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“Precisamos rever o ‘não falo sobre política’”, diz Carol Solberg

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30/11/2020 04h00

Foto: Reprodução

*Por Mariana Pereira

"Democracia: regime que se baseia na ideia de liberdade e de soberania popular; em oposição à ditadura, permite que os cidadãos se expressem livremente", a interpretação do site Dicio (Dicionário Online de Português) sobre a palavra "democracia" obviamente não se encaixa no que viveu a atleta de vôlei de praia, Carol Solberg, em 20 de setembro de 2020.

Mesmo absolvida pelo STJD após recorrer da advertência aplicada pela 1ª Comissão Disciplinar do Superior Tribunal de Justiça Desportiva, a atleta acredita que o que se passou com ela após o seu "Fora Bolsonaro" necessita de atenção. "Representa muita coisa a absolvição… Eu acho. Mas é o início de uma história que precisa ser vista com atenção, ter a real noção da gravidade e fortalecer esse lugar de termos liberdade. Fortalecer nossos direitos", falou Solberg.

Era a etapa de Saquarema do Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia, a jogadora de 33 anos acabara de ganhar a medalha de bronze ao lado da parceira Talita Antunes e aproveitou a entrevista pós-jogo para exercer a tal democracia que vivemos no Brasil. "Só para não esquecer, fora Bolsonaro", disse Carol ao microfone do SporTV. A partir daí, um turbilhão de acontecimentos.

"Os momentos seguintes já foram intensos. Deu para perceber uma movimentação sobre o assunto. Alguns vieram falar comigo ainda na competição e depois fui notificada sobre a denúncia", contou a atleta. Irritada com o posicionamento de Carol, a CBV se pronunciou no mesmo dia "repudiando" o ato que, segundo a entidade, "denegriu" a imagem da modalidade. Posteriormente, o subprocurador Wagner Dantas denunciou Solberg com base no regulamento da competição, pedindo pena máxima.

O episódio acendeu um importante debate no mundo esportivo, e pouco mais de dois meses após o ocorrido, ainda nos questionamos: Qual o papel do atleta na sociedade? Somos realmente livres para expressarmos aquilo que pensamos? Como ser conivente com um governo que valida o machismo, o racismo, a opressão?

Filha da ex-jogadora da seleção brasileira de vôlei, Isabel Salgado, e mãe de dois meninos (José, de 8 anos, e Salvador, de 4), com o fotógrafo Fernando Young, com quem é casada, Carol Solberg falou um pouco sobre essas questões.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista:

Dibradoras: Como foram os momentos seguintes após a declaração? Como chegou até você que o seu posicionamento teria causado irritação em alguns órgãos e pessoas?

Carol Solberg: Foram já intensos (os momentos seguintes). Deu para perceber uma movimentação sobre o assunto. Alguns vieram falar comigo ainda na competição e depois fui notificada sobre a denúncia.
Dibradoras: Foi uma das maiores decepções da sua vida? Conhecer de perto a censura num país considerado democrático?

Dibradoras: Foi uma das maiores decepções da sua vida? Conhecer de perto a censura num país considerado democrático?

Carol Solberg: Foi bem esquisito e difícil tudo isso, senti na pele a sensação de estar realmente vivendo tempos sombrios. Mas recebi muito apoio, acreditei o tempo inteiro que eu seria absolvida, pois eu tinha certeza de que não tinha feito nada contra a lei para estar sendo julgada. E por isso fui firme em recorrer (da decisão aplicada pela 1ª Comissão Disciplinar do Superior Tribunal de Justiça Desportiva).

Dibradoras: Na sua opinião, mudaria algo na repercussão da sua fala se fosse um homem ao dizer "Fora Bolsonaro", e não uma mulher?

Carol Solberg: Acho que qualquer pessoa que se manifeste contra esse governo vai ser atacado, mas sem dúvida nenhuma o fato de eu ser mulher fez com que essa história tomasse proporções muito maiores. Vivemos uma estrutura machista e quando um presidente valida isso publicamente, algumas dessas estruturas colocam em prática esse cerceamento. Esse é um governo extremamente machista e para eles é inadmissível ter uma atleta mulher se manifestando contra.

Foto: CBV

Dibradoras: Como foi/é a sua "educação" política para você ter consciência da importância de se posicionar diante de um governo como o que temos hoje?

Carol Solberg: Sempre troquei muito em casa sobre todos os assuntos, desde criança falávamos sobre tudo e política também sempre fez parte desses papos. O que estamos vivendo no Brasil é um pesadelo e acredito que a voz de cada cidadão tenha muita importância, acho fundamental nos posicionarmos diante de tanta barbárie.

