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Treinos em casa, atleta de quarentena: como vírus impacta futebol feminino

Renata Mendonça

17/03/2020 04h00

Andressa Alves defende a Roma, mas voltou ao Brasil após amistosos para cumprir quarentena (Foto: CBF)

A pandemia de coronavírus afeta o mundo drasticamente – e, claro, não é diferente com o futebol. Assim como muitas empresas estão fazendo ao recomendar o chamado "home office" para os funcionários, entre os clubes há alguns que já tomaram medidas nesse sentido. Diante do cancelamento de jogos e do fato dos campeonatos estarem suspensos até segunda ordem, alguns deles já se posicionaram no futebol feminino.

O primeiro deles foi o São Paulo, que soltou uma nota na tarde de segunda-feira comunicando que as atividades no clube seriam suspensas. Em contato com a reportagem, o time afirmou que as atletas terão acompanhamento remoto de nutrição e preparo físico. A comissão técnica passará uma rotina de treinos para as atletas fazerem em casa e não promoverá atividades coletivas por enquanto.

"Em conjunto com o Departamento de Futebol do São Paulo, definimos que o melhor para todas as atletas e funcionários é que neste momento cuidem da saúde e se preservem, que é o mais importante para todos e para o país", disse o Diretor de Futebol Feminino Antônio Belardo.

São Paulo suspendeu treinos e orientará atletas a seguirem rotina de preparo físico em casa (Foto: Igor Amorim / saopaulofc.net)

"O Departamento de Futebol Feminino segue acompanhando o caso da pandemia no país, mantendo contato e dando todo o suporte necessários às atletas durante os próximos dias até que seja possível o retorno das atividades de forma segura", conforme informou o clube por nota.

O Corinthians também afirmou que está avaliando como será a rotina do time de futebol feminino e que cogita mudar o programa de treinos diante das circunstâncias.

O Palmeiras divulgou uma nota oficial sobre as atividades relativas ao futebol do clube. "Seguindo as recomendações das autoridades de saúde municipal, estadual e federal de evitar locais de aglomeração e contato pessoal, a medida de interromper os treinamentos visa combater a propagação do coronavírus e assegurar o bem-estar e a saúde de atletas, funcionários e colaboradores. O Palmeiras acompanhará o desenrolar dos fatos e as orientações das autoridades para avaliar periodicamente esta medida", dizia um trecho do comunicado.

O Santos também se pronunciou no fim da tarde de segunda-feira (16/3), comunicando que as atividades do time masculino, feminino e de base estão suspensas por tempo indeterminado.

Enquanto isso, a CBF já anunciou a suspensão dos campeonatos que estavam acontecendo agora no futebol feminino – a primeira e a segunda divisão do Brasileiro. A FPF, por sua vez, decidiu suspender também o início do Campeonato Paulista, que estava previsto para começar no dia 12 de abril. Por enquanto, não há uma nova data prevista para os jogos começarem.

Atleta e comissão técnica de quarentena

Ainda quando a transmissão do coronavírus avançava na Europa, a seleção feminina viajou para disputar os amistosos programados para as datas Fifa de março e isso também teve um impacto em parte da delegação no retorno ao Brasil. Depois de terem passado 10 dias na França – inclusive cumprindo protocolos internacionais para não ter contato das mãos com as outras atletas e jogando partidas com estádios fechados para o público -, a comissão técnica e equipe de comunicação da CBF que voltaram ao Brasil tiveram a orientação da entidade para ficar em casa de quarentena e fazerem o teste do COVID-19.

A técnica Pia Sundhage ficou na Europa, como já era programado antes do anúncio de pandemia da OMS, e segue com cuidados especiais para evitar a contaminação. A auxiliar técnica dela, Bia Vaz, o preparador de goleiros, o fisiologista e o resto da comissão técnica foram orientados a ficarem em casa de quarentena pela CBF.

