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Uma mulher virou artilheira das Copas: não vi o 17º gol de Marta, eu vivi

Roberta Nina

18/06/2020 04h00

(Foto: Dibradoras)

Era dia de jogo importante para a seleção brasileira feminina naquele 18 de junho de 2019. E viver esse momento, nem nos meus melhores sonhos, eu poderia imaginar ser possível. Cobrir in loco e pela primeira vez um Mundial como jornalista já era algo especial, ver uma mulher se tornar a maior artilheira das Copas do Mundo, era algo sublime, mas viver o que eu vivi… eu não sei até hoje classificar.

Foi na cidade de Valenciennes onde tudo aconteceu. Os dizeres "jogue como uma garota" estampavam a camiseta que azul que escolhi usar naquele dia. Sim, a frase que por muito tempo ganhou tom pejorativo, naquele 18 de junho nunca fez tanto sentido. Desde essa data, se alguém quiser alcançar o feito de marcar 17 gols em Copas do Mundo, vai ter que jogar como uma garota, sim. Caso contrário, não será imbatível. E não adianta contestar a matemática, tem é que fazer 17 gols e ponto final. Desejo boa sorte para quem puder tentar.

Terceiro jogo da fase de grupos, o Brasil precisava vencer a Itália – seleção que estava de volta a uma Copa após 20 anos – para se classificar para a fase eliminatória do Mundial. Moleza? Deveria ser, mas não foi isso que aconteceu.

Stade du Hainaut, em Valenciennes (Foto: Dibradoras)

Antes do jogo começar, recebemos um convite inusitado da Visa, um dos patrocinadores da competição: iríamos  entregar o prêmio Player Of The Match para a melhor jogadora daquele duelo. Aceitamos viver essa baita experiência, mas o nosso nervosismo diante daquele jogo era tão gigante que deixamos para pensar nisso depois.

A instrução dada foi a seguinte: uma de nós (entre mim e Renata) precisaria deixar a cabine de imprensa do Stade du Hainaut aos 15 minutos do 2º tempo e encontrar com uma pessoa da empresa em frente a entrada do estádio. Mas como assim, sair no meio do jogo? Valendo classificação? Sim, era isso mesmo.

Sabíamos que o confronto não seria fácil, mas foi mais duro do que o normal. Dois anos antes, havíamos goleado as italianas por 5 a 3 no Torneio de Manaus em que a equipe brasileira sequer contava com suas principais jogadoras (Marta e Cristiane, por exemplo, não jogaram essa partida). Pouco tempo depois, o time italiano evoluiu muito a ponto de fazer frente ao Brasil em uma partida bem equilibrada.

Eu e Renata, uma hora antes do jogo começar (Foto: Dibradoras)

Empate em 0x0 no primeiro tempo, intervalo e início do segundo tempo. Naquele momento, era preciso decidir quem deixaria o jogo pra trás para se encaminhar para entrega do prêmio da Visa. O que deveria ser um momento especial virou um tormento, afinal, não era fácil abrir mão de ver a partida e torcer pelo Brasil. E outra coisa: ninguém queria entregar o prêmio para uma italiana, já imaginou?

No par ou ímpar decidimos: eu deixaria o jogo e iria me preparar para entregar o prêmio para a melhor jogadora da partida. Aos 15 minutos do tempo final, desci escadas, passei por túneis e corredores do setor de imprensa ouvindo aqueles sons que nos enlouquecem – "uuuuuh", "aaaaahhhh" – gritos, assovios, o apito da árbitra. Eu apenas ouvia tudo isso e imaginava: o que está acontecendo nesse jogo?

Lembro de ter entrado em um espaço VIP (pelo menos eu acho que era VIP) onde estava rolando um coquetel, muita comida por ali e nenhuma TV transmitindo o jogo que acontecia a poucos metros daquele espaço. Era enlouquecedor.

E foi aos 29 minutos de jogo que tudo aconteceu. Eu estava no local combinado, esperando pelo rapaz que iria me encontrar, quando Renata me manda uma mensagem pelo WhatsApp. Eram 17h29 (lá na França 21h29) e em caixa alta, minha parceira me escreveu: PÊNALTI PARA O BRASIL. MARTA NA BOLA. VOU NARRANDO PRA VOCÊ. GOL. 17º DELA.VOCÊ VAI ENTREGAR O TROFÉU PRA ELA, AMIGA.

Eu não vi o pênalti sofrido pela Debinha, eu não vi a cobrança de Marta. Eu apenas senti a atmosfera do estádio, tremi com as mensagens da Renata e seguia buscando encontrar o rapaz da Visa. "Será que vai ser pra ela que entregarei esse prêmio?", pensei.

Minutos depois, encontrei o moço que me iria me conduzir até o espaço onde aconteceria a entrega do prêmio. Ficamos muito tempo aguardando uma aprovação para irmos até esse tal lugar, me pareceram horas. Eu buscava por uma televisão a todo momento, mas não encontrava. No caminho, eu e o moço íamos tentando nos comunicar em inglês, em espanhol e, ao mesmo tempo, ele ia me dando instruções do que iria acontecer ali.

