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Seleção masculina dos EUA declara apoio a mulheres na luta por 'equal pay'

Renata Mendonça

18/02/2020 04h00

Cartaz levado por torcedores na semifinal da Copa do Mundo de 2019 – agora elas já são tetra (Foto: Dibradoras)

Há quase dois anos, a seleção feminina dos Estados Unidos entrou com um processo judicial contra a U.S. Soccer, a confederação americana de futebol, pedindo igualdade de tratamento com relação à seleção masculina do país. O caso ainda corre na Justiça e, na última semana, os jogadores americanos decidiram se manifestar a favor das mulheres.

O sindicato dos jogadores (USMNT, United States Men's National Team) – entidade que representa os atletas nas negociações da seleção masculina – soltou uma nota afirmando que a U.S. Soccer está construindo uma "falsa narrativa" sobre o processo das mulheres pedindo "pagamentos iguais".

"A Federação tem se esforçado muito para vender uma falsa narrativa para o público e até para membros do Congresso", dizia a nota. "Eles estão usando essa falta narrativa como uma arma contra jogadoras atuais e ex-jogadoras da seleção feminina de futebol dos Estados Unidos".

"Com nossos sindicatos trabalhando juntos desde 1999, o objetivo sempre foi assegurar para as mulheres ganhos comparáveis em pagamento e condições de trabalho. Por mais de 20 anos, a Federação resistiu a qualquer conceito de pagamentos iguais ou justiça econômica básica para as jogadoras da seleção. Historicamente, a Federação também se recusou a incluir as mulheres no mesmo acordo profissional dos homens a respeito de viagens de avião, hotéis, etc. Essa discriminação sistemática de gênero nunca deveria ter acontecido", finaliza a nota, que ainda pediu o pagamento de pelo menos o triplo do valor atual para as mulheres.

"Nós acreditamos que o que deve acontecer é simples. Paguem às mulheres significativamente mais do que pagavam no nosso acordo que expirou recentemente com a seleção masculina. Na nossa estimativa, as mulheres deveriam receber pelo menos o triplo do que eram os valores do nosso antigo acordo. Nós acreditamos que a Federação deveria ter concordado com um acordo diretamente vinculado a uma parcela justa da receita gerada pelos atletas. Foi o que deveria ter acontecido, com base em toda a história das negociações trabalhistas envolvendo jogadores homens e mulheres e a Federação".

Foto: Reuters

Essa é a primeira vez que a seleção masculina se manifesta tão abertamente em favor das jogadoras  nessa luta judicial por "equal pay" com a confederação. Uma nota como essa tem um peso enorme para mostrar que não há inimigos na busca por igualdade – essa é uma luta de todas e todos dentro do futebol.

É difícil ver homens se posicionando diante de um tema tão delicado, ainda mais quando são eles que levam vantagem na situação. A seleção masculina reconhece seu privilégio e ecoa os pedidos das mulheres pelo reconhecimento igual do trabalho delas. Além de reforçar que a seleção feminina não está sendo remunerada de maneira justa e de destacar a "desigualdade sistêmica" a qual as mulheres estão submetidas, o sindicato da seleção masculina critica a atitude da confederação na estratégia de "defesa" para não ceder à reivindicação das atletas e chama de "falsa narrativa" o discurso da entidade.

Foto: Getty

Até mesmo o argumento de que a seleção masculina gera mais lucro do que a feminina é uma inverdade no contexto americano. Porque lá, são elas que levam mais público para o estádio, geram mais audiência e "vendem" mais do que eles – ainda mais nesses últimos cinco anos, quando elas foram bicampeãs mundiais enquanto eles sequer se classificaram para a Copa do Mundo masculina em 2018.

A atacante e uma das líderes do movimento por 'equal pay' na seleção americana, Megan Rapinoe, falou sobre isso ao New York Times. "Nossa grande esperança é que 2020 seja o ano da igualdade de pagamentos. Nós somos muito gratas pelo apoio dos nossos colegas da seleção masculina e pela imensa solidariedade que recebemos de milhões de torcedores ao redor do mundo e também dos patrocinadores que ficaram ao nosso lado na luta contra a discriminação da confederação. Alcançar a igualdade de pagamentos é algo muito maior do que uma conquista só para o nosso time – as mulheres de todas as áreas de trabalho merecem igualdade agora".

Foto: Reuters

São 28 jogadoras que aceitaram entrar com o processo na Justiça contra a confederação americana alegando "discriminação de gênero institucionalizada por parte da entidade.

Há um julgamento previsto para acontecer no dia 5 de maio deste ano para resolver a questão.

Se as mulheres da seleção americana já nos deram uma lição ao não aceitarem o tratamento desigual e lutarem juntas por mudanças – nesse caso, com um processo judicial -, agora os homens de lá também nos ensinam que elas não precisam lutar sozinhas. E que faz parte do papel de "privilegiados" deles usarem a voz e a posição de destaque que têm para ecoar as vozes de quem ainda não tem seus direitos atendidos. Como disse Megan Rapinoe ao ganhar o prêmio de melhor do mundo da Fifa, é sempre possível fazer algo.

"Se realmente queremos mudanças significativas, precisamos de todo mundo se posicionando contra o racismo, contra a homofobia, pela igualdade de pagamentos. Peço a todos para emprestarem a plataforma de vocês para levantar outras pessoas. Compartilhem o sucesso de vocês. Nós temos uma oportunidade única de usar esse jogo tão lindo para mudar o mundo para melhor. Façam alguma coisa. Qualquer coisa."

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

Dibradoras