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Marta divide a majestade com todas as mulheres - e é contestada por homens

Roberta Nina

20/06/2019 07h43

Foto: CBF

"É da gente, esse recorde é nosso, é de todas as mulheres que estão lutando por melhorias em todos os setores". Foram essas as palavras que Marta disse após conquistar o feito de ser a maior artilheira da história das Copas.

Não me lembro qual foi o discurso de Klose ou Ronaldo quando conquistaram essa marca pessoal no passado, mas geralmente os atletas creditam seus objetivos a Deus, aos familiares ou a alguém que o ajudou a chegar lá. Mas, que eu me lembre, nunca dividiram com uma parcela da população que precisa de representatividade como Marta fez.

No dia 18 de junho de 2019, uma terça-feira, ela apareceu diferente em campo. De batom escuro nos lábios, já começou a chamar a atenção pelo visual bem diferente do que o habitual. O Stade du Hainaut, em Valenciennes, foi o palco onde, com um gol de pênalti convertido aos 28 minutos do segundo tempo contra a Itália, Marta se tornou absoluta.

Nos pés, a chuteira preta sem nenhum patrocínio reforça o abismo colossal que a sociedade – e especialmente o futebol – impõe às mulheres: as diferenças de oportunidades, de tratamento e de salários. E é sobre isso que ela se refere em suas declarações. "Divido (o recorde) com todas vocês que lutam, batalham e ainda têm que provar que são capazes de desempenhar qualquer tipo de atividade. É nosso esse recorde".

Foto: Getty

Se tornar a Rainha do futebol não foi fácil para Marta, sua trajetória de vida mostra isso, a partir do momento em que ela saiu de Dois Riachos, aos 14 anos, e entrou em um ônibus rumo ao Rio de Janeiro em busca de um sonho.

Hoje, aos 33 anos, com seis prêmios de melhor jogadora do mundo e 17 gols marcados em Copas do Mundo, ninguém duvida de que o feito da alagoana é imenso. Será?

Por que os feitos de mulheres são contestados?

O discurso feito por Marta, reforçando que as mulheres precisam se provar capazes de desempenhar qualquer função é muito verdadeiro e presente. E logo depois que alcançou o recorde de artilheira das Copas, o desmerecimento ou a diminuição da sua conquista apareceram nas redes sociais, na imprensa, na discussão entre torcedores.

Nunca se contestou de Ronaldo Fenômeno ou de Miroslav Klose o nível dos adversários que sofreram gols dos atacantes. Dos 16 de Klose, por exemplo, três foram contra Arábia Saudita, um contra Irlanda, outro contra Camarões – nenhuma delas são seleções de tradição no futebol. Mas, com Marta, o feito parece ser digno de avaliações mais profundas.

Foto: Reuters

Marta joga sua quinta Copa do Mundo e seus gols marcados foram em cima de seleções como Coréia do Sul (2), Noruega (3), Suécia, Nova Zelândia (2), China (2), Austrália (2), Estados Unidos (4) e Itália. – desses 8 adversários, quatro são do mais alto nível do futebol entre as mulheres. Mas, no fundo, o que isso importa?

A discussão aqui deve ir além dos adversários vazados por Marta. Se desejam estabelecer comparações entre os gêneros, deve-se levar em consideração as oportunidades que a brasileira teve durante toda sua trajetória para se tornar quem foi. Sua grande sorte foi ter nascido com um dom sobrenatural com a bola nos pés, porque se dependesse de apoio, de estrutura e oportunidades dentro de seu próprio país, ela jamais teria alcançado todos os seus feitos.

E mais: enquanto jogadores gozam de patrocínios vitalícios com marcas esportivas, Marta chega mais uma vez ao auge de uma conquista sem ter o apoio de nenhuma empresa esportiva. Isso é surreal!

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Quando @martavsilva10 fez seu 16º gol em Copas do Mundo na partida contra a Austrália, ela apontou para a chuteira ao comemorar. Usando um par todo preto, sem qualquer patrocínio, ela mostrou o símbolo da igualdade, metade azul, metade rosa. Marta foi disputar seu quinto Mundial sem patrocínio. Isso porque as ofertas que fizeram para a única atleta que já ganhou SEIS prêmios de melhor do mundo ficaram MUITO abaixo do que oferecem para qualquer jogador mediano do futebol masculino. A luta da jogadora é por IGUALDADE. Nem mais, nem menos do que eles, apenas o justo. Quando perguntamos a ela sobre o novo recorde atingido (compartilhando a artilharia da história das Copas com o alemão Klose), ela deu seu recado: "Meu novo recorde? Isso é uma igualdade de todas as mulheres. Não sei se vocês perceberam (aponta p/chuteira).Então, não gosto de falar, gosto de mostrar. Que a imagem possa falar por si só." O futebol das mulheres merece respeito, merece atenção e merece também investimento, por toda a luta que elas tiveram para chegar até os gramados. Nenhum homem foi proibido (por lei) de jogar bola, teve que brigar com os pais para poder jogar, ou teve que implorar na quadra para que o deixassem entrar. Não é justo comparar o futebol delas, que só existe até hoje porque resistiu, com o deles que sempre teve incentivo, visibilidade e reconhecimento. Não dá para falar em "mérito" quando não se tem o mesmo ponto de partida. Marta saiu muito atrás do que qualquer menino da idade dela. E superou todos eles. Mas chega a sua quinta Copa sem patrocínio pela falta de reconhecimento do seu valor. Mais uma vez, foi gigante ao demonstrar em campo sua luta pela igualdade de gênero em toda a sociedade. (A iniciativa é parte da @goequal__ , pela igualdade no futebol). Eterna RAINHA! (Fotos: Reuters e Go Equal) #futebol #futebolfeminino #marta #igualdade #igualdadedegenero #respeitaasmina #selecaofeminina #seleçãobrasileira #copadomundofeminina #copadomundo #mulheresfortes #guerreiras #guerreirasdobrasil #genderequality #womensfootball #girlpower #visibilidadeparaofutebolfeminino #dibrasnacopa

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Embaixadora da ONU Mulheres há alguns anos, é o discurso empoderado de Marta que tem aparecido recentemente em suas falas e gestos. As comemorações pós-gols levam a mensagem de equidade no esporte em sua chuteira, com um símbolo nas cores rosa e azul, justamente para reforçar a mensagem de igualdade de gênero.

As comparações entre o futebol masculino e o feminino – mesmo infundadas e sem propósito – sempre vão existir. O que não vai existir jamais é uma mulher capaz de representar tão bem a luta feminina como Marta. Ela buscou seu objetivo, venceu e no final de tudo, dividiu sua conquista com aquelas que, assim como ela, ainda sonham com uma sociedade mais justa. Esse foi o maior gol de Marta e ninguém vai poder contestá-lo.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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