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Na 2ª volta ao mundo, Domitila Becker redescobriu sua paixão pelo futebol

Roberta Nina

28/02/2020 04h00

Domitila Becker na Turquia em 2017 (Foto: Arquivo pessoal)

A menina Domitila sempre gostou de esportes e praticou vários deles na infância, mas jamais imaginou que se tornaria jornalista e trabalhasse na área esportiva. A única certeza que ela tinha era a de que queria conhecer o mundo. "Quando criança meu apelido era MacGyver. Fiz esgrima, judô, futebol, vôlei, basquete. Joguei no time da escola e da faculdade, mas eu não escolhi o esporte, fui escolhida", contou a jornalista às dibradoras.

Aos 34 anos, Domi Becker realizou seu sonho e, pela segunda vez, vive a experiência de rodar o mundo. Ela abriu mão do trabalho como apresentadora e repórter no SporTV, da residência fixa, da rotina regrada e do convívio familiar, para se jogar em destinos que podem ser definidos sem pressa, da maneira como lhe der na telha.

"Não tive medo da decisão (de largar o emprego). Eu nunca senti isso com nada, mas a viagem era muito o meu sonho. Eu comecei a trabalhar muito cedo, aos 15 anos vendendo roupa no shopping e nunca parei. Já servi café, fui recepcionista de eventos e todo dinheiro que eu ganhava ia para uma poupança que eu fazia para a volta ao mundo. Comecei a juntar dinheiro com 15 anos e não juntava pouco, eu sou muito pão dura e estava muito focada. Minha família inteira sabia disso e era até motivo de piada. Eles diziam 'ih, a Domitila não vai querer gastar porque tem essa viagem aí"'.

É claro que a jornalista tem consciência de que seu sonho teve amparo do ambiente familiar em que viveu e, mesmo cercada de oportunidades e privilégios, ela não abriu mão de se privar de alguns confortos para economizar no que era possível. "As pessoas diziam que era pobreza de espírito e eu chamava de foco. E a foi melhor decisão que eu tomei."

Domi repórter

Formada em Jornalismo na Federal de Santa Catarina, Domitila passou no Curso Abril e trabalhou no site da Revista Veja escrevendo sobre política por quase um ano e meio. Em 2011, passou no processo do Passaporte SporTV e foi morar em Barcelona.

A turma de Domitila no Passaporte SporTV de 2011 (Foto: Divulgação)

Seriam seus primeiros passos na editoria de esportes, com câmera na mão, tripé, computador e nada mais. "Tinha 27 anos e fiquei oito meses em Barcelona. Foi muito louco porque minha primeira entrevista coletiva da vida foi com o Pep Guardiola. Tava tremendo muito, gaguejei. Era uma entrada ao vivo para o Redação SporTV e eu estava com um jornal na mão. Enfiei o jornal na minha cara e passei o vídeo inteiro assim. Tava com medo, era totalmente despreparada."

Depois da experiência fora do país, ela foi morar e trabalhar no Rio de Janeiro como repórter. "A minha primeira transmissão depois de fazer entrevistas com Pep Guardiola e com o Messi em Barcelona foi cobrir Bangu x Madureira", lembra aos risos.

Na Copa de 2014 virou apresentadora no canal. Comandou o "Madruga SporTV", com convidados, falando dos melhores momentos do torneio, e o "SporTV Show", que mostrava os bastidores da cobertura do Mundial pelo SporTV.

Domitila e Bárbara Coelho durante a Rio-2016 (Foto: Divulgação)

No final daquele ano, Domi passou a apresentar o "É Gol", mas fez um pedido especial. "Uma das minhas condições era que eu não queria ficar só no estúdio, então me deixavam fazer bastante coisa fora. Fui a muito jogo e fiz muita entrevista com jogador e era a parte que eu mais curtia", revelou. Na Olimpíada de 2016, ao lado de Bárbara Coelho, Domitila ancorou o "Bom Dia SporTV", que abria o dia de competições nos Jogos. Mas o que ela queria fazer tinha outro nome e por muita gente era visto como "loucura".

Ano sabático

No início de 2017, Domi decidiu pedir demissão do canal para realizar seu sonho de conhecer o mundo. A decisão foi mais difícil para os outros do que para ela. "As pessoas não pedem ano sabático quando elas estão trabalhando na Globo, né? E todo mundo me falava pra eu não ir, diziam que eu ia jogar fora minha carreira."

O papo aconteceu com "Robertinho" – filho de Roberto Marinho, fundador da Rede Globo que, na época, estava assumindo a parte de esportes na emissora – e ele tentou convencê-la, dizendo que havia planos para ela no futuro, mas Domi não cedeu.

Domitila na Indonésia (Foto: Arquivo pessoal)

"Se eu não fosse aquela hora, eu poderia não ir mais e seria uma velhinha muito frustrada e que só reclama. E o episódio (do acidente) com a Chape me deu um empurrão final porque todo mundo que trabalhava na área poderia estar naquele avião. E dá um sentimento de que a gente tem que fazer o que sonha, se não, amanhã, acabou", contou.

Ela agradeceu e disse ao diretor que se pudesse voltar um dia, seria ótimo, mas que também entenderia se não acontecesse. A resposta do chefe foi a seguinte: "olha, quer saber um negócio, o meu pai, que é um dos caras mais inteligentes que conheci, me falou que tem um tipo de conhecimento que você só conquista viajando, então vá e faça uma boa viagem". E ela foi com a liberação da emissora por um ano.

Domi pelo mundo

A ideia inicial de Domitila era dar a volta ao mundo velejando, mas ela foi rapidamente desencorajada de seguir esse plano pelos próprios velejadores. "Eles mesmos me dissuadiram, dizendo pra eu não ir porque eu ficaria muito tempo sozinha. Aí fui na mochila".

