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Pra ter voz e vez, mulheres criaram organizada feminina do Inter em 2009

Renata Mendonça

30/03/2020 04h00

Foto: FFC/Arquivos pessoais

As primeiras torcidas organizadas do Brasil surgiram na década de 1940 para fazer festa na arquibancada e garantir apoio incondicional aos times em questão em todos os jogos. De certa forma, a Força Feminina Colorada, nasceu em 2009 com o mesmo objetivo, mas com um adendo importante: o de garantir voz para as mulheres no futebol.

As torcidas organizadas "tradicionais" não proíbem a participação feminina. Mas guardam a elas um papel longe do protagonismo, na maioria das vezes. Há restrições ao papel que uma torcedora pode exercer dentro da organização – isso varia de torcida para torcida, mas, no geral, mulheres não podem tocar determinados instrumentos na bateria, não podem carregar bandeirão, e muitas vezes também não têm permissão para viajar para determinados jogos fora de casa nas tradicionais caravanas. Sentindo falta de um espaço que garantisse a elas liberdade nas arquibancadas, Jéssica Maciel, Patricia Belem e mais quatro torcedoras decidiram criar, em 2009, uma torcida organizada só de mulheres.

"A ideia da torcida feminina surgiu por uma comunidade do Inter no Orkut em 2009. Algumas torcedoras começaram a comentar sobre a necessidade de ter uma torcida de mulheres porque elas enfrentavam aquelas questões de sempre do medo de ir sozinha ao estádio, tinha o tabu de violência no futebol e etc. Elas se organizaram, fizeram uma reunião e decidiram fundar uma torcida organizada", contou ao blog Francine Malessa, diretora de comunicação da torcida.

Francine entrou na torcida em 2014 e hoje é diretora de comunicação (Foto: FFC/Arquivos pessoais)

A Força Feminina Colorada foi registrada oficialmente no cartório, foi reconhecida pelo Ministério Público e aí só faltava o reconhecimento do próprio clube para garantir a elas um espaço específico na arquibancada. Com a ajuda de familiares e amigos, a estratégia delas foi inundar o Internacional com ligações pedindo por uma torcida organizada feminina – até que o clube cedeu e reconheceu institucionalmente a Força Feminina Colorada como uma das torcidas organizadas oficiais do Inter.

"Consta no site institucional entre as torcidas organizadas do Inter. Isso politicamente, na questão de convivência com clube, nos coloca no patamar de participar de reuniões pra organizar ações e ter um diálogo mais aberto com o clube para reivindicar mudanças que achamos importantes. Hoje, há uma diretoria feminina lá e isso nos ajuda a ter mais voz ativa institucionalmente", explica Francine.

Foto: FFC/Arquivos pessoais

Representatividade

Naqueles tempos, a discussão sobre o preconceito com a mulher na arquibancada ainda era muito rasa e muito rara também. Ideias hoje ultrapassadas sobre futebol ser coisa de homem e sobre a mulher ter um papel de "embelezar" a torcida ainda eram muito reproduzidas e aceitas. Não à toa, o lema inicial da Força Feminina Colorada remetia a essa última ideia: "Paz e beleza no futebol". Em 2014, porém, isso mudou. Com o entendimento de que o papel delas tinha muito mais a ver com empoderar mulheres – em vez de falar delas como um "adorno" no futebol -, o lema mudou para: Paz, Representatividade e Empoderamento no futebol.

"Um dia eu lancei essa discussão sobre o lema estar ultrapassado. Casou com o momento que começou a ter esse boom de discussões sobre feminismo no Brasil. A gente começou em conjunto a ter discussões internas para se posicionar também sobre representatividade. Foi aí que decidimos mudar o lema", relata Francine.

(Foto: FFC/Arquivos pessoais)

Com a mudança, elas também passaram a se manifestar diante de situações machistas sofridas por torcedoras ou jornalistas. Foi o que aconteceu quando a comentarista Eduarda Streb ouviu do colega Peninha em um programa de rádio que ela "deveria voltar pra cozinha". A Força Feminina Colorada saiu em defesa da jornalista e foi ao estádio no jogo seguinte com aventais e pano de prato em protesto mostrando que elas já haviam saído da cozinha e agora ocupariam a arquibancada também.

"A gente já saiu desse papel doméstico que era das mulheres. Nosso intuito com a torcida é marcar presença e posição nisso também".

