Topo
Dibradoras

Dibradoras

Pela 1ª vez na história, Globo transmitirá seleção feminina na Copa

Renata Mendonça

10/12/2018 18h18

Foto: Minas Panagiotakis/Getty Images/AFP

Faltam seis meses para a Copa do Mundo de futebol feminino começar na França, e por aqui já há motivos para comemorarmos: pela primeira vez na história da competição (que começou em 1991), a TV Globo irá transmitir ao vivo todos os jogos da seleção feminina em um Mundial, conforme apurado pela reportagem do blog.

Pode parecer algo irrisório, mas é muito simbólico e significativo ver o futebol feminino chegando à maior emissora do país, que alcança uma audiência de 100 milhões de pessoas. Até a última edição do Mundial em 2015, a Copa feminina era um evento esportivo completamente ignorado pelas principais mídias do país.

Três anos atrás, o Sportv e a TV Brasil mostraram os jogos da seleção – a Band transmitiu o torneio, mas acabou não mostrando as primeiras partidas do Brasil na fase de grupos porque o horário coincidia com o da principal novela do canal -, mas nenhum dos canais fez uma cobertura do torneio, falando sobre ele ao longo da programação e divulgando os horários dos jogos.

Desta vez, os planos da Globo para a Copa feminina prometem ser grandes. O Sportv transmitirá todo o torneio, e o Globoesporte.com também mostrará os jogos do Brasil ao vivo – conforme foi confirmado pela própria emissora no sábado, dia do sorteio dos grupos do Mundial.

Isso tudo tem menos a ver com o momento da seleção brasileira – que, por sinal, está longe de ser bom, com o Brasil ocupando seu pior lugar no ranking da Fifa (10º) e acumulando resultados muito ruins contra as principais equipes do cenário mundial – e muito a ver com o momento que vivemos como sociedade.

Nos últimos anos, passamos a falar muito mais sobre os direitos das mulheres e isso gerou muitos questionamentos sobre os preconceitos que elas enfrentam também no esporte. A falta de atenção da mídia ao futebol feminino é também resultado dessa discriminação. O argumento é sempre o de que "não tem audiência" – mas se as televisões sequer transmitem o futebol feminino, como podem saber que não tem audiência? Aliás, a Olimpíada do Rio derrubou essa justificativa, já que a quarta maior audiência do país durante os Jogos veio justamente do futebol feminino, na partida entre Brasil x Austrália pelas quartas-de-final. A própria Copa do Mundo de 2015 teve uma audiência alta no mundo todo, com a estimativa de que 750 milhões de pessoas tenham acompanhado o torneio.

Seleção americana venceu a Copa de 2015, que teve audiência estimada em 750 milhões de pessoas acompanhando

Agora, as marcas e empresas de mídia começam a enxergar a importância de incluírem as mulheres nas propagandas e nas coberturas esportivas. E isso é o primeiro passo para uma mudança muito significativa na realidade do futebol feminino no país. A modalidade sofre com preconceito, falta de investimento, falta de estrutura (desde as escolinhas para meninas, que quase não existem, até os clubes de base, que também são raridade) e sempre foi negligenciada na mídia, como se simplesmente não existisse.

Mas é justamente essa visibilidade na TV que pode trazer uma realidade diferente para o futebol feminino, pode atrair patrocinadores, estimular clubes a investirem na modalidade e dar o grande empurrão que falta para que o futebol delas evolua. O vôlei é um grande exemplo sobre isso – nas últimas décadas, ele ultrapassou o basquete e garantiu o posto de segundo esporte mais popular do país muito por conta da visibilidade que ganhou na televisão, algo que impulsionou a modalidade em todos os âmbitos.

Os ídolos que nos inspiram estão na TV. Os meninos assistem aos jogos da Copa do Mundo sonhando em um dia poderem disputa-la dentro de campo. E até agora, as meninas também – elas sonham em ser como Neymar, como Coutinho ou Firmino, em vez de se inspirarem em Marta, Cristiane, Formiga. Mas a partir de 2019, as meninas também poderão se projetar naquelas que foram (e são) como elas: as "intrusas" do mundo da bola, aquelas que insistiram em jogar quando tudo em volta insistia em dizer que elas não poderiam estar ali. Vendo os dribles de Marta em campo pela televisão, os gols de Cristiane, as roubadas de bola de Formiga, as garotas de hoje poderão sonhar em ser as jogadoras de amanhã representando o Brasil em um Mundial.

É preciso valorizar, sim, essa conquista, porque ela também demorou tempo demais para vir – mas veio. A Band, principalmente nos tempos de Luciano do Vale, sempre foi uma incentivadora da modalidade e teve um grande papel na popularização do futebol feminino na década de 1990. A Globo agora pode também fazer parte de um novo capítulo na história da modalidade, uma fase de profissionalização e valorização. E de uma forma ou de outra, sem contar com a visibilidade na mídia, fica praticamente impossível conseguir mudar a realidade do futebol feminino.

Quartas-de-final entre Brasil e Austrália na Olimpíada foi a quarta maior audiência dos Jogos de 2016

Por isso é tão relevante essa "conquista" de ver o futebol feminino na TV aberta em 2019. Especialmente considerando que a Copa do Mundo delas será ao mesmo tempo em que o Brasil sediará a Copa América deles. E saber que haverá ao menos uma parcela de atenção dada à seleção feminina pela mídia no meio de um torneio em que a seleção masculina estará sob holofotes é importante.

O Mundial de 2019 promete ser histórico em vários sentidos: em termos de público, já tem batido recordes de vendas de ingresso; em termos de popularidade, ele também irá mostrar seu potencial, e em termos de audiência, ele também deverá surpreender, já que pela primeira vez, algumas das principais empresas de mídia (não só no Brasil, mas também em outros lugares do mundo) irão investir na Copa do Mundo das mulheres e transmitir os jogos com a mesma atenção que costuma ser dada aos homens.

Tudo começa a partir de 7 de junho – conheça os grupos sorteados, e os detalhes da competição.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

Dibradoras