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Por que árbitro afastado pela FPF por erros vai apitar Brasileiro feminino?

Roberta Nina

07/02/2020 04h00

Foto: Reprodução

Na última segunda-feira (03/02), o São Paulo recebeu o Novorizontino no Morumbi em partida válida pelo Campeonato Paulista Masculino. O jogo acabou empatado em 1×1 e o árbitro principal, Flávio Roberto Mineiro, e seus assistentes, foram alvo de muita reclamação por parte da torcida e imprensa.

O juiz e os assistentes Vitor Carmona Metestaine e Enderson Emanoel Turbiani da Silva cometeram quatro erros cabais, que acabaram interferindo no resultado do jogo: dois gols legais anulados e dois pênaltis não-marcados para o São Paulo.

No dia seguinte, a Federação Paulista de Futebol, emitiu uma nota oficial comunicando o afastamento do trio de arbitragem "por considerar que os erros cometidos são inaceitáveis". O comunicado ainda informa que "todos os membros da equipe passarão por reciclagem, com apoio psicológico, técnico e físico". 

Afastado das competições paulista, mas apto para apitar campeonatos nacionais?

A decisão da FPF obviamente diz respeito a competições organizadas pela federação. Sendo assim, o árbitro segue na ativa em torneios nacionais, por exemplo, organizados pela CBF. Flávio Ribeiro atuou inclusive nesta quinta-feira, como o 4º árbitro da partida entre Novorizontino 1×2 Figueirense, válida pela primeira fase da Copa do Brasil.

Além deste jogo, o mesmo árbitro está escalado para apitar a partida entre Ferroviária e Audax, no sábado (08/2) e será o 4º árbitro do jogo entre Palmeiras e Corinthians, no domingo (09), em Vinhedo, ambos pela primeira divisão do Campeonato Brasileiro feminino. 

Mas como um árbitro que teve erros considerados "inaceitáveis" pela FPF pode estar atuando num jogo de primeira divisão de Campeonato Brasileiro feminino? Não seria um pouco incoerente colocar um juiz que está passando por um período de aprimoramento na federação em jogos de elite do futebol feminino?

Em contato com as entidades, buscamos entender o que seria esse período de reciclagem proposto pela Federação Paulista de Futebol e como a CBF define suas punições e advertências em casos como este.

Foto: AGIF

Reciclagem 

Na FPF, a Comissão de Arbitragem é quem avalia em qual área o profissional precisa de um reforço maior (pode ser físico, técnico ou psicológico). É por aí que começa o processo de reciclagem do árbitro, que pode ser acompanhando palestras e orientações mais específicas sobre o campo de jogo ou psicológico, já que na própria entidade há uma psicóloga que passa a acompanhar o árbitro mais de perto – como já aconteceu em outros casos, como o do árbitro Thiago Peixoto, que expulsou o jogador errado durante o clássico Corinthians x Palmeiras em 2017. 

O atendimento psicológico com os árbitros acontece praticamente todos os dias. A psicóloga fica na sede da FPF e, além disso, há encontros, jornadas técnicas e palestras específicas que são oferecidas ao profissional.

Nesta quinta-feira (06) aconteceu uma uma reunião de árbitros da Série A1 na sede da entidade e o encontro já estava previsto antes mesmo do jogo que foi apitado por Flávio Roberto na segunda-feira. O encontro fez uma espécie de 'balanço' do primeiro terço da primeira fase do Campeonato Paulista e serviu para fazer eventuais ajustes necessários e reforçar alguma orientação específica.

Procedimento da CBF

Alício Pena Júnior, ex-árbitro de futebol e atualmente ocupa o cargo de Vice-Presidente da Comissão de Arbitragem da CBF, explicou que não é o padrão de trabalho da confederação afastar árbitros no primeiro momento após um erro. E como o profissional já estava escalado para trabalhar no jogo da Copa do Brasil Masculina e em duas partidas do Brasileiro Feminino, a entidade não viu motivos para afastá-lo.

"Somos entidades distintas que organizam suas competições, a FPF tem a gestão deles e a nós fazemos a nossa gestão no quadro de árbitros", afirmou Alício.

