Topo
Dibradoras

Dibradoras

4 mitos que as mulheres quebraram no futebol em 2018

Renata Mendonça

23/11/2018 08h54

(Foto: Getty Images)

Mulher não entende nada de futebol. Quantas vezes vocês, mulheres que nos leem, já ouviram essa máxima? E vocês, homens que estão passando por esse blog, quantas vezes já disseram isso para uma amiga, irmã, namorada ou desconhecida ao ver que ela esboçava se interessar pelo jogo que vocês estavam assistindo?

Talvez essa seja a frase que nós, amantes do futebol do sexo feminino, mais tenhamos ouvido na vida. E, no meu caso, passei muito tempo tentando de tudo para desmentir essa falácia e comprovar meus conhecimentos. Hoje em dia, parece que essa ideia tem ficado cada vez mais para trás – já não era sem tempo. Mas há ainda os que repetem com veemência: mulher não entende NADA de futebol.

Pois então aproveitamos esse espaço para falar desse e de outros mitos repetidos por aí sobre as mulheres nesse esporte bretão.

Antes de tudo, para trazer uma das definições de "mito" do dicionário que mais se encaixa nesse contexto: "Conhecimento inverídico e sem fundamento". É exatamente disso que se tratam os quatro itens citados abaixo:

1) Mulher não entende nada de futebol

A boa e velha falácia, se já não tinha caído por terra, a 2018 ela definitivamente não sobreviveu. Comecemos pelas notícias internacionais. Pela primeira vez, uma mulher comentou jogos da Copa do Mundo na televisão na América Latina. Ao vivo – e in loco -, Viviana Vila opinou em 13 transmissões da Telemundo no Mundial, uma rede de televisão latina nos Estados Unidos. Ela, que já tinha mais de 1000 jogos no currículo em toda a década que trabalhou com futebol, viveu seu auge na Rússia e representou muito bem as mulheres para dar um recado a quem insiste em repetir a besteira acima.

Ainda durante a Copa, a Fox Sports Brasil teve um programa inteiro comandado por mulheres para falar sobre os jogos. O "Comenta Quem Sabe" também foi uma grande conquista feminina para quem, até pouco tempo atrás, mal tinha representantes na televisão falando de futebol – a opinião por muito tempo foi um espaço restrito aos homens.

Ana Thaís Matos foi mais uma representante feminina durante o Mundial trazendo as análises táticas e técnicas sobre as seleções todos os dias no Troca de Passes, ao lado do ex-jogador Grafite, e do apresentador Thiago Maranhão. Deu tão certo, que hoje os três comandam o programa que vai ao ar de terça a domingo no Sportv.

Camila Carelli, da rádio Globo, é mais um novo talento dessa leva poderosa de mulheres ocupando a TV esportiva, juntamente com Juliana Cabral, ex-capitã da seleção feminina e hoje comentarista da ESPN. Todos esses nomes são só alguns exemplos para mostrar que a frase acima não faz mais nenhum sentido.

2) Mulher não sabe narrar

Essa aí ainda é bastante repetida por aí. Por termos passado muito tempo ouvindo apenas vozes masculinas na narração, ouvir uma mulher narrando ainda soa bastante "estranho", como dizem. Mas nada como a frequência para nos fazer acostumar com o diferente. E, desde 2017, quando Isabelly Morais foi a primeira a ter uma chance de narrar uma partida de futebol após pelo menos 18 anos – ela narrou um jogo do América-MG pela Série B na rádio Inconfidência -, muitas outras foram conquistando (ou reconquistando) esse espaço.

As três narradoras do Fox Sports: Renata Silveira, Isabelly Morais e Manuela Avena (Foto: Fox/Divulgação)

Na ESPN, houve Luciana Mariano, que chegou a narrar o Campeonato Pernambucano em 1999 e depois não teve mais chances no microfone. Ela foi convidada para voltar às transmissões em celebração ao dia da mulher na emissora e agora é contratada do canal, escalada para narrar toda semana.

O Esporte Interativo também abriu espaço para narrações femininas ao fazer o processo seletivo "A Narradora Lays", que escolheu Vivi Falconi para narrar a semifinal da Champions League deste ano in loco. Elaine Trevisan, que ficou em segundo lugar no concurso, também fez sucesso nos microfones e hoje ainda narra partidas pela Rede Vida, além de fazer alguas transmissões online.

Na Fox Sports, o "Narra Quem Sabe" também revelou três novas vozes femininas que chegaram a quebrar mais um tabu e foram as primeiras mulheres a narrarem jogos de Copa do Mundo no Brasil. Isabelly Morais, Renata Silveira e Manuela Avena fizeram muito sucesso durante o Mundial – não à toa, Isabelly hoje segue narrando na Rádio Inconfidência, e Renata Silveira foi contratada pela emissora.

Quer dizer, enquanto seguem repetindo que as mulheres não sabem narrar, elas seguem por aí narrando e inspirando outras mulheres a buscarem esse espaço.

3) Futebol feminino é chato

Já falamos bastante sobre isso aqui, mas nunca é demais repetir. Jogos chatos existem vários – boa parte deles estão na Série A do Campeonato Brasileiro, inclusive. Lances bizarros, frangos, tudo isso tem em qualquer futebol do mundo. Assim como existem lances bonitos também. O futebol feminino tem um contexto bem diferente do masculino e, também por isso, cultiva diferenças com relação a ele. Mas traz também partidas emocionantes, gols bonitos e lances geniais, como os de Marta, por exemplo.

Então em vez de repetir essa falácia, talvez a melhor estratégia fosse ir buscar um pouco de conhecimento sobre a modalidade.

 

4) Mulher não sabe jogar futebol

Essa é ótima também, porque ela não tem qualquer fundamento científico. É apenas uma opinião repetida sem pensar. Porque se parar para pensar, vai lembrar que a maior artilheira da história da seleção brasileira é uma mulher – Marta, que superou Pelé na marca dos 100 gols com a camisa amarela. E vai lembrar que a maior ganhadora de prêmios Bola de Ouro da Fifa também é uma mulher – Marta, com seis, superando Messe e Cristiano Ronaldo. E vai lembrar os lances mágicos dela, de Cristiane, Formiga, os gols de falta de Andressinha, a pintura feita por Brena, o golaço no ângulo de Yasmin e tantos outros – isso só para citar as brasileiras.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

Mais Dibradoras