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Ela deixou as quadras para provar inocência de homem condenado injustamente

Renata Mendonça

12/03/2020 04h00

Foto: Getty

Uma das principais jogadoras da seleção feminina de basquete dos Estados Unidos, uma colecionadora nata de títulos: são dois ouros olímpicos, um ouro no Campeonato Mundial, quatro títulos da WNBA com o Minnesota Lynx. Maya Moore é, sem dúvidas, um dos maiores nomes que surgiu nas quadras americanas na última década. Só que, no auge de sua carreira, ela tomou uma decisão surpreendente: decidiu se afastar do basquete para se dedicar a tirar um homem negro da prisão.

Ela anunciou isso no ano passado e perdeu duas temporadas do basquete – a de 2019 e a de 2020 e, consequentemente, a Olimpíada de Tóquio -, mas nesta semana viu tudo valer a pena. Jonathan Irons, um homem negro que foi preso há 22 anos acusado de assalto a mão armada, tinha sido condenado ainda em 1998 em um julgamento que Maya Moore considerou produto do racismo do sistema judiciário americano na época. A pena dele seria de 50 anos de reclusão. Na última terça-feira, com o apoio da ONG financiada por Moore "Win With Justice" (Vencer com justiça), a atleta estava no tribunal quando o juiz anunciou a decisão de anular a sentença de Irons.

Foto: Reuters

"É um sentimento surreal, ainda não caiu a ficha. Só irá cair quando eu o vir passando pelos portões. Fico até confusa com o que sentir. Estou feliz, mas acho que essa decisão poderia ter vindo muito antes", disse ela em entrevista à AP. Segundo ela, Irons estava explodindo de felicidade quando soube que seria solto.

A história dessa mulher supercampeã no basquete se torna ainda mais impressionante pela luta que ela tem fora das quadras contra o racismo. No caso envolvendo Irons, Moore ficou tão envolvida, que decidiu abrir mão da carreira por um tempo para ajudar a comprovar a inocência dele. "Não sei como será o futuro. Nós apenas vamos focar nessa tensão desconfortável por um ano e ver no que dá", disse ela ao The New York Times em junho de 2019, quatro meses após ter anunciado sua "aposentadoria".

O caso 

Jonathan Irons tinha 16 anos quando foi acusado de ter sido o responsável pelo assalto a mão armada que deixou um ferido. O crime aconteceu na casa da vítima em St Louis. Naquele dia, Irons teria sido visto na vizinhança com uma arma. No entanto, ele alega que estava na casa de um amigo na hora em que tudo aconteceu. A grande contestação de Moore e da ONG foi na forma como o julgamento aconteceu.

Foto: Reprodução Instagram

Menor de idade na época. Irons foi interrogado sem a presença de um advogado ou de um guardião legal. Não houve nenhuma prova que o incriminasse encontrada no local do crime – nem amostra de sangue, nem pegadas, nem impressões digitais apontavam para ele como autor do assalto. Nem a própria vítima, no reconhecimento facial, apontou para ele como suposto criminoso. O júri que o condenou era formado apenas por pessoas brancas. E tudo isso aconteceu na década de 1990, quando houve uma onda de punições severas para jovens infratores (muitos deles negros) encorajadas pelo próprio congresso americano, que queria dar uma resposta à sociedade sobre a violência que tomava conta do país.

Foi dessa maneira que Jonathan Irons foi condenado aos 16 anos de idade com uma sentença de 50 anos para cumprir. O caso chamou a atenção de Maya Moore quando ela ainda estava dando seus primeiros passos no basquete, em 2007. Ela soube da história pelos seus avós e quis conhecer Irons. Os dois criaram uma amizade e, quando já era jogadora de sucesso da WNBA, Moore seguia em contato com ele, enviando livros e conversando por telefone.

Ativismo

Foi junto com a ONG Win With Justice que a atleta passou a atuar mais ativamente no caso pedindo a revisão do julgamento para anular a sentença de Irons.

"Conheço Jonathan há mais de uma década e estou lutando para que o caso dele passe por uma revisão justa. Estou pedindo atenção a uma má conduta do Ministério Público que, acredito, resultou em uma pena equivocada, de 50 anos, para Jonathan, ainda adolescente", disse a jogadora em depoimento ao site da ONG.

 

Uma atleta que já havia conquistado tudo em quadra, foi eleita revelação da WNBA em 2011, conquistou o tricampeonato da liga (2011, 2013 e 2015), foi MVP da temporada em 2014 e das finais em 2015, com quatro presenças no All Star Games e duas medalhas de ouro em Jogos Olímpicos, Maya Moore simplesmente parou sua carreira para lutar contra o racismo institucional nos Estados Unidos. Entendendo a importância de seu ativismo para provar a inocência de um homem negro injustiçado por um julgamento parcial (feito apenas por brancos), a atleta deixou as quadras e ocupou os tribunais para livrá-lo de mais anos na cadeia. O fato de um juiz tê-lo inocentado nesta semana diz muito sobre a importância de ela ter usado sua imagem pública para ajudá-lo nessa disputa.

Foto: Getty

"A gente sente a responsabilidade de tirar o máximo proveito de nossas posições e privilégios exigindo que aqueles que estão ao nosso redor – aqueles que vêm aos nossos jogos para nos apoiar, aqueles em nosso bairro que têm grandes esperanças de trazer um nível mais alto de pensamento ao nosso sistema de justiça criminal – sejam tratados com respeito, dignidade e justiça", reforçando que o sistema de justiça americano opera "historicamente com um espírito racista".

Com a vitória no tribunal, Moore agora pode voltar a pensar em basquete novamente. A temporada da WNBA neste ano começa em maio, mas ela já disse que não deve jogar.

"Não estou me comprometendo com basquete profissional nesta temporada, mas na próxima primavera, vou querer discutir como será o futuro. Eu realmente estou curtindo ter tempo para estar presente em algumas das coisas mais importantes da minha vida agora. Mas realmente sinto falta de estar perto da torcida em Minnesota. É onde eu estive em toda a minha carreira e tenho uma conexão especial lá". 

Quem sabe na próxima ainda contaremos com seu brilhantismo nas quadras – fora delas, ela segue brilhando muito.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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