Das seis integrantes que fundaram a torcida, hoje elas são mais de 200 cadastradas e são presença certa em todos os jogos do Inter, seja no Beira-Rio ou fora de casa. E desde 2016, elas passaram a ter também uma banda com instrumentistas para animar as torcedoras no estádio.

Foto: FFC/Arquivos pessoais

"Essa banda é formada por jovens e adolescentes que estudam em escolas públicas, faz parte do desenvolvimento de um projeto social nosso. Recebemos meninas e meninos também e aí isso também gera uma mudança cultural neles, de entender que não tem essa de lugar de mulher ou de homem. A gente mexe na autoestima deles, eles se sentem muito protagonistas e se envolvem nas nossas ações. Então a banda é formada por esses adolescentes e também por mulheres da torcida. Tivemos a primeira mulher de sopro em torcida organizada", diz Francine.

Foto: FFC/Arquivos pessoais

Briga por espaço persiste

Desde que foi oficializada como torcida organizada do Inter, a Força Feminina Colorada ganhou seu setor reservado na arquibancada do Beira-Rio. Mas ao contrário do que acontece com as outras organizadas, o espaço delas muitas vezes não é respeitado pelos torcedores.

"Já tive que ter algumas discussões com torcedores que queriam ocupar o espaço que era reservado para nós. Ainda hoje tem algumas resistências. No último Grenal do Beira-Rio, a gente colocou umas fitas de isolamento pra ter o espaço da banda. A gente costuma entrar mais cedo e fica por ali avisando que é espaço da torcida e tal. A gente dialoga, argumenta, pede pras pessoas saírem. Aí teve cara que parou ali e pulou a fita de isolamento e só saiu quando o amigo dele falou para ele sair – eu pedi o tempo todo pra ele sair, mas ele só atendeu quando o amigo falou. Eu fico um pouco impressionada com o fato de isso ainda acontecer, ainda não respeitam nosso espaço ou a nossa voz", contou Francine.

Força Feminina Colorada tem seu espaço reservado no estádio, assim como as outras organizadas do clube (Foto: FFC/Arquivos pessoais)

Completando 10 anos no ano passado, a Força Feminina Colorada também se dedica agora a apoiar o futebol feminino do clube. A modalidade foi reativada há três anos por lá, e elas também passaram a acompanhar os jogos das mulheres. O problema é que eles quase nunca são no Beira-Rio, o que gera um problema de logística e mais uma reivindicação delas junto ao clube.

"Na primeira temporada, a gente conseguiu organizar de levar banda pra todos os jogos. E eles não são no Beira-Rio, então tem toda uma logística. Como levar instrumento, os adolescentes da banda e tal. Acho que o que ainda impede um apoio maior é justamente o fato de elas não jogarem no Beira-Rio, que é algo que a gente questiona para o clube inclusive".

Inspiração para rivais

Considerada como uma referência por ter sido a primeira torcida organizada feminina do país, a Força Feminina Colorada é vista como inspiração até mesmo para as rivais gremistas. Já houve uma tentativa delas de criar algo assim do lado de lá, mas dificuldades burocráticas impediram a oficialização da organizada tricolor só com mulheres. Ainda assim, as coloradas mantêm contato com coletivos de torcedoras gremistas com o intuito de fortalecer a luta feminina no futebol.

Torcedoras também viajam para jogos fora de casa (Foto: FFC/Arquivos pessoais)

"Pra nós, seria muito legal ter uma iniciativa no Grêmio porque incentivaria mais mulheres a irem ao estádio. E muda a fotografia que a gente tem da arquibancada. No nosso setor, as famílias já se identificam, levam crianças, tem mais mulheres também. Fica um estádio mais inclusivo. Pra nós, a rivalidade existe, mas, enquanto o machismo e a misoginia existirem no futebol, pra nós isso é nosso maior rival, e não o simbolo do Grêmio", destacou Francine.

Durante os tempos de futebol parado por conta do coronavírus, a FFC tem feito lives no Instagram com torcidas ou coletivos femininos de outros clubes para compartilhar ideias e ações. Elas seguem com o principal propósito que norteou a criação da torcida há dez anos: somar forças entre as mulheres.

"Eu entrei na torcida no momento bem crítico da minha vida. Estava saindo de um relacionamento abusivo e precisava encontrar algum espaço pra eu buscar minha independência, minha autoestima. Na convivência com essas mulheres, consegui me reerguer. Consegui entender a força da mulher. Pelo futebol, a gente também pode ajudar umas às outras".

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

Dibradoras