Foto: Saopaulofc.net

Ainda segundo o Vice-Presidente da Comissão de Arbitragem, a CBF tem até 48 horas antes de um jogo profissional para definir seu quadro de árbitros. No caso da base e do amador (como é considerado o  futebol feminino), o quadro pode ser definido em um tempo menor (como em até 24 ou 12 horas).

A presença de Flávio Roberto na arbitragem do jogo da Copa do Brasil, por exemplo, foi definida no dia 28 de janeiro, segundo Alício. E para analisar e melhorar o desempenho dos profissionais em campo, a CBF conta com analistas de arbitragem que atuam dentro de campo e no vídeo, nas Séries A e B do Campeonato Brasileiro.

"Os dois profissionais produzem um relatório com imagens e, em caso de equívocos, repassamos o conteúdo e assistimos ao lado do árbitro em questão e analisando cada caso. Se entendermos que o árbitro precisa de apoio psicológico, indicamos. Se o problema for físico, ele também é encaminhado para cuidar da parte física. Buscamos entender o porquê do erro e tomamos medidas de acordo com o grau da falha", afirmou.

Alício informou que a CBF proporcionou aos profissionais de arbitragem cursos em 24 estados do Brasil, com instrutores técnicos realizando diversas atividades focada nos Estaduais. "Em março, teremos cinco cursos para árbitros de VAR e em abril faremos uma pré-temporada nacional da arbitragem e estaremos presentes nos 27 estados do Brasil", revelou.

Afastar ou manter?

Quem forma os árbitros são as Federações Estaduais e, depois disso, os profissionais ficam à disposição da CBF, da Conmebol e da Fifa para apitar os torneios nacionais e internacionais. No caso do Flávio, a FPF decidiu afastá-lo preventivamente, mas a CBF pode contar com o árbitro em suas competições.

Segundo apurou a reportagem, o árbitro Flávio Roberto é uma das principais apostas da Comissão de Arbitragem da FPF. O desafio agora é não 'perdê-lo', já que o profissional é jovem, de apenas 24 anos e tem potencial.

Claro que, depois da repercussão dos erros na partida entre São Paulo e Novorizontino, a pressão sobre Flávio Roberto só iria aumentar caso ele seguisse apitando jogos do Campeonato Paulista. O afastamento, nesse caso, pode ajudá-lo a voltar mais preparado. Mas manter um árbitro muito tempo fora do campo de jogo também não é a melhor forma para garantir que ele volte melhor. Numa posição como essa, é preciso ganhar cada vez mais experiência e segurança apitando para que os erros não aconteçam mais.

Um dos erros foi o impedimento marcado no gol de Pato (Foto: Reprodução)

Sendo assim, por que não promover a volta de Flávio Roberto em jogos de pequeno porte, em campeonatos menores?

O Brasileiro Feminino é considerado amador (pela não profissionalização das atletas) e equiparado a categorias de base, mas hoje em dia ele já tem relevância suficiente na primeira divisão para que haja uma preocupação maior com a escalação da arbitragem. Faria sentido colocar qualquer árbitro em início de carreira para apitar um clássico feminino do tamanho de Palmeiras x Corinthians ou do tamanho de um Gre-Nal? Seria coerente? Essa é a principal competição do futebol feminino, que começa a ter mais investimento dos grandes clubes e visibilidade na TV aberta.

Não é justo, nem com as atletas, nem com as equipes, que não haja uma rigidez maior da CBF na hora de escolher uma arbitragem experiente para apitar jogos desse porte – e, normalmente, o que se faz é escalar árbitros em início de carreira em todos os torneios femininos porque eles são considerados "amadores". Mas na prática, essas competições já têm muito mais importância, contam com as principais jogadoras do país e seria mais respeitoso com elas que se começasse a ter um olhar mais cuidadoso com a arbitragem nos jogos.

Flavio Roberto e qualquer árbitro (ou árbitra, que muitas vezes têm suas carreiras condenadas por causa de um erro) que cometerem erros têm direito de aprender e voltar ao campo para seguirem na carreira. Só é preciso ter cuidado para que essa volta aconteça com planejamento coerente: primeiro em jogos menores, depois nos campeonatos mais importantes.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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