastante o do masculino.

"Não é justo. Se você se importa com o futebol feminino da mesma forma que se importa com o masculino, não deixaria a diferença crescer. Entendo que, por diversos motivos, o futebol masculino está financeiramente mais avançado que o feminino. Mas se você realmente se importasse, você deixaria essa diferença aumentar? Faria três finais no mesmo dia? Não faria."

Com a conquista da Copa, Rapinoe ressaltou o papel desse time americano para "mudar a realidade do futebol feminino". Mantendo a luta do lado de fora e o talento do lado de dentro.

"Conseguir casar toda essa luta fora de campo e sustentar essas palavras com performances de excelência, e depois sustentar essas performances com palavras é simplesmente incrível. Sinto que o time está num processo de mudar o mundo a nossa volta enquanto vivemos. É um sentimento incrível, muito especial".

Tudo isso fez de Megan Rapinoe o nome desta Copa do Mundo. Ela é uma atleta que não se cala diante das injustiças que acontecem ao seu redor e que ainda lidera as americanas em um processo judicial contra a US Soccer (confederação americana de futebol) por igualdade de condições de trabalho e de pagamento com relação à seleção masculina. Para além de ser craque dentro de campo, Rapinoe é um exemplo gigantesco fora dele e merece todas as nossas reverências.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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