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O choro de Marta mudou. E a postura dela também.

Roberta Nina

25/06/2019 13h25

Foto: AFP

Mais do que superar uma lesão que aconteceu às vésperas da estreia e atingir o recorde ao marcar seu 17º gol em Mundiais, Marta demonstrou nesta Copa do Mundo uma postura bem diferente do que estávamos acostumadas a ver em outras competições.

Se dentro de campo ela deu o melhor de si, marcando gols em jogos importantes, multiplicando-se em diversos setores da equipe e orientando as mais novas, fora dele as palavras da Rainha foram mais precisas do que nunca, reforçando a luta por equidade de gênero, pedindo mais dedicação da nova geração, respondendo provocações à altura e até mesmo demonstrando a alegria com seu cavaquinho em mãos.

Mesmo eliminada com a seleção diante da França nas oitavas de final da Copa do Mundo, o papel da camisa 10 brasileira foi marcante e abre espaço para que mais posicionamentos do tipo surjam por parte do nome mais importante do futebol brasileiro.

A Marta dos velhos tempos

Se em sua primeira Copa em 2003, Marta ainda era uma menina que marcou apenas três gols e buscava seu lugar ao sol, no ciclo seguinte, em 2007, a jogadora foi uma das principais atletas que conduziu a seleção brasileira em uma final inédita. Marcou sete gols e foi a artilheira daquele Mundial, mas diante da Alemanha, o Brasil ficou com o vice-campeonato.

Após vice-campeonato em 2007, brasileiras protestam no pódio (Foto: Reprodução)

Naquele ano, um protesto tímido das jogadoras apareceu durante a premiação no pódio. "Brasil, precisamos de apoio" e em meio a tantos nomes ainda fortes e presentes na seleção, somente a timidez e a tristeza de Marta apareceram.

Em 2004, nos Jogos Olímpicos de Atenas, o Brasil também sentiu o amargo sabor da derrota em uma final. E foi na prorrogação para os Estados Unidos, cena que se repetiria quatro anos mais tarde, em Pequim. Foi nesta segunda prorrogação – contra o mesmo adversário – que um apelo de Marta ganhou destaque. Aos 5 minutos do segundo tempo da prorrogação, o Brasil estava atrás no placar e a jogadora perdeu uma chance de gol. Na sequência, levantou as mãos para o céu e disse: "O que foi que eu fiz de errado?".

Marta em Pequim (Reprodução/Youtube)

Jogando fora do país desde 2003, a torcida brasileira quase não acompanhou a trajetória de Marta. Os seis prêmios de melhor jogadora do mundo que conquistou foram noticiados, mas pouco comemorados e suas atuações em campo ganhavam conhecimento do público apenas em Copas e Olimpíadas. Infelizmente ninguém pode acompanhar com afinco uma temporada de Marta atuando em times da Suécia ou dos Estados Unidos.

E assim, quando ela aparecia para o público nas grandes competições, era sempre o choro de decepção que tomava conta da atleta. Nos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, nas quartas-de-final, o Brasil conseguiu avançar para a semifinal com muito sufoco, ao vencer a Austrália nos pênaltis por 7×6.

Marta abatida após derrota para a Suécia na semifinal da Rio-2016 (Foto: Leonhard Foeger / Reuters)

Marta foi a única jogadora do time a perder sua cobrança e o abatimento tomou conta da atleta. Quando Bárbara fez a primeira defesa, Marta caiu no choro, respirando aliviada. E, no momento em que a seleção se classificou após nova defesa de Bárbara, Marta precisou ser consolada pela comissão técnica tamanha foi sua emoção.

Depois da eliminação nos pênaltis para a Suécia na semifinal da Rio-2016 e da derrota para a o Canadá perdendo a medalha de bronze, a jogadora também saiu de campo visivelmente abalada e declarou: "Não deixem de apoiar o futebol feminino. Precisamos muito de vocês".

Três anos depois surge uma nova Marta

Marta chegou ao Mundial com o status de melhor jogadora do mundo, prêmio que recebeu em 2018. Além do reconhecimento dentro de campo, Marta foi nomeada pela ONU Mulheres como embaixadora global da Boa Vontade para mulheres e meninas no esporte. Com isso, o papel dela é dedicar seus esforços a apoiar o trabalho pela igualdade de gênero e empoderamento em todo o mundo, inspirando mulheres e meninas a desafiar estereótipos e superar barreiras, inclusive no esporte.

Marta é embaixadora da Boa Vontade na ONU (Foto: PNUD)

E foi ciente de seu papel que ela desembarcou na França. Ficou de fora no primeiro jogo, mas na partida seguinte diante da Austrália, com um gol pênalti, fez todo mundo reverenciá-la. Além de igualar a marca do alemão Miroslav Klose e marcar seu 16º gol em Copas do Mundo, a comemoração de Marta foi simbólica.

Com uma chuteira preta nos pés, sem contar com nenhum patrocínio de marca de esportiva, a camisa 10 do Brasil chamou a atenção para o símbolo rosa e azul – fruto da iniciativa Go Equal que tem a camisa 10 do Brasil como uma de suas participantes – que trazia estampado no calçado reforçando a mensagem de equidade de gênero. Na saída, do campo, fez questão de dividir seu recorde com todas as mulheres.