Quando cheguei nessa área reservada, pude ver cerca de 5 minutos de jogo. Estava de frente para a saída principal do campo, por onde todas as jogadoras iriam passar. Os protocolos eram: a melhor jogadora sairá de campo, dará uma entrevista, depois disso, você se aproxima com o troféu, cumprimenta a jogadora, entrega o prêmio para ela, tira uma foto e libera a área para sessão de fotos da atleta e mais entrevistas.

Ok, coisa rápida mesmo. Tirei mochila das costas, arrumei o cabelo o máximo que pude (eram quase 22h, eu estava trabalhando desde antes do meio-dia), tirei meus óculos para esperá-la – afinal serei fotografada pela Getty Images, Deus que me livre sair com o óculos brilhando na foto mais pesada da minha vida. Até aquele momento, nome da jogadora que seria premiada não estava definido.

Enquanto esperava o jogo acabar e torcia para ninguém mais marcar um gol (seja do Brasil ou da Itália), apareceu o André, roupeiro da seleção. Me viu e perguntou o que eu estava fazendo ali. Respondi: "vou entregar o prêmio para a melhor jogadora da partida, você acredita? E adivinha quem vai ser?". O André me respondeu de bate-pronto, sem pensar: "Ah, é? Vai entregar para a Debinha?".

"A Marta, pô! Você tá doido?", eu respondi. Naquela hora eu senti medo. Perdão Debinha, você é maravilhosa, mas aquele momento tinha que ser meu com a Marta. E eu estava ali, só esperando a confirmação de que a camisa 10 havia sido escolhida como a melhor em campo para que eu pudesse viver esse momento importante para mim, para ela, para modalidade, para as mulheres.

Eu e Marta durante o treino da seleção, em Lille (Foto: Dibradoras)

Dois dias antes desse jogo, acompanhei o último treino aberto da seleção. Nossa proximidade com as jogadoras existe, a gente se cumprimenta pelo nome, faz uma palhaçada com umas, conversa sério com outras, mas com a Marta, não. Ela é atenciosa com a imprensa, nos atende, nos deixa filmá-la tocando cavaco, mas é, de fato, uma jogadora mais reservada. E a sua presença mexe com a gente de um jeito diferente.

No final daquele coletivo, pedi e tirei minha primeira foto com Marta. Nós duas posamos fazendo o sinal de "igualdade" com os braços e eu já me dava por feliz e satisfeita. Mas o meu caminho cruzou com o dela novamente.

Fim de jogo, a Rainha se aproxima. Para em frente ao backdrop, dá uma entrevista, tira uma foto e eu, na lateral direita, aguardo o sinal da organização para fazer a entrega do prêmio. Caminho ao seu encontro quando ela me abre um sorriso enorme, cheio de batom. Ela olhou a minha camiseta e disse: "Jogue como uma garota!" Ela reverberou, em voz alta, o que ela havia feito dentro daquele gramado. Jogou como uma garota!

(Photo by Matthew Lewis – FIFA/FIFA via Getty Images)

Se passei um minuto completo ao lado dela, foi muito. Mas foi o tempo suficiente para eu me dar conta de onde estava e o que fazia: no dia em que uma mulher se tornou a maior artilheira de todas as Copas, fui eu quem entreguei o troféu de melhor em campo em suas mãos. Eu senti um negócio tão vibrante dentro de mim causado pela presença dela que pouco me lembro do que disse. Marta é uma entidade, é o maior nome do nosso futebol, como explicar o que eu estava vivendo naquele instante?

Só sei que quando ela viu o troféu, me disse: "Posso pegar?". Eu respondi: "Claro, ele é seu." A resposta final antes do abraço foi: "Ele é de todas nós." Posamos para fotos, eu, ela e o recorde e saí daquele lugar de um jeito que nunca senti. Desnorteada, incrédula. 

Difícil foi dormir por conta da adrenalina do jogo, por conta do recorde, por conta do prêmio, por tudo. Passavam das 2h da manhã quando fechei os olhos não querendo fechar. Será que a jogadora Marta sonhava em alcançar esse feito? Só posso dizer que a jornalista Nina nunca imaginou viver algo parecido.

É surreal saber que, de alguma forma, meu caminho cruzou com o dela. A garotinha que saiu de Dois Riachos aos 14 anos em busca de um sonho. Sem nenhuma referência feminina para se espelhar, sem nunca ter pisado em outro lugar a não ser em Alagoas. Aquela que elevou o futebol das mulheres e levou o nome do Brasil por todos os cantos do planeta. Mulher, nordestina, seis vezes eleita como a melhor jogadora do mundo, brasileira.

Ela deve ser respeitada e idolatrada, pela sua trajetória e pelos feitos incontestáveis. Tentar diminuir as conquistas legítimas de uma mulher só demonstra fragilidade por parte de quem faz ressalvas. Se nem a proibição por quase quatro décadas foi capaz de frear o talento nato de uma mulher com a bola nos pés, não serão os oportunistas que o farão.

Eu não vi o 17º gol de Marta acontecer. Hoje sei que foi de pênalti, com a bola no canto direito e a goleira caindo pra esquerda. Eu não vi porque estava vivendo esse momento. De um jeito diferente, mas junto com ela. Que sortuda que eu sou. 

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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