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Copa da França faz sonho do futebol ser possível também para mulheres

Renata Mendonça

30/06/2019 07h56

Foto: Fifa

A Copa do Mundo é o ápice da carreira de qualquer jogador(a). É a materialização daquele sonho que eles têm desde pequenos, desde quando chutam a primeira bola. Um menino assiste a uma Copa já imaginando que um dia ele poderá estar lá, representando seu país, cantando o hino, comemorando um gol, com a certeza de que todos os olhos do mundo estão ali, naquele jogo, naquele momento. Uma menina que gosta de futebol vive mais ou menos a mesma experiência – com a diferença de que ela tinha que olhar a televisão e se inspirar nos homens que estavam ali, que não eram como ela.

Uma garota que queria jogar futebol precisou sempre sonhar com aquilo que ela sabia que não iria acontecer. Porque ela não poderia ser Ronaldinho, Zidane, Iniesta…apesar de sonhar em ser como eles. É mais ou menos como a holandesa Lieke Martens descreveu ao "The Player's Tribune". Ela, que venceu o prêmio de melhor do mundo da Fifa em 2017, conquistou a Eurocopa, jogou pelo Barcelona, viajou junto com Messi, confessou: nunca sonhou com nada disso. Não porque não desejava viver essas coisas, mas simplesmente porque achava que seria impossível.

"Como uma menina, eu nunca sonhei com nada disso. Nunca pensei que pudesse ganhar a Euro, nunca me vi jogando pela Holanda. Não porque eu não queria sonhar. Mas porque eu não podia", afirmou a atacante holandesa.

Holanda disputa sua segunda Copa na história e já está na semifinal (Foto: Getty)

Foto: Divulgação

"Tudo o que eu sabia é que eu queria jogar futebol o tempo todo. Mas eu não tinha heroínas. Eu não podia olhar para uma mulher que estava fazendo aquilo que eu queria fazer. Nem sabia que a seleção holandesa feminina existia. Então eu sonhava com outra coisa. Eu queria jogar no Ajax, meu time na Holanda. Mas não no time feminino – no time masculino", contou.

Martens queria ser como eram seus ídolos – e todos os que ela conhecia eram homens. Quando criança, passou muitos anos treinando as jogadas de Cruyff na parede, tentando fazer os dribles de Ronaldinho Gaúcho na rua. Eram suas maiores inspirações. Naquela época, ela nem imaginava que um dia poderia disputar uma Copa do Mundo com mulheres. Que poderia ser ídolo no seu país. E que um dia ela própria se tornaria a inspiração para que as meninas de hoje possam sonhar os sonhos que para ela eram "proibidos".

Foto: Fifa

A história da holandesa se funde com a de todas essas mulheres que hoje vivem seu auge no  Mundial da França. Quando a lateral inglesa Lucy Bronze poderia imaginar que um dia estaria disputando uma Copa com seu ídolo David Beckham na arquibancada vibrando por um gol dela? A zagueira sueca Eriksson também nunca poderia prever que vestiria um uniforme no Mundial feito especialmente para a seleção feminina, com as mulheres que fizeram história em seu país estampadas nos números da camisa – e muito menos que poderia comemorar a classificação da sua equipe com o beijo mais sincero e cheio de amor na sua companheira de vida, a dinamarquesa Pernille Harder. Todas essas mulheres cresceram com sua liberdade restrita por serem meninas. Hoje, podem celebrar a liberdade conquistada em plena Copa do Mundo.

Foto: Fifa

O sentimento de se classificar para uma semifinal de Copa deve ser indescritível de todas as formas, para todos os que chegam lá. Mas não dá para negar que para mulheres que passaram a vida inteira ouvindo que "futebol não é para elas" e que lutaram tanto pelo direito de ocupar esse campo e chutar essa bola, o sentimento não é só de conquista pelo resultado do jogo – é também de orgulho pelo resultado da luta. Chegamos, ocupamos, vencemos.

Foto: dibradoras

E o ápice de tudo isso está sendo celebrado em um Mundial histórico na França, com recordes de audiência quebrados em vários países – inclusive com o Brasil liderando o ranking com a maior audiência da história da Copa feminina – com jogos de altíssimo nível, muito disputados, estádios lotados e uma energia incrível.

Foto: Reprodução

Estive em 8 jogos deste Mundial até aqui e chamou a atenção a quantidade de crianças presentes em todos eles. Meninas, meninos, famílias inteiras presentes nas arquibancadas para ver o futebol delas. É lindo ver as garotinhas vestidas com as camisas das jogadoras que hoje elas têm como ídolos no campo. O futebol finalmente se tornou um sonho possível também para elas. Que venham as semis e a reta final desta Copa que já é um marco na história do esporte.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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