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Tóquio em 2021: ‘Atletas usam pouco a voz que têm’, diz Poliana Okimoto

Renata Mendonça

25/03/2020 04h01

Poliana Okimoto foi bronze na Rio-2016 (Foto: Marcelo Pereira/Exemplus/COB)

Depois de ter sofrido pressão por parte de atletas e confederações esportivas ao redor do mundo, o Comitê Olímpico Internacional (COI) finalmente anunciou o adiamento dos Jogos Olímpicos de Tóquio para o próximo ano. O anúncio foi feito na última terça-feira – quando faltariam exatos quatro meses para a abertura se ela se mantivesse para a data prevista – e foi comemorado por muitos atletas brasileiros.

Se na semana passada, o COI havia afirmado que "ainda era cedo" para falar em adiamento da Olimpíada e pedido para os atletas seguirem "se preparando", desta vez o tom da mensagem mudou e foi mais realista com o contexto que o mundo vive hoje. Mas foi preciso que atletas do mundo inteiro se manifestassem para alertar a entidade que os protagonistas do show são eles – e, sem eles, não existem Jogos. Em conversa com as dibradoras, a ex-maratonista aquática e atual membro do Comitê de Atletas do COB (Comitê Olímpico Brasileiro), Poliana Okimoto, reforçou a importância de ver atletas se manifestando numa questão que os afeta diretamente.

"Acho que os atletas usam pouco a voz que eles têm. Sem atletas, não existem Jogos Olímpicos. Naquele momento que eles mantiveram data, a última coisa que levaram em consideração foram os atletas", afirmou a medalhista olímpica. "O Japão poderia estar apto a receber os Jogos, mas não pensaram que os atletas não estariam aptos a se prepararem. Acredito que ainda hoje atletas têm medo de se pronunciar, até estranhei que nesse caso não tivemos mais deles se pronunciando publicamente. Porque é o interesse de todos. Uma pesquisa com 4 mil atleas, mostrou que quase 80% estavam firmes na posição pelo adiamento dos Jogos. Mas nem todos se manifestaram".

Entre os atletas brasileiros que se pronunciaram publicamente, o que mais chamou a atenção foi o nadador Bruno Fratus, que respondeu a um tuíte de Kirsty Koventry, bicampeã olímpica e presidente da comissão dos atletas do COI, dizendo que era preciso "reconsiderar e consultar outros atletas ao redor do mundo", reforçando que muitos deles estavam incapazes de treinar.

"O conselho de 'continuar fazendo o que você está fazendo' parece desconectado da realidade quando temos líderes mundiais diariamente na televisão pedindo às pessoas que fiquem em casa e se isolem", disse ele.

Foto: Getty Images

A nadadora Etiene Medeiros também se manifestou pelo adiamento de Tóquio-2020, mas não houve muitos atletas brasileiros que reforçaram esse discurso publicamente. No entanto, na consulta que a Comissão de Atletas do COB fez com os representantes de todas as modalidades olímpicas, a grande maioria se colocou a favor do adiamento.

"A gente sempre está conversando entre nós, temos um grupo com o presidente do COB, e o cenário era de incertezas. Temos um grupo com representantes dos atletas de todas confederações olímpicas e ouvimos todos eles. Foi uma lavada de que todo mundo defendia o adiamento. Nossa postura sempre foi de pensar no atleta, no interesse e bem estar físico e emocional", contou Poliana.

A pressão dos atletas funcionou. Foram eles que fizeram com que tantas confederações enviassem ao COI o pedido de adiamento – inclusive com o Canadá afirmando que não enviaria delegação se os Jogos acontecessem em 2020. Por isso, Poliana Okimoto alerta que seria importante os atletas terem consciência da força que têm e se livrarem do "medo" de retaliação na hora de opinar sobre algo que diz respeito principalmente a eles.

"Eu acredito que a gente vem de uma cultura no Brasil que dentro das confederações e federações esportivas existia muita retaliação para o atleta que falava sua opinião. Hoje atletas ainda sentem essa essa cultura do medo do que pode acontecer lá na frente, o que o presidente da confederação vai pensar. Mas acredito que aos poucos a gente está mudando, a iniciativa da comissão de atletas nas confederações, o COB também tem uma comissão de atletas atuante. Tem que ir aos poucos colocando atletas dentro do cenário de ter opinião pra mudar as coisas. Se não, a gente vai acatar sempre tudo o que vem de cima, mesmo que nos prejudique", avaliou a ex-maratonista aquática.

Foto: Lucas Lima / UOL

Poliana Okimoto entende que o COI demorou mais do que o necessário para tomar uma decisão que seria óbvia nesse momento. Mas ela concorda com a posição da entidade pelo adiamento – e não cancelamento dos Jogos Olímpicos. Diante de todos os sacrifícios que um atleta faz para conseguir disputar uma Olimpíada, ela considera que o adiamento é a forma mais justa de garantir a competição e zelar pela saúde dos protagonistas dela.

"O atleta abdica de tanta coisa pra estar no auge da carreira nos Jogos Olímpicos que seria injusto com ele cancelar agora. Hoje o atleta vive pra isso, é um sonho que ele constrói desde criança. Não são sacrifícios nos quatro anos pré-olímipicos. A gente abdica da nossa vida. Eu não tive uma infância normal, ou uma adolescência normal, uma juventude normal. Eu acordava 4h da manhã quando ainda era criança pra ir treinar. Sempre foi uma vida dedicada e pautada pelo esporte. A gente deixa de estudar, perdi casamento do meu irmão, formatura, nascimento do meu sobrinho, porque eu estava treinando. O esporte olímpico hoje é diferente do que era no passado. Por isso, hoje seria muito injusto com o atleta cancelar".

Depois da medalha olímpica conquistada na Rio-2016, Poliana Okimoto decidiu se aposentar do esporte para tentar ser mãe, mas não se desvinculou dessa paixão por completo. E ela acredita que Tóquio-2020 em 2021 pode ser uma grande celebração do melhor dos valores olímpicos.

"Acho que os atletas e a organização da Olimpíada têm uma chance incrível de mostrar para o mundo o quanto nós somos fortes como sociedade. Nós vamos vencer isso, vamos chegar lá em Tóquio para festejar tudo isso que aconteceu de ruim. Vamos sair melhores de tudo isso."

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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