Dibradoras: O que aconteceu na sua vida após o episódio? Como foram seus sentimentos, com quem você pôde contar durante aqueles momentos?

Carol Solberg: Minha vida ficou entre o equilíbrio e um turbilhão de coisas. Tentei continuar focada nos meus treinos, cuidar e curtir meus filhos, estar com meu marido. Me senti muito exposta e atacada, então foi muito importante ficar com as pessoas que fortalecem e também focar no meu trabalho. Meus irmãos, minha mãe, amigos queridos foram fundamentais.

Dibradoras: Que esperança podemos ter de atletas lutarem por causas importantes para a nossa sociedade? Estamos perto de ter isso, estamos longe?

Carol Solberg: Eu não sei… não vejo muito movimento dos atletas brasileiros querendo mudar isso. Mas tenho certeza de que tem muita gente incrível que gostaria de se posicionar e que ainda tem medo de sofrer punições ou passar por tudo isso que passei. Mas tenho esperança de que isso mude.

Dibradoras: Você tem esperança de que o Brasil tenha a mesma virada em 2022 que os Estados Unidos tiveram agora (Joe Biden derrotando Donald Trump na eleição presidencial)?

Carol Solberg: Tenho muita esperança! Acho que vamos conseguir passar por isso e dar uma virada em 2022. Mas ter chegado a este ponto é um sinal de como devemos estar atentos sobre nossas necessidades enquanto cidadãos. Nossos direitos. Precisamos rever o "não falo sobre política" ou "política e religião não se discutem". Política e religião não podem se misturar. Mas, falar de política é extremamente importante e não precisamos ser especialistas no assunto para saber o que é importante e debater sobre.

Dibradoras: Você acha que seu caso pode servir como lição na nossa sociedade e no mundo esportivo?

Carol Solberg: Acho que meu caso mostra como é importante a gente se posicionar e usar nossa voz no que a gente acredita. Eu acredito na força da voz de cada um de nós e acho que o papel do atleta na sociedade vai muito além do entretenimento. O atleta inspira crianças e jovens, isso é incrível, então se podemos chamar atenção e dar visibilidade a causas que são fundamentais na sociedade, temos que fazer isso e não podemos aceitar que nos coloquem neste lugar de fantoches, que estamos totalmente alheios ao que acontece fora das quadras.

Foto: CBV

Dibradoras: O que representa para você, para o esporte e para a democracia a absolvição do STJD?

Carol Solberg: Representa muita coisa… Eu acho. Mas, é o início de uma história que precisa ser vista com atenção. Ter a real noção da gravidade desse episódio e fortalecer esse lugar de termos liberdade. Fortalecer nossos direitos.

Dibradoras: Em algum momento você se questionou ou se arrependeu da fala?

Carol Solberg: Não, não me arrependi em nenhum momento. Tenho certeza de que fiz a coisa certa. Precisamos nos posicionar diante do que acreditamos, diante do que é necessário e precisa de alerta. Estamos vivendo tempos horrorosos no Brasil.

Dibradoras: Qual a maior preocupação que você tem sobre esse assunto referente a educação dos seus filhos? Como a gente faz no papel de sociedade para transmitir esses valores democráticos aos jovens enquanto o trabalho deste governo vai contra tais valores?

Carol Solberg: Eu me preocupo muito com isso. Converso bastante com meus filhos sobre racismo, feminismo, meio ambiente, sobre quem vamos escolher para votar nas eleições e o porquê dessas escolhas. O José me pergunta muito sobre assuntos políticos, muitas vezes não tenho respostas e tento explicar muito mais sobre o lado humano. Eles ainda são bem pequenos, mas acredito que é fundamental trocar sobre isso em casa de uma forma natural e estimulando esse diálogo sobre questões tão fundamentais na nossa sociedade.

Foto: Divulgação/FIVB

Tem tantos livros infantis maravilhosos que contam histórias de personagens negros que fizeram a diferença, ou simplesmente histórias escritas por escritores negros. O Emicida e o Lázaro Ramos estão entre os últimos que os meninos curtiram muito.

Essa pauta do racismo é muito urgente. Quando a gente vê um presidente falando que não existe racismo no Brasil isso causa uma grande indignação e acho importante as crianças entenderem o que isso representa e o quão absurdo é uma declaração dessa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre as autoras

Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Renata Mendonça é apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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