Bia Vaz voltou ao Brasil e está de quarentena; Pia ficou na Europa (Foto: Mauro Horita)

Isso não aconteceu com as jogadoras. A atacante Duda, do São Paulo, voltou dos amistosos e jogou contra o Palmeiras no clássico de domingo. No Corinthians, também não houve orientação do clube para deixar Andressinha e Tamires, que viajaram para a França, de quarentena.

"As atletas – e o clube – não receberam orientação para entrarem em quarentena. Segundo a Confederação, estavam aptas para a prática esportiva sem quaisquer restrições. Ainda assim, o departamento médico do clube manteve contato proativo com os encarregados da CBF pelo acompanhamento das atletas na França, a fim de garantir a integridade das jogadoras e todos os envolvidos na modalidade do clube, orientados sob os devidos protocolos de vigilância epidemiológica, iniciados pelo Corinthians", pontuou o clube.

Disputando o Sul-Americano Sub-20 em San Luís, na Argentina, a seleção feminina de base fechou a primeira fase no campeonato com 100% de aproveitamento, vencendo seus quatro jogos. O último triunfo foi contra o Chile, por 2×0, e acabou como primeira colocada no Grupo B.

Por conta da pandemia, a Conmebol decidiu realizar os últimos jogos da primeira etapa com portões fechados e adiar a fase final, que ainda não tem uma nova data para acontecer.

Nos casos de jogadoras que atuam em clubes europeus, as recomendações variaram. Andressa Alves, por exemplo, que defende a Roma, teria que ficar de quarentena ao retornar para a Itália. No entanto, em contato com o clube, ela teve liberação para voltar ao Brasil junto com a delegação brasileira.

Andressa Alves não voltou para Roma depois de amistosos da seleção na França (Foto: Divulgação)

"Em conjunto, eu e a Roma decidimos que era melhor eu retornar para o Brasil depois da seleção porque tinha uma grande chance de eu não entrar na Itália (as fronteiras do país foram fechadas). E se entrasse, eu teria que ficar em quarentena lá sozinha. Então o clube achou melhor que eu voltasse com a seleção e pudesse ficar em quarentena com a minha família. Eles me apoiaram e deram todo o suporte", explicou a atacante às dibradoras.

"Corona está mudando drasticamente a vida do atleta, porque a gente não pode jogar, eu não podia treinar na Roma, então isso é muito difícil. É uma mudança muito radical e que a gente tem que se adaptar, arrumar uma forma de treinar separado e fazer o que é possível", contou.

Ainda quando estava no país, Andressa já viu a alteração que o coronavírus teve na rotina das pessoas. Muitas cidades já estavam em quarentena e havia uma preocupação enorme com a circulação de pessoas entre as cidades. "O governo não queria que ninguém saísse, que ninguém viajasse, os trens e alguns voos estavam sendo cancelados. Estava bem complicado".  

Obviamente que sua rotina de atleta agora está bem alterada. De quarentena no Brasil, Andressa está com a família e fará uma rotina de treinos em casa para manter o preparo físico, mesmo sem jogar e sem estar com o grupo da Roma na Itália. No entanto, ela defende as medidas de prevenção.

"Acho que o mundo do esporte realmente tem que cancelar os jogos, os treinos também, porque nossa saúde é mais importante do que qualquer outra coisa. O vírus está se espalhando muito rápido e a gente tem que ser inteligente nesse momento, o mais importante é a saúde, e não o esporte. O esporte no momento tem que ficar um pouco de lado para a gente pensar em como fazer para passar por esse momento difícil. Tenho certeza que um vai ajudar o outro e vai dar tudo certo no final".

A preparação olímpica da seleção brasileira também já foi afetada pela situação do vírus. O amistoso do Brasil contra os Estados Unidos em abril foi cancelado, e o outro contra a Costa Rica no mesmo mês também não deve acontecer. O retorno das atividades "normais" da modalidade ainda está incerto.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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