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Atletas pedem afastamento de presidente da CBHb condenado por assédio

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06/11/2020 04h00

Ricardo Souza, vice-presidente da CBHb, foi condenado por assédio sexual pelo Comitê de Ética do COB (Foto: Luis Macedo/Câmara dos Deputados)

*Por Mariana Pereira

Não é de hoje os impasses vividos pela Confederação Brasileira de Handebol. Desde o afastamento por decisão judicial do presidente da entidade, Manoel Luiz Oliveira, em setembro deste ano, acusado de mau uso do dinheiro público durante o Mundial de 2011, sediado no Brasil, a instituição amarga capítulos tristes de sua história.

O vice de Manoel, Ricardo Souza, foi acusado de assédio sexual e moral por uma funcionária da confederação quando ele era o presidente em exercício. O caso teria acontecido em Lima, nos Jogos Pan-Americanos do ano passado.

Credenciada para o evento, a mulher ficou sabendo já no Peru que sua hospedagem seria como "acompanhante" do cartola, ou seja, compartilhando o mesmo quarto reservado pelo COB às autoridades do esporte olímpico brasileiro.

Gravações de áudio apontaram Ricardinho, como é conhecido, admitindo à vítima do assédio suas intenções ao levá-la ao Pan. Em setembro de 2019, uma denúncia anônima foi feita no Canal de Ouvidoria do COB. Em agosto deste ano, o cartola foi punido pelo Conselho de Ética do Comitê Olímpico do Brasil com suspensão de dois anos e o impedimento de reassumir a entidade caso Manoel Oliveira fosse afastado pela Justiça na época, o que acabou acontecendo.

Por uma liminar, Ricardo retornou à presidência da confederação em setembro, menos de um mês depois da condenação do COB, e o que vem a partir daí pode trazer consequências irreparáveis para a modalidade.

Renúncia no handebol de praia

Os primeiros a se posicionarem sobre o retorno do 1º vice-presidente ao posto foram os integrantes do handebol de praia. Ao todo, 22 cargos foram colocados à disposição, entre eles os dos técnicos campeões mundiais Marcio Magliano e Guerra Peixe.

"A gente teve uma reunião entre os membros das seleções com o diretor falando que ele sairia se configurasse o retorno do Ricardinho. O Manoel já tinha saído, e aí quando o Ricardinho conseguiu a liminar e voltou a pisar na confederação, nós nos reunimos novamente e foi dito quem sairia e quem ficaria", explicou Guerra.

À frente da seleção masculina na praia desde 1998, o ex-comandante conta que não hesitou em deixar o cargo quando tudo veio à tona. "Eu poderia trabalhar com alguém que fosse avesso aos meus pensamentos, mas julgado e condenado pelo comitê por assédio? Mexer com mulher? Falei que não iria trabalhar sob hipótese nenhuma", afirmou Guerra.

Seleção masculina foi a mais afetada com corte de verbas, porque ainda não disputou pré-olímpico e teve preparação prejudicada (Foto: Getty)

"O que eu acho legal dessa carta, pelo menos comigo e dos que eu conversei, é que não houve pressão. Ela não é pró Manoel. Ela é por conta de todo esse absurdo do Ricardinho. Todos os membros de comissão entraram, não houve combinação de nada", completou.

Vale lembrar a potência mundial que é o handebol de praia masculino brasileiro: Cinco títulos Mundiais (de oito que disputou); ouro nos Jogos Mundiais de Praia, no Catar, em 2019; três títulos no World Games ("Olimpíada" dos esportes que não fazem parte do programa olímpico).

COB corta verbas da CBHb 

A resposta do Comitê Olímpico do Brasil após a liminar concedida por Ricardinho foi imediata – e dura. À nossa reportagem, o COB enviou a seguinte nota:

"O Comitê Olímpico do Brasil informa que não reconhece o Sr. Ricardo de Souza, suspenso pelo Conselho de Ética do COB, como representante da Confederação Brasileira de Handebol perante o Movimento Olímpico Nacional. Desta forma, enquanto a CBHb não eleger um novo representante legal, a comunicação entre o COB e a entidade está interrompida, assim como a avaliação dos projetos desenvolvidos em conjunto".

 

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Que saudade de sentir essa energia : @thiagoparmalat #womenhandball #duda18amorim #soutimebrasil #handebol #handebolfeminino #handebolbrasil

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Interromper "a avaliação dos projetos desenvolvidos em conjunto" significa corte de verbas. A posição do Comitê aumentou ainda mais a angústia de atletas. "A modalidade está largada e isso decepciona muito. Eu fico muito triste porque não é só seleção, Olímpiada. É organização de liga, de base, uma geração de próximos atletas. A gente luta dentro de quadra, porque fora dela não podemos fazer muita coisa além de expor o que está acontecendo", desabafou Duda Amorim, eleita a melhor jogadora de handebol da Europa em 2019 pelo seu clube, Gyori, da Hungria.

