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‘Favela vai resistir’: em comunidade do RJ, futebol ajuda a combater vírus

Renata Mendonça

07/04/2020 04h00

Foto: Divulgação

Diante da pandemia de coronavírus, a preocupação com as áreas mais vulneráveis do país é constante. Nas comunidades, onde o saneamento básico não chega, e a fome é uma realidade constante, o efeito da Covid-19 pode ser devastador. E para amenizar isso, o próprio futebol está servindo como ferramenta para conscientizar e combater a doença.

No Complexo de Manguinhos, comunidade de 36 mil habitantes da zona Norte do Rio de Janeiro, o time "Estrelas do Mandela" está liderando uma campanha de arrecadação de alimentos, itens essenciais de higiene e álcool gel para serem distribuídos entre os moradores. Projeto tradicional da região- existe desde 2002 -, o time reúne meninas e mulheres e trabalha o empoderamento feminino por meio do futebol. Nas últimas semanas, Gagui Silva, técnica e responsável pelo projeto, decidiu fazer algo para colaborar com o combate ao coronavírus na favela.

"Quando começou o isolamento pelo coronavírus, eu comecei a receber mensagem de pais das meninas do time falando das dificuldades que estavam tendo. Uma dessas famílias tem três meninas no projeto e são nove pessoas morando na mesma casa, dividindo o cômodo. Então eu vi essas dificuldades e aí a gente decidiu começar a campanha para mobilizar as pessoas a doar", explicou a treinadora.

Foto: Divulgação

Foi assim que nasceu a "Ação Solidária Estrelas do Mandela contra o coronavírus" em parceria com a associação de moradores local. Eles estão arrecadando alimentos para montagem de cestas básicas, além de água, sabonetes, álcool gel, máscaras e luvas.

"Nesse momento, o maior problema tem sido a falta de água, né, que já é um problema constante na região. Além da falta de alimento e de itens de higiene pessoal. A gente até tem tomado cuidados diferentes para a própria distribuição, para não ficar passando em todos os lugares de uma vez só", explicou.

Foto: Divulgação

A solidariedade dos próprios moradores para ajudar quem mais precisa em Manguinhos – além de algumas parcerias – já permitiu ao Estrelas do Mandela conseguir material suficiente para doar mantimentos para 43 famílias. De início, o plano foi focado em ajudar as famílias das meninas que participam do projeto (são 57 no total), mas agora a ideia é ampliar para conseguir atender mais e mais pessoas da comunidade.

"Nós, da favela, somos colocados como marginalizados, excluídos. Mas eu vejo que a favela vai mostrar outro viés nesse momento, a solidariedade vai ser muito maior. A própria população da favela está apoiando as famílias das comunidades nesse momento. A favela vai sobreviver por nós mesmos. Pelas nossas estratégias de resistir. Se depender dos políticos, a favela fica sempre excluída", pontuou Gagui Silva.

Técnica do Estrelas do Mandela recebe doações na Fiocruz para comunidade de Manguinhos (Foto: Arquivo Pessoal)

Futebol e empoderamento

O Estrelas do Mandela nasceu na Favela do Mandela, que fica no Complexo de Manguinhos, zona Norte do Rio, em 2002. Era um time feminino que criou uma tradição na comunidade e foi crescendo até abrigar, a partir de 2015, o projeto "As Minas da Bola", que une a prática do esporte ao empoderamento feminino.

Hoje, fazem parte dele 53 meninas de 7 a 13 anos de idade que se reúnem duas vezes por semana na quadra para jogar bola. Só que além da prática esportiva, o projeto promove oficinas e discussões sobre gênero, raça e pluralidade cultural.

Foto: Divulgação

"Nas oficinas, falamos de saúde, de empoderamento, da beleza da raça (a maioria das meninas são pretas), da cor. Elas não têm mais vergonha de estar jogando futebol. E ter esse lugar pra treinar já é uma conquista. Antes, os meninos queriam entrar no horário para jogar também. Aí a gente explicava que era o horário do time feminino. Eles iam lá pra cima e ficavam gritando que elas não sabiam jogar e tal. Foi uma construção com eles também para garantir esse espaço seguro pra elas", disse Gagui Silva.

O futebol ali é uma ferramenta de inclusão para as meninas na sociedade. Porque muitas que chegam ao projeto se sentem excluídas pela cor, pelas características dos seus cabelos, pelo ambiente onde vivem.

Foto: Divulgação

"A gente já viu menina que não queria treinar porque o cabelo ficava suado e ficava todo pro alto. Essa questão do cabelo é muito frequente aqui, porque elas se sentem feias por causa dele. E eu falei pra elas: o nosso cabelo cresce para o alto. E não é pra ter vergonha dele, não. A gente tem vergonha do nosso cabelo, da nossa cor, do nosso nome. E aqui, nas discussões com elas, a gente tenta mudar essa percepção. O futebol também empodera, elas se sentem fortes, capazes", observou a treinadora.

A comunidade de Manguinhos e as Estrelas do Mandela já se preparavam para, pela primeira vez, disputarem a Taça das Favelas com uma equipe feminina neste ano. Ainda não se sabe quando a competição vai poder começar (diante da situação de pandemia), mas enquanto o futebol fica parado, o time mantém o trabalho em equipe para vencer o coronavírus na comunidade.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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