No jogo seguinte, contra a Itália, a mensagem da Rainha ganhou duplo destaque. O primeiro foi por se tornar a única atleta (entre homens e mulheres) a marcar 17 gols em Copas do Mundo. Ela deixou Klose para trás e se tornou absoluta na artilharia. O discurso seguiu a mesma linha do anterior. "Esse recorde é nosso, é de todas as mulheres que estão lutando por melhorias em todos os setores. Divido (o recorde) com todas vocês que lutam, batalham e ainda têm que provar que são capazes de desempenhar qualquer tipo de atividade", declarou a jogadora. 

+ Marta divide a majestade com todas as mulheres – e é contestada por homens

Além do recorde, o batom que Marta usava foi muito destacado. De uma maneira muito sutil, a jogadora que não é patrocinada por nenhuma marca esportiva por não ter aceitado os valores oferecidos à ela, conseguiu atrair os holofotes e, de certa forma, fazer uma propaganda espontânea de uma marca de cosméticos brasileira que a patrocina.

Ou seja, só de aparecer em campo, por menos de 90 minutos, usando um simples batom, ela mostrou todo seu poder como influenciadora e deixou muito claro a força que sua imagem tem.

Antes de enfrentar a França, no mata-mata, outra grande aparição de Marta também foi destaque. A jogadora estampou a capa da Vogue – foi a primeira atleta a conseguir tal feito – numa foto poderosa, de vestido e com a bola nos pés sob o título "A vez de Marta".

Seria impensável imaginar alguns anos atrás que Marta pudesse estrelar campanhas milionárias e estampar capas de revistas renomadas – ainda mais de moda – como tem acontecido. Marta é uma mulher muito simples, de origem humilde e que não faz questão nenhuma de negar suas raízes. Talvez esse seu comportamento tenha a afastado dos holofotes por muitos anos, mas hoje, com seus feitos e conquistas, é um erro sem tamanho ignorar a força que essa mulher tem de engajar pessoas – especialmente as mulheres – por toda sua história de vida.

Para o jogo contra a França, repetindo o sucesso da aparição anterior, mudou a cor do batom – usando o vermelho desta vez -, e não abriu mão de seu cavaco no caminho rumo ao Stade Oceane, em Le Havre.

Dentro de campo, a vitória não veio, mas o Brasil jogou de igual para igual contra as donas da casa. A derrota por 2×1 na prorrogação, nessa ocasião, não foi sentida com tristeza ou com abalo pela camisa 10. Ao contrário de tantas outras vezes, Marta foi firme nas palavras e mais do que pedir apoio aos torcedores e aos órgãos que cuidam do futebol feminino, ela discursou em tom de cobrança para as próximas gerações de jogadoras.

"Tem que chorar no começo, pra sorrir no fim. Querer mais, treinar mais, se cuidar mais. Estar pronta pra jogar o quanto for. Não vai ter Marta, Cristiane, Formiga pra sempre. Chore no começo pra sorrir no fim", disse Marta.

Além das mensagens importantes, Marta também soube fazer críticas. Rebateu a declaração da treinadora Emily Lima que disse que não a levaria para uma Copa do Mundo se não estivesse 100% preparada. "Foi uma declaração sem conhecimento nenhum, mas vindo dela, eu já esperava isso. Sempre que ela tem oportunidade, ela ataca, e ataca muito mais desmerecendo um trabalho que a gente faz", respondeu. 

E também manteve uma postura firme após a eliminação quando um repórter local a questionou dizendo que mais uma vez o Brasil era eliminado pela França. A jogadora perguntou quando isso havia acontecido e o jornalista citou os anos de 98 e 86. Visivelmente incomodada com a comparação descabida entre o masculino e feminino, limitou-se a dizer "eu não tinha nem nascido" e saiu de cena.

Independentemente do título, essa Copa do Mundo coloca Marta em um patamar muito mais alto do que nas oportunidades anteriores. Primeiro porque a visibilidade em torno da competição foi muito maior do que as passadas e depois por todos os momentos em que ela foi protagonista.

Desde a contusão pouco antes da estreia, a luta pra se recuperar, as atuações importantes mesmo sem estar 100% preparada, recordes quebrados, prêmios recebidos, posicionamentos precisos que ecoaram Brasil afora, capa de revista de renomada, o uso do batom, aula de liderança (não só na fala, mas conduzindo o time com o talento e sendo solidária marcando lateral) e por aí vai.

Se muita gente ainda tinha ressalvas em relação aos posicionamentos de Marta, depois dessa Copa precisam valorizar suas palavras e atitudes. São inúmeros os momentos em que ela protagonizou dentro ou fora do campo, de chuteira como jogadora ou como celebridade que é sob os holofotes. Que não pare por aí, o Brasil precisa da voz de uma mulher reconhecida por seus feitos e agora engajada, como ela demonstrou ser.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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