(Foto: COB)

Quem pode fazer algo para tentar reverter este cenário é o Colégio Eleitoral da CBHb, composto por 16 atletas e quatro clubes e que tem como objetivo ampliar a representatividade das categorias dentro da confederação. Por ora, o que se tem de tentativa é a antecipação da eleição de presidente, marcada inicialmente para 1 de fevereiro de 2021.

"Tem todo um procedimento e um protocolo. Se tudo ocorrer certo e tiver a antecipação – o que ainda acho que não vão querer – será mais ou menos por 22 de dezembro, e o mandato acaba dia 1 de fevereiro", explicou Marcelo Rizzotto, atleta do ACH/Lanali/02 Saúde/Cascavel Handebol e que foi o mais votado entre todos os que participaram do pleito ao Colégio Eleitoral: 618 votos num total de 788.

Missão Europa cancelada

Os reflexos da decisão do COB referente à Confederação já puderam ser sentidos. Neste momento, era para a seleção masculina estar em Portugal, na chamada Missão Europa, fase de treinamentos visando o Mundial da categoria, marcado para janeiro, no Egito. Porém, a viagem foi cancelada.

"Disseram que não viajamos por conta do surto de Covid-19, mas não é verdade. A Seleção Brasileira Feminina de futebol estava por lá – Portugal – esses dias. Estamos muito descontentes. Temos Mundial, pré-olímpico, há mais de uma semana não falam com a gente. Falta essa transparência, que na verdade nunca teve", apontou Thiagus Petrus, recém-indicado ao prêmio de melhor defensor da Europa pelo seu clube, o Barcelona.

Movimento Atletas pelo Handebol

Criada em 2018 para servir de infraestrutura para o atleta, a associação Atletas pelo Handebol saiu em defesa da modalidade e apoiou uma carta aberta endereçada à CBHb, que pede que Ricardinho renuncie ao cargo de 1º vice-presidente.

 

"O mais afetado é o atleta, e o que menos está sendo ouvido também. Ele não tem poder nenhum de mudança. Passou de algo político, não é sobre pessoa X ou Y. A única fonte de renda da modalidade era o repasse do COB, e até isso foi cortado. O sonho olímpico está sendo adiado por conta de uma pessoa que não sai e que está manchando a modalidade inteira", disse Laura Guarnier, diretora geral do Atletas pelo Handebol.

Às vésperas de Mundial, pré-olímpico, Olímpiada, muitas são as incertezas que permeiam o handebol brasileiro, esporte esse que já nos presenteou com título Mundial no feminino, ouros em Pan-Americanos e atletas se tornando os melhores do mundo.

"Falta um grito coletivo. É um absurdo numa situação dessas alguém pensar em jogar pelo Brasil. Tem que falar, e não ficar com medo de perseguição", foi o que pediu Guerra Peixe, ex-técnico do handebol de praia. E parece que ele começa a ser ouvido.

Sufocados com a dúvida do amanhã, diversos jogadores da seleção masculina compartilharam em suas redes sociais um desabafo em forma de manifesto. Eles relembram que o comando técnico da equipe foi alterado diversas vezes enquanto Manoel e Ricardo trocavam de cadeira na presidência.

"Foi sempre político esse ato", desabafou Thiagus Petrus. "O ideal para a modalidade é o afastamento do Ricardinho", concluiu Duda Amorim.

Politicagem até diante de um crime

O caos institucional na CBHb somado ao corte na comunicação e repasse de verbas do COB ofusca um crime grave cometido por quem hoje preside a confederação. É claro que permanecer no cargo, mesmo diante da suspensão do COB, pensando em construir carreira política dentro da entidade é grave e precisa ser noticiado. Mas o grande centro de toda a discussão deveria ser outro. Há uma vítima, afastada de suas funções, em licença médica em consequência de um assédio.

"Nosso próximo passo como associação é cobrar a criação de uma ouvidoria dentro da CBHb para as mulheres terem a segurança de denunciar qualquer tipo de assédio", explicou Laura Guarnier.

Punido e condenado, o acusado recorre à justiça e mantém o seu cargo. A vítima, desacreditada e traumatizada, é perseguida e ainda subordinada ao assediador. Não esqueçamos disso: estamos diante de um crime com sentença julgada. Tornar o assédio cabo de guerra eleitoral é tão grave quanto se abster de falar do assunto.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre as autoras

Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Renata Mendonça é apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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