Em 2017, Domitila conheceu 31 países, sempre priorizando viver a experiência como se fosse uma cidadã local. Ficou hospedada em casas de famílias, viajou pela África de carro e acampando nos locais e também conheceu o couchsurfinguma rede social que faz a ponte entre turistas que querem hospedagem grátis durante uma viagem e pessoas que gostariam de receber esses visitantes.

Domi visitou a Índia em 2017 (Foto: Arquivo pessoal)

Japão, Havaí, Tailândia, Camboja, Vietnã, Laos, Quênia, África do Sul, a rota Transiberiana (que começa na Rússia e termina na China), Turquia, Albânia e Montenegro foram alguns dos destinos explorados por Domitila, mas foram os 20 dias na Índia que mais mexeram com a viajante. 

"É um país diferente de tudo que eu já tinha visto, é um país de extremos, tudo é muito lindo ou muito horroroso, muito cheiroso ou o pior cheiro que você vai sentir na vida e isso mexe com você de várias formas". Lá, ela contou que fez um retiro espiritual por vontade própria onde ficou sem falar uma palavra por uma semana, cercada por uma rotina bem regrada de acordar cedo, meditar, limpar o espaço onde ocupava e fazer yoga, tudo isso sem falar um A.

"A meditação foi bem importante pro resto da viagem porque acontece um negócio assim: tô aqui, mas amanhã vou pro Japão, preciso ver onde ficar e etc. E com a meditação você aprende a desfrutar o momento atual. E aí eu aproveitei muito mais a viagem, vivendo um dia de cada vez e é o que hoje me faz ficar tranquila"

O novo mundo de Domitila

Quando seu "giro" acabou, ela retornou ao antigo trabalho, mas ela já não era mais a mesma pessoa. "Achei esse processo um pouco difícil porque algumas coisas do futebol estavam me cansando como trabalho. Por exemplo, conseguir uma entrevista com um jogador, achava muito chato. Você tem que falar com inúmeros assessores e eles são pessoas como a gente, que trabalham pra caramba, mas não sei como a gente chegou nesse sistema que é tão difícil acessar os jogadores. Aí fiquei um pouco desanimada".

O retorno de Domi para o "É Gol" em 2018 (Foto: Reprodução Instagram)

Ela ficou no ar por mais um ano, cobriu jogos – como a final da Copa do Brasil e a final do Brasileiro Feminino em 2018 – mas não se sentia completa. "Eu voltei uma profissional muito melhor. Conheci tantas coisas e essa riqueza eu poderia aplicar muito bem no trabalho, as pessoas sabem bem disso. Viajar é um investimento, é como fazer um curso, te deixa melhor."

Sem se sentir realizada, ela resolveu pensar melhor na sugestão do namorado, que conheceu durante uma de suas viagens anteriores. Domi aceitou a proposta de embarcar numa nova viagem pelos continentes, desta vez com a companhia dele. "Estava num processo de viver coisas novas, a gente se apaixonou. Quando voltei para o Brasil e estava super frustrada no trabalho, ele propôs da gente viajar. Ele nunca teve coragem de ir sozinho. Aí a gente foi conversando e deu certo."

E pela segunda vez, Domi caiu no mundo e nesse momento é até difícil citar onde ela pode estar agora. Mas foi na Itália, no início deste ano, assistindo Inter x Cagliari no San Siro que ela entendeu o que mais a fascina no futebol: ser torcedora de arquibancada.

"Parecia que eu estava indo pela primeira vez ao estádio. Senti aquele arrepio, aquela emoção, foi incrível. Eu pus tudo pra fora e fiquei pensando, como é que eu deixei o futebol virar um trabalho? Como eu esqueci que o futebol é esse tesão? Porque trabalhando com isso, você precisa segurar as emoções. Foram nove anos, de repente… Isso é que é o negócio, isso que é maravilhoso, não é você ficar lá no ar condicionado falando disso, é lá na arquibancada passando frio."

Planos para voltar a viver no Brasil ela ainda não tem, mas valoriza muito a decisão transformadora que tomou. "Quando estamos no dia a dia, a gente para pouco para se analisar. Você vai indo com a maré. A gente tem que trabalhar, tem que estudar, tem que sobreviver, então você não pensa: quem eu sou, o que eu gosto, o que eu quero fazer? Não dá tempo de fazer isso. Ainda mais agora, com celular na mão, a gente tá sempre conectada com alguém. Mas quantas vezes você se conecta com você mesmo?".

Domitila com o namorado nos Estados Unidos (Foto: Arquivo pessoal)

Se na sua primeira volta ao mundo ela viveu intensamente sem apego ao celular, sem se preocupar com conexão de internet e postagens nas redes sociais, hoje ela começa a pensar em criar conteúdo aproveitando os locais que conhece, principalmente os estádios de futebol.

"Pirei muito com esse lance de ir em jogos na torcida. Fiz alguns vídeos e estava pensando em mostrar como é ser torcedora pelos estádios na Europa, qual comida eles comem, as músicas que cantam. Essa é uma ideia, trabalhar independente no esporte, mas mexendo mais com a paixão e menos burocracia. Estava me sentindo uma criança, parecia que minha mãe estava me levando no estádio pela primeira vez e foi bem simbólico estar no San Siro com ela. Foi minha mãe quem me levou pro estádio pela primeira vez."

Já que muita gente não tem o privilégio de dar a volta ao mundo, Domitila poderia dividir com a gente um pouquinho desse passeio, ainda mais pelas arquibancadas da vida. Com certeza, a torcida agradeceria esse presente.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